VS – Episódio 13 – Capítulo 02

 

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Traduzido por: Erufailon


Volume 13

Capítulo 02 — Resquícios da Grande Guerra (2)

 

Há um certo tipo de ordem no campo de batalha, após o conflito.

Os sobreviventes recolhem os corpos de seus aliados e verificam se seus inimigos estavam realmente mortos — ou fingindo — e os capturavam.

Essas coisas são importantes, mas há outra que também deve ser feita.

A coleta dos equipamentos.

Embora fosse algo lamentável, os mortos não iriam empunhar suas armas novamente. Eles não usariam suas armaduras, tampouco seus acessórios.

Graças a isso, adquirir novas armas dos inimigos derrotados e recuperar o armamento aliado era uma coisa importante.

“Eu dei sorte”, pensou Tae Ho.

Resquícios da Grande Guerra. Uma parte do campo de batalha que tombou em uma fenda no mundo; um testamento do conflito feroz que ocorreu ali.

O lugar era uma bagunça, tendo sido conservado dessa forma por quase que uma centena de anos.

Surpreendentemente, não havia nem sinal dos corpos dos guerreiros caídos de Valhalla, nem dos gigantes ou dos monstros. Por conta disso, Tae Ho poderia fazer a pilhagem de forma um pouco mais despreocupada.

“Mas eu deveria evitar pegar as armas com nomes brancos”.

Unnir não tinha uma capacidade de armazenamento infinita. E, mesmo excluindo as armas com nomes em branco — o que marcava-as como equipamentos normais —, nomes em azul eram tão abundantes quanto e, esparsos, ele viu até mesmo alguns nomes dourados, ainda mais superiores.

“Quanto mais brilhante for a cor, melhor é o equipamento”.

Equipamentos raros também possuem diferenças entre si, assim como líquidos distintos tem suas peculiaridades. Tae Ho sorriu, guardando o que ele havia coletado no chão, dentro de Unnir.

“Um arco, um escudo e uma armadura”.

Tae Ho não era exigente, independentemente do tipo de equipamento. Siri observou as ações dele, estupefata.

— Tae Ho, não é exagero demais pegar até as armas que estão quebradas? — disse Siri. Era uma pergunta que obviamente ocorreria, já que ela não sabia como sua saga “A Espada do Guerreiro” funcionava.  

— Não, está tudo bem. Mesmo quebradas elas têm seus usos — disse Tae Ho, balançando a cabeça com uma expressão contente. Enquanto isso, ele se abaixou para apanhar um arco quebrado.

“Esse aqui é da legião de Ullr”.

Talvez fossem seus olhos do dragão que haviam ficado mais poderosos, ou fosse uma característica compartilhada por todos os equipamentos raros e superiores, mas todos eles pareciam indicar a qual legião pertenciam.

“Cada legião tem uma cor diferente”.

No caso da legião de Odin, muitas das armas que seus guerreiros empunhavam era comuns: espadas e machados, mas armas de concussão — como martelos — eram mais proeminentes na legião de Thor, da mesma forma que armas de longa distância eram as preferidas da legião de Ullr.

Escudos para a legião de Heimdal, braçadeiras para a legião de Tyr e armadura para aqueles da legião de Freyr. Tae Ho coletou todos esses equipamentos de olhos arregalados.

“Uau, tem até algo que pertence a legião de Freyja”.

Ela era uma das poucas entidades nórdicas que Tae Ho já conhecia. A deusa do amor e da beleza poderia ser equiparada a Afrodite dos mitos gregos.

“E também tem algo da legião de Idun aqui”.

Seria realmente estranho não encontrar nada da legião de uma deusa que até mesmo Tae Ho sabia existir.

Artefato da legião de Freyja

Cinto do Sábio

Descrição: O guerreiro que usar desse cinto não ficará exausto, mesmo se lutar por dez dias e dez noites

Parecia ser algum tipo de equipamento mágico capaz de aumentar sua vida e sua fortitude.

“É engraçado que exista uma descrição elaborada para esse item, ao invés de simples características declarando o que ele faz”, pensou Tae Ho.

É claro que, para conhecer as habilidades de um item, você tinha de usá-lo primeiro. Era uma boa sensação, no entanto, ler aquilo; dava a impressão de estar conectado a alguma Saga.

— Tae Ho, o que foi? — perguntou Siri ao se aproximar enquanto Tae Ho observava o cinto.

Vestindo o cinto para confirmar suas suspeitas, Tae Ho respondeu:

— Eu só estava surpreso que Lady Freyja tem uma legião. Ela é a deusa da beleza, não é?

Siri inclinou a cabeça, confusa com a questão de Tae Ho. Lembrando-se de que ele era de outro mundo, a capitã começou a dar algumas explicações.

— É verdade que Freyja é a deusa do amor e da beleza, mas, ao mesmo tempo, ela também é a deusa da magia e da guerra. Sua posição nas fileiras de Valhalla também é alta, ao ponto dela liderar um grande exército comparável ao de Odin.  

Era algo que Tae Ho desconhecia, mas Freyja era uma existência preciosa. Ela era uma das três divindades responsáveis pelo sistema de poder rúnico, que poderia ser considerado a base do poder dos guerreiros de Valhalla.

— Além disso, Lady Freyja transcendeu as legiões e atualmente é responsável por comandar as valquírias. Ela é uma deusa bela e poderosa — completou Siri.

A razão pela qual as valquírias podiam guiar os guerreiros valorosos e poderosos, após a morte, até Valhalla era porque elas aprenderam as artes mágicas de Freyja.

Na verdade, Freyja também era a deusa dos conflitos. A guerra era necessária para manter os padrões dos guerreiros de Valhalla elevado e, portanto, fazer com que os reis de Midgard  — no mundo mortal  — lutassem incansavelmente era a tarefa que ela recebeu de Odin.

“Isso realmente é a mitologia nórdica… até a deusa da beleza é capaz de lutar”, ele pensou. Em contrapartida, Idun também entrou em seus pensamentos. “Será que Lady Idun também é uma guerreira habilidosa? ”.

Isso lhe era algo praticamente impensável, mas talvez fosse possível. Tanto Heda quanto Rasgrid eram incrivelmente belas e, ao mesmo tempo, também eram lutadoras formidáveis.

Uma imagem de Idun segurando uma espada e um escudo passou rapidamente por sua cabeça enquanto ele olhava para Siri, de cima a baixo.

— Você também pegou um monte de equipamentos.

— Nós não podemos simplesmente abandonar os pertences dos Guerreiros Lendários dessa forma  — disse Siri, desviando os olhos como se estivesse envergonhada. 

— Você está certa. De qualquer forma, quando você pilha um item, é importante fazê-lo com o coração tranquilo — disse Tae Ho. Era melhor, afinal, ver o equipamento pelo que ele era, e não por quem possa tê-lo usado, criando um peso desnecessário em sua consciência.

— Antes de mais nada, Tae Ho, você realmente pretende continuar desse jeito?  — disse Siri, olhando para Tae Ho de cima a baixo. As roupas que ele estava usando eram realmente… respeitáveis.

Seus equipamentos em nada harmonizavam uns com os outros, o que era esperado. Ele estava usando peças de equipamento de diversas legiões diferentes, cada qual com sua própria cor. Não era apenas algo chamativo; seria mais apropriado dizer que ele se parecia muito com um palhaço.

No entanto, Tae Ho permaneceu de cabeça erguida.

— Eu tenho de economizar o espaço que há dentro de Unnir. Além disso, a utilidade é mais importante do que a aparência. Você deveria parar de agir dessa forma e começar a vestir as coisas que você pegou, só assim iremos ser capazes de voltar em segurança para que você possa ir até Anaheim com Rolph  — disse Tae Ho.

— Huh  — respondeu Siri. Ela não replicou, já que as palavras dele eram verdadeiras e, ao invés disso, começou a lentamente se equipar com os itens que havia adquirido.

Tae Ho viu que os equipamentos que Siri estava vestindo seriam tão chamativos e estranhos quanto os dele e então voltou a olhar seus arredores novamente. Parecia que o tempo que ele tinha passado pilhando o local fora proveitoso, já que quase nenhum item raro parecia ter sobrado.

“Itens únicos ou épicos são mesmo assim tão raros?”, ele pensou. Era algo óbvio, claro, mas a situação não deixava de ser decepcionante por isso.

Foi então que algo aconteceu. 

O fragmento começou a vibrar. Era algo vago, mas ele parecia estar apontando para uma certa direção.

À medida que Tae Ho se aproximou dessa direção, a vibração começou a se intensificar. Como um teste, ele tentou ir para uma direção completamente diferente e  — como esperado  — a intensidade das vibrações diminuiu de imediato.

Ele sorriu. Ele começou a andar, norteando-se pelas vibrações que o cabo emitia até descobrir um conjunto de palavras iriadas cintilando em sua linha de visão.

Fragmento de um equipamento desconhecido

Era um item de formato cilíndrico, com a parte superior e inferior igualmente cortadas. Dependendo de quem o visse, ele poderia ser interpretado como uma espécie de empunhadura, ou o cabo de um escudo. Era algo difícil de determinar com certeza.

— Tae Ho? Você encontrou alguma coisa?

Siri, que agora estava vestida de modo tão aberrante quanto Tae Ho, aproximou-se dele apressadamente. Tae Ho estendeu o fragmento recém-descoberto para que ela visse.

— O fragmento da espada está ressonando com isto, mas… mas esse novo fragmento não parece ser parte da espada.

Se fosse, ele não teria a forma de um cabo, mas sim de uma lâmina.

Siri olhou para o novo fragmento e seus olhos adquiriram um brilho afiado.

— Talvez ele tenha a mesma origem.

— Origem?

— Sim, origem — disse Siri, erguendo a cabeça. Depois de algum tempo, ela tornou a falar enquanto apertava os lábios  — eu não sei se você já ouviu sobre isso, mas entre Asgard e os nove planetas um deles já foi destruído.

— Eu sei, Heda já me falou disso.

Por conta da destruição desse planeta, Asgard, Olympus e o Templo se tornaram a linha principal de defesa.

— Os sobreviventes desse planeta destruído lutaram junto de nós, guerreiros de Valhalla, na Grande Guerra. Talvez esses resquícios sejam parte do planeta destruído, não de Asgard  — disse Siri, assentindo.

Uma arma de outro planeta; um lugar diferente de Asgard. Essa era uma história compreensível. Nem Heda, Ragnar ou mesmo Idun estavam certos da origem do fragmento de espada, então ele pertencer a outro mundo seria plausível.

— Isso é apenas uma possibilidade, é claro. Talvez ambos sejam fragmentos de equipamentos que foram usados pela mesma legião, ou talvez seja o dono desse pedaço de espada lhe alertando da importância do fragmento que você acabou de encontrar — disse Siri, analisando meticulosamente a situação. Aquela minucia combinava perfeitamente com a personalidade da capitã. 

“Eu vou ficar com ele, por enquanto”, pensou Tae Ho.

Mais um item não faria uma diferença assim tão grande, de qualquer forma. Tae Ho guardou ambos os fragmentos dentro de Unnir — que agora estava praticamente lotada — e, erguendo a cabeça, encarou os arredores bruscamente.

— Parece que nosso tempo aqui se esgotou. O fluxo de poder mágico por aqui está se tornando instável.

Embora este fosse um mundo em que a terra e o céu estavam misturados — assim como a noite e o dia — Tae Ho soube disso instintivamente. A noite se aproximava naquele vestígio da Grande Guerra. E, assim como ele tinha dito para Siri, o fluxo de magia estava instável, então eles não podiam mais se dar ao luxo de perder tempo ali.

— Vamos nos apressar.

Já tendo adquirido os equipamentos que eles queriam, Tae Ho e Siri começaram a correr depressa, seguindo o fluxo de poder mágico. Depois de escalarem a colina onde eles recobraram a consciência, uma depressão rochosa profundamente cavada apareceu e, em determinado ponto dela, magia estava sendo altamente concentrada.

Um metal frio e pesado estava estático no meio daquele fluxo. De longe, à primeira vista, se parecia muito com uma espada.

Fragmento da Alma de Garmr [1]

Palavras coloridas em ouro branco; era um item de classificação única. E, perto dele, estava o cadáver de uma enorme besta.

— Fragmento da alma de Garmr, hum?

Assim que Tae Ho pronunciou-se, Siri vacilou. Embora o nome Garmr pudesse ser encontrado em uma miríade de lugares, o cadáver de uma besta gigante era um fator estranho.

— Garmr, o Vigia do Inferno?

O cão de guarda que protegia Gnipahellir, a entrada para Niflheim.

No momento em que Tae Ho se virou para Siri, olhando-a como se estivesse perguntando quem aquela entidade era, o mundo se alterou. Tae Ho e mesmo Siri puderam sentir. A noite havia chego. O fluxo de magia que estava se reunindo no topo do fragmento de Garmr começou a volver.

Uma brisa gélida ergueu-se do solo. O vento azul — que tinha aparecido de sabe-se lá onde — se juntou ao vórtice, e uma espécie de fumaça começou a tomar forma em cima do fragmento de Garmr.

Era um enorme cão negro de aparência assustadora, tão grande que ele provavelmente poderia engolir uma pessoa com uma só mordida. Seu tórax, que estava tingindo em vermelho-sangue, era memorável.

A forma transparente de Garmr olhou para o céu e rugiu. Fiapos de fumaça começaram a surgir em diversos lugares e, assim como Garmr, eles também assumiram outras formas.

Os resquícios da Grande Guerra que, de alguma forma, haviam se separado do mundo normal. Por conta desse acontecimento inesperado, os mortos não puderam retornar para seu lugar de descanso. Mesmo após um século, eles ainda estavam presos nesta terra.

Como se tivesse detectado o calor corporal de uma pessoa viva, Garmr virou-se para encarar Siri e Tae Ho. As criaturas que se ergueram do solo fizeram o mesmo. Eles brevemente trocaram um olhar e, sem qualquer outro tipo de sinal, começaram a investir na direção dos dois guerreiros.

Havia muitos. Seria apropriado descrevê-los como uma onda sangrenta.

Siri suspirou e agarrou sua arma firmemente, com Tae Ho a puxando para perto de si. Ele segurou Siri, que estava nervosa e sem equilíbrio, e olhou para outro lugar, sussurrando baixinho.

— Por Asgard e pelos nove planetas.

O sussurro, que estava misturado com um senso de propósito, acalmou Siri. E então ela soube.

— Vahalla! — bradou Siri, ainda nos braços de Tae Ho.

— Por Asgard e pelos nove planetas!

Um grito de guerra semelhante a uma tempestade foi ouvido atrás deles. Uma onda esverdeada, formada por uma quantidade de palavras tão abundante quanto a onda vermelha, surgiu como uma chuva de granizo e passou por ambos.

Eles também não foram capazes de voltar.

E, mesmo assim, seus espíritos nunca mudaram.

Guerreiros de Valhalla. Os heróis da Grande Guerra!

Eles haviam reconhecido seus juniores, Tae Ho e Siri. Eles riram amigavelmente e então investiram, confrontando a onda de monstros que estava encarando os dois.

Siri, que tinha se animado e estava corando, empunhou sua arma como se estivesse prestes a lutar ao lado de seus seniores, mas dessa vez Tae Ho a impediu. Siri o encarou, dúvida em seus olhos.

— Quem vai enfrentar o chefão somos nós — disse Tae Ho, apontando para a forma espectral de Garmr.

A luta entre os outros guerreiros e os monstros era uma escaramuça; o papel dos dois era outro.

Siri entendeu o que os olhos de Tae Ho queriam transmitir e, checando os equipamentos que ela estava vestindo, entoou.

— Draco.

Saga: Aquele que pode Manipular Dragões

Tae Ho e Siri se tornaram um novamente. Eles sobrevoaram o campo de batalha e investiram contra Garmr, o Vigia de Niflheim. 


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[1] Garm ou Garmr, na Mitologia nórdica, é um gigantesco cão de gelo que guarda o reino de Hela. Garmr era descrito como um enorme cão (ou um lobo) de gelo com quatro olhos e o peito encharcado com sangue. Ele ficava sempre acorrentado na entrada para o reino de Hela e latia para Odin sempre que este cavalgava pelo submundo. Em um dos poemas da Edda Poética, Garmr é descrito como o maior dos caninos, assim como Odin é o maior dos deuses. No dia do Ragnarok Garmr e o deus da batalha Tyr irão se matar em um feroz combate.