Volume 1 Capítulo 3.5: Um mundo sem memória – Parte 4

A Distopia de Tykon

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Capítulo 3.5

Um mundo sem memória – Parte 4

 Onde antes havia apenas um quarto mal iluminado, agora ele, além de ser do tamanho de uma casa comum, estava diferente. Decorações como lâmpadas coloridas, tapete, mesa, cadeiras, armários e brinquedos estavam naquele lugar. Não apenas as decorações eram diferentes, como também, existiam mais pessoas lá. Uma família completa.

— Gente, o macarrão não estava um pouco picante? — disse um jovem rapaz com orelhas de cão. 

— Oh, acho que acabei exagerando na pimenta calabresa.

— Não se preocupe, mãe. Com o purê, nem dá para perceber — quem falou foi Koyeh, com suas longas orelhas de coelho à amostra e um sorriso encantador.

 Não apenas Hondel e Koyeh estavam lá, como também mais dez pessoas terminavam de jantar ali. Todos estavam rindo e conversando.

— Sim, e então aquilo aconteceu.

— Mas, e aí?

— Oh, é mesmo?

— Não acredito!

— Sério?

 Todos sorriam, conversavam, cantavam, brincavam, contavam histórias e dançavam. Naquele lugar, no meio do nada, existia uma família feliz. Para a garota de cabelos brancos, esse era o dia mais feliz de sua vida. Nunca havia sentido isso antes, o peito queimava em emoções indescritíveis. Aquela era a sua família.

— Aah, Tudo pronto! 

 A pessoa que exclamou apareceu com duas bandejas, uma em cada mão, com um total de treze copos. Dentro de cada um deles havia uma sobremesa gelada.

— Cecilius! O que você fez dessa vez? 

— Hehe, vai ter que provar primeiro.

 E então distribuiu para todos aquela deliciosa sobremesa. Doce e cremosa. Provaram, elogiaram e riram novamente. Ver aquela família se divertindo — sua família — era agradável e prazeroso. Tykon, em nenhum momento, conseguiu tirar seu sorriso infantil do rosto. O clima se mantinha sempre caloroso e amoroso.

— Irmã! irmã!

— Hm?

 Uma jovem de cabelos claros, e com esmeraldas que rodeavam a cabeça, chamou a atenção de Tykon. Essa garota, que se chamava Samira, era sua preciosa irmã mais nova.   

— Vamos brincar de pega-pega!

— Uéé. Tem certeza que consegue correr de mim? Hihi. Sou muito rápida, viu?

— Ha! Quero ver me pegar dessa vez!

 Sempre brincava com sua irmãzinha, e sempre vencia. Essa era a rotina costumeira daquelas duas. Samira, uma garota brincalhona que adorava pregar peças. Claro, aquele sorriso infantil nunca deixava de ser gracioso.

— Vou contar até três e sair correndo. Aí você tenta me pegar – disse a pequena Samira.

— Certo.

— 1… 2…

 Tykon fechou os olhos para que sua irmã ganhasse alguma vantagem.

— 3!

 E então saiu correndo. Aqueles passos descalços passando pela casa soaram por todo o lugar. As pessoas que estavam ali, sua família, também viram essa brincadeira e começaram a rir levemente. Todo mundo estava feliz naquele momento, tristeza não existia mais naquele lugar. Tykon passou tanto tempo sozinha… essa poderia ser sua redenção? Poderia ser esse o acúmulo de toda a felicidade que guardou durante anos? Se existisse um ser poderoso — um Deus — ele provavelmente estava agraciando Tykon com a mais doce das memórias. Nunca se sentiu assim antes. Esse calor no peito… Pela primeira vez, se sentia especial. Tykon estava, finalmente, feliz de ser quem era.

— Vamos lá!

E então começou a correr por onde sua irmã mais nova tinha passado. A procuraria, acharia ela e a faria chorar de rir com tantas cosquinhas que iria dar nela. Apenas queria ver o rosto dela quando a encontrasse com um ‘’Ahá!’’. Por isso correu o mais rápido que conseguia.

 Mas… ao passar pela ‘’porta’’ que dava ao outro cômodo…

— Ai!

Bateu de testa e caiu no chão.

— …

 Uma dor excruciante estava contida em sua cabeça agora, e ao passar a mão pela testa…

— Sangue.

 Sangue escorria de sua cabeça. Foi nesse momento, quando olhou para trás, que percebeu o mundo cinza que lhe rodeava. 

— …

 Não havia mais ninguém ali. Voltou para seu velho e antigo quarto… Na verdade, nunca saiu de lá. Ninguém nunca esteve lá, a não ser ela mesma.

— Ah…

 Lágrimas escorriam de seu rosto e logo caem no chão. Tudo que sentiu, tudo que viu, ouviu, falou… era tudo mentira. Estava mentindo para si mesma desde o início. Naquele quarto cinza, havia apenas ela e uma cadeira de madeira. Nem mesmo um brinquedo já tivera. Era tudo apenas uma… mentira.

— Hic…

 Soluçava e chorava em posição fetal enquanto tentava voltar novamente para lá, para aquele precioso lugar… Mas a dor em sua testa não permitia isso. Ela agora estava presa lá novamente, naquela realidade da qual não queria estar. Sabia que, se tivesse que escolher entre uma bela mentira e uma dolorosa verdade… a resposta era óbvia. Mas, neste momento, não lhe era mais permitido uma segunda opção: teria de continuar a viver nesta realidade… de qualquer maneira, pelo resto de sua longa vida.

Aviso do Tradutor:

Wiker

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