Volume 1 Capítulo 4.5: Um mundo sem memória – Final?

A Distopia de Tykon

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Capítulo 4.5

Um mundo sem memória – Final?

POC…POC…POC…

 Algo quente escorria de sua testa delicada. Já não se importava mais com o que era. Escorria…Escorria… e então caia no chão em gotas. 

 Nada mais importava. Por que estava ali? Isso era algum tipo de punição? O que fez de errado? Já havia se cansado de fazer essas perguntas para si mesma. Seus olhos brancos estavam vazios. Naquele quarto fechado, só existia. Apenas existia em um lugar onde nada vive e nem morre. 

POC…POC…POC…

 A cabeça doía, mas isso não importava. Dor era a única coisa que a mantinha consciente. Era através dessa dor que sabia que estava ‘’viva’’. Por isso batia sua cabeça na parede. 

POC…POC…POC…

 Para qualquer um isso seria um ato completamente irracional e sem sentido, mas quem explicaria isso para essa criança? Quem a confortaria e diria ”está tudo bem’’?. Não havia ninguém naquele lugar. A solidão devastadora era capaz de fazer qualquer um enlouquecer. Já fazia quanto tempo que estava lá? Dezenas…centenas… milhares de anos já se passaram e nada mudou. Esteve ali e sempre ali. Ninguém poderia culpar aquela criança de perder todos os fios de sua sanidade.

— …

 Os olhos tremiam… estavam quase marejados, mas não iriam chorar. Não era porque decidiu não chorar, e sim porque não conseguia mais. Chorou, chorou, gritou e se machucou mais ainda. Lágrimas já não saiam mais, pois há muito haviam acabado. Nem mesmo sua voz era possível ouvir, gritou tanto que a própria garganta se rejeitava a fazer quaisquer barulhos.

 Foi nesse momento, quando perdeu por completo seu próprio senso de vida, que percebeu algo. Algo no quarto havia mudado.

— …

 Ao notar isso, voltou sua atenção para o lugar que tanto odiava… apenas para não encontrá-lo.

— Hm?

 Não estava mais no quarto. Não estava mais preso em um lugar onde a própria existência era dolorosa. Não estava mais lá. Estava livre. Ele havia, simplesmente, desaparecido de repente. 

— …

 Estava sentado no canto do quarto, batendo sua cabeça na parede lentamente… mas agora não estava mais lá. No momento, sentia algo que nunca sentiu antes em seus pés: terra.

— …!

 Ao redor, estava um campo cheio de flores azuis. Mas, diferente de antes, o céu estava completamente escuro. Tudo que não fosse as flores azuis que reluziam sua própria cor, estava escuro. 

— …

 Quanto pegou uma dessas flores reluzentes, levantou-se lentamente. Não sabia nem mesmo a última vez que usou as pernas, mas conseguia mexê-las. Diferente de antes, estava livre. Não pensou em correr ou algo assim, a mente estava vazia. Dentro desse ser, apenas existia um vazio sem profundidade. Suas emoções já não existiam mais. Mas fitava aquela flor, era a primeira vez que tinha visto algo assim.

 No momento em que olhou para frente, viu outra coisa. Era algo brilhante e azulado. Um pequeno altar estava no meio daquele campo de flores azuis que se estendia para o infinito. Em cima dele, um tipo de bola brilhante.

— …

 Derrubou a flor que segurava, e caminhou até o que viu. Passo por passo. Não estava pensando em nada, apenas viu algo brilhante e caminhou até ele, nada além disso. A mente estava tão vazia quanto a vastidão do terreno infinito onde se encontrava. 

 Foi aí que percebeu algo estranho. Não sabia porque não havia notado isso antes, mas o altar estava partido em dois terrenos. Um dos lados era esse: um lugar de céu escuro, flores brilhantes, e uma criança de cabelos brancos. Mas do outro lado, o completo oposto. Um era claro como o dia, com flores brancas… e uma criança de cabelos escuros fitava Tykon. 

— …

 Quem seria essa pessoa? E porque tão parecida com si mesma? Não sabia. Se encararam por alguns segundos, mas logo Tykon percebeu: estavam em busca do mesmo objetivo. No momento em que se deu conta disso, olhou para o altar.

 Antes que percebesse, estava correndo. Pela primeira vez da sua vida… estava realmente correndo. Por conta disso, seus passos eram falhos e quase caiu diversas vezes, mas continuou correndo. O seu objetivo era aquele altar brilhante. Por algum motivo, sabia que ele significava liberdade. Por algum motivo, sabia que precisava dele. Por algum motivo, sabia que aquilo simbolizava poder.

— Urf…Urf…

 Quanto se deu conta, aquela criança que era identica a si estava parada, imovel. Ela não se mexeu desde Tykon começou a correr… por que? Não iria se preocupar com isso: seu objetivo seria esse, e apenas esse. Não queria dividi-lo, era seu. Sentia fortemente que o que estava naquele altar era seu por direito. Ninguém mais poderia tê-lo para si, pertencia a Tykon.

— …!

 Estava cada vez mais perto. A luz ficava mais forte e já era possível sentir o seu calor. Estava lá, quase no alcance das mãos. 

Mais um pouco e…

 O mundo se desfez, brilhando ofuscantemente.

2

 Quando abri meus olhos, me vi em uma bifurcação de mundos. Do meu lado, um mundo branco e reluzente, mas do outro… escuro, mórbido e sem vida. Apenas algumas flores azuis brilhavam naquele lugar. Olhei para minhas mãos por um instante: eu existia. Não sabia o porquê, mas estava lá. 

 Quando notei, outra pessoa — do outro lado — estava olhando para mim. Seus olhos eram mortos e sem vida… mas, por algum motivo, eu me identificava com essa pessoa. Ela — ou ele — tinha longos cabelos brancos, e apenas um pano, também branco, cobria seu delicado corpo infantil. Éramos iguais, mas também opostos, sabia disso como se essa informação já estivesse impregnada na minha existência.

 Não sei dizer bem o motivo, mas eu sentia pena daquela criança. Sua testa estava bem machucada e com vestígios de sangue. Seus braços estavam completamente arranhados, provavelmente pelas próprias unhas.

 Ela de repente voltou seu olhar para um lugar. Quando também busquei olhar o que era, vi uma espécie de altar. Ele brilhava muito, e pedia para que alguém fosse lá, buscá-lo. Me senti atraída por aquele lugar, mas isso não importava agora. Eu… preciso descobrir quem é aquela pessoa. Nós precisamos sentar e conversar. Aquela criança parecia triste e solitária, como se precisasse de alguém para confortá-la.

 Mas, antes que eu percebesse, a criança estava correndo desenfreadamente para aquele altar. O que estava fazendo? Vamos conversar, não era isso que você queria? É por isso que estou aqui. Vamos ser amigas.

 Estendi meu braço e tentei a chamar… mas, de repente, aquele mundo brilhou intensamente. Tudo se destruiu e, por seguinte, só havia escuridão.

Estava escuro… mas, de repente, ouvi vozes.

זה תינוק יפה

— זה נכון

 Não entendi o que eles diziam… mas sentia algo puxando meu corpo. Depois de algum tempo, me esforcei em abrir os olhos. Quando percebi, estava nas mãos de um homem com uma longa barba. Ao meu lado, também havia uma mulher. O que estava acontecendo?

 Depois de trocarem algumas palavras, o homem me botou nos braços da mulher. Essa sensação… tão quente e aconchegante… Eu acho que posso me acostumar com isso. Não sei bem o que está acontecendo, mas sinto algo como… felicidade.

 Infelizmente isso não durou muito tempo. De repente, o mundo parou. As pessoas ao meu redor estavam completamente estáticas. A poeira que caia do teto parou no meio da queda.

— Que irritante.

Track

 Escutei uma voz e logo por seguinte um estalo de dedos. Eu, por algum motivo, conhecia aquela voz. Mas antes que pudesse pensar muito sobre ela, senti uma dor excruciante em minha cabeça, e o mundo logo havia ficado completamente vermelho, seguido por um zumbido em meus ouvidos.

 E novamente o mundo ficou escuro… Apenas para novamente eu escutar algo e abrir os olhos.

— Bu çok güzel bir bebek!

 Mais pessoas. Eu… não sei exatamente o que aconteceu antes… ou o que está acontecendo agora. Tenho certeza de que aquilo não vai se repetir. Deve ter sido um acidente infeliz… Mas o que era aquela voz que eu tinha ouvido? Bom, tanto faz. Agora eu tenho certeza de que eu viverei uma vida plena e-…

— Por que você não morre de uma vez?!!

Track

 De novo isso se repetiu…

Track

 e de novo… 

Track

e de novo.

Track

 A cada vez que eu via uma luz, já sentia medo do que estava por vim. Uma dor angustiante me torturava a cada vez que o mundo se cobria em vermelho.  As vozes sempre mudavam, mas situações sempre terminavam do mesmo jeito. Uma voz que eu reconhecia, e então, um estalo. Depois disso eu me via em um lugar escuro… e depois claro… e depois a voz… Não sei a quanto tempo já estou neste loop. Só quero que acabe logo… eu não aguento mais isso. 

 Por que alguém faria isso comigo? O que eu fiz de errado? Por favor… ao menos me diga isso.

— Aah — suspirou — ok, já me cansei disso.

‘’hm?’’

 Mas nesta última vez foi diferente. Quando ouvi a voz e já estava me preparando para o que viria a seguir… nada aconteceu. Eu estava, agora, nas mãos de uma mulher… eu acho. Ela estava com uma espécie de máscara branca. Ao redor parecia ter diversos tipos de aparelhos brilhantes. 

— Tipo, você nem mesmo sabe da situação onde se encontra, não é?

Não conseguia me mexer, e o mundo estava, novamente, estático.

‘’Você… consegue me ouvir?’’

— Ah… claro. Bom, de qualquer forma, isso não importa. Quero te propor algo.

‘’Poderia, por favor, me explicar o que está acontecendo?’’

— Que saco… mas fazer o que? 

 Eu não conseguia ver a pessoa que dizia essas palavras, mas sabia que estava lá. Não conseguia me mover, mas a voz vinha do mesmo lugar onde estava. Por algum motivo… ela me parece familiar.

— Você está invadindo o meu mundo. E não importa quantas vezes eu te mate, você sempre renasce… e isso é irritante. Porque você não morre de uma vez? …Ah, tanto faz agora. Percebi que não importa quantas vezes eu te mate, ainda vai acabar nascendo de novo, com as mesmas memórias e direitos divinos.

‘’…Não sei se entendi muito bem. O que você quer, exatamente, que eu faça?’’

— Vamos jogar um jogo.

‘’Hm?’’

— Se você ganhar, vai receber um desejo onipotente. Ou seja, vai poder pedir o que quiser, mesmo que seja contra as leis da realidade. Tudo o que precisar fazer.

‘’Certo… acho que entendi. Mas qual o seu objetivo com isso?’’

— Bom, esse não vai ser beeem um jogo, sabe? Vai ser uma aposta. Se você aceitar essa aposta, vai estar apostando todos os seus direitos de existência, algo que só você tem. E não, você não tem escolha. Se não quiser aceitar, vamos permanecer aqui para sempre.

‘’…’’

— E então?

‘’Por que está fazendo isso? …Nós não poderíamos dividir o que temos? Por que está indo tão longe? Porque vo-…’’

— Vai aceitar… ou não?

 Sua voz ficou sombria, demonstrando claro tom de intenção assassina. Eu não queria mais isso. Não queria passar por essa tortura de novo. Só quero que tudo acabe. Eu… só preciso aceitar, certo?

‘’…Tá bom. Eu aceito.’’

— Excelente. As regras são simples, só há um objetivo neste jogo. Consiga as seis peças do meu quebra-cabeça e junte-as. Fácil, né? 

’Sinto que tem algo a mais.’’

— Claro que tem, estava esperando que eu te desse tudo de mão beijada, é? Bom… mas não tenho motivo para te dar mais informações, não é? A única coisa que posso garantir vai ser… uma coisinha. Se não, não teria nenhuma graça fazer você perder, sabe?

‘’Então realmente não pretende me contar mais nada?’’

— Não. Mais nada. Nenhum pouco.

‘’Certo… e quando começaremos esse jogo?’’

— Agora.

‘’Emh? Espera eu ain-…’’

Track

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