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“No mundo espiritual, pronunciar uma palavra envolvida por sua aura equivale a concretizar uma ação.”

Após uma jornada que durou duas horas e meia, na qual contemplava apenas a mata fechada que cercava a rodovia, Yami Yamasaki finalmente chega à selva de pedra. 

Os arranha-céus que ele avistara uma hora atrás agora se erguem imponentes, projetando suas majestosas sombras. A entrada da megacidade é marcada por uma estátua de bronze, desgastada pelo tempo, de Shikibu Oto, o fundador daquela metrópole e figura central na história da cidade, símbolo do império e sede oficial da ordem dos exorcistas.

O monumento, com seus cinquenta ciclos de idade, divide a estrada em duas vias, separando a saída e a entrada da cidade.

— E aí, velho… — ele murmura ao avistar mais uma vez a estátua, que se tornou a figura humana mais próxima em sua vida desde que ficou órfão.

Após esse reencontro, ele segue adiante. À direita, entrando na cidade. Enquanto dirige pela ampla avenida que o leva ao centro, percebe que tudo continua como sempre.

À medida que avança, o cenário começa a se fechar e a escurecer. Um odor de mofo permeia o ar, enquanto a chuva persistente cria uma cortina que obscurece sua visão, passando das tonalidades verdejantes das árvores ao cinza opressivo do concreto e ao azul do céu nublado. 

Estar ali era como entrar em uma nova realidade, sendo conduzido pela estrada até a morada dos pesares.

Nada cativa naquele lugar, como de costume, mas o jovem mal nota. 

Ele dirige tentando desvincular sua mente do sobrenatural. A velocidade de seu carro diminui aos poucos ao perceber que a maioria dos comércios ainda está fechada. No entanto, a movimentação é intensa, fervilhante e agitada. 

As pessoas transitam com desânimo no olhar, carregando o peso da vida em suas posturas cansadas, enquanto o amargor da chuva nas bocas perturba seu sossego. Como ratos, pareciam condenados à aquela gaiola.

Ele sente uma energia sombria que o serpenteia ao seu redor, envolvente, penetrando sutilmente seus olhares laterais.

Ao observar atentamente as pessoas, percebe manchas escuras em suas auras, projetando uma inquietante melancolia. Um ar de exaustão e frustração paira como um vírus invisível, absorvido por aqueles próximos, perpetuando um ciclo interminável. 

Sentimentos persistentes alimentam a escuridão crescente, preparando o terreno para um mundo ainda mais sombrio. Aquilo é tão cansativo que Yamasaki prefere se concentrar no que está à sua frente, parando o carro diante de um sinal vermelho.

Uma inquietação toma conta, enquanto ele bate os dedos no volante do veículo. 

— Azaael, por que o silêncio? Caramba! Você não me deu sossego em Kyoto; qual é o problema agora?

Enquanto aguarda, dirige suas palavras à sombra que se desenha no banco traseiro do carro, uma silhueta masculina envolta em escuridão, fluida como chamas crepitantes. É uma imagem etérea, nascida do vasto imaginário de sua mente.

— Sentindo saudades, é? — a sombra ironiza, e mesmo sendo apenas uma projeção mental, a figura emana um cheiro insuportável de enxofre. O mesmo cheiro que dizem pertencer aos filhos do breu eterno.

— Hã?

Esse é Azaael, o “temido” rei demônio, um dos sete, expulso do sombrio reino de Maladomus, o próprio purgatório, por tentar usurpar o trono de seu irmão. Agora, ele vaga entre os humanos, dividindo o mesmo corpo com o rapaz há cerca de um ano. 

No entanto, sua influência sobre a mente do jovem cresce a cada dia, cercando-o como um tormento constante em sua vida.

— Ah, não, chega disso! Você nunca consegue ficar quieto! — reclamou, pegando uma bala de menta do porta-luvas — por que seria diferente agora?

— Sabe, não tenho muita inspiração…

— Sempre assim, falando à toa, mas nunca tem nada a dizer. Enfim, se prefere o silêncio, fica à vontade! — retruca, visivelmente impaciente, seguindo seu caminho quando o sinal abre.

— O que você está querendo mesmo? Quer que eu banque um celular novo para você? — ele brinca.

— Ah, vai se ferrar!

— Tá, então me deixa na minha, vai conversar com estátuas se estiver precisando de companhia, moleque irritante!

Ele segue em silêncio, ignorando a presença do demônio, até chegar ao distrito de Katakana, conhecido como o quarto distrito. É uma área cheia de arranha-céus luxuosos, frequentada por aqueles que valorizam a solidão. No caso dele, mantém relações pessoais apenas com contratantes e clientes dos seus serviços como exorcista.

Yami estaciona o carro atrás do prédio, e escolhe subir pela escadaria de emergência, evitando qualquer contato social. Depois de subir seis dos treze andares, chega finalmente ao corredor que leva ao seu apartamento. O corredor brilha com o piso de mármore branco, que reflete seu rosto cansado, resultado do trabalho impecável da equipe de limpeza, generosamente recompensada por seus serviços.

Em poucos passos, ele chega à porta do apartamento número 36, a última antes do elevador. A porta mostra sinais de desgaste, com lascas de madeira nobre soltas e a tinta preta desbotada para um tom acinzentado.

Ao olhar para a porta, ele vê uma placa pendurada que anuncia:

Por favor, apareça ou entre em contato com a gerência para resolvermos o problema da porta!

Yami solta um suspiro irritado ao reler a placa pela enésima vez. Aquilo não é novidade para ele.

“Poxa, eu jurei que me livrei disso na semana passada.”

Sem perder tempo, ele arranca com determinação e a joga no corredor com desdém.

— Olha só, Azaael, o que você me faz passar… — murmura, expressando novamente sua irritação enquanto enfia as mãos nos bolsos do sobretudo.

Com pressa, ele encontra seu cartão, a chave do apartamento e a aproxima do painel digital. A porta se abre automaticamente, freando ao atingir a abertura adequada.

“Finalmente em casa…”

A luz se acende instantaneamente com seu primeiro passo, revelando o estado em que deixou o apartamento. A toalha está ainda sobre o sofá, os travesseiros espalhados pelo chão, a TV em sua tela de descanso após um longo período ligada, e o som do chuveiro pode ser ouvido desde a entrada.

Sua tranquilidade é interrompida bruscamente quando, de repente, o telefone fixo, que está silencioso desde que comprou o apartamento, começa a tocar teimosamente, ecoando pelos cômodos e perturbando a paz que ele pensava que teria.

— Merda… só eu chegar, que começa!

Seguindo o fluxo cotidiano, ele atravessa a cozinha meio bagunçada; a frigideira que usou continua lá, firme no fogão. Pelo corredor, passa rapidinho pela porta do banheiro, desligando o chuveiro, e entra no quarto. No criado mudo ao lado de sua cama, não só encontra o telefone, mas também sua coleção de remédios. Eles são aliados essenciais no enfrentamento do diagnóstico de transtorno bipolar, uma descoberta que veio à tona após sua formação, quando recebeu o diagnóstico de sua saúde física e mental da academia dos exorcistas.

— Hm, já faz uma semana que não me aproximo disso… — murmura, com o olhar perdido em pensamentos. E então pega o telefone de forma automática, sentindo o fio espiralado, quase como um arame de caderno.

— Alô? Yami Yamasaki aqui. O que está precisando?

— Yamasaki, aqui é Hidetoshi Nakata, diretor-geral da academia de esportes de Hiragana. Tentei te ligar mais cedo, sem sucesso…

— Ah, diretor Nakata, quanto tempo. Tive alguns imprevistos. Enfim, sobre o que se trata?

— Bastante tempo, Yamasaki. Bem, aqui na academia, estamos enfrentando aparições incomuns, uns seres horrendos, segundo os alunos. Alguns atletas até foram atacados… Mas não há vítimas!

— Atacados? Mas não há vítimas? Hm… Pode ser uma aterrorização. Se ela não conseguiu vítimas até então, deve estar fraca ainda…

— Sim, exatamente! Isso é o que o relatório mencionava. Sei que não é o tipo de serviço usual para um exorcista com suas habilidades — a voz do homem está carregada de entusiasmo, apesar dos fatos — mas a academia valoriza quem já nos prestou serviços. Por isso, peço, não, imploro que nos ajude nisso!

— Entendo… bem…

Diante do apelo, ele revira os olhos, solta um suspiro profundo e, então, coloca a mão no bolso.

“Se tiver uma grana na conta, vou recusar.

Esse veio é muito chato!”

Mas novamente, ele não encontra nada.

“Droga! Como me esqueci!? Quebrei a merda do smartphone!

Não tenho escolha…”

— Bem, me espere. Quando as aulas se encerram, eu vou e combinamos os valores, certo, diretor?

— Certo, Yamasaki, aguardo sua vinda na minha sala, após o término do expediente. Obrigado!

Ele desvia o olhar para o espelho, posicionado na porta do guarda-roupa em frente à cama, segurando o telefone com grande desânimo, afastando-o de seu rosto.

— Ah, Azaael, nem bem chegamos e já vamos voltar a trabalhar! Ser exorcista parece mais complicado que ter um emprego comum! — resmunga para seu próprio reflexo, guarda o telefone e ouve o “bip” imediatamente após.

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