Selecione o tipo de erro abaixo

1
— Cheguei — Ayasaka entrou cuidadosamente pela porta da sala, onde Tuphi e Beatrice estavam sentadas conversando.
— Está melhor? — Beatrice perguntou, analisando a garota de cima a baixo.
— Sim… ficar perto do Fos realmente parece me fazer bem.
— Ótimo, fico feliz — Beatrice respondeu com um sorriso. — Entretanto, você ainda precisa estudar o Alfabetus.
— Bom dia mocinha! Não é porque está dodói que vou deixá—la em paz, você sabe né? Ainda tenho que devolver aquela almofadada — completou Tuphi, olhando para Ayasaka com uma cara de deboche.
— Isso é perseguição… já pedi desculpas — Ayasaka respondeu à brincadeira da garota com uma expressão de desentendida.
— Então… Vamos comer? A janta hoje é por minha conta — disse Tuphi com um sorriso no rosto.
— Ah eu estou morta de fome! — Ayasaka respondeu sorrindo para a menina lobo.
Ayasaka, Tuphi e Beatrice caminharam em passos curtos até a cozinha enquanto conversavam sobre assuntos diversos. Uma mesa farta de alimentos de boa aparência, que fumegavam como pratos recém—cozidos, estava posta diante de Ayasaka, que se arrumava em seu lugar de costume.
— Obrigada pela comida — uma frase repetida por todas as garotas ali presentes, um costume que pareceu transcen der entre os mundos.
“Será que a Tuphi consegue… não, ela já disse que não.” Ayasaka, enquanto saboreava os pratos exóticos fumegantes de vegetais, pensava em quem poderia curar aquele machucado.

— Beatrice… — Ayasaka indagou timidamente.
— Quer falar sobre o seu machucado, não é? — Beatrice interrompeu a garota, concluindo o que ela estava prestes a dizer, olhando para seu prato repleto de comidas diferenciadas.
— Mas que?… — Ayasaka ficou surpresa com Beatrice, que nem sequer olhou em seu rosto.
— Iremos na sede ao amanhecer. Esse tipo de ferimento seu, eu não tenho como fazer absolutamente nada. Talvez o Sannire saiba mais sobre; é um ferimento mágico, aparentemente — Beatrice completou, olhando para a garota com um olhar leve.
“Ferimento mágico…”
— Está bem. Vou estudar um pouco o Alfabetus antes de dormir. Já faz um tempo que eu não tento mesmo.
Tuphi olhou para Ayasaka com um sorriso travesso enquanto levava uma colher de madeira à boca.
— Vamos ler alguns contos de criança juntas bem fofinhas hoje à noite — Tuphi comentou com dificuldades enquanto ainda estava com a colher na boca.
Ayasaka e Beatrice riram da situação, enquanto Tuphi inocentemente não entendeu que o motivo da graça era ela.
— Tudo bem, tudo bem. — Ayasaka concordou, acenando com a cabeça para a garota lobo, que se deliciava em um prato colorido, aparentemente repleto de vegetais.
Após ajudarem Beatrice a arrumar as coisas na cozinha, as duas garotas seguiram para o cômodo superior, mais precisamente a sala de escrita, onde Ayasaka estudou há algumas noites.
— Vou deixar três livros aqui em cima da mesa dessa vez, fora o material que você estava estudando. Se você achar que consegue, tenta dar uma olhada nos livros; são contos infantis, nada mais. É uma escrita bastante ilustrada composta majoritariamente pelo Dinji, que são os quatro símbolos que eu tinha falado para você. — Tuphi disse ao deixar os livros na mesa em frente a Ayasaka, que estava sentada observando a garota em silêncio.
Ayasaka examinava os livros, decidindo qual ler primeiro enquanto Tuphi ia embora.
— Que livro velho — ela passou a mão na capa rústica de uma obra de aparência antiga, com a textura de couro envelhecido. — Não consigo entender nada — Ayasaka comentou, tentando ler o título ilegível devido à ação do tempo.
— Pelo menos as folhas estão em bom estado, esse livro parece mais velho que a Beatrice… — Ayasaka disse, folheando as ásperas páginas amareladas.
Ela notou que o livro era majoritariamente ilustrado, facilitando a compreensão do conto. Com algum esforço, conseguiu ler algumas poucas palavras.
— Que fofa… A eterna criança…?
Ayasaka tinha estudado mais o alfabeto no pouco tempo que teve, decorando o Dinji com certa maestria.
Ela observava a figura de uma pequena garota de cachos dourados que usava com um vestido azul ciano, cuja cor estava desbotada pela ação do tempo. A garota estava rodeada por outras crianças, formando um círculo em um gramado enquanto sorria e gesticulava de pé diante delas.
— Mi… Miyan, né? — Ayasaka leu o nome da garota que estava sobre a figura.
— Você parece apenas uma criança feliz… quem diria que você é uma Divindade em? — Ayasaka soltou uma pequena risada enquanto lia o livro iluminado pelas fracas luzes amareladas.

Ao virar algumas páginas, Ayasaka encontrou menções aos Deuses interagindo com as pessoas, algo diferente de sua experiência com divindades em seu mundo de origem.
— Aparentemente, os livros realmente a consideravam uma Deusa para as crianças… Você deveria ser legal. Me intriga o que aconteceu com você… — Ayasaka sussurrou
Ela se espreguiçou e continuou a prestar atenção no livro que estava aberto sobre a escrivaninha.
— Os Deuses aqui realmente existiram e interagiam com as pessoas, pelo menos. Diferente de Deuses que pareciam mais uma tentativa desesperada de pegar dinheiro das pessoas no meu mundo — Ayasaka se referia aos Deuses das religiões do ocidente de seu mundo de origem, embora acreditasse em uma religião japonesa, nunca teve muita certeza sobre as religiões ocidentais, talvez por uma questão cultural.
— Você gosta de crianças, né? — Tuphi surgiu, sorrindo meigamente para Ayasaka.
— Ah… Sim… Eu já cuidei de crianças algumas vezes na minha terra natal — ela comentou sobre as vezes que trabalhou como babá em um trabalho que sua escola arrumou para ela. — Miyan parecia uma garotinha linda — Ayasaka completou com um tom de voz um pouco mais pesado.
— Ela era — Tuphi respondeu com um tom animado enquanto escorava no ombro de Ayasaka, olhando o que ela estava lendo por cima de sua cabeça.
— Agora pronto virei burro de apoio?! — Ayasaka reclamou enquanto a garota apoiava seu peso nela para ler o que ela estava lendo.
Tuphi riu da reação de Ayasaka, e se sentou ao seu lado
— Você a conheceu, Tuphi?
— Não sou tão velha assim, tá?! Miyan não era da minha época, eu nasci depois, só tenho cento e setenta anos, no seu calendário. Ela é de no mínimo, quinhentos anos atrás, até acontecer o que aconteceu.
— Ela… morreu? — Ayasaka disse enquanto olhava para o desenho dela na página em que estava a alguns instantes.
— Apesar da difícil lembrança da guerra entre o povo de Miyan e o Deus dos Contratos, há relatos sobre crianças que brincaram com ela. Uma garotinha de vestido azul, cabelos brilhantes, nos alpes de Ritzar, na Floresta das Crianças, perto da antiga fronteira com Motgar, onde Miyan reinava. Há também rumores sobre um rapaz de cabelos escuros e roupas elegantes, auxiliando em negócios no porto de Vidgar, próximo ao antigo Domínio do Deus dos Contratos, Hanayo. Todos parecem estar presentes, fazendo o melhor que podem atualmente… sabe? Talvez você os encontre nesta aventura que se desenha! — Tuphi respondeu a Ayasaka com um sorriso afável.
— Ver um Deus em pessoa…? — Ayasaka sussurrou enquanto olhava para a parede.
Ayasaka continuou a destrinchar os livros que contavam um pouco sobre cada uma das Divindades de Ataraxia com curiosidade e olhos empolgados. A sensação de que aquelas entidades mágicas daquele mundo realmente existiam e iam além de contos populares a intrigava cada vez mais a todo momento.
Horas se passaram e no meio de livros e mais livros, Ayasaka também encontrou a fadiga e o cansaço que fazia sua boca bocejar sem parar.
— Tuphi, eu estou ficando com sono, já estamos aqui faz um tempinho né… nem vi o tempo passar! — disse enquanto abria a boca e se espreguiçava lentamente, de uma forma bastante preguiçosa.
— Você quer que eu durma com você, mestre? — Tuphi perguntou inocentemente.
Ayasaka corou as bochechas de imediato em resposta a atitude inesperada da garota lobo.
— Você tem que parar com esses chutes no gol de surpresa! — Ayasaka respondeu timidamente a atitude da garota.
— Certeza? — Tuphi insistiu com um ar de deboche ao perceber que a garota estava com vergonha
— Tuphi, bora dormir antes que eu cometa crimes — Ayasaka se levantou da cadeira macia em que estava sentada lendo os livros, expulsando a garota lobo que insistia em escorar—se em seus ombros.
— Você disse “bora dormir”!
— Exatamente, em quartos separados!
— Por que você dormiu com a Meezu e não comigo?! Não é justo, não é justo! — Tuphi fez bico enquanto Ayasaka expulsava ela do cômodo, em direção ao seu quarto.
— Se você dormisse comigo seria pior, iria ver do que sua mestre é capaz. — Ayasaka debochou enquanto estava à vista de Tuphi no corredor.
— Como assim mestre? Ah! Me explica! A Meezu te machucou dormindo?! Vou tirar satisfação com ela também! — Tuphi gritou batendo os pés surpresa em frente a porta do cômodo onde elas estavam.
Ayasaka deu uma leve risada enquanto abria a porta rustica de seu aposento.
Ayasaka cuidadosamente posicionou Kazewokiru junto à cabeceira da cama, seguindo sua tradição pessoal, e se deixou cair na cama. A ação já havia se tornado um ritual habitual para ela.
— Ah, cara! — murmurou, observando o teto da casa com uma coloração não muito uniforme. — Hoje completa uma semana desde que estou aqui, né?
Com um sorriso fraco e um olhar distante, ela observou seus punhos cerrados diante do rosto. Virou—se de lado na cama simples, encolhendo—se gradualmente. Logo, o sorriso desapareceu por completo de seu rosto no quarto escuro, onde a única iluminação vinha das cordas de Kazewokiru e da luz amarelada e melancólica que escapava do corredor sob a porta.
— Uma semana que a minha vida não parece mais a minha vida. Cavaleira de dragão, elfos, entidades, divindades… Às vezes, sinto falta de ser uma simples colegial. Sinto falta do meu irmão também… mas nada pode ser feito, né?
Gradualmente, a pequena Ayasaka adormeceu, seu delicado rosto sendo iluminado pelas sutis luzes de Kazewokiru, que pareciam acariciar seus cabelos.

Picture of Olá, eu sou o Flugelu!

Olá, eu sou o Flugelu!

Comentem e Avaliem o Capítulo! Se quiser me apoiar de alguma forma, entre em nosso Discord para conversarmos!

Clique aqui para entrar em nosso Discord ➥