Volume 1 Capítulo 2: Kewy Nawick – A Força do Destino

A Distopia de Tykon

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Capítulo 2

Kewy Nawick – A Força do Destino

 

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— Vamos! Me diga, Oh ‘’Grande Herói!” Como se sente ao ver tudo em que acreditava desabar? Me diga! Como é a sensação de não poder salvar ninguém?! Qual é a sensação de ser odiado por todos a quem devotou respeito e proteção?!

 Em lugar onde tudo o que podia-se ver ao redor eram chamas e carnificina de uma longa batalha, duas pessoas discutiam. Uma mulher de aparência infantil com cabelos curtos e esmeraldas que rodeavam sua cabeça,  um homem alto de olhar gentil e cabelos dourados, ambos se encaravam, frente a frente, após uma longa guerra. Não havia mais ninguém ali, nada vivo poderia existir naquele local. Todos haviam morrido.

 A mulher, que seria melhor definida como ‘’garota’’, continha em seu rosto olhos loucos — vermelhos com o sangue que escorria — e um longo sorriso que era incompreensível para qualquer pessoa. Mas o homem à sua frente cerrava os dentes em ódio.

— …Valeu a pena?

— Hm?

— Valeu a pena sacrificar tantas vidas… apenas por isso? — apertou os punhos que seguravam a espada.

 O sorriso incompreensível ficou ainda maior, exaltando sua felicidade.

— Qualquer coisa tem menos valor para mim do que ver esse seu rosto. Essa expressão de ódio… Ah, não consigo explicar o que sinto nesse momento. Ver o desespero, angústia e solidão no rosto das pessoas é o que me move. Quando finalmente descobri alguém, um ‘’heroi’’, que nunca havia sentido esses sentimentos, eu fiquei… estranha.

— …

 Prazer e felicidade se via no rosto da mulher com traje militar enquanto apontava uma arma a quem segurava uma espada. 

— Você fez tudo isso… sacrificou os próprios aliados, homens, mulheres, crianças e idosos… apenas por um desejo egoísta como esse…?

— que já deixei isso claro, mas vou dizer ainda com mais clareza… Sim! Nada me deixaria mais feliz do que viver esse momento. Você não faz ideia de quantas vezes eu tive que voltar… Você não faz ideia de quantas vezes eu tive que ver esse seu rosto nojento ganhando de mim denovo e denovo. 

 As palavras que saiam de sua boca não faziam sentido para o homem. Nunca haviam se encontrado antes. Não sabia quem era ela, mas sua presença exalava pura loucura e falta de razão. Eles eram de nações diferentes. Mundos completamente diferentes. 

— Guh… Guh — sentia o ar de seu pulmão ficar mais denso, e sabia o motivo.

 O homem tossia sangue enquanto caia de joelhos. Sua força havia se esvaído a tempos. Mas isso não permaneceu somente a ele, a ‘’garota’’ já perdia a força nas pernas e logo caiu na terra fria. Esse era o fim… para ambos. 

— Eu realmente te odeio… — murmurou a mulher caída no chão.

 A consciência deles logo iria partir para além deste mundo, mas, mesmo assim, suas emoções ainda estavam contidas neles. Sentido que iria cair, o homem usou sua espada como apoio e permaneceu calado. Mas quem continuou a falar foi ela.

— Se… você… tivesse me salvado… daquele dia… talvez… as coisas poderiam ter sido diferentes… — essas foram suas últimas palavras antes da própria consciência não poder mais ser encontrada em si.

 Sentiu algo no peito — algo doloroso — mas não sabia o motivo. Por mais que também odiasse a pessoa em sua frente. Por mais que a considerasse o mais maculado ser… sentia pena. Sentia pena ao ver uma pessoa que claramente não teve uma vida feliz. Sentia pena em não poder tê-la ajudado quando podia. Mas estavam em lados opostos desde o começo. Então as palavras que iria dizer agora continham seus mais sinceros sentimentos.

—  Me… desculpe — disse para quem não estava mais ali.

 O cenário onde antes havia uma grande floresta sumiu. Haviam corpos espalhados por todos os lados. E, neste momento, apenas o barulho do vento poderia ser escutado. Ninguém mais gritava. Ninguém mais lutava. Todos estavam mortos, mesmo aqueles que não lutaram nesta batalha. A última pessoa da qual ali estava, acabou de perder a vida. 

 Neste mundo, as guerras ocorriam desenfreadamente. Pessoas eram mortas diariamente, isso já era comum. Por mais que as duas nações que lutavam brutalmente estivessem agora extintas, em outro lugar, em outra parte do mundo, ainda havia outras pessoas sem relação a isso — outras raças. Esses dois que ali estavam, ainda não fazem parte da história que vai se seguir, mas eram seus precursores.

 Como o destino interferiria na história de uma nação a milhares de quilômetros de onde este massacre ocorreu? A resposta estará adiante, além de mares e montanhas, do outro lado do mundo.

1

 Ao fim da tarde, o canto dos pássaros dá espaço ao assobio dos ventos. A noite se aproximava cada vez mais. Os animais da Floresta de Forthen, começaram a se esconder em seus respectivos lugares. O céu ainda não estava totalmente coberto pela escuridão, mas não demoraria muito para defini-lo como noite. 

 Logo abaixo de uma árvore, em cima de um pequeno morro que dava visão para toda a floresta, pode-se ver um casal.

— Então… amanhã vai ser o dia.

 Eles estavam em silêncio até aquele momento, mas logo foi quebrado pelo rapaz de cabelos claros e olhos tão amarelos quanto o próprio sol da tarde.

— Hm? 

— Você sempre quis sair daqui, quando nos casarmos, não é? Depois da cerimônia, vamos para o distrito leste como você queria – dizia o rapaz enquanto levantava sua mão ao céu. Em sua visão, olhos carmesim o observava com certa paixão.

 O jovem chamado Kewy, estava com a cabeça apoiada em cima das coxas de uma encantadora dama, sua noiva. O vento começava a soprar fortemente ao ponto de bagunçar um pouco aqueles longos cabelos vermelhos.

— Eu sei. Você ficou falando isso para todo mundo  o ano inteiro, não foi? Hihi – disse a moça enquanto escondia o seu sorriso com a mão.

— Poxa, assim quebra um pouco do clima… — se deixando levar, Kewy logo acompanha as leves risadas de sua amada.

 Por fim, o sol finalmente se pôs por completo, deixando apenas a vasta escuridão do céu, iluminado apenas pelas estrelas. Os jovens que observavam o pôr do sol até então, se chamavam Kewy Nawick e Qynn Vasta. Eram jovens noivos que viviam na Ilha de Forthen.

— Ei.

Quem indagou foi Qynn

— …Hm?

— Um presente.

 Qynn tirou do bolso um tipo de corrente, onde no meio continha algo parecido com rubi. O vermelho carmesim daqueles olhos brilhantes intensificava a pedra que facilmente seria confundida como um pedaço do próprio sol.

— Wow, mas isso não é muito…

— É um presente, e é melhor você aceitar.

 Uma joia extravagante. Com certeza, não é algo que alguém dê a qualquer um. Então Kewy ficou um pouco receoso ao segurar aquilo. Porém, um sorriso amarelo estava contido em seu rosto.

— Bom, é… Obrigado.

— Não gostou?

— Gostei! Gostei muito! Mas… Tem certeza? Parece meio caro.

— Passei os últimos meses juntando para comprar ela.

— Ent..

— Isso significa que estou disposta a me esforçar por você. Isso significa que eu quero que você esteja sempre comigo, mesmo quando eu não estiver por perto — cortando a frase de seu companheiro, a garota falava sem hesitar com a voz fina e tão delicada quanto sua feição.

— …

— Isso soou um pouco egoísta, não acha? — Qynn forçou um sorriso enquanto acariciava levemente aqueles brilhantes cabelos de seu amado.

 Os ventos traziam um ar frio naquele momento, mas isso não os incomodou.

—  Não, eu acho que foi bem legal. Só que, você não precisava fazer isso. Eu vou sempre ficar ao seu lado — ao terminar de falar, ele sentiu seu coração palpitar.

— Ei, ei. Isso não é algo legal de falar para uma garota que se esforçou tanto para conseguir dar um presente a quem ama — em contraste, Qynn, brincava com a situação.

 Talvez seja somente impressão, mas o que Kewy sentia, era algo como se a sua própria alma estivesse contente com sigo mesmo por chegar até ali. Todo seu esforço, tantas horas gastas treinando incessantemente para se tornar um cavaleiro… valeram a pena. 

— Bom, vamos? Eu queria fazer um jantar especial hoje – disse Qynn, ainda com um sorriso.

— Vamos!

— Hihi. Quanto ânimo.

 Kewy, após se levantar e colocar o colar em seu bolso da calça, deu a  mão para ajudá-la a fazer o mesmo. Assim, ainda de mãos dadas, eles foram juntos pela floresta a caminho do portão, um pouco distante, que dava início à cidade. Eles saíram da capital apenas para esse pequeno encontro. 

 Qynn fitava o lugar onde estavam. Um sorriso desagradável acompanhou seu rosto, mas quem estava ao seu lado não percebeu esse estranho comportamento e apenas continuou caminhando de mãos dadas.

— …

 A luz da lua já dominava todo o lugar. O vento soprava gentilmente e o ar estava úmido. Tudo dava a entender que mais tarde iria nevar, mas não se importavam com isso, pelo menos não agora. Neste momento, apenas estavam focados um no outro.

— Ei. Sair daqui e ir para o Distrito Leste com você sempre foi meu sonho, mas você tem certeza disso mesmo? Tipo, não quero te forçar a isso… — Qynn desviava o olhar.

— Eu nunca gostei muito de águas termais, mas por você eu faria qualquer esforço — Kewy falava de maneira orgulhosa, com o queixo levantado e com a mão que estava livre em seu peito.

 Eles ainda não estavam acostumados com aquelas palavras, então, ambos enrubesceram subitamente ao se darem conta do o que estavam falando, algo que poderia ser subentendido de diversas maneiras. O que Kewy sentia era a mais pura paixão. Seu coração parecia palpitar cada vez mais a cada passo. Mesmo com o clima relativamente frio, suas mãos não paravam de suar. As coisas que ele sentia não eram unilaterais, e a sua companheira sabia muito bem disso. Qynn, estava na mesma situação que o amor de sua vida.

— Eu te amo — sussurrou a bela dama de cabelos vermelhos enquanto sorria em verdadeira felicidade. Infelizmente, essas palavras não chegaram aos ouvidos de quem estava ao seu lado.

2

 Acima de uma cidade, observando o pôr do sol, se via uma pessoa. Uma mulher de cabelos e olhos tão negros quanto a propria palavra dizia, encarava o final da tarde com certa dor em seu peito. A hora havia chegado.

— Ah… — suspirou —  Então esse dia finalmente chegou…

 Precisava fazer o que tinha de fazer, este era o ponto do qual poderia mudar o fatídico destino. Seu olhar não demonstrava medo, tinha convicção de que estava certa. Aceitaria seu pecado e o carregaria pelo resto da vida. 

— Eu prometo fazer valer a pena. No final, tudo valerá a pena.

 Com a mão em seu coração, confirmou a determinação que tanto precisava. Esse era o ponto onde todo o rumo do destino mudaria naquele mundo necrosante. 

— …

 O vento balançava seus longos cabelos, como que trazendo sua atenção à realidade. Ela, então,  finalmente levantou um dos braços enquanto respirava fundo. 

— Não quero ser perdoada. Se eu tiver de ser a maior das aberrações… se for para nos salvar de um destino incerto, tudo será recompensado. 

 Olhando para o horizonte, finalmente sua determinação tomou forma. Esse era um meio do qual o fim poderia ser justificado… por mais que fosse algo do qual nunca poderia se orgulhar. 

 E então, palavras fora de sua língua natural saiam da boca, e uma enorme fórmula mágica cobria toda a ilha onde estava, A Ilha de Forthen. Ninguém mais poderia ver, mas estava lá o que mudaria por completo o rumo do futuro.

 Terminando de recitar, lágrimas caiam de seus olhos.

— Por favor… nunca me perdoem por isso…

 Mesmo convicta de sua determinação, ainda havia anseio. Tinha certeza de que só existiria aquele caminho, o destino finalmente perderia seu lugar. A palavra da qual se negava aceitar: destino. Por isso lutou para poder mudá-lo. Esse era o resultado. Apenas um grande desastre poderia mudar o que já estava premeditado, descobriu isso por conta própria.

 E então, fechando o punho, aquilo que mudaria a história do mundo… começou.

3

— Chegamos — Após uma longa caminhada silenciosa, quem abre novamente o clima é Kewy ao ver um grande portão.

 Um enorme portão robusto feito de pedras, madeira e muitas flores estava logo à frente. Era também acompanhado por um muro, com por volta de 8 metros de altura, que cercava toda a capital. Aquele local indicava o início da capital de Forthen.

 Logo na entrada da cidade, havia crianças brincando, e elas logo perceberam as pessoas que vinham.

— Então… quer que eu passe em algum lugar para  compr… — Iniciou o rapaz de cabelos claros em uma tentativa falha de se desviar de quem vinha…

— Ui, ui. Olha quem vem ai!

 Tendo sido interrompidos, ambos olham para as crianças que estavam correndo em direção deles. Kewy demonstra um sorriso amarelo enquanto os observa se aproximando.

— Salve, Kewy!

— E aí, Kewy!

— Oi, Qynn…

 Um garoto sem camisa de cabelos castanhos e um jovem de cabelos escuros com a sua tímida irmã gêmea, que usava um pequeno vestido e algumas flores em sua cabeça, falam em sequência. Seus nomes são…

— Vlad, Tommy e Emmi…

— Oi gente, como estão vocês? — quem perguntou foi Qynn, enquanto sorria gentilmente.

— Sabe como é, né? A gente tava esperando por cês.

— Sim, Sim. Ficamo sabendo que cê vai virar homão amanhã e depois vai pro distrito leste.

— Um casamento… tão romântico…

 Novamente na mesma sequência. Talvez isso tenha sido planejado por eles.

— Prometo voltar pra dar um ‘’oi’’, algum dia. Haha.

— Vai nada!

— Aham, sei.

— …

— Que isso, é sério.

— Só se voltar, né? — Vlad retrucou

 Era fato que, de todas as pessoas que saíram da Capital, especialmente cavaleiros, poucas voltaram a morar lá. A capital era um lugar onde comerciantes e artesãos se reuniam, além de conter a base militar do país. A Cidade Leste, para onde iriam, era conhecida pelas suas maravilhosas fontes termais e estilo de vida luxuoso.

— Ok, ok. Mas no mínimo prometo lembrar de vocês no fundo do meu coração. Que tal?

— Ora, que gentil de sua parte.

— Nossa, agora eu realmente fiquei muitíssimo agradecido.

— …

 Vlad e Tommy, obviamente, estavam sendo irônicos. Emmi, que ainda permanecia em silêncio, não mudou nem mesmo sua expressão e seus olhos estavam vazios.

— Tá, então… isso significa que vocês querem ir juntos, não é? Então podem vim com o pai! — Kewy abria os seus braços e corria em ataque para aqueles jovens.

— Nem ferrando que vamo pra um lugar cheio de frufru igual aquele!

— Pode vim que nois peita!

 De repente, todos correram para cima de Kewy. Vlad, foi o primeiro e logo se agarrou em seu pescoço. Em seguida, Tommy, que foi para trás do alvo e pulou em cima dele pelas costas. E por último…

— É… Emmi?

Emmi, que agarrou em sua cintura, mas não como ataque.

— Ei, não foi assim que combinamos!

— De novo isso…

— É… É um ataque para… Hm… parar os seus movimentos!

— Bom. é… Então tá, né?

 Qynn observava tudo ao lado de Kewy. E, vendo tal situação…

— Hihi. Eu também quero brincar se for assim!

 Ela rapidamente pulou para cima e abraçou todos que estavam ali. Agora sim, todo mundo estava agarrado naquele pobre coitado. E em poucos segundos…

— Opa…

— Aaa!

— Eeeh!?

— Ah?

— Uhuu!

 Todos caíram de repente. Uma queda que seria desastrosa se aquele pobre rapaz não tivesse levado todo o dano do impacto.

— Desse jeito vocês vão me matar antes do casamento…

— Se você morrer posso ficar com a sua espada?

— Nem ferrando!

 Com a pequena discussão entre Vlad e Kewy, todos riram de repente. Mas, após isso, apenas ficaram olhando para o céu, ainda ao lado dele. Já era possível ver a lua brilhando intensamente com as estrelas que, por causa da sua luminosidade, por pouco não emanavam calor. As folhas das árvores começaram a farfalhar e um vento frio vinha de algum lugar.

— Ei…

 Inesperadamente, quem quebra o silêncio é Emmi.

— O que foi?

— Vocês vão viajar, não é? Vão para muito longe, né? Então vão nos deixar aqui por muito tempo… é? — com os olhos lacrimejando, aquela garotinha puxa cada vez mais forte a camisa de Kewy.

— Vamos sim. Mas prometo sempre vim visitar e trazer presentes, que tal? —  pegando nas pequenas mão que segurava a sua camisa, ele conforta aquela adorável garota que do rosto começara a cair lágrimas.

 Mas não foi só Emmi que estava em prantos, todos ali, inclusive Qynn, também estavam com olhos marejados.

— Ei, ei. Eu já disse que sempre vamos voltar para dar um ‘’oi’’, não disse? E… Porque você também tá chorando!?

— É que… É que… É tããão triste! Huaaaa! – Qynn era o tipo de pessoa que não conseguia ver alguém chorando que também começava a derramar lágrimas.

— Você sempre chora tão fácil… Mas e vocês!? Eu com certeza não esperava por essa!

— Cala a boca, idiota…

— É… fica na su-sua…

— Ai, ai. O que será que eu faço com essas crianças? – disse Kewy em desistência.

4

 Após aquela ‘’sessão de lágrimas’’, já estava ficando tarde, então, Qynn comentou que os pais deles ficariam preocupados caso chegassem atrasados para o jantar. Vlad foi o primeiro a sair — sair correndo por sinal. Tommy, esperava pacientemente por sua irmã gêmea que ainda estava agarrada em Kewy.

— Emmi, eu já disse que vou voltar… Não precisa ficar assim.

— Mas… Mas…

— Hihi, ninguém gosta de meninas choronas, viu? Não vai conquistar ninguém assim. – Qynn estava passando sua mão naqueles belos cabelos castanhos enquanto consolava a criança.

— Olha quem fa… Gah!

 Após uma cotovelada no estômago de seu amado e precioso noivo, ela continuou.

— Estude bastante para se tornar uma pessoa importante e conquiste tudo o que quiser conquistar. Mas não vai conseguir nada se você continuar desse jeito, viu?

 Em Forthen, era bastante comum homens se tornarem grandes cavaleiros e mulheres se focassem mais em áreas burocráticas — embora o contrário também poderia acontecer. Dito isso, para poder ter uma vida acima da média, seria necessário, no mínimo, ser um desses dois tipos — pessoas formalmente esforçadas. Qynn, mesmo jovem, tornou-se bastante conhecida por ser uma incrível professora, e Kewy já era um honrado cavaleiro. Uma dupla admirável onde o conjunto força e conhecimento estavam juntos.

 

— Eu vou… Eu me tornar alguém importante quanto você — esfregando o braço em seu rosto para limpar as lágrimas, a menina afirma com determinação.

— É assim que se fala. Agora vai lá, Tommy ainda está te esperando.

 Emmi virou as costas para o casal, parou por alguns segundos e depois correu para perto de seu irmão. Eles se despediram com um aceno e saíram andando calmamente. Aqueles irmãos eram apenas iluminados pela luz das lâmpadas amareladas e o brilho azulado da lua… Algo adorável de se ver.

— Bom, demorou mais do que eu esperava. — disse Kewy

— Sim, mas acho que no final deu tudo certo. 

— Já estou começando a ficar com sono, podemos ir logo?

— Ainda vamos jantar, não se esqueceu, né?

— Eu nunca esqueceria nada que você dissesse. 

— Hmm — Cruzando os braços e cerrando os olhos, Qynn olha diretamente seu companheiro — Mas vejo que não foi problema esquecer do colar que eu te dei.

— Ehm?

— …

— QUÊ!!? NÃO, NÃO, NÃO! NEM FERRANDO! — Kewy, checava em todos os lugares de seu corpo desesperadamente, no entanto, não encontrou o que estava procurando. O que o fez ficar mais desesperado ainda.

— Não se preocupe, quando você se levantou, debaixo daquela árvore, eu vi o colar cair do seu bolso na grama.

— Pera… Então porque você não falou nada?!

— Você deveria dar mais atenção aos presentes dos outros, idiota!… Especialmente quando for meu… — Uma mudança drástica de comportamento, uma que foi de raiva à vergonha em segundos. Algo que somente aquela excêntrica pessoa era capaz de fazer.

— Vou ter que andar tudo isso de novo…

— Bem feito.

 Enquanto aquele rapaz de cabelos claros olhava com tristeza para onde passavam mais cedo, Qynn estava se adiantando, indo em direção à cidade.

— vai vim comigo mesmo, né?

— Claro que não. Mas, quando voltar, o jantar já vai estar pronto. É melhor ir logo.

— Vai fazer o que?

— Hihi. Se-gre-do. — Qynn, com um sorriso, e segurando o pulso em suas costas, disse – Vou estar te esperando, querido. — Em contraste com as várias vezes em que ela se envergonhava por bem menos… Dessa vez ela falava com firmeza.

— …Não demorarei, m… — ‘’Meu amor’’ pensou ele. Mas não conseguiu transformar em palavras o que sentia. Kewy ainda não tinha essa coragem. Pelo menos, ainda teria muitas outras oportunidades, pensava ele.

 E assim, com uma despedida um tanto dramática para só uma caminhada, os dois foram por direções opostas. 

 A lua cheia brilhava intensamente e neve começara a cair de pouco em pouco.

5

— Ah… — suspirava — como eu fui esquecer isso… 

Após se despedir de sua amada, agora caminhava para o portão principal.

— Bom, não é como se fosse culpa minha, não é?… Não. Isso é realmente culpa minha. Fiquei tão feliz em receber aquilo, que não consegui simplesmente usar no pescoço, queria guardar em um lugar seguro… Sério, qual o meu problema?

 A mente estava confusa e seu coração chegava a ranger quando pensava sobre como Qynn se sentiu com isso. Ela possivelmente disfarçou sua raiva naquela brincadeira, e Kewy aceitava agora que merecia uma punição maior do que simplesmente ir lá pegar o que perdeu. Tudo mostrava o quão gentil e adorável era a sua noiva, a pessoa mais especial para ele.

— Hum?

 Ouvindo o barulho de cavalos e passos pesados, Kewy olha para trás, um pouco desconfiado, mas sabendo de que esse era um barulho do qual já estava acostumado.

— M-mas o que é isso?

 Mesmo reconhecendo aquele barulho, se surpreendeu com o que viu. Aquela não era a hora e nem o lugar para isso acontecer… ou será que era? Em sua frente, soldados do reino marchavam para fora da cidade. Entre eles havia: cavalos; cavaleiros e magos de ataque e suporte. Isso certamente não deveria ser um treino padrão — cavaleiros oficiais apenas eram chamados em situações de emergência. Ao vê-los, um desespero percorreu sua espinha. 

 Logo deu um passo em frente com a intenção de chamar alguém para pedir informação, mas antes disso…

— Ei! Kewy!

 Já reconhecendo a voz, olhou para o meio do batalhão e viu, com dificuldade, uma pessoa que já conhecia. Seu amigo, Echel Vasta, o chamou ao longe. Ele vestia um manto marrom, que simbolizava sua posição como mago, enquanto corria para perto. Sim, seu nome é Echel Vasta, isso significa que ele é parente de sua noiva — Qynn Vasta. Para ser mais preciso, ele era irmão dela — seu cunhado. 

— Kewy, eu achei que você já tivesse ido se preparar para o seu casamento

— Ainda será amanhã à noite. Mas de qualquer forma, o que está acontecendo? Algo importante?

— Ah — disse olhando para o batalhão atrás dele — parece que algumas bestas mágicas atravessaram a barreira… de novo.

 Em Forthen havia uma barreira mágica — de origem desconhecida — que os protegiam de bestas mágicas que os cercavam. O problema era, essa barreira já existia há muito tempo, e já estava perdendo sua força. De vez em quando, bestas fracas apareciam.

— Espera, então eu tenho que ir!

 Se algo estava acontecendo, tinha de ir ajudar. Esse era seu trabalho. Kewy era um legítimo soldado de Forthen.

— Claro que não! Você tem é que ficar ao lado de minha irmã, essa é sua prioridade agora. Desconfiamos que esses ataques vão continuar aparecendo, por isso você tem que, ao menos, garantir a felicidade de vocês o quanto antes.

 A imagem de Qynn com seu incrível e gracioso sorriso percorreu pela mente. É verdade, tinha de aproveitar ao máximo e priorizar, acima de tudo, a felicidade de sua noiva. Por mais que achasse esse pensamento um tanto egoísta. Mas, poderia ignorar o que estava acontecendo?

— E, além disso – Echel olhou para o portão de onde ia o batalhão — não parece algo tão importante assim, só estamos tentando prevenir que nada aconteça.

— …Vocês… tem certeza de que não é nada?

— Estou dizendo, temos mais gente do que o necessário. Não precisa se preocupar.

— Mas…

— Ou!

 Alguém no meio do batalhão chama por Echel de repente. Ele acena e logo depois volta a sua atenção para Kewy.

— Olha, tenho que ir agora. Não precisa se preocupar com nada, apenas foque em fazer minha irmã feliz… só isso, entendeu?

— Entendi.

 Ele sorriu e rapidamente voltou para a sua posição estratégica no batalhão. Echel era realmente um excelente amigo. Nunca diria isso, mas sempre se orgulhava de o ter conhecido. Será que ser uma boa pessoa era traço genético da família Vasta?, se perguntava Kewy. De repente, um floco de neve cai no seu nariz e rouba a atenção.

 Olhando para cima, Kewy diz:

— …Sinto que essa vai ser uma longa noite.

6

— Quade!? Onde foi que deixei cair!

 A longa caminhada pela floresta, acompanhada dessa vez por neve, parecia demorar bem mais do que deveria. Obviamente pelo motivo que agora viera desacompanhado. Mas logo chegou ao seu destino. Ao finalmente encontrar a árvore em cima da colina onde estavam, pensamentos como “eu só posso ser um imbecil mesmo” e “como eu não percebi que meu bolso estava furado!?” Invadiram a sua mente.

 O que deveria fazer desde o início era colocar o presente que ganhou no pescoço, sabia disso. Mas, entretanto, ficaria incomodado em usar algo tão especial apenas para caminhar pela floresta.

— Essa neve só dificulta as coisas. Merda.

 Não passou muito tempo desde o inicio da neve, mas foi o suficiente para atrapalhar na busca pelo o que procurava

 O tempo ficava cada vez mais frio e um cheiro agradável pairava no ar.

— Achei!

 Sem muita surpresa, o colar estava exatamente onde haviam sentado há pouco. Provavelmente caiu assim que o colocou no bolso.

— Eu tenho mesmo que comprar roupas novas…

 Certificando-se que o colar agora estava em um bolso sem furos, com um leve suspiro, Kewy olha para a paisagem que estava começando a dar espaço para a neve que caia. Um cenário bonito se formava. O lugar estava tão agradável que chegava a dar sono.

  • Não. Eu não posso dormir aqui. Tenho que chegar em casa para jantar com ela. E quem seria louco de dormir em um lugar frio assim? Essa pessoa definitivamente morreria.

 Não é fictício dizer que ter alguém à sua espera em casa é a coisa que deixaria qualquer pessoa no mundo feliz. E, para Kewy, isso estava acontecendo nesse instante. Mas…

— Huaa.

 Um longo bocejo apagou quaisquer pensamentos seus. Isso seria apenas resultado do belo cenário que estava vendo? Por algum motivo, seu senso de perigo se ativou. O mundo à sua volta parecia girar.

— Porque eu… estou… com tanto… sono? — se perguntava

 Não só seus olhos, mas também sua mente começou a piscar. Escuro. Claro. Escuro… claro… Tudo de repente começou a fazer silêncio. Até mesmo os insetos dormiram? Algo estava errado. Isso não era natural.

 Ao cair de joelhos por causa do cansaço súbito, Kewy finalmente percebeu.

— Não pode ser… Será que…

 

BOOOM!!

 Um raio de luz violeta que parecia cortar os céus apareceu, e seu brilho iluminou toda a floresta. Segundos depois, um ensurdecedor estrondo ecoou tão forte que, durante isso, Kewy quis arrancar seus próprios ouvidos. Mas, por algum motivo, não diminuiu nem um pouco aquele incontrolável sono.  E, logo sem seguida, aquele garoto de cabelos claros se viu deitado na neve fria, desistindo de resistir e se entregando de vez ao que seu corpo ordenava.

7

 Em um lugar onde o céu estava azul e a grama verde, um rapaz sacou a espada para a criatura à sua frente. Ventos fortes bagunçavam o cabelo dele enquanto fixava o ser de duas cabeças que emana uma enorme intenção assassina. O ”monstro” se parecia como um grande cão — por volta de 1,70 — negro, e que nele havia duas cabeças jorrando saliva desenfreadamente. 

 Atrás de Kewy estava seu fiel amigo e incrível companheiro de batalha.

— Que a benção do sol nos ajude na batalha que está por vir. Oh, grande senhor que governa o calor que nos aquece nos momentos frios, por favor, dei-me tua força para que vosso inimigo que macula a vida seja derrotado, ignis!

 Circuitos mágicos apareceram nas mãos nuas de Echel, e logo em seguida uma bola de fogo foi lançada, em uma velocidade assustadora, diretamente naquela besta. Ao acertá-lo, um rugido furioso foi ouvido por centenas de metros ao redor, assustando até mesmo os pássaros ao longe. O cão, agora em chamas, rugia enquanto fixava seu olhar vermelho em quem lhe causou tal dor incontrolável. Foi somente por um segundo que se distraiu. Apenas por um segundo. Mas o rapaz que estava logo à sua frente se aproveitou desta breve brecha que deu.

— RAAAAAA!

 Kewy corria tão rápido em direção ao seu oponente que era impossível acompanhar seus passos. E então, com sua espada em mãos deslizando sobre o vento, ele corta as cabeças da besta. Apenas um brilho prateado podia ser visto. Apenas o som de metal cortando carne podia ser ouvido. Talvez até aquele cão tivesse demorado para perceber que já estava morto. Após alguns segundos, suas cabeças caíram na grama junto a uma enchente de sangue.

Passos se aproximavam.

— Ah… — suspirava — esse foi… estranhamente fácil. 

— Realmente, para uma Besta Mágica de duas cabeças, foi fácil até demais —  disse Kewy.

 Aquele corpo, agora no chão, mesmo sem a suas cabeças, ainda poderia estar vivo. Prevenindo-se quanto a isso, Echis logo o carboniza após utilizar o mesmo encantamento mágico.

— Pelo que parece foi apenas esse dessa vez — comentou Echis.

— Embora tenha sido uma surpresa sua aparição…

— De fato.

 Enquanto viam o corpo enorme da besta virando cinzas, ambos a encararam nos olhos.

 Com isso, Kewy diz:

— Eles sempre andam em bandos, tem certeza de que havia apenas esse?

— Olha, eu não vi mais nenhum. Sinceramente, já foi uma grande coincidência encontrar um desses aqui, não acho que vá ter mais. Eu diria que eles costumam andar em bandos apenas na Floresta Negra. Por mais que a barreira esteja cada vez mais fraca, dificilmente um bando inteiro passaria por ela.

— Mas, mesmo assim, ainda não podemos baixar a guarda.

Com essa frase de Kewy, Echis parece se lembrar de algo.

— Falando em guarda, onde estão os guardas que deveriam vigiar a barreira? Você viu algum deles?

— Eu também estava me perguntando isso, ainda não os vi.

— O que esses idiotas estão fazendo? Nem sei dizer o que poderia acontecer se não tivéssemos passado por aqui e encontrado essa Besta. Parece que não pensam nas consequências.

 Sempre deveria haver guardas com o trabalho de vigiar a barreira, para que nada passe por ela — seja pessoas distraídas de um lado, ou bestas sedentas do outro. Com isso, tornava-se desagradavel saber que eles ainda não estavam em seus postos. Ainda era o início da manhã, mas já deveriam estar lá desde o final do turno da noite. Kewy e Echel estavam em uma missão simples de entregar e pegar documentos na grande biblioteca do distrito e levar para a capital. Como seria uma viagem extremamente longa — 3 dias a cavalo — decidiram ir por um caminho um pouco mais longo para desfrutarem da paisagem. Foi realmente uma coincidência que acabaram se encontrando com tal ser vil.

— Vamos voltar para a cidade e pegar os documentos. Acredito que ainda temos de achar um lugar para passar a noite — disse Kewy.

— Ai ai. Verdade, o quanto antes terminarmos, melhor. Depois de pegar os documentos, que tal ir naquela padaria famosa?

— Hm? Qual?

— Aquele lá do… Bom, acho que você realmente não sabe. Mas de qualquer forma, tem uma padaria muito boa neste distrito. Quer passar lá e comprar umas coisas antes de voltarmos amanhã?

— Bom, acho que temos que aproveitar de alguma forma, não é? Se bem que… nos deram duas semanas para vir aqui e voltar. Talvez não seja um problema aproveitarmos esse tempinho.

 Ambos sorriem de forma amigável. Mas, claro, ambos também tinham seus objetivos. Echel compraria algo para sua irmã… e Kewy para a pessoa de quem gostava. Com isso em mente, chamam por seus cavalos e cavalgam até o portão do distrito. Deixando-os em um estábulo, caminhavam em direção a biblioteca mais famosa de Forthen: A Biblioteca Flyer. Claro, como eram basicamente turistas naquele distrito, não sabiam como chegar lá. 

— Tem certeza de que é só seguir em frente?

— …Você não sabe? — respondeu Kewy.

— Eu achei que você sabia! Se não sabe o caminho, então porque pegou a dianteira?! 

— Eu achava que você fosse me corrigir se estivesse no caminho errado…

— …

 Ambos se encaram e logo suspiram. Ainda era cedo, então poucas pessoas poderiam ser vistas neste momento, mesmo na capital do distrito norte, então era difícil pedir informação. Echis parecia inquieto, e Kewy indiferente. Em sua cabeça, apenas pensava ‘’bom, uma hora a gente acha’’. Claro, as únicas informações que tinham era que tal biblioteca ficava no centro do distrito, então, se caminhassem por todo lado, uma hora iriam achar. Mas claramente Echis não concordava com isso.

— AAAAA! Droga! Vamos procurar alguém e pedir informação!

— Acho que vai ser o jeito então.

 Não havia outra opção. Caminhar até achar seria realmente a última das últimas opções. Eles precisavam achar alguém. Era necessário pedir informação. Echis olhava ao redor desesperadamente, e Kewy… se concentrava no pássaro branco que passava majestosamente por cima deles. Sua cabeça, definitivamente, não estava no lugar certo. ‘’Tão bonito…’’ pensou.

De repente, Echis grita.

— Ali!

— Hm?

 Echis apontava para uma jovem garota de longos cabelos vermelhos e olhos azuis. Ela vestia-se de maneira um tanto incomum: um vestido exageradamente bem ornamentado cobria sua pele quase pálida. Além de tudo, segurava um livro ao peito.

Echis se aproxima dela de forma duvidosa.

— Oi, mocinha bonita, poderia nos dar uma informação?

— Não. Sai da frente.

 Nela havia um certo olhar de fúria. Certamente não estava em um bom dia. A garota respondeu de forma direta, mas era possível ver que ainda estava se controlando. Echis deveria terminar de atormentá-la e procurar outra pessoa para pedir informação, mas…

— Poxa, que garotinha mais irritada. Assim vai perder sua fofura, viu?

— Eu disse para sair da frente, seu imbecil!! Sabe ouvir não, é?!

— Ai!!

 Rapidamente a garota deu um salto. Seus cabelos ruivos balançaram com o impulso, e logo em seguida, ao cair, pisou com toda força nos pés de Echel. ‘’Mereceu’’ pensou Kewy. Echel era o tipo de pessoa extremamente fascinada por sua irmã mais nova, que se parecia estranhamente com a garota à sua frente. Provavelmente seu cérebro confundiu as coisas.

— Oh, perdão, mas realmente precisamos de uma informação. Poderia nos ajudar?

 Quando Kewy se aproximou, chamou a atenção daquela garota. Ela, à primeira vista, olhou para ele com um olhar de ‘’quem é o próximo!?”, mas logo sua expressão ficou… complicada.

— …!

 Suas sobrancelhas se levantaram, e o rosto enrubesceu. Dava para ver o espanto percorrendo por todo seu corpo. Por um momento seria possível até mesmo ver um pouco de sua respiração que mudou drasticamente de um momento para o outro. 

— Desculpa, está com algum problema, senhorita?

 Se agachou para ficar na mesma altura da pequena garota. Ela provavelmente tinha por volta dos doze anos, mas seu tamanho era um pouco abaixo da média. Kewy sorria gentilmente enquanto encarava aqueles lindos olhos azuis. 

— Posso perguntar seu nome?

— C-claro… Lo-lo-lo-i-se-Fly-er

— Lololoise Flyer?

— Não! Louise Flyer!

 Sua respiração ficava cada vez mais rápida. Seus olhos pareciam não saber se desviavam ou se fitavam aquele olhar forte que a fixava. As mãos tremiam de maneira anormal, e seu pequeno corpo suava aos montes.

— Louise, você está bem?

— ..!!!!!

 Avançou e segurou nas pequenas mãos que tremiam. Era possível sentir sua pulsação. Porque seu coração batia tão rápido?

— O-o que você quer?! F-fale de uma vez!!

 Louise afastou-se rapidamente, quase tropeçando, e exclamou logo em seguida. Escondeu suas mãos ao cruzar os braços e desviar o olhar. Parecia mais calma.  

Com isso, Kewy se levantou, ainda com seu gentil sorriso, e a perguntou calmante:

— Desculpa o incomodo, mas, por acaso, poderia nos informar o local da Biblioteca Flyer? Se bem que… este é seu nome, não é?

— Sim. Claro. Foi isso o que eu disse, não foi? Não fica muito longe, apenas andem reto e vire na próxima esquina. Pronto. Já podem ir agora. Xô xô.

 Ela movia as suas mãos, agora mais calmas, de uma maneira como se quisesse espantar um animal. Claro, Kewy não se importava com isso, mas Echis parecia um tanto irritado. Na verdade, não estava realmente irritado, mas ainda gostaria de pegar no pé daquela garota.

— Você não está agindo de maneira muito desrespeitosa? Na minha época isso se pagava com o cor… GRHH!

— Já não falei para você calar a merda da boca!?

 Quando Echis se aproximou novamente daquela ”adorável” garota, ela o recebeu com um chute… em um lugar complicado. Até mesmo Kewy, nesse momento, teve um pouco de pena de seu companheiro. Mas, de qualquer forma, ele merecia.

— Muito obrigado por nos ajudar. Agradeço de coração — Kewy, ignorando Echis, sorriu com a mão no peito.

 Seu amigo ainda estava caído no chão, agonizando de dor.

— Hm… não… precisa agradecer…

— Com ele você fica toda fo-…

— Hm!?

— …!

 Apenas seu olhar ameaçador foi capaz de calar a boca de Echis. Sua aura era pesada e imponente, provavelmente assustava qualquer um que a conhecesse. Embora tudo, nela havia certa elegância. Sempre mantinha uma pose nobre, e seu linguajar se voltava a ser rico e formal. Certamente uma moça bem educada. Ela olhou para Kewy, um pouco envergonhada, e perguntou ‘’Isso foi tudo, certo?’’. Em um encantador sorriso, Kewy diz que sim e agradece novamente. Com isso, Louise sai, com seus longos cabelos ao vento e sua roupa deslumbrante. O ar, por algum motivo, parecia ter ficado mais leve.

— O que um rosto bonito não faz, heim?

— Foi você que provocou.

— Como eu ia saber que toparia logo com um demônio desses?!

 Ambos veem a silhueta de Louise se desfazendo aos poucos.

— Ela parece estar saindo da cidade…

— Deixa ela quieta e vamos logo entregar isso — respondeu Echis, após se levantar e limpar seu manto, tocando de leve na bolsa que carregava no ombro.

 Então foram andando. Seguiram as instruções da doce menina e encontraram a Biblioteca Flyer. Ao chegarem, foram recepcionados por uma mulher ‘’muito bem nutrida’’, dizia Echis com um olhar maldoso para seus seios. Claro, ele não se conteve e deu em cima da moça. No final, apenas descobriu que a mesma já havia casado. Após isso, finalmente entregaram os documentos. Depois de desaparecer por um tempo, ela volta com uma boa quantia de papel e diz para entregar à capital. Echis, que estava um pouco irritado, interrompeu e disse ‘’viramos carteiros agora?’’. Sua intenção era fazer uma piada, mas apenas recebeu um triste suspiro da recepcionista. O suspiro poderia ser traduzido como: esse aí não tem salvação.

— Se não fosse casada, essa aí já era minha.

— Sim. Claro — respondeu com ironia.

 Ao saírem, perceberam que a rua já estava bem movimentada.

— Então, vamos?

— Hm?

— Para a padaria lá, lembra não?

— Até lembro, mas não sabemos como chegar.

— Errado errado, meu amigo — com os fechados e balançando o dedo indicador de um lado para o outro, Echis continua — antes de vir para cá, eu pesquisei onde era essa padaria, e ainda tenho uma perfeita imagem mental de onde fica.

— Você… é realmente um idiota.

 Quando Echis percebeu que podia ter decorado o caminho para a biblioteca, respondeu com um: ‘’Ah, é mesmo’’. Era uma burrice quase cômica, mas Kewy sempre se divertia com essas palhaçadas. Então, ambos foram em direção à famosa padaria do distrito norte. Não ficava muito longe da biblioteca, mas já havia uma boa quantidade de pessoas nas ruas. Diferente da Capital Central, este distrito se tornava bastante valorizado por sua educação excepcional, então, em dias comuns, seria possível ver inúmeros estudantes indo para suas escolas neste horário. Por incrível que pareça, não havia tantos quanto Kewy imaginava. Provavelmente deveria ser algum tipo de feriado do qual desconhecia. 

 Chegando a padaria, foram recepcionados por um jovem e saudável rapaz de cabelos castanhos.

— Bem vindos. 

— O-olá — diz Echis, a fim de ser formal como o garoto.

— Viemos de longe para visitar essa padaria.

— É um prazer poder recepcioná-los.

 Echis se sentiu assustado, mas não impressionado, ao ver seu companheiro se adaptando rapidamente ao clima do local. Kewy, assim que chegou se sentou em uma mesa perto da janela e logo conversava sem muitos problemas com o jovem garçom. Era um belo garoto, por volta dos 12 anos, que vestia uma roupa formal demais para sua idade, provavelmente por causa do seu trabalho. ‘’As crianças aqui são bem diferentes, não é?’’ pensou Kewy com um sorriso. Logo após Echis sentar-se no lado oposto de seu colega, ele vasculha um cardápio feito meticulosamente de madeira. Embora tudo, perguntou ao garoto garçom antes de pedir algo.

— Olha, é comum as crianças aqui trabalharem nesse horário? 

 Embora fosse uma pergunta rude, Kewy também tinha certa curiosidade sobre isso.

— Hoje começa a mudança de estação para o inverno, então não teremos aulas por um tempo. Foi minha escolha ajudar meu pai nesta manhã.

— Entendo… 

— Vou querer um pão recheado e um chá. Para viagem, meia dúzia de pão de mel.

 Kewy rapidamente decidiu por continuar com seu objetivo principal. Além de tudo, realmente estava faminto. Mas Echis, com certa falta de educação, continuava a conversar com o garoto.

— Essa padaria é de seu pai então, hum… e sua mãe?

— Echis!

— Ah, não se preocupe, eu não me importo de conversar um pouco. Afinal, o horário de pico é somente à tarde.

 Kewy não aguentou a falta de consideração de seu companheiro. Perguntar sobre os pais de uma criança nunca é uma boa escolha. Seus pais poderiam estar muito doentes ou mortos, sempre causando um certo desconforto. Mas, amigavelmente, o garoto não parecia se importar muito com a insensibilidade daquela pessoa da qual não conhecia. Com o alerta de Kewy, Echis percebeu que estava sendo muito intrometido e logo se desculpou. O jovem garçom respondeu, com um sorriso, a pergunta anterior.

— Minha mãe é alérgica a trigo, então ela trabalha em outro lugar. Na biblioteca de Flyer.

— Vou querer o mesmo que o meu amigo!

 Echis logo virou seu olhar para a janela ao lado e falou, quase que gritando, o seu pedido. Kewy só conseguia rir baixinho enquanto via o rosto de seu amigo ficar tão vermelho quanto um tomate. ‘’Que mundo pequeno’’ pensou Kewy.

Após anotar os pedidos, o garoto, ainda com um grande sorriso no rosto, se dirigia ao balcão. Mas logo foi chamado por alguém na entrada do lugar. 

— Hm?

 Eram 2 garotas, uma alta, e outra um pouco mais baixa. Echis, que observava de relance, pensava ‘’que garoto popular’’. Mas, embora tudo, esse foi o único momento no qual o rosto do garoto demonstrava certo incômodo. Ele se dirigiu calmamente até a porta e perguntou, educadamente, se gostariam de algo.

— N-nos desculpe! – falaram em sincronia abaixando a cabeça.

 Seus rostos mostravam sinceros arrependimentos sobre algo. Kewy tentava ignorar o máximo possível, mas Echis estava bastante curioso e acompanhava aquele drama.

— Ah, n-não precisam disso. Eu que fui estranho.

— Mas foi muito desagradavel de nossa parte ter feito aquilo com você, Finn — a mais alta respondeu.

 Kewy olhava fixamente para seu companheiro. Seu olhar dizia ‘’ignore-os, seu mal educado’’. Depois de um tempo, o garoto, chamado Finn, agradeceu as desculpas que recebeu e as convidou para tomar um chá. Voltando para o balcão, ele entregou os pedidos para o padeiro e o mesmo rapidamente os preparou. Finn voltou segurando uma bandeja com os pedidos de Kewy e Echis. Logo por seguinte, sentou-se com suas amigas em uma mesa no canto da loja.

Echis finalmente voltou sua atenção a Kewy, que já bebericava seu chá.

— Eu estava pensando, para quem são esses pães de mel que você pediu para viagem também? Não me diga que… é para uma garota? Hehe.

— Bom, sim — dizia com um sorriso.

— Me conta aí, quem é a sortuda?

— Hm… Você também comprou alguns para alguém, não foi? Por que não diz primeiro? Se bem que…

— Sim, são para minha preciosa irmã.

— Grh!

— Ei, você tá bem?

 Kewy acabou se engasgando com o chá que tomava. Por algum motivo, agora ele estava suando frio.

— Espera… que olhar é esse?

— … — desviava os olhos.

— Kewy.

— Hum?

— Nós… somos amigos, não somos?

— S-sim.

— Então nós não mentimos um para o outro, certo?

— …

— Me fale…

 Não era possível saber com precisão se aqueles eram os olhos mais sérios que Kewy já tinha visto, mas eles emanavam uma intenção assassina tamanha que suas mãos começaram a tremer.

— Esses pães que você comprou… não são para a minha preciosa irmã… são?

  Após isso, Kewy fugiu do estabelecimento quando viu seu amigo conjurando uma fórmula mágica de nível desconhecido. 

8

 Eu acordei. A primeira sensação que tive foi a do frio que congelava tanto dentro quanto fora de mim. Meus órgãos latejavam em dor, e meus ossos rangiam a cada mínimo movimento. Tentei abrir os olhos, mas as pálpebras estavam congeladas.

— …

 Com dificuldade, movo as mãos até meu rosto. Forço os pulmões, que ardiam, em um sopro abafado. Tento uma vez. Duas. Três. O que doía antes apenas piorou agora. Mesmo uma tentativa de aquecer as mãos e derreter o gelo nos olhos era doloroso. 

 Inspiro todo o ar que consigo. Sinto algo em minha traqueia se quebrar como vidro. E então…

— Ah…

 Expirei todo o ar preso nos pulmões em minhas mãos que formavam uma concha no rosto. Finalmente o gelo que prendia as pálpebras cedem e consigo, com muita dor, abrir os olhos.

— …

 O que observo em minha frente é um cenário branco. Era o mesmo lugar onde eu estava antes, mas, dessa vez, a neve o cobria por inteiro. Minhas mãos, pés, braços… todos tremem incontrolavelmente. Mas, por algum motivo, estou vivo.

— O que… está acontecendo?

 Aos poucos, memórias de quando ainda estava acordado invadem minha mente. Eu dormi aqui? Mas, então, como ainda estou vivo? Não… mais importante do que isso, o que aconteceu? Antes de desmaiar, eu senti algo. Minha cabeça havia pesado e a consciência cedeu logo por seguida.

 Tento levantar, com muita dificuldade. Mas o esforço foi em vão e apenas caí de novo.

— Grh…

 Me ergo com as mãos, ainda trêmulas e dormentes, para o chão e tento novamente me levantar. Com isso, consigo ao menos sentar-me devidamente e refletir um pouco.

— Que frio…

 Envolvi os braços sobre meu corpo enquanto tremo por causa do frio intenso que me consumia. Não sei como ainda estou vivo, mas isso é o de menos agora.

 Olhando para o arredor, percebo que há algo enterrado em neve ao meu lado.

— …

 Estico o braço para pegar aquilo… Não. Na verdade, percebo que são duas coisas. Minha curiosidade ganhou da vontade inútil de me aquecer, e logo foquei os olhos somente nisso.

 Tiro a neve que os escondia e…

— Um… livro?

 Não é algo raro de se encontrar em uma floresta. Muitas pessoas vêm de longe para poderem ler ao ar livre. Mas, esse livro tem algo diferente.

— Esses símbolos…

 Logo na capa, eu vi um título. Por algum motivo, no lugar onde deveria ser o nome do livro, tem algo diferente. Símbolos dos quais não conheço. Mas… sei o que significam. É como se eu já os conhecesse.

— ‘’O Mundo de Tykon’’ — leio o que acho que está escrito.

 Resolvo depois pensar o que isso significa. Não é a hora e nem o lugar para me dar o luxo de ler um livro. Por mais curioso que eu esteja, isso fica para mais tarde.

 Logo observo o que estava ao lado dele…

— Isso é…

 Uma espada! Certo, não há explicação para ter uma espada em um lugar como esse. Ela definitivamente não é minha. E além de tudo, estávamos aqui antes —  eu e a Qynn viemos há pouco tempo — como não vimos isso?

 Quando eu a tiro da bainha, vejo uma longa e bem ornamentada espada negra com tons dourados. Ela realmente chamaria minha atenção se eu a tivesse visto antes. Foi alguém que a trouxe aqui? Sou um pouco distraído, mas certamente a Qy-…

— Qynn!

 Logo me dou conta dela. Eu preciso vê-la. Sinto que algo está errado desde o começo. Meu coração começa a bater mais rápido. Desespero. Por algum motivo, também sinto medo.

 Me levanto rapidamente após devolver a espada à bainha. Seguro o livro em uma mão e a espada na outra, e então dou o primeiro passo…

— Ahg…

 Apenas para me desequilibrar e quase cair novamente. Mas dessa vez…

— Não posso parar. Algo de errado está acontecendo. Eu não posso…

 Dou o segundo… terceiro… quarto passo. Logo ignoro a dor latejante em todo corpo. Os meus pulmões estão congelados, braços e pernas estão tremendo, mas não vou parar. Tenho que ignorar essas dores e seguir em frente. Tenho que seguir.

 Começo a correr…

9

Corria desenfreadamente.

— Arf…Arf…

 Os pulmões, que já doíam, agora latejavam brutalmente. As pernas cambaleavam e as mãos doíam por causa do frio intenso. Haviam mais do que muitos motivos para parar logo ali, mas apenas uma coisa o impedia.

— Qynn…

 A imagem de sua noiva sorridente já era algo enraizado em suas memórias. Se algo poderia mudar isso… O fato de imaginar algo acontecendo com ela… o fato de apenas imaginar que ela poderia estar em perigo… era tão assustador e tão agonizante quanto a dor que sentia. 

 E, além de tudo, agora algo confirmava sua teoria de que alguma coisa havia acontecido.

— Esses gritos! Essa fumaça no céu! 

 Não muito longe do portão principal que levava à capital, já se podia ouvir gritos. Quanto mais se aproximava, mais alto e límpido era o som. O barulho de espadas e metal se chocando ecoava pelos ares. Uma guerra? Uma luta? Um massacre? Algo estava acontecendo e isso o movia. 

— Arf… Arf…

 Corria. Cada passo era doloroso, mas corria movido à sua determinação. O portão de entrada estava próximo. Os gritos e barulhos estridentes ficam gradualmente mais altos. Ele sentia que o que seus ouvidos ouviam poderia ser o próprio barulho do inferno em terra.

 E finalmente passando pelo portão de entrada…

— …!

 Percebeu que não eram só seus ouvidos que captavam o inferno. O que seus olhos viam estava muito além disso. Além de qualquer coisa que imaginava. Além de seus piores pesadelos. A respiração parou no momento que os olhos captaram o que estava acontecendo e seu cérebro, com dificuldade, processa essa informação logo em seguida. O que ele via em sua frente era…

— O QUE DIABOS VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO FAZENDO?!!

 Os próprios soldados de Forthen atacando civis inocentes. Um genocidio em massa.

 Vermelho mórbido era o que pintava aquele cenário horripilante. 

10

 Sangue. O branco da neve junto ao vermelho dos inocentes mortos tornava-se o que se via naquele lugar além do inferno do qual se poderia imaginar. Seus próprios aliados… os próprios soldados de Forthen eram aqueles que levantavam a espada para quem deveriam proteger acima de tudo.

— Morra, demônio infernal!! — gritou um soldado enquanto cortava a cabeça de uma mulher que corria com seu bebe em mãos.

 Não era apenas isso. Casas estavam em chamas e podia-se ver pessoas ardendo em fogo. Mesmo aqueles soldados dos quais não tinham armas estavam matando as pessoas com as próprias mãos. Crianças, mulheres, idosos, homens, ninguém conseguia fugir deste cenário horripilante.

— …!!!

 Crianças corriam e gritavam antes de serem mortas brutalmente. O som de bebês chorando alto só não era mais assustador do que quando paravam. O fedor de carne morta percorria por todo o lugar. O cheiro do sangue pairava no ar como se já estivesse fundido a ele. 

 E, em meio deste caos, lá estava ele…

— …!

 O cérebro raciocinava, mas sua boca não conseguia acompanhar a quantidade de palavras que queria dizer, e isso podia ser quase sufocante. Mas, antes mesmo de falar, tinha de agir. Quando viu um homem proteger seus filhos enquanto era atacado por um soldado de Forthen, correu para impedir o pior de acontecer o mais rapidamente.

— Nããão!

 Mas não foi o suficiente. Antes que chegasse, uma longa espada já perfurou o peito do homem, cujo sangue jorrou na criança da qual protegia. 

— RHAAAAAA!

 Antes que percebesse, já havia desembainhado a espada que ainda estava em suas mãos. Uma espada longa, negra e ornamentada em tons dourados atravessou o corpo daquele que deveria ser seu aliado. Este não era o momento para pensar em outras coisas, mesmo seus companheiros estando fora de si, ainda tinha a obrigação de proteger os civis.

 Sangue descia da lâmina como se encontrasse seu lugar ali. O soldado teve as costas perfuradas pela espada e lentamente foi deslizando até cair no chão.

— Arf… arf… — Kewy suspirava enquanto suava frio perante o que estava vendo.

 O soldado contorcia-se em dor enquanto a ferida que atravessava seu corpo ainda jorrava mais e mais sangue. Mas havia algo de errado. Ao se virar para Kewy…

— Maldita besta… Eu… vou proteger a minha família… Eu vou matar todos vo… Guh…

 Sua boca espumava, e seus olhos estavam tão vermelhos quanto o próprio sangue que cobria o chão onde estava. Não havia mais razão naqueles olhos. Não havia nem mesmo mais vida neles. Com um último esforço de seus pulmões, tentou falar algo no qual não conseguiu dizer por completo… mas foi o suficiente para que Kewy desse um passo para trás e se assustasse com o que tinha acabado de ouvir.

— ‘’Demônio’’… ‘’Besta’’… o que está acontecendo…?

 Algo definitivamente estava errado. Os soldados de Forthen nunca agiriam assim. Suas palavras não faziam sentido,  e além de tudo, seus rostos claramente demonstravam loucura. Kewy olhava para o cadáver em sua frente enquanto pensava em razões para isso. Mas a conclusão que chegou foi a de que não deveria pensar… deveria agir como pudesse. Tentaria abandonar seus pensamentos, isso poderia ficar para depois. Haviam coisas mais importantes. Ao invés de se preocupar com os motivos, tentaria se ocupar em resolvê-los o quanto antes… Foi neste momento que se lembrou do homem que acabara de morrer protegendo seus filhos.

 Se virando, ouviu:

— Pai… pai… porque você… — lágrimas caiam do rosto da criança.

Logo percebeu quem eram:

— Tommy… Emmi..

 Tommy segurava sua irmã nos braços — a qual permanecia desacordada — enquanto estava ajoelhado chorando ao lado de seu pai do qual perdeu a vida. Lágrimas jorravam desenfreadamente de seu pequeno rosto. Uma dor aguda invadiu o coração de Kewy nesse momento. Nunca o tinha visto daquele jeito. O garoto soluçava, esperneava, fungava e chorava. Mas logo quando Kewy se aproximou… ele percebeu sua presença.

— Não!! Sai!! Vai embora!!!

— Hãm?

 Quando o garoto se virou para Kewy, percebeu que seus olhos também estavam vermelhos, e a saliva caía de sua boca. Isso não era por causa do choro, o homem do qual Kewy havia matado também estava igual. Tommy provavelmente sofria o mesmo que ele…

— …?!

 Ao voltar-se para trás tentando comparar os rostos, procurando o soldado que acabara de matar, não encontrou nada. Não havia nada no lugar onde ele havia caído. Na verdade, ‘’nada’’ seria muito forte. Suas roupas e armadura ainda estavam no mesmo lugar. Apenas seu corpo havia desaparecido, como pó. Era como se estivesse se fundido com a neve.

 ‘’Isso também vai acontecer com o Tommy e Emmi?’’, pensou. Se voltando novamente para os dois:

— Tommy! Sou eu! Eu vim ajudar!

 O garoto já corria para longe com sua irmã. Talvez nem mesmo pudesse ouvir as palavras de Kewy. Mas isso não fazia sentido. Não poderia estar enganado. ‘’Não!! Sai!! Vai embora!!!’’, foram as palavras dele antes de sair correndo. Também parecidas com as palavras do soldado ‘’maldita besta’’. O que estava acontecendo?, se perguntava. Poderia continuar ignorando a razão e apenas focar e resolver o problema? Agora percebeu que não. Não poderia resolver algo do qual nem mesmo ele conhece. Mas…

— Qual é o problema deles…? Algo está errado. Isso não está certo! O que está acontecendo aqui!!

 Já repetiu essas palavras antes, mas as dúvidas sempre o atormentavam cada vez mais desde que chegou à cidade. Precisava saber o que estava acontecendo… mas como? Isso era algum tipo de doença? Uma magia desconhecida? Envenenados? Mas, de qualquer forma, por que apenas ele que não? Por que estava bem enquanto todos os outros estavam claramente mal? A sua cabeça doía e latejava na busca de respostas das quais não sabia. Mas… antes de qualquer coisa, ainda havia uma pessoa da qual teria de encontrar. Se todos estivessem daquele jeito, muito provavelmente ela estaria com problemas. Não queria acreditar nisso. Tentava agarrar-se no fio de esperança, quase invisível, do qual Qynn estaria tão bem quanto ele. Queria mentir para si mesmo. Queria enganar a sua própria racionalidade apenas para acreditar nisso. ‘’Ela está bem, tenho certeza disso’’, pensou. 

 Com isso, começou a correr. Tudo ao redor estava envolvido em matança junto ao vermelho vibrante do sangue. Fumaça saía das casas e as pessoas continuavam gritando e correndo sem parar. Gritos era a única coisa que podia-se ouvir nesse inferno… mas, mesmo assim, estava confiante de que ela estivesse bem. Queria isso. Desejava isso.

11

 A neve continuava caindo. O fedor do sangue fresco ainda dominava o terreno. A situação ainda não havia mudado muito… se não fosse por um único fator: os gritos. As vozes das pessoas gritando em agonia simplesmente pararam. O silêncio permanecia no local. Apenas o som do vento gélido passando pelas suas orelhas podia ser ouvido. Kewy já estava em frente de sua casa, a mesma da qual morava com sua amada. Foi naquele lugar onde passaram momentos felizes e tristes. Foi naquele lugar onde sempre conversavam e riam juntos. Memórias de tempos passados invadiram sua cabeça, trazendo uma dor latente em seu coração.

 Aqueles olhos que lembravam jóias, o cabelo vermelho como fogo, seu cheiro doce pela manhã sempre que acordava, aquela expressão de felicidade sempre que ajudava alguém…

 Kewy estava lá, com uma respiração irregular e batimentos frenéticos. A casa em sua frente era feita de pedra polida e madeira. Uma ótima residência, não muito luxuosa, mas também nada ruim. Era uma moradia confortável e tranquila. 

 Em passos lentos, aproximou-se da porta.

pock pock pock

— Hm…?

 Bateu nela levemente para chamar a atenção de quem deveria estar lá dentro, mas, com as leves batidas, a porta se abriu lentamente por causa do impacto.

— Já estava aberta?

 Embora fosse um lugar agradável e sem criminalidade, animais e bichos sempre podiam entrar. Por mais que fosse a capital de Forthen, em uma boa localização, nunca era bom deixar a porta aberta, Kewy sempre a alertava disso. Mas, dessa vez, por algum motivo, estava aberta. Sentiu sua própria respiração pesar, e começou a suar, mesmo no frio intenso do gelo.

— …

 Ao entrar, percebeu um barulho, algo além do som dos seus passos ao ranger do chão de madeira. Um barulho que era quase rítmico, porém, de algum modo, um tanto agonizante. Algo batia no chão com força. Não sabia o que era, mas sabia que ela deveria estar nessa casa. Qynn havia dito que prepararia o jantar, logo, deveria estar em casa. Os passos do rapaz se apressaram para onde deveria ser a cozinha, mas ao ouvir um tipo de grunhido, parou de repente.

— Grr… Grr!!!

pack… pack… pack…

 O barulho assustador que estava ouvindo até então se tornou mais forte e rápido. Havia alguém em sua casa, agora tinha certeza. Mas o que era esse som agonizante que tanto ouvia? Algo metálico acertava o piso de madeira um pouco depois de perfurar algo mole. O barulho era tão assustador que por um momento Kewy achou que seus ouvidos sangrariam.

 Mas tomou coragem. Deu o primeiro passo em direção a cozinha, da qual vinha o dito barulho. Precisava ver o que era, mas desconfiava de que não poderia ser humano. Ao chegar nesta conclusão, segurou a espada em suas mãos com força, e tentava deixava os próprios passos mais leves.

— Grr!!! GRRH!!!!

PACK! PACK!! PACK!!!

 O barulho ficou mais frenético. Algo acertava o chão com força ao cortar alguma coisa, e grunhidos pavorosos podiam ser ouvidos. Um animal feroz estava lá, pensava. Ao concluir isso, esqueceu-se de abafar os passos e correu desesperado enquanto desembainhava sua espada. 

Mas, ao finalmente chegar na cozinha…

— …?!!!

— Grr!!! Grr!!! Grr!!!

PACKPACKPACKPACKPACKPACK!!!!

 Teve a sensação do coração estagnar. O ar parou de chegar em seus pulmões, e se negava a raciocinar o que via, mas isso não era possível. Não era possível negar a realidade que estava à sua frente neste momento. Largou a espada e caiu de joelhos enquanto encarava a cena repugnante que via. 

 O carmesim de seu brilhoso cabelo balançava desvairadamente enquanto cortava algo com uma grande faca de açougueiro. O vermelho que pintava o cômodo era agônico e nauseante. Havia sangue espalhado nas paredes, cadeiras, mesa, e até mesmo no chão onde estava. Cortava algo… não… alguém. Qynn estava em cima de uma pessoa enquanto a fatia em pedaços loucamente. Essa pessoa… era Tommy.

— Guh… Guah — vomitou

 Segurou-se, mas o que via era tão repulsivo que não aguentou. Vomitou ali. Por que isso estava acontecendo? Afinal, o que estava acontecendo desde o princípio? Tentou diversas vezes negar o que via, apenas para descobrir que isso não seria possível. Mas precisava mudar isso. Precisa se erguer. Não podia ficar ali parado. Levantou-se, com dificuldade, e caminhou até sua amada.

— Grr!!! Grr!!!!

— Qynn… você…

 A chamou pelo nome enquanto ela ainda esfaqueava o cadáver. Ao virar e seus olhos cruzarem-se, viu nada mais do que um ser vivo sem mais raciocínio nos olhos. Era como se visse um animal. Os olhos estavam tão vermelhos quanto sangue em sua roupa, e a boca espumava. As mesmas coisas que aconteceram com as outras pessoas agora estavam acontecendo com ela. 

— Qynn… sou eu. Kewy. Você não se lembra de mim?

 Ela então se levantou calmamente. Sangue impregnava sua roupa completamente. Se encararam em silêncio por alguns segundos… para então.

— … 

 Lágrimas escorriam de seus olhos vermelhos.

— Qynn!

 Aproximou-se dela a ponto de segurar seus pequenos ombros. Parecia insegura. Estava com medo. Kewy já podia reconhecer de longe os sentimentos de Qynn, a pessoa que amava. Ela provavelmente ainda sentia o mesmo, não se esqueceria de Kewy, iriam casar no dia seguinte. Eram apaixonados um pelo outro…

— Maldita besta infernal.

— Gah!

 Ou era isso que pensava. Algo afiado atingiu seu peito e uma dor excruciante percorria pelo corpo. Ainda com um objeto no peito, deu alguns passos para trás até finalmente cair no chão. Com o impacto, a faca saiu do peito… porém… O mundo se escureceu. Em sua visão, a exímia face da loucura aparecia. Aquela não era a Qynn, não podia ser. Seus pensamentos se embaralham, se lembrava de momentos distantes, memórias felizes. Seu sorriso, sua pele delicada, os cabelos tão finos quanto fios de algodão, aquele rosto gentil e delicado… essa não era a Qynn que tanto conhecia.

— Aahg…

 Algo quente começou a sair de sua boca, não sabia se era sangue ou restos de vômito. 

 Nesse mundo, a linha entre a vida e a morte era tênue, mas, mesmo assim, Kewy temia a falta da vida em si. Ele estava com medo, medo da morte adiante.

Não quero… não quero morrer… ainda não… ainda não… ainda não… por favor…o que está acontecendo aqui, afinal..? não. não. não. não. ainda não. ainda não. Estou com medo, não quero morrer… não quero morrer… quero… não… morrer…

 Sua mente, instintivamente, rejeitava a morte, mas isso só causava mais e mais dor para si. Aos poucos, viu o mundo se preencher em branco, e assim descobriu que sua vida já se ia. Não existia nada mais puro e natural do que o fim da vida, mas isso não se justificava, ainda era egoísta o suficiente para se agarrar no mais fino fio de sua existência. Mas claro… tudo o que vivo um dia morre, e isso não foi diferente para Kewy Nawick.

Ah… estou morto — pensou antes da vida se esvair por completo e também ouvir algo cair no chão.

12

 Um vento gélido balançava seus longos cabelos vermelhos enquanto via a cidade ao longe. Uma garota que sentia dor em seu peito enquanto se perguntava ‘’por que?’’. Talvez não fosse possível mais ninguém perceber isso, mas ela estava prestes a derramar lágrimas. 

 Lá estava ela, Louise Flyer, observando o cenário ser tingido de vermelho.

— Mestra… esse era realmente o melhor caminho?

 Fazia esta pergunta para quem já não estava mais presente. Neste momento, sozinha, sentia algo em seu peito arder. Mesmo não mostrando se preocupar com o que ocorreria, não conseguia controlar seus verdadeiros sentimentos. Pessoas das quais gostava foram mortas… mas sabia que este era o único jeito de garantir um futuro… Aquela pessoa havia dito assim. Louise sabia que sua mestra nunca estaria enganada… mas.

— …

 Então por que sentia essa dor? Por que sentia como se o mundo fosse desabar? Não sabia explicar isso. A consciência pesava, e a respiração parecia irregular. Isso não era sua culpa, era? Poderia tê-la impedido… poderia tê-la aconselhado… 

 A sua cabeça latejava enquanto pensava nas vidas que foram perdidas… mas isso só durou até o momento de alguém a chamar.

— Louise! Tá frio pra caramba! Vamos logo embora!

 Abaixo da árvore onde estava, um garoto a chamava. Ele usava um óculos incomum, palavreado incomum e roupas que nunca tinha visto na vida, mas o conhecia.

— Você é mesmo um imprestável, não é? 

— Tá, tá, sou um completo imprestável. Agora desce logo daí!

 Ele era Tauri Écrinos, uma pessoa, sem dúvidas, misteriosa. Mas sua mestra confiava nele, então, logicamente, também o imaginava como uma pessoa de confiança… ou tentava. 

 Decidindo que iria descer, deu uma última olhada para a Cidade Norte de Forthen com certo pesar nos olhos, ainda sentia aquela sensação… mas agora já não estava mais sozinha. Com a mão no peito, confirmando o que sentia, soltou um longo suspiro e então desceu da árvore em um pulo.

— Isso foi para parecer legal?

— Cala a boca.

— Ai, que agressiva. 

13

 O mundo estava escuro, não podia ver nada. Era como se estivesse no fundo de um oceano, não conseguia respirar. O breu da escuridão era quase cegante. Não era possível saber se estava com os olhos fechados ou abertos. Nunca teve essa sensação antes, era assim que se parecia a morte? Não sabia, mas por algum motivo estava calmo. Sentia como se todo o peso da vida tivesse ido embora. Era como estar liberto de correntes que prendiam o seu verdadeiro ser. 

 Paz. Era isso que sentia… sentia paz. Sabia que estava morto, tinha consciência disso, mas… espera… consciência?

Hm?

 Conseguia pensar. Conseguia raciocinar. Isso não deveria acontecer, certo? Essas coisas eram o que distinguiam a vida, pelo que sabia. Mas, por algum motivo, estava consciente de si.

O que está acontecendo…?

 E então, sentiu o cheiro de algo… uma coisa doce. Isso estava certo? Espera, conseguia respirar?

— Vai ficar aí, dormindo, até quando, heim?

 Ao ouvir a voz, algo como um choque o fez despertar. De repente, abriu os olhos. Uma claridade assustadora fez suas pupilas doerem. Foi quando percebeu que estava tapando os olhos com as mãos. Conseguia se mover… Estava vivo?

— Eu esperava que você ficasse mais tipo ‘’whuaa!!’’, sabe?

 Em sua frente, via uma garota. Seus longos cabelos de diversas cores eram ainda transparentes, e sua pele não era diferente. E não apenas isso: a íris de seus olhos formavam estrela. 

 Com roupas rebeldes de diversas cores que mostram bastante a pele, aparentava seus doze anos, mas, embora o longo cabelo, Kewy não sabia dizer se deveria ser menino ou menina.

— Q-quem é você? E onde eu estou?

— Que frasezinha mais clichê, não acha? Mas, tipo, meio que essas devem ser as principais perguntas de quem se depara com uma pessoa que não conhece em um lugar desconhecido, não é? Entendo…

 Ela, com a mão no queixo, parecia estar realmente pensativa, mas Kewy apenas estava assustado. Olhando ao redor, percebeu que não estava mais onde deveria — em sua casa — , mas em um lugar que nunca tinha visto antes. Se impressionou quando percebeu que tudo o que via em torno de si era…

— Doces?

— Legal, né? Essa é a minha casa, e eu a chamo de: Doce Lar. Um lugar onde tudo o que é servido são doces e chás… inclusive, pode tomar esse daí, se quiser.

— …

 Kewy estava sentado em uma cadeira, em frente àquela criança, onde o que estava entre os dois era uma longa mesa de doces.  Havia uma xícara de chá quente ao alcance de suas mãos. Hesitou por um instante, mas já tinha perdido a vida, então não estava mais se importando com o que poderia acontecer. Porém, no momento em que levantou a xícara…

— hm?

 A garota estava em pé, apoiando as duas mãos na mesa, claramente empolgada com algo enquanto encarava Kewy. Não sabia se aquele sorriso infantil era meigo ou assustador, mas estava um pouco desconfortável com aquilo.

— Vamos, vamos, vamos! Não vai beber? Bebe. Bebe logo, vai! Por favoooooooor.

— Por que essa…

— Vai logo!

 Suas expressões eram muito infantis para que fossem falsas. Ela estava verdadeiramente animada para que Kewy provasse do chá… embora não deixasse de ser estranho.

— …

Glup

 Estava um tanto quente para seu gosto… e também muito… não… exageradamente doce. Tão doce que não conseguiu disfarçar uma leve careta que deu.

— Está… ruim…?

— …!

 Uma triste expressão infantil apareceu em seu rosto, uma da qual fez Kewy sentir uma pontada no coração. Assim que percebeu que ela estava, de alguma forma, decepcionada, engoliu todo o líquido da xícara de uma só vez. Um pouco do chá desceu pela lateral de sua boca. Muito, muito, muito, doce. Alguém definitivamente poderia morrer tomando aquilo. Mas, por incrível que pareça, a garota mudou sua expressão, e agora parecia feliz.

— Então! Fala! Gostou? Gostou, né? Muito bom, certo? Haha!

— É… realmente… nunca provei algo tão… doce — um sorriso amarelo apareceu em seu rosto.

— Haha! Sabiá! Geralmente as pessoas que vem aqui não gostam do meu chá, então eu boto cada vez mais açúcar. Quanto mais doce melhor, certo?

 Pensava e falava exatamente como uma criança.

— … é… mas, de qualquer forma, poderia responder às minhas perguntas agora?

— Ah, é mesmo, ainda não me apresentei.

 E então, ela se levantou como num salto. Seus cabelos coloridos eram tão finos que pareciam flutuar a cada leve movimento. Abriu os braços, como se quisesse dar ênfase no que fosse dizer, e falou em voz alta:

— Eu me chamo Tykon, e sou a deusa deste mundo! — agora apontava para Kewy — Parabéns! Por causa de certas circunstâncias, agora você é o novo apóstolo de sua raça!

— …!

 Kewy não podia imaginar que este encontro seria o pontapé inicial para uma longa jornada.

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