Capítulo 1 Parte 1 – Viva

A Tênue Linha

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Capítulo 1 — Viva

“Paciência, persistência e suor são a combinação perfeita para o sucesso.” Ou ao menos era isso que Napoleon Hill acreditava. Passei toda a minha infância lendo os livros dele e agora estou à beira da morte, sei que parece antipático, mas deixe-me falar como cheguei até aqui.

    Nasci em janeiro de 1970. Edward Oscar, meu pai, me deu o nome de Andrew Oscar em homenagem ao pai dele. Meu pai trabalhava como médico na cidade em que vivíamos e por este motivo nossa condição financeira nunca foi instável, porém ele não dava a devida atenção ao único filho que tinha, por inúmeras vezes tentei me aproximar dele para que talvez um dia pudéssemos agir como uma família de verdade, mas todas às vezes que eu tentava, ele se afastava e me evitava de várias formas diferentes, até que chegou o dia em que parei de tentar. 

Desde jovem, eu tive de me virar sozinho já que meu pai passava o dia todo trabalhando. Minha mãe morreu durante o parto, talvez seja este o motivo do meu pai sempre me evitar, por minha culpa ceifei o amor da vida dele, toda vez  que eu perguntava da minha mãe para o Edward ele nunca me falava, e pelo resto do dia ficava triste e pensativo, mesmo que aparentemente meu pai não goste de mim eu não quero vê-lo sofrer, então não pergunto sobre ela. Contudo, o que mais me incomoda é que eu nem sequer sei o nome dela… no final das contas a minha existência é apenas um erro. 

Ao fazer 6 anos, comecei a frequentar a escola e até este momento minha vida era um tanto quanto cinzenta e sem graça. Não tinha amigos, os adultos agiam de forma extremamente infantil, fazendo parecer que eles eram um bando de idiotas, e as atividades eram demasiadamente fáceis, minha única diversão era quebrar todos os recordes de nota da escola, mas com o tempo até mesmo isso se tornou maçante por não ter nenhuma pessoa que eu pudesse competir. Então, comecei a me dedicar em aprender novas línguas, com apenas 6 anos eu já era poliglota, mas aprender novas línguas era tão fácil que apenas desisti, o que eu realmente queria era algo que me desafiasse, infelizmente eu nunca consegui encontrar isso, então apenas passava o dia lendo. Ao menos, nos livros eu conseguia viver uma nova vida, nas histórias que lia eu sempre me colocava como protagonista, lembro-me de um em especial que me fez sentir bastante feliz, pois nesta história eu tinha um pai presente e uma mãe viva que me amava, li este livro inúmeras vezes, entretanto sempre que chegava na última folha eu voltava para a realidade.

Em 1979, meu pai foi voluntário para ir até à China ajudar crianças carentes que ficaram órfãs na guerra sino-vietnamita e voltou com uma criança chamada Li Wang de 5 anos. Uma garota de pele clara e cabelos escuros, baixinha e com um corpo extremamente magro. Nunca perguntei ao Edward o motivo para ele adotar aquela criança e nem mesmo o motivo para ela ter aceitado vir com ele. Bem, no final das contas isso não me importa, pois, a única coisa que Edward me pediu para fazer foi para ensiná-la a falar nosso idioma, no início ela teve dificuldades para aprender a falar inglês, mas cerca de seis messes depois ela já conseguia compreender a maior parte do que nós falávamos. Era notório pela forma como Li Wang agia, que era muito grata ao Edward e o via como um herói. Quando ela não estava tendo aulas de autodefesa com uma velha chamada Pandora, estava sempre ao lado do Edward, mas, porque ele não a evitava?! Devo admitir que por um momento comecei a sentir inveja dela por passar tanto tempo ao lado dele, mas eu era medroso demais para tentar me aproximar mais uma vez e ser afastado novamente.

Em 1981, uma aluna chamada Sasha Isla conseguiu tirar as mesmas notas que eu em todas as matérias, mas com uma pequena diferença ela acabou as provas 10 minutos mais cedo, o que me faz pensar que talvez ela seja mais esperta que eu. Então, fui até ela na intenção de conhecê-la, mas além de inteligente também era muito linda, sua pele  clara, cabelos longos com as pontas cacheadas o que exalta ainda mais sua beleza, a cor do cabelo era cascalho e por algum motivo ao olhar em seus olhos eu conseguia sentir uma paz, mas logo depois dessa “paz” eu apenas tinha um enorme desconforto, por saber que não poderia ficar olhando seus olhos pelo resto do dia, consequentemente esse desconforto me forçou a falar coisas das quais não queria.

“Ei você é a Sasha, certo? Fiquei sabendo que você conseguiu notas iguais às minhas… Eu não posso aceitar perder para uma garota, eu te desafio a tirar notas maiores que a minha no próximo simulado de matemática.” Eu agi imaturamente tentando chamar a atenção dela, mas no final das contas eu era apenas uma mosca aos seus olhos.

“… Não, não quero. Você tem cara de bobo.” Sasha falou e logo depois deu uma risadinha fofinha, não sei se ela estava tirando uma com a minha cara, mas por algum motivo eu não conseguia tirar aquela risada da minha mente. Por mais que eu me lembre dela, ela nunca vai se lembrar de mim da mesma forma e isso fez com que eu quisesse chamar a atenção dela de todas as formas possíveis.

Oh- Como fiquei irritado com aquilo, como pode uma garota 2 anos mais nova que eu fazer isso?! Admito que fiquei um pouco intrigado com ela, por isso sempre que tinha a oportunidade eu a desafiava, mas ela sempre recusava e no final do dia sempre acabávamos brincando até nos cansarmos, e por fim deitávamos sobre a sombra de uma enorme árvore, observando as nuvens juntos. Certo dia, eu comprei alguns doces e os levei para dividir com Sasha quando estivéssemos observando as nuvens.

“Sasha, eu acabei comprando alguns doces no caminho para cá. Você quer alguns?”

“Doces?!” Sasha, que estava deitada ao meu lado, sentou-se rapidamente e acenou com a cabeça. Eu não sei ao certo porque ela agiu daquela maneira, mas a partir desse dia em diante começamos a comer doces juntos.

Porém, nem tudo eram flores, a personalidade de superioridade da Sasha sempre me dava nos nervos, o que me fazia querer dar-lhe uns cascudos, mas eu sempre acabava apenas puxando suas bochechas. 

“Ajoelhe-se perante mim mero mortal, eu a deusa Sasha, ordeno. Como primeiro tributo à sua deusa, você deve me oferecer todos os seus doces, como recompensa irei lhe conceder um desejo.” 

No início, essa personalidade narcisista dela me irritava muito, mas com o passar do tempo comecei a notar que ela era apenas uma garota viciada em doces que só queria tirar uma com a minha cara. Então, comecei a entrar na brincadeira dela apenas para ver onde isso daria.

“Sim, minha nobre deusa, eu Andrew ofereço tudo que tenho a ti e em troca apenas peço que me agracie com sua presença.”

Nesse momento, o rosto da Sasha ficou extremamente vermelho, eu não entendo bem o motivo para isso ter acontecido, ela está doente?!

“Andrew… i-idiota…” Sasha gritou enquanto se virava de costas de uma forma que eu não consegui ver seu rosto.

“O que eu fiz?!” 

“Idiota… idiota… idiota…” Ela ficou repetindo essas palavras inúmeras vezes enquanto cobria o rosto com as mãos. “E-Ei Andrew, o que você me diz de jantar na minha casa? Minha mãe é a melhor cozinheira do mundo.”

“Sério?! Então irei” Falei com felicidade, pois eu nunca havia comido uma refeição feita por uma mãe.

“Além disso, meu pai estava querendo te conhecer. A ideia de te chamar foi dele.”

“O seu pai é militar, né?”

“Sim, por quê?” Sasha cruzou os braços e me olhou com curiosidade. 

“Nada… Só senti um frio na espinha. Mas… eu realmente espero que sua mãe faça uma boa comida… talvez seja a última…”

Sasha deu uma longa gargalhada “Andrew, não seja bobo.” Em seguida ela deu uma risada fofinha e virou-se de costas, logo após isso falou entre os ombros. “Estarei te esperando, bobinho.”

Era mais que notório que eu estava com medo de conhecer o pai dela, pois existiam rumores que diziam que ele parecia um monstro coberto de músculos, mas mesmo assim eu me arrisquei a ir. 

Ao chegar na casa onde Sasha vivia bati na porta e esperei alguém abrir, não demorou muito até que a porta fosse aberta, mas a única coisa que eu conseguia ver era um abdômen musculoso na minha frente, esse era o pai da Sasha?! Porque ele está sem camisa?! E porque ele é tão alto?! Eu mal consigo ver o rosto dele.

“Bo-Bom dia- Noite… Boa noite, senhor. E-Eu sou Andrew Oscar filho de-” Por algum motivo eu estava com tanta vergonha que comecei a embaralhar as palavras. 

“Ora, não importa, você é amigo da minha menininha, certo?! Vamos, entre, o que você está esperando?! Um convite formal?”

Não sei se era a voz rouca, o cheiro do cigarro recém-acesso ou o rifle pendurado na parede atrás dele… Mas a única coisa que eu sentia era medo, minha voz ficou baixa e trêmula, minhas pernas perderam as forças e meu coração parecia que iria sair pela boca. Depois que ele me fez aquela pergunta, a única coisa que eu consegui fazer foi balançar minha cabeça.

“Bem, então seja bem-vindo à minha casa, Andrew. Sinta-se em casa.”

“Obri-obrigado se-se-senhor… po-posso perguntar seu no-nome?”

“Ué por quê? Me achou bonito e está tentando me paquerar?!” Ele deu uma longa gargalhada e continuou dizendo “Vamos pular as apresentações… o que você achou do meu rifle?!  É um Lee–enfield, já está nesta família desde 1917, convivi tanto tempo com ele que posso considerá-lo como um filho.” O pai da Sasha falou enquanto colocava sua mão pesada sobre meu ombro e olhava fixamente a arma pendurada na parede.

Nesse momento, a ideia dele me matando passou pela minha mente milhares de vezes. E agora, passei pelos cinco estágios do meu próprio luto… Negação.

“É u-um belo rifle se-senhor… Espero que ele não dispare mais… Sabe um rifle tão belo quanto esse não deveria ser usado para nada mais do que trazer recordações e servir como decoração, não acha?”

Eu acredito que neste momento ele percebeu que eu estava com medo e começou a se divertir com isso…

“Você acha? Bem, acredito que posso concordar com você em alguns pontos, mas se o problema for não usar esse para não o desgastar então você não precisa se preocupar, pois, eu tenho muitas outras armas para caçar.”

… Raiva…

“NÃO… desculpa. Mas você não pode fazer isso, eu ainda sou muito jovem.”

“Hum! Entendo… mas acredite em mim, depois que acontecer você vai se sentir bem melhor, e eu também, até porque eu não posso fazer isso com minha filha… por que eu não tive um filho?!”

Neste instante, eu estava prestes a chorar, mas ainda assim tentei negociar.

“Dinheiro… Quanto você quer para não fazer isso?”

“Dinheiro? Não há dinheiro no mundo que me faça mudar de ideia.”

Já em choro entrei no estágio da depressão…

“Eu não acredito que isso acontecerá comigo… Eu ainda não fiz nada que tinha planejado…”

“Entendo… às vezes isso acontece e a melhor coisa que você pode fazer é aceitar e vir comigo sem resistência… pff~. Mas por que você está chorando? Isso é algo normal que acontece com quase todos os jovens da sua idade.” Ele falava enquanto tentava conter seus risos. 

Gradualmente, parei de chorar e fui me conformando com a ideia de morrer…

“Certo, tudo bem, você pode me matar, mas por favor seja rápido e diga a minha família que eu os amava…”

“Matar?! Você?!” Ele não se conteve mais e começou a rir sem parar.

Nesse momento, Sasha estava descendo as escadas, ela estava deslumbrante naquele vestido verde… Nunca imaginei que um vestido verde ficaria tão bonito em alguém como ficou nela…

“PAI, você está assustando o Andrew? Eu ouvi você dizer que irá matá-lo… por que você está com essa cara de choro, Andrew?!” Sasha falou como se estivesse irritada com a situação. 

“Oi, minha lindinha.” O pai da Sasha deu outra longa gargalhada “Desculpe Andrew, mas eu não resisti de te zoar quando você começou a gaguejar. Mas eu estava falando sério até certo ponto, por que não vem caçar comigo?! Sasha, vá chamar sua mãe.”

“Certo pai.” Sasha novamente subiu as escadas para chamar minha sog-… A mãe dela.

“Espera um pouco. O senhor estava me chamando para caçar?” Perguntei enquanto enxugava as lágrimas.

“Mais é claro… Como eu poderia matar o amigo da minha filha? Ela só vive falando de você.”

“Sério?! Ela fala de mim?”

Acho que foi neste momento que comecei a ter sentimentos pela Sasha… É engraçado falar isso, pois até um momento atrás eu apenas a via como uma irmã. Depois de todo este mal-entendido, fiquei amigo do pai dela, um tempo depois ele me contou que se chamava Christopher Evans Isla. Ele me aconselhava, me levava para caçar e em alguns dias até me pedia para treinar com ele, mas o verdadeiro motivo para eu continuar indo até à casa dele era simplesmente para ver a Sasha… conforme o tempo passava eu me sentia cada vez mais e mais atraído por ela. Até que, aquele trágico dia chegou…

Autor:

King

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