Capítulo 1 – Apenas em conto de fadas…

Através do Tempo

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Os alarmes dos carros disparam e me afasto para o lado. Tampo meus ouvidos, o som é tão agudo que fez um zunido nas orelhas. Prédios por todas as partes que olho, com uma nova construção sendo feito ao lado de uma casa.

“Eles pretendem expulsar todo mundo desse lugar?”

A cidade está rodeada de panfletos espalhados pelo chão, é sobre algum anúncio de preservação ambiental. Inconscientemente me agacho pegando um dos que veio em minha direção.

“Preserve o meio ambiente, a natureza é nossa amiga…”

Ando em direção de uma lixeira logo ao lado e descarto o panfleto no lixo. Essas coisas sempre falam dos assuntos mais genéricos possíveis. Antes de dar um passo, uma mulher acaba passando ao meu lado afobada, esbarrando em meu ombro.

— Desculpa — diz logo saindo correndo.

Rapidamente olho para o chão e percebo que ela deixou cair sua carteira.

— Moça, espere! — grito para ela.

Ela vira seu olhar no mesmo instante.  Aponto meu dedo para o chão e ela logo percebe do que se trata. Ela volta correndo, está afobada, seu rosto parece pálido e o suor desce pela sua bochecha.

— Obrigada! — Ela se curva me agradecendo e volta a correr.

“Não há de que.”

Logo, sigo meu caminho. Estou voltando da escola pela avenida principal. A visão que tenho dessa cidade difere de antes, as pequenas casas não existem mais.

“Aqui é…”, olho de leve ao lado, uma loja de caça é o que tem em minha visão agora, é triste.

Nesse lugar era um lindo parque, tinha um pequeno balanço para as crianças brincarem e alguns bancos para os adultos colocarem a conversa em dia, uma pequena e linda fonte, ela possuía flores de diversas cores a rodeando. O mundo está evoluindo e ficando horrível, é impressionante como fazemos de tudo para destruir o que é tão belo.

Ando em direção reta até que me deparo com uma esquina e observo seus dois lados onde um caminhão se aproxima.

Lá vem ele, o portal para outro mundo, outra dimensão. É engraçado a maioria das histórias onde o protagonista é enviado para outro lugar através dele. Será que se eu tentar, também consigo? Dando um leve e firme passo à frente sem hesitar sobre a faixa de pedestre, atravesso a rua, mas com o caminhão me oferecendo passagem. Somente um louco pularia na frente de um caminhão para tentar algo assim.

Paro ao lado de uma parada de ônibus onde há uma árvore ao lado oferecendo sombra para os que esperam. Depois de alguns minutos de espera avisto um ônibus e aceno com uma das mãos para ele parar, as portas se abrem, entro pagando a passagem e me sento em um dos assentos vazios no fundo. Sento-me ao lado de uma janela, eu gosto de poder ver a constante mudança da paisagem conforme o ônibus anda, embora tudo que possa ver agora nesse bairro são apenas prédios e mais prédios.

Após alguns minutos começo a sentir um leve enjoo. Desde que me lembro, sempre que ando nessas categorias de transporte sinto isso. É engraçado que só passa ouvindo música, pelo visto, música sempre será meu refúgio. Retiro meu celular do bolso, junto do fone sem fio e coloco em uma seleção musical aleatória aumentando o volume gradualmente.

Longos minutos se passam comigo perdido em meus pensamentos e já percebo uma grande diferença de antes, o ônibus está lotado. Contendo vários estudantes de escolas diferentes e até mesmo universidades, um homem meio rústico de terno e gravata também é um deles. Sua aparência não é nada mal, ele passa uma sensação de poder e dinheiro, mas se ele tivesse isso tudo… não estaria em um ônibus.

Apesar da lotação, ainda resta um lugar vazio ao meu lado, onde é preenchido por uma garota vestindo um uniforme escolar. Um símbolo estranho com o formato de um relógio está estampado em sua camisa preta com detalhes amarelos.

“Não conheço esse colégio.”

Um pouco curioso forço meus olhos de lado para poder observar a garota e, sinceramente uma garota dessas… deixaria qualquer um apaixonado.

Se fosse outra pessoa no meu lugar, imaginaria uma cena onde acidentalmente acontece algo e do nada eles começariam a conversar, imaginando infinitos encontros possíveis de modo que fiquem juntos no final. Impossível que isso seja verdade, afinal, não estamos em um conto de fadas. Não julgo quem tivesse essa imaginação com esta garota, seus cabelos castanhos que brilham com o tocar do sol, sua pele suave e seus olhos esverdeados possuem uma beleza incrível.

— Com licença — fala uma senhora ao meu lado, ela está instável com o decorrer do caminho e percebo que não possui mais força para permanecer em pé.

Antes mesmo da senhora dizer algo a mais, já me levanto, pego minha mochila a oferecendo meu lugar. Ela me agradece acenando com a cabeça e com um breve sorriso no rosto.

Sinceramente, está muito cheio, tão cheio que a temperatura subiu consideravelmente, calor, é somente nisso que consigo pensar enquanto escorre o suor pelo meu rosto. Com os empurrões que ocorrem pelo grande porte de pessoas a bordo, acabo segurando em um dos compartimentos do ônibus com uma mão, com a outra, pego meu celular.

A garota me olha através de seus cabelos, sendo possível ver seus lindos olhos esverdeados através dele e rapidamente desvia o olhar. Mesmo que tente disfarçar, pude perceber que ficou intrigada com minha ação.

“Isso é normal.”

Penso que provavelmente está me julgando com esse olhar, como o restante dos passageiros o fazem. Sinceramente, fazer uma ação dessa se tornou algo tão raro ultimamente que as pessoas te julgam por tão pouco.

“Tsc… Quero chegar logo em casa”, penso chateado.

Nessa posição, consigo enxerga-la um pouco melhor. Por um instante acabo desviando meu foco para uma de suas mãos.

“Dois anéis?”

Ela usa dois anéis em seu dedo indicador, o estranho é que possuem símbolos que nunca vi antes desenhado neles. Será de uma série? Inúmeras possibilidades passam pela minha cabeça, mas não chego a uma resposta adequada. Fico inquieto por alguns segundos, o fato de existir algo que ainda não possa ter visto me intriga, por isso não consigo evitar perguntar.

— Pode me dizer se estes anéis em seu dedo são de alguma série?

Ela me olha com um sorriso, lindo e incrível.

— Não é de nenhuma — diz esticando sua mão esquerda para frente, observando os anéis em seu dedo indicador — São apenas desenhos comuns.

Fico desapontado no mesmo instante, pensei que poderia encontrar algo novo para assistir. Estou com um grande tédio ultimamente, só consigo mata-lo lendo livros.

— Me desculpe se fui… um pouco rudimentar — falo hesitando um pouco, com a voz meio baixa.

Me olhando nos olhos com um olhar inocente ela me responde: — Não se importe muito com isso, é a primeira vez que estou nesse… nessa cidade, estou feliz de encontrar uma pessoa que parece ser gentil.

Por um instante, pude perceber uma breve pausa em sua fala, mas não dei importância.

— Ah! — fala a garota abreviando, enquanto olha pela janela do ônibus — Desço a partir desse ponto.

Ela se levanta e aperta a campainha do ônibus, que sinaliza no painel do motorista. Alguns segundos bastam para parar ao lado de um ponto. Ele fica ao lado de uma sorveteria, com flores em frente e um grande painel rosa, escrito “Ice Cream” com fontes curvadas e brancas.

As portas se abrem e antes de descer ela se vira em minha direção.

— Está muito ocupado? — pergunta com um sorriso aberto.

Sem entender, respondo com um curto movimento da minha cabeça para os lados.

— Quer me fazer companhia?

Será que estou imaginando coisas? Isso é como um conto. Antes que eu possa responder, ela me puxa pelos braços.

— Sei que pode ser um pouco repentino, mas… parece que você está um pouco triste. Então pensei que isso poderia acabar o animando.

É sério que impediu alguém de ir para casa, porque supôs que ele está triste? Quero ir embora, mas não consigo. Olho mais atento para o local.

“Acredito que nunca vi esse lugar.”

Uma atendente abre uma das portas. Ela é feita de uma madeira pintada em vermelho, com seu meio sendo de vidro, com palavras de boas-vindas escritas nela.

— Sejam bem vindos!

Pegando em minha mão, a garota me força a entrar na sorveteria. Que garota estranha! Sua personalidade é algo cativante, confesso. Antes mesmo de perceber, já estou no interior da sorveteria, incrível, ela é linda por dentro em todos os sentidos. Decorações rosas e brancas por todos os lados e no lugar de cadeiras há poltronas que parecem ser super macias. Não consigo esconder meu rosto surpreso.

— Como nunca cheguei a ver esse lugar? — falo em voz alta, o que faz a garota soltar um deleite engraçado.

— É sério? Tem certeza que é desta cidade? Ouvi dizer que essa é a melhor sorveteria de toda metrópole.

— Se quiserem, podem se sentar ao lado da vitrine — diz a atendente, enquanto aponta para o local onde tinha vasos de flores e algumas rosas penduradas.

Vou em direção apontado por ela, a garota anda saltitando, certamente parece que está muito feliz. Sento-me em uma das poltronas e percebo que realmente são muito confortáveis. Olho para frente e a garota continua me secando com um sorriso intrigante. Sinceramente… só quero ir para casa.

Aviso do Autor:

Kinfh Mey

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