Capítulo 2 – Nos encontramos novamente

Através do Tempo

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Sua expressão era um tanto engraçada no começo, não sabia dizer se ela olhava para mim admirada ou se simplesmente estava querendo me deixar sem graça. Sempre esteve alegre com um sorriso fechado estampado em seu rosto. Pessoas como ela me cativam diferentemente, sinto como se elas realmente são felizes apesar do estado do mundo atual. Aquecimento global, pessoas passando necessidades em excesso e guerras sendo travadas em alguns países. Esse sorriso parece demonstrar a felicidade de várias pessoas em uma só, é cativante.

Engraçado seu fascínio de encarar o meu rosto sem parar. Já estou constrangido com isso. Para disfarçar desvio meu olhar para a mesa pegando o cardápio. Ao abrir, vejo sabores variados, nem sabia que existiam tantos assim.

— O que você quer… — hesito por um instante, percebi que ainda não sei seu nome. Olho meio desajeitado para ela que percebe no mesmo instante.

— Arya… Arya Kilstone.

Um nome bem incomum posso dizer. Nome, personalidade, tudo nessa garota é estranho. De onde será que ela veio?

Logo após dizer seu nome ela continuou: — Eu quero… um Cookies ‘N’ Cream — fala colocando os dois braços sobre a mesa, os apoiando em seu queixo.

Cookies ‘N’ Cream? Que porra de sorvete é esse? Abro o cardápio para conferir o sabor — realmente interessante — Ele consiste em misturar à base do sorvete de baunilha uma quantidade razoável de biscoito, recheado com gotas de chocolates. Imerso em minha curiosidade, uma voz feminina soou pelos meus ouvidos.

— Decidiram o que vão querer? — diz a atendente, com um bloco de notas em sua mão.

Sério, estava tão imerso nos ingredientes desse sorvete que nem percebi quando ela chegou perto de mim… Uma ninja? Nah… espero.

— Me vê dois Cookies ‘N’ Cream, por favor.

Logo após meu pedido, a atendente se vira em direção a balconista, provável que seja ela a responsável de fazer os preparativos do sorvete. Para aguardar da melhor forma possível, ela acaba trazendo uma jarra d’água para nós, acompanhado de dois copos de vidros com gelo.

Arya, finalmente desviou seu olhar do meu rosto, agora estava olhando através da vitrine. Pergunto-me o que tanto observa fixamente. Viro meu rosto para o lado e vejo pessoas fantasiadas de camponesas, com dragões de seda como foco principal da atração. Um festival que acontece todo ano na cidade, pessoas dançam e cantam alegres como se nada conseguisse abala-las.

— Isso é lindo — diz Arya com brilho nos olhos.

Isso comprova que ela realmente não é da cidade, agora de onde veio essa garota é um completo mistério, onde não quero me forçar a perguntar, isso seria intimidade de mais. Seu sorriso ia de orelha em orelha, minha opinião? Parecia que ela nunca testemunhou nada assim.

— Aqui está, tenha um bom proveito — fala a atendente colocando os dois potes de sorvete na mesa.

São grandes, literalmente muito grande esses potes, não sei se consigo comer isso tudo.

“Hã!”, olho de relance e ela estava atacando sem dó nem piedade o grande pote. Por algum motivo, abro um pequeno e curto sorriso.

— O que foi? — pergunta Arya ainda com a colher na boca.

— Eh? Não é nada. Apenas achei você um pouco interessante.

Com essas minhas palavras, seu rosto fica vermelho como um morango e ela desvia seu olhar para o lado, ainda com a colher na boca.

— Bobo! — fala baixo, mas ainda consigo escuta-la de relance.

Depois de alguns longos minutos intermináveis, finalmente conseguimos comer todo o pote. Cara, pensei que nunca fosse acabar, meu estomago parece que explodirá de dentro para fora a qualquer momento. Arya está com a respiração pesada e, fazendo uma cara estranha.

— Meu cérebro congelou — fala engraçadamente.

— Hahaha — Acabo rindo sem querer — Você realmente é interessante garota.

Ela apenas me desferi um lindo sorriso, limpando sua boca com um guardanapo.

— Hum… — Arya observa o relógio em seu pulso — AH! Já está na hora de ir embora — fala batendo as palmas da mão na mesa se levantando, me assusto por um instante.

Arya coloca um dinheiro sobre a mesa e sai correndo pela sorveteria saindo rapidamente. Aceno com uma das mãos para a atendente e peço que passe a quantia que havia dado.

Uma garota linda, complexa e misteriosa. Engraçado, suponho que se nos encontrássemos mais vezes poderíamos ser bons amigos.

“Acredito que está na hora de ir para casa”, penso observando o pôr do sol através dos arranha-céu.

#34#

“O que é isso? Hum… Aqui de novo.”

Um laboratório com duas pessoas. Consigo ver que estão conversando, estou em uma sala branca, onde só possui uma cama integrada a parede e um vidro falso na frente.

— Como ele está indo doutor? — perguntou um homem vestindo uma espécie de farda.

Consigo escutá-los daqui.

— Muito bem! Ainda não consegue controlar, mas já é muito impressionante.

— Não preciso de coisas impressionantes, preciso do impossível.

Algo entra nos meus ouvidos como uma bela sinfonia de Mozart, é meu alarme. Abro meus olhos pouco a pouca com a visão turva devido ao despertar repentino.

“Isso de novo…”

Esse sonho novamente, só quero esquecer, mas… parece ser impossível. Estou no meu quarto, em minha cama com a coberta jogada no chão e o travesseiro ao meu lado. Querendo olhar as horas, pego meu celular que se encontra ao lado em cima de uma pequena estante.

“07:36h?! AAAAAAH! Droga estou atrasado para a escola”, me levanto depressa e agitado derrubando alguns livros.

— Mais que barulheira é essa? — grita uma voz abaixo de mim, minha mãe.

— Porque não me acordou se percebeu que ainda estava dormindo? — falo alto para conseguir me escutar.

— Porque diabos iria te acordar cedo em pleno sábado?

“Hoje é sábado?”, pego meu celular e olho o dia em que estamos. Agora faz sentido meu celular não ter despertado. Droga, agora perdi totalmente meu sono. Que lástima!

Olho ao redor e percebo a bagunça que meu quarto está. Sinceramente, tenho que arrumar isso, há livros espalhados por todos os lados, desenhos não acabados pelo chão, litros de refrigerante jogados em cima da mesa do computador e roupas na minha cadeira.

“Que bagunça.”

Vou em direção ao banheiro do meu quarto, abro o guarda escova e assim começo a escovar meus dentes, tiro a roupa e ligo o chuveiro. Todas as manhas prefiro começar com um belo banho, assim, refresco meu corpo e alma. É uma sensação maravilhosa, por assim dizer.

Depois do banho arrumo meu quarto e desço pela escada até a cozinha onde encontro minha mãe, cabelos pretos e curtos, olhos castanhos escuros, com sua pele um pouco envelhecida, mas não se engane, ela é linda. O cheiro do café sendo coado chega até meu olfato, que cheiro delicioso. Sento-me na mesa frente a frente com ela.

— Ele não comerá conosco hoje? — pergunto ressaltado.

— Seu pai é um homem ocupado, sabe muito bem disso.

Com essas palavras apenas abaixo minha cabeça sem poder retrucar. Minha mãe percebe meu triste olhar.

— Meu filho, você sabe o porque dele não poder estar aqui diariamente… não sabe? — fala colocando sua mão em meu rosto, me reconfortando.

Meu pai sempre foi muito ocupado desde que viemos para esse lugar, então não posso culpa-lo por ser ausente, não há nada que se possa fazer quanto a isso. Porque é graças a ele que podemos viver uma vida normal.

— Vai para aquele lugar novamente? — pergunta minha mãe com um sorriso.

Aceno minha cabeça concordando com o assunto.

#34#

Finalmente cheguei, a única parte chata desse lugar é que ele fica muito distante da minha casa. Um cyber book, sim, é isso mesmo que o nome sugere. Um lugar onde posso ler livros diversos e ainda posso beber um belo café, essa é a definição de perfeição.

Abro a porta de vidro, já sou tão acostumado a vir nesse lugar que as pessoas que trabalham neste local nem me atendem mais, apenas me dão um bom dia bem animado. Por dentro sua estrutura é toda de madeira, mesas, as paredes, as cadeiras e os copos em que tomamos nosso café, pode parecer ruim, mas o gosto fica algo vivo, um sabor inesquecível.

Essas pessoas são gentis e calorosas, menos a gerente. Ela pode ter um rosto lindo, cabelos avermelhados e sedosos, mas não se engane, sua personalidade é horrível, mas é uma boa pessoa. Tenho dó do seu marido que sofre seus abusos, mas pode se dizer que eles se amam. Não quero um amor assim…

Acabo me esgueirando em uma das prateleiras procurando algo para ler, a maioria dos livros daqui já li eles por completo ou alguns deles apenas não me interessam. Vejo a lombada de um livro que parece ser bem interessante. Aparentemente o protagonista sentado em um trono feito pelo que parece ser uma madeira rústica de alto valor de couro, provável que seja de algum animal eu imagino. Suas vestes parecem ser algo imperial e seus olhos são vermelhos escarlates, uma obra de fantasia.

“O Escolhido…”, esse é o nome do livro que estou prestes a ler. Peço um café e me sento em uma mesa localizada no meio, redonda, pode se dizer que de tamanho médio, com um compartimento para colocar o copo.

Fantasia sempre foi um dos meus gêneros favoritos, fugir da terrível realidade, é algo que consigo fazer em imaginar cada cena citada em um livro na minha cabeça. Algo que acredito que muitas pessoas se tivessem esse habito teriam um pensamento completamente diferente da que eles possuem do mundo hoje em dia. O caminho da literatura abre caminhos sobre o desconhecido e impossível, por isso que amo vir a esse lugar.

Uma garota passa correndo logo em frente, pude perceber que se tratava da Arya. Logo ela volta pela vitrine, prensa seu rosto sobre o vidro, sério, não consegui me conter e cai no riso.

— Ah! O garoto de ontem — fala Arya através do vidro.

Ela abre as portas de forma rápida e grotesca, era como se Arya fosse a sensação do momento, mas agora lamento por sua vida, a expressão da gerente não está nada amigável.

— EEEI PIRRALHA! — grita a gerente batendo as mãos no balcão — Por acaso quer arrancar a porta e levar ela para casa? — pergunta com fogo nos olhos.

A gerente… é assustadora quando quer. Arya se assusta e recua contra a parede, mas a gerente continuou a lhe dar sermão. Depois de alguns minutos ouvindo duras e belas opressoras palavras, finalmente a gerente se acalma, Arya se curva pedindo desculpas e vem em minha direção. Parando frente a mim, percebo que tem algo para dizer, pois, seus olhos mostram determinação.

— O-O que foi? — pergunto hesitando um pouco.

Arya se acalma, puxa sua respiração o mais profundo que consegue e solta o ar reprimido criando coragem.

— Me… Me leve em um encontro! — fala determinada.

— Eh? EEEEEEEEEEEEEEH?

Aviso do Autor:

Kinfh Mey

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