Between in the darkness – Capítulo 03.

William. – Capítulo 3

Verdades sobre a mesa.

Acordei no dia seguinte com um gosto amargo na boca e uma terrível dor de cabeça, lembrava-me de flashes de um lugar sombrio, não tinha certeza se todas as imagens que brotavam na minha mente eram reais ou se não passavam de um pesadelo. Eu teria acreditado facilmente que era um, se não houvesse homem velho barbudo com cara de bêbado sentado em frente a cama.

 

-Onde eu estou?

-Em um lugar seguro – disse o velho. – Lembra-se do que aconteceu?

-Do sonho?

-Sonho? Não foi um sonho garoto. – Disse o velho com um tom seco. – Você foi atacado por um carniceiro e sobreviveu por sorte.

-Sorte?

-Sorte sua por eu estar lá para te salvar. – Falou em tom jocoso.

 

Dei de ombros

 

-Por que ele estava me seguindo?

-Ele não estava te seguindo e sim caçando, eles procuram pelos fracos, covardes, pessoas indefesas ou pessoas burras o suficiente para atravessar o véu e não perceber que tudo ao seu redor mudou para prédios abandonados e decrépitos.

 

Olhei para o velho com uma expressão furiosa, mas antes que eu pudesse falar algo, ele completou.

 

-Mas vi como você se saiu, tenho certeza que você não se enquadra em alguns desses critérios, ao menos não é covarde.

-Você deve ter algo de diferente, por isso, aquilo estava te seguindo sem ao menos se esconder, e teria te matado se eu não estivesse lá. – Disse o velho. – Mas esse não é o momento para explicações, você ainda deve descansar.

 

Após a breve conversa, o velho levantou e saiu sem responder mais perguntas. Tentei levantar, mas era impossível naquele momento, todo o meu corpo estava dolorido por causa do que aconteceu, só me restava descansar.

 

 

Não consegui fechar os olhos por muito tempo, tudo estava muito fresco em minha mente, não conseguia parar de pensar quando ele disse que eu tinha algo diferente.

Aquilo me fez sentir especial por uns instantes, mas essa sensação nova, era algo incompatível com a minha realidade, sempre fui alguém normal, não tinha talento para nada e muito vezes me faltavam perseverança em concluir certas coisas, por isso fiquei surpreso em ter sobrevivido, aquele não era eu.

Penso em todos os projetos inacabados, em minha casa tinha um violão empoeirado com cordas arrebentadas que um dia tentei aprender e em seguida larguei em um canto do quarto, livros comprados com tanto entusiasmo, li pela metade e larguei na estante com a promessa de que amanhã continuaria e nunca mais os peguei.

Na realidade, eu não vivia nesse mundo, apenas mais um dos que lutavam para sobreviver, levados aleatoriamente pela corrente que chamamos de vida. Para mim, a vida é um enorme lago onde há várias pessoas submersas, se afogando, agonizando e morrendo. Entre essas, há as pessoas que lutam com todas as forças para chegar e se manter na superfície, e há as outras como eu, que cansaram de lutar e deixaram que a correnteza guiasse suas vidas. Pessoas sonhando com uma mudança brusca do destino, esperando que ele ao invés de levar mais para o fundo desse lago, acabe jogando-nos na margem, mas que na realidade, não fazíamos nada para se impor.

 

De todas essas pessoas que lutam, de todas as que não aceitam o caminho traçado pelo destino, por que eu? Por que uma simples frase de um velho que nunca vi na vida mexeu tanto comigo? Eu não era ninguém.

 

Ao mesmo tempo em que ficava assustado, algo crescia dentro de mim, a curiosidade tomava conta, sim, eu estava animado, senti que minha vida iria mudar, só não sabia se seria para algo bom ou ruim.

 

 

Mais tarde, já me sentia um pouco melhor, minha cabeça já não doía e minhas forças estavam voltando aos poucos. Com um pouco de esforço, sentei na beirada da cama. Estava em um quarto médio, tinha uma cama de solteiro, um armário de livros, uma mesinha onde estavam alguns vidros que pareciam remédios e uma cadeira que estava ao lado do pé da cama, onde estava o velho.

Levantei com cuidado, minhas pernas ainda estavam bambas. Andando devagar, consegui chegar até a porta do quarto, onde tinha um pequeno corredor que dava em uma pequena sala, um sofá bagunçado, algumas latas de cerveja jogadas pelo chão, uma antiga televisão de tubo e uma mesinha de centro com restos de comida espalhadas, era um verdadeiro chiqueiro.

Continuei andando pela casa, tinha outro pequeno corredor que levava até a porta do  banheiro, mais a frente uma pequena cozinha em uma porta lateral e uma outra porta no fim.  A última porta do corredor estava entreaberta, ouvi barulhos vindos de dentro, devagar empurrei a e vi o velho folheando alguma coisa, sentado próximo a uma mesa circular. O quarto era cheio de papeis espalhados por todos os lados, no fundo tinha uma enorme parede com um mapa em grande escala, havia fotos pregadas em vários pontos, cordões coloridos que ligavam um lugar ao outro, com fotos sobrepostas, bem no estilo de filme policial, continham anotações que pareciam importantes, mas de princípio não dei muita atenção.

 

-Já se sente melhor garoto? – Disse o velho sem nem ao menos se virar para mim.

-Sim, sim, obrigado pela ajuda. Onde estamos?

-Em um lugar seguro e isolado, então não precisa ficar preocupado. Mas fico feliz de ver que já consegue ficar de pé, você dormiu por 2 dias inteiros.

-2 dias?

 

Fiquei totalmente surpreso, parecia que tudo tinha acontecido em apenas algumas horas, meu coração ficou acelerado e lembrei de casa.

 

-Minha família deve estar preocupada, tenho que ir agora. – Falei com um tom de urgência.

-Não sei bem como dizer isso, mas vou ser o mais claro e direto possível… Você não pode ir para casa… Nunca mais. Agora eles sabem o seu cheiro, se você for, irão atrás de você e vão pegar todos os que são próximos a você, até te encontrar.

-Neste momento… Você é um alvo, e não preciso explicar o que acontece com os alvos, certo garoto? – disse o velho.

 

Aquilo bateu em mim como uma pedrada, minha cabeça voltou a latejar com força total. Como assim não podia voltar para casa? Só podia ser uma brincadeira de extremo mal gosto.

As perguntas fluíam na minha mente, uma mais rápida que a outra, açoitavam como chicotadas, milhões de duvidas, mas só conseguir fazer uma única pergunta.

 

-Por que eu?

 

O velho olhou para mim com uma expressão de pena, estava escolhendo com cuidado cada palavra, provavelmente não queria me deixar mais assustado do que já estava.

 

-Meu jovem, o maior erro da humanidade é acreditar que podemos escolher o nosso destino, que temos o livre arbítrio, isso é uma grande farsa, uma mentira.  – Disse o velho olhando nos meus olhos e com um tom áspero e seco.

-Isso que está acontecendo já foi decidido antes mesmo de você nascer e nada poderia mudar isso, uma brincadeira entre Deuses. Para eles, isso aqui é um tabuleiro de xadrez e eles movem as peças de acordo com a sua própria conveniência, você é apenas mais um peão defendendo a rainha para que ela não leve o xeque-mate no final do jogo.

 

O velho falava de uma maneira tão segura que era impossível não prestar atenção, seus olhos fixos em mim, mostravam verdade em cada palavra.

 

-Não estou entendendo, como algo assim já estava decidido? – perguntei.

 

-Você nasceu com um dom especial, algo puro, poderoso e raro que pode mudar rumos. Graças a isso, tudo o que vive em nome das trevas vira atrás de você. A cada segundo nesse mundo, há três nascimentos, a cada minuto nascem 180 indivíduos, não sou exagerado ao dizer que a cada 1 milhão de humanos que nascem ao redor do mundo, 100 desses nascem com algum potencial.

-Alguns vão ser extremamente inteligentes, uns vão ser grandes artistas, outros matemáticos e físicos, grandes pensadores, ou seja, gênios em alguma coisa. Mass desses 100 nascerão uma pequena quantidade de pessoas que realmente serão excepcionais, mesmo que ninguém vá conhecê-los. Desde o nascimento vocês estão marcados para morrer, fadados a levantar uma bandeira que não tiveram chance de escolher e marcharão em campos de batalha até a morte, em uma batalha que vem de antes dos homens descobrirem o fogo.

-você esta nesse pequeno e seleto grupo, justamente na parte mais difícil de todo o processo, que é a de descobrir e desenvolver habilidades, é nesta etapa que você se torna um alvo, mesmo que você não perceba, suas habilidades estão explodindo por todo o seu corpo.  Mesmo que você não perceba nenhuma diferença, tudo em você esta mudando e eles perceberam isso.

-Calma aí velho, você fala como se eu soubesse ou tivesse que saber todos os detalhes. Eles? Eles quem?

-Você é meio burro, para que serve esses olhos? Enfeites? Garoto, estamos falando de forças regidas pelas trevas e eles sentiram sua força em expansão, uns tentaram dominar você, controlar você, mas a maioria te enxergará como ameaça e virão atrás de sua cabeça.

 

Senti um estalo na minha nuca, as coisas fizeram sentindo por um momento. Então eu sobrevivi graças a um talento interno que até então estava adormecido, esquecido e sem motivos aparente, despertou para o mundo, colocando em letras garrafais: Me matem.

 

-Se eu sou um alvo e não posso mudar isso, o que tenho que fazer?

-Se adaptar a situação meu filho. Você terá que aprender primeiro a fugir e se esconder até o dia que estiver pronto para contra-atacar – Disse. – A vida vai te derrubar várias e várias vezes, mas você vai ter que aprender a levantar e seguir em frente, isso é sobreviver, isso é resistir.

 

Sabia exatamente o que ele queria dizer com isso, afinal, sobreviver era o que tinha feito durante todo esse tempo, mas também teria que aprender algo que até então negligenciei e abdiquei: Resistir.

Será que de forma inconsciente sentia que eu já era perseguindo? Cada passo que dei na minha vida, foi uma tentativa de continuar respirando, inconscientemente me tornei mais um para viver? Juntei-me aos outros para me camuflar na multidão? E se tudo me levou a esse momento?  Realmente, não saberia o que esperar, mas no fundo, eu realmente queria descobrir o mais breve possível.

 

Até pouco tempo me achava insignificante, mas de repente descubro que sou diferente. Não sabia o que esperar, mas eu não tinha escolha mais escolha. Mas disse a mim mesmo que eu lutaria, nenhuma correnteza moldaria meu destino, não me interessa quem está controlando a mesa de xadrez, eu tomaria as rédeas da minha vida. Apenas eu.

 

 

 

Mais tarde o soube que o que me atacou era um impuro, o velho disse que antes foram seres espirituais, que vagavam entre os planos astrais, não faziam mal a humanidade, mas eram propicio a viverem através da vitalidade humana, ficando próximos, conseguiam absorver energias, mas uma grande parte se viciava, queriam mais e já não era mais suficiente apenas receber o que era expelido pela aura humana, de tanto acumular essa fome que se tornava insaciável, se corrompiam atacando desavisados e os consumindo por completo, quanto mais vitimas, mais ficavam poderosos. Esses sempre estão entre nós, espreitando pelos cantos, em busca de comida. Humanos com certos dons conseguem sentir o oculto, por isso senti a presença, a sede assassina e os mais bem treinados, conseguem atravessar o véu entre as realidades e podem combate-los no que chamavam de umbral.

 

 

Saibam que toda vez que temos aquela sensação de que estamos sendo observados mesmo que não tenha ninguém perto, aquele calafrio passando percorrendo nosso corpo ou aquele sonho que te faz acordar com o coração acelerado e a adrenalina a todo vapor, te fazendo olhar para os cantos do quarto escuro, procurando por algo ou alguém que não devia estar por lá. Sim, são eles, seres impuros, esperando o momento certo para sentir o gosto da nossa carne, da nossa alma. Se você sente isso com frequência, parabéns. Talvez você seja um de nós e eles estejam apenas esperando o seu despertar, assim como foi o meu.

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