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Tyler caminhava a frente com uma rapidez incomum para quem andava apenas com a luz da lua para iluminar o caminho. Pamela se esforçava para acompanhá-lo. Ele não falara palavra alguma desde que deixaram os outros para trás. Pamela não sabia dizer se ele era retardado ou apenas ignorante. Ele era soberbo e cheio de si, disso ela sabia. Afinal já tinha saído com muitos caras desse tipo. Era enérgico e se irritava com facilidade em alguns momentos, embora parecesse calmo ao ponto da indiferença em outros. 

Outras vezes era apenas cruel. Pamela ainda lembrava claramente do som que os dedos daquele garoto fizeram quando Tyler os quebrou. A expressão que Tyler fez quando enquanto girava a mão, seu prazer ao ver a dor daquele garoto. Isso era algo que Pamela não conseguia esquecer. Mesmo assim, ela o obedeceu quando ele mandou que o seguisse, e por algum motivo não estranhava tê-lo feito. Sim, afinal ele falara mais alto do que todos os outros, não em voz, mais em tom. 

Ele falou, eles obedeceram, por que isso não lhe pareceu um absurdo? 

Em outras situações, teriam demitido Tyler do escritório, ou o condenado por tal atitude. Ele seria cercado por meia dúzia de bêbados no bar preferido de Pamela no Queens. A chefe de Pamela, senhorita Halpert, iria ao menos fazer uma reclamação aos recursos humanos. As pessoas teriam o repreendido de alguma forma. No entanto, por mais desconfortável ou difícil que fosse admitir, todos aceitaram aquilo. Inclusive ela que agora estava apressando o passo para o acompanhar. 

Tyler não olhava para trás. Isso a incomodava. Ela tinha conseguido se aproximar de cada um. Exigira esforço, mas conseguira ganhar a confiança de Daisy no primeiro dia. Apesar de parecer um gato arisco e assustado, a pequena garota lembrava de sua irmã quando mais nova, precisando de alguém em quem se apoiar. 

Ítalo fora mais simples. Garotos na puberdade eram fáceis de se ler. Apesar de enfadonho e inseguro, ele se mostrava bem inteligente. Marcelo era o oposto. Grosseiro, amargo e difícil de descascar, feito um abacaxi maduro. No entanto com uma boa dose de mel, ao menos por uma noite, ele ficaria doce. Não que Pamela tivesse interesse de lhe dar esse mel. Imaginar a visão do velho homem nu dava-lhe ânsia. Apenas ver sua careca descoberta era o bastante. 

Havia também o homem. Ele não falava nada, nada além de murmúrios sem sentido. Chamava por sua mãe, seu pai, perguntava quando iriam voltar. Pedia-lhes desculpas e passava o resto dia olhando para além das dunas no horizonte. Pamela não via nada lá além de areia, vento, e areia sendo levada pelo vento. 

Pamela não sabia o que fazer com ele. Sabia, no entanto o que Marcelo gostaria de fazer. Assim como sabia que Tyler o apoiaria. Fora um milagre que ela os tivesse convencido a reconsiderar. Não, não foi um milagre, foi aquilo. A mesma coisa que sentiu fazer quando questionou o ladrão que Tyler torturara, assim como fizera ao próprio Tyler, acalmando-o para que deixasse o garoto em paz. 

Ela não sabia ao certo o que fizera, ou como fizera, mas isso a ajudara a evitar que deixassem o homem perturbado para trás, salvando sua vida. Assim como os ajudou a conseguir informações sobre a direção da cidade. De alguma forma ela tinha certeza de que o ladrão não estava mentindo. De algum jeito sentia que ele faria tudo que ele pedisse, como se o controla-se de alguma forma. 

O pensamento a fez rir. Quantas vezes não desejou que os homens com quem saíra fizessem o mesmo? 

Imaginava as possibilidades disso, mas também se questionava quanto a uma coisa. Ela tentara o mesmo com Tyler quando ele decidira partir com ela naquela ideia arriscada, no entanto, não funcionara. 

Por quê? O que tinha de diferente? Não sabia. Nem entendia ao certo o que aquilo era ou significava. Podia apenas tentar descobrir com o tempo e torcer para tudo dar certo até lá. 

O vento soprou jogando areia em seu rosto. Pamela suspirou, protegendo-se. Bem que ela podia controlá-lo também. 

Eles entraram em uma passagem estreita, que continuava por alguns metros e se abria em uma clareira com uma fonte no fundo. Provavelmente havia sido ali onde Tyler e Ítalo avistaram os estranhos. Tyler andou em direção a uma gruta e adentrou ela sem a menor hesitação. Pamela parou por um momento, pensativa. O formato de uma cabeça surgiu de dentro da gruta, como um vulto assustador. 

— Vamos logo, não temos a noite toda — A voz de Tyler ressoou de dentro. 

Pamela revirou os olhos, engoliu seco, e adentrou a gruta. O interior era frio e úmido e escorregadio, além de claro, escuro. Podia ouvir o gotejar incessante que ecoava por todo aquele lugar. Ela teve de tomar cuidado onde pisar e tocar. Se andasse sem se apoiar em nada, escorregaria com toda a certeza, então seu progresso era lento. Via apenas a silhueta de Tyler a sua frente avançando devagar. Talvez estivesse com tanta dificuldade quanto ela, ou não. Pamela não o entendia. Fora o único que não se esforçara em se aproximar. Ele tão pouco parecia interessado em fazê-lo, o que a dava uma sensação estranha aos lábios. 

Seu pé deslizou para frente, sentiu o chão sumir debaixo de seus pês por um momento enquanto seus braços se agitaram energicamente atrás de algo para se agarrar, até que algo a agarrasse. Ela abraçou seu apoio, sentindo nele um calor incomum, frente ao frio da caverna. Então, quando seu cérebro finalmente despertou do susto, ela percebeu a natureza de seu apoio. Fora Tyler. 

Pamela o soltou, com um misto de desgosto e embaraço. 

Ela grunhiu. Algo que com certeza foi ouvido por ele que não mostrou muita reação além de um vago e monótono: 

— De nada — disse e se virou. 

Pamela bufou e continuou a segui-lo. 

Após mais algum tempo arrastando-se na escuridão, eles chegaram até a saída. Pamela sentiu o ar fresco da noite, grata por sair da caverna, e então ficou espantada com a visão a sua frente. Havia enorme vale entre os rochedos, e lá embaixo, fogueiras e tendas, dezenas delas, espalhadas de forma desordenada em uma planície aberta no fundo do vale. Ela podia ver as sombras se movendo entre elas, do tamanho de formigas a distância em que estavam. 

Pamela esfregou as mãos. Havia muitos, mais do que esperava. O que aconteceria se decidissem atacá-los? Tyler poderia protegê-la? Ela o olhou, lutando para não se afogar em ansiedade. 

Ele, no entanto, não falara nada, se limitando a observar o acampamento, não com um olhar contemplativo como o de Pamela, mas sim com um olhar avaliador. Seu rosto estava calmo, impassível, como se a multidão lá embaixo não lhe representasse problema algum. 

Por algum motivo Pamela sentiu-se irritada por essa aparente calma. 

— Ei — Ela chamou, sem receber qualquer resposta de volta. 

Voltou a chamá-lo, falando mais alto dessa vez. 

Tyler chiou, lhe lançando um olhar de reprovação, ou foi isso que Pamela imaginou quando seus olhos se cruzaram. Estava escuro.  

— O que vamos fazer? — Ela insistiu. 

— Vamos até lá falar com o chefe deles — Tyler respondeu sem qualquer hesitação. Seus olhos ainda fixados no vale abaixo. 

Pamela sentiu seu peito palpitar. 

— E como propõe fazermos isso? 

Tyler não respondeu, apenas se virou para os lados e Pamela percebeu para o que ele olhava. Pessoas tomaram forma em meio a escuridão, carregando lanças em suas mãos. Ela sentiu seu corpo tremular ao perceber que eles os haviam cercado. 

— Aí está a sua resposta — Tyler finalmente respondeu. — Nos rendemos — anunciou erguendo as mãos para o alto. 

Pamela sentiu-se apreensiva ao vê-lo se levantar e se deixar ser rendido pelos homens que pareciam ser soldados. 

— Quem são vocês? O que querem aqui? — Uma voz grossa questionou. 

— Somos viajantes — Tyler respondeu — estávamos de passagem quando vimos pessoas por essas bandas e decidimos ver quem eram. 

— Devem ser ladrões de alguma vila do subterrâneo — Outra voz mais aguda alardeou. 

— Sim, vamos matá-los antes que contém aos outros ratos onde estamos — disse uma terceira voz quase rouca. 

Pamela olhou com preocupação para Tyler. Ele não negava as acusações ou se defendia, por quê? 

— E… esperem, não somos ladrões, só estamos viajando para… — Ela parou por um momento tentando lembrar o nome da cidade que o ladrão tinha falado — Narkul! — falou com um sobressalto ao se lembrar. — Estamos indo para Narkul. 

— Sim, Narkul — Tyler concordou — e se precisarem, podemos pagar — ele mostrou algo em sua mão. 

“Pagar? Como assim”, se perguntou Pamela, não tendo tempo de raciocinar quando um dos homens se aproximou e tomou o objeto, conferindo-o em suas mãos. 

Houve um momento de silêncio. 

— Vamos levá-los até o eleito, ele decidirá o que fazer com eles — Uma quarta voz, mais calma e monótona que as outras ordenou. 

Os outros assentiram aos murmúrios, e assim, Pamela se viu ser revistada e então levada junto a Tyler até o acampamento. 

Ela havia usado? Não sabia, era difícil dizer no momento, só tinha certeza se aquilo tinha tido ou não algum efeito depois. 

Eles chegaram até o acampamento, adentrando o emaranhado de tendas desiguais. Pessoas pararam para os observar com suspeita em seus rostos. A grande maioria era composta por mulheres e crianças, além de velhos. Eles se amontoavam em volta das dezenas de fogueira se protegendo do frio. Parecia um campo de refugiados que vira em documentários da BBC. 

Pamela agora podia ver o rosto dos homens que os conduziam. Quatro os cercavam. Um era robusto, de corpo volumoso e rosto largo, com uma barba rala e malcuidada, assim como o seu cabelo. Outro possuía um rosto fino e alongado, com um cabelo pontiagudo e desgrenhado se erguendo no alto de sua cabeça. Seu corpo era claramente mais franzino que o primeiro homem, porém sua postura era mais rígida, o que o fazia parecer mais alto. O terceiro era baixo e careca, capengava de uma perna e ostentava uma cicatriz em seu rosto que tornava sua expressão desagradável. O último era o mais simplório de todos. Tinha um cabelo curto em formato de tigela, um rosto sem barba, e nada que chamasse atenção do pescoço para baixo. Parecia tão forte quanto Ítalo para Pamela. 

Todos eles usavam um manto que cobria todo o corpo. 

Os soldados os conduziram até uma tenda maior que as demais no centro do acampamento. Era guardada por dois homens na entrada. Um se adiantou para interrogá-los, mas recuou ao ver o guarda simplório tomar a frente do grupo. Eles adentraram a tenda após ele. 

Lá dentro viram uma cena curiosa. 

Um homem velho sem quase nenhuma roupa, a exceção de uma espécie de “fraldão” cobrindo suas partes, estava sentado em uma cadeira de madeira, com os pés dentro de uma bacia de água fervente, a julgar pela esparsa fumaça que subia pelo seu corpo. Algumas mulheres, jovens e idosas, o limpavam com panos úmidos. 

— O que aconteceu para me incomodar a essa hora Sarosh? 

O homem simplório fez uma mensura e respondeu: 

— Peço desculpas, meu senhor eleito, mas encontramos com esses dois intrusos espiando a caravana. Afirmam ser viajantes. 

O homem olhou para Tyler e Pamela. Algo em sua condição exposta a incomodava. 

— E daí, já vimos muitos casos de espias de aldeias do subterrâneo, e matamos a maioria. Por que os trazer para contemplar meus velhos ossos? 

— Porque eles nos deram isso — O homem mostrou o objeto, o entregando nas mãos do velho. 

Ele o contemplou e Pamela percebeu o que era. 

“Sim”, pensou, Tyler sempre as pegava quando exploravam os túmulos. 

— Onde encontraram isso? — perguntou o velho. 

— É minha — Tyler respondeu —, e tenho muito mais — ele mostrou a mão. Havia uma moeda em cada um dos espaços entre cada dedos. 

— Serão suas se nos deixar ficar convosco. 

— Ainda não tenho certeza se são ladrões ou não — O velho apontou. 

— Mas tem certeza de que esse ouro é verdadeiro, certo? — Tyler retrucou. 

— Não somos ladrões, somos viajantes, e estamos cansados de viajar por aí dormindo ao relento. Por favor nos deixe ficar, temos crianças — Pamela implorou. Suas palavras eram sinceras. 

O homem os encarou, fechou os olhos e depois soltou um suspiro. 

— Para onde estão indo? — Ele perguntou. 

— Eles disseram que estão viajando para Narkul — respondeu o homem simplório. 

— Não é longe. Quero todas as moedas que tiverem. Levaremos vocês até lá e então nos despediremos. 

Pamela soltou um suspiro de alívio. Não era algo para se preocupar afinal. 

— Ótimo — falou Tyler, estendendo uma mão cheia de moedas. 

O homem simplório as pegou antes de entregá-las ao velho. Ele as examinou e então olhou de novo para Tyler e Pamela. 

— A partir de hoje estarão sobre a proteção da companhia do elefante branco. 

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Olá, eu sou Dellos, o panda!

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