Capítulo 01: Teleporte

Corvo Escarlate

Não carregou? Ative seu JavaScript
Atualizar

O que aconteceu?

Eu não me lembro.

Eu me lembrei.

Eu estou morto, não é?

Por que ainda tenho a minha consciência? Será que sobrevivi de algum jeito?

Abro os meus olhos com dificuldade. Olho ao meu redor, percebo que estou deitado em um lugar estranho. Me levanto e respiro profundamente. Observo esse lugar tentando descobrir o que faço aqui. Tudo é branco, olho para cima e não tem nada  no céu, não consigo nem ver onde ele termina. Olho para baixo e percebo que o chão também é branco, é uma sensação estranha, pareço estar voando no vazio. Até minhas roupas são iguais há quando morri… Como eu morri? Onde estão a Marina e Iris? Cadê elas?!

Sinto uma dor sufocante no peito, me ajoelho no chao. As memórias voltam, minha mão treme, consigo sentir o sangue quente passando entre meus dedos. Não consigo respirar. Meu corpo começa a ficar mais fraco, não tenho mais força para manter ajoelhado. Me deito no chão. Minha visão está preta, cadê elas? O que aconteceu? Por que elas morreram? Eu fiz isso? Minha irmã morreu porque eu levei aquele cara para casa. Estou sufocando. Levo minhas mãos a garganta, o ar não entra em meus pulmões, meus braços parecem pesados, meu coração arde. Sou um inútil, não consegui defender elas, não pude fazer nada. Todo meu corpo começa a tremar, a dor no peito cresce mais, não sei o que está acontecendo comigo. Acho que estou perdendo a consciência…

…Ignore isso, Vicit…

Não faça alarde, não sei que lugar acabei indo. Analise a situação. Preciso sobreviver. Depois pense nisso, agora não é hora, não foi isso que a minha irmã me ensinou. Pense depois, sobreviva agora.

Não sei quanto tempo passou enquanto eu estava sufocando no chão. Assim que me acalmo, me levanto e começo a explorar esse lugar. Caminho pelo espaço branco, ignorando a ardência no peito. Têm várias pessoas diferentes aqui, alguns falam línguas antigas e outros línguas atuais, as roupas deles são variadas como, armaduras, roupas de couro ou vestimentas modernas.

Caminho por um tempo, mas ainda não encontro nada diferente, infelizmente parece não ter como sair daqui. Cansado de andar, me sento no chão e olho para o céu.

Isso não estava aí antes.

Vejo uma figura preta nos observando enquanto voa. Essa figura tem uma aparência humanoide e seus olhos são completamente vermelhos, até a parte branca dos olhos. Ela nos olha com um sorriso estranho no rosto. 

— Olá, humanos. — A voz dele é rouca e grossa. Quando a figura fala, todo mundo, sem exceção, olha para ele.

— Todos devem estar se perguntando que lugar é esse, mas isso não é importante. — A figura se mantém a vários metros de mim, mas cada palavra que ele fala é como se estivesse do meu lado. — E o porquê de vocês estarem aqui. Isso é porque vocês foram selecionados.

Selecionados?

— Provavelmente todo mundo aqui sabe que morreu, correto? Eu espero. 

— ….. — Nesse momento, ninguém ousa falar nada, a única coisa que ouço é as respirações de alguns.

—Se você acha que não… É porque você morreu dormindo, simples assim. Se você não morreu dormindo, meus pêsames. Que da próxima vez que você morrer seja mais tranquilo.

Nesse momento, não consigo ouvir nem as respirações.

—Agora vamos para a parte importante, irei tentar simplificar. Vocês serão teletransportados, simples assim. Daqui a pouco vão ver a verdade, por isso não vou desperdiçar meu tempo com isso tentando falar com vocês. — Ele move a cabeça ao redor observando a gente — Todos serão enviados para lugares diferentes, quando chegarem não irão ter os seus corpos, e sim,  corpos de umas pessoas que, coincidentemente, morreram. Então dêem uma última olhada no seu corpo que o acompanhou pela vida inteira.  Agora irei levar vocês. Acho que todos já sabem o básico. Por favor, me divirtam, estou com tédio ultimamente e é por isso que os selecionei. Aliás, torçam para que não caiam dentro de um vulcão, esse teletransporte é aleatório e, provavelmente, 99,99% de vocês vão morrer logo depois de se teletransportar, só que dessa vez não terá segunda chance, vão morrer de verdade. Tchau, e não morram cedo. — A figura some com apenas deixando uma risada estranha.

Quando ele se despediu o mundo começou a ficar cada vez mais branco até ser impossível abrir as pálpebras. Um tempo desconhecido se passou, até que abro meus olhos.

Me vejo deitado no chão, meus sentidos estão um pouco entorpecidos e meu ouvido está zumbindo.

Onde estou? Me levanto para tentar entender onde parei.

Há uma floresta ao meu lado e na minha frente uma grande planície, além de uma estrada de terra dividindo os dois. Levanto a cabeça para o céu, vejo ele limpo, quase sem nenhuma nuvem. Alguma coisa está estranha. Olho para o meu braço e noto que ele está menor, a minha mão também.

Não pode ser, né?

Percebo uma poça d’água, aí ando até ela. Enquanto caminho até a poça, acabo tropeçando. Minhas pernas também estão menores. Quando olho meu reflexo na poça, tem uma criança com cabelos pretos e com as iris vermelhas. Ela parece ter por volta de 7 anos de idade.

—Ok. Agora sou uma criança. — Quando falo isso, uma voz extremamente fina sai da minha boca.

Sigh.. Solto um suspiro internamente.

Como isso é possível? Preciso organizar meus pensamentos, isso não é nada normal. Reencarnei? Quem é aquela figura? Onde é isso? Ah, que dor de cabeça. 

Bem, não sei onde fui teleportado, preciso analisar racionalmente. Uma figura estranha apareceu, depois fui teletransportado para um corpo de uma criança. Tentar achar sentindo não vai adiantar, não preciso ocupar minha cabeça com isso, só tenho que ignorar.

Agoda preciso achar um lugar para passar a noite. Olho para a estrada de terra e vejo duas direções. Para que lado vou? Escolho um caminho aleatoriamente, não têm porquê pensar em escolher um lado. No caminho, observo a paisagem que não muda muito, uma floresta gigantesca à minha esquerda e uma planície infinita à minha direita.

Continuo a caminhar por horas, apenas observando a paisagem e esvaziando a minha mente tentando não pensar em nada e ignorando a ardência do meu peito, aliás, estou descalço, meu pé está doendo de tanto pisar em pedras no caminho. Será que escolhi o caminho errado? Se continuar assim, quando anoitecer vou ter que dormir na floresta. Depois de andar por muito tempo, consigo ver ao longe alguma coisa cinza, acelero os meus passos para chegar lá mais rápido, isso é uma muralha? Talvez seja um castelo, será que é a europa? Quando chego perto da cidade, vejo uma muralha gigante com um portão de madeira aberto, consigo ver algumas casas pela abertura. O chão de terra muda um pouco e começa progressivamente a mudar para um de pedra lisa. A floresta que me acompanhou o caminho todo, está entrando por dentro da muralha, daqui de fora consigo ver algumas árvores lá dentro e também, ela cobre toda uma parte do muro por fora e ao que parece, ela contínua por longas distâncias fora da muralha, já que não consigo ver onde termina.

Tento entrar no grande portão, mas um guarda me impede de entrar. O guarda usa uma armadura de couro e uma espada, seu cabelo é castanho e bagunçado, além de uma barba por fazer. Aquela figura me mandou de volta no tempo?

Quando ele olha para a camisa sangrenta, fica um pouco, porém, logo não se importa com isso. O Guarda dizer alguma coisa, só que é uma língua estranha e não sei qual é essa. Tento falar inglês com ele, mas ele não me entende. Tento espanhol, japonês, mandarim, alemão, russo, grego e latim, mas não funcionou. Ele percebe que não sei a sua língua e faz um gesto com a mão, que significa dinheiro, tento ver se tem alguma coisa no bolso desse garoto, infelizmente, não há nada. O guarda vê que não tenho dinheiro, me olha com indiferença e aponta para a estrada. Finjo um rosto choroso, mas o guarda não se importa. Ele pega na guarda da espada que está na sua cintura.

Melhor sair daqui. Fugindo dele, vou até a floresta ao lado da muralha. Ele ia realmente matar uma criança? Bem, acho que é só uma ameaça.

Quando chego na primeira árvore, me sento no chão. Que lugar é esse? Para onde aquela figura me enviou? Como irei entrar na cidade?

Posso tentar olhar ao redor da muralha para achar algum buraco para passar, esse muro é bem grande, provavelmente, terá algum lugar assim, o problema é, quanto tempo levaria para isso? Já está anoitecendo. Deve ter uma entrada do outro lado da muralha, mas levaria muito tempo para ir até lá, talvez até tenha outro guarda e se tiver outro, não mudaria nada. Ou durmo nessa floresta, ou me arrisco para entrar na cidade escondido do guarda. Bem, não quero dormir aqui fora.

Continuo pensando em uma maneira de tentar entrar na cidade, até que sol se põe e anoitece. Espero que funcione, não consigo ver muitas saídas daqui.

Pego duas pedras no chão. Agachado, ando em direção ao portão

Hoje é uma noite sem lua, todo o lugar está escuro. A única luz, é a tocha que está ao lado do guarda. Por causa da diferença de iluminação, ele não deve conseguir me ver. Aqui também está um silêncio. Tenho que tomar cuidado onde piso, para não fazer barulho e alertar o guarda.

Pego a pedra que está na minha mão e jogo na muralha. Ela voa por um tempo e faz um barulho um pouco alto. O barulho alarma o guarda e ele se levanta da cadeira de madeira que está sentado. O guarda tira sua espada da bainha e vai em direção ao barulho. Lentamente, vou chegando perto do portão.

O guarda está se virando. Uso a outra pedra que peguei, e jogo com força para cima. A pedra vai muito longe. Quando ela cai no chão, depois de pegar bastante força na descida, a pedra faz barulho. O barulho é pequeno, mas suficiente para fisgar a atenção do guarda, só que ele ignora isso e olha ao redor.

Com medo do guarda me achar, começo a andar mais rápido. Falta pouco, já consigo ver parte da cidade. Só alguns metros. Só que quando começo a acelerar, o guarda vê uma movimentação e começa a correr atrás de mim.

Achei mesmo que uma ideia dessa iria funcionar? Merda, que idiotice. Isso não é um jogo.

Passando pelo portão correndo, vejo a cidade, as casas são iguais às casas da idade média, mas não presto atenção a isso. Tenho que sobreviver. O guarda está olhando para mim com raiva.

Corro usando todas as minhas forças, sem se preocupar com a direção, entro em becos e vielas, usando minha agilidade para evitar o guarda, consigo até manter uma distância estável. Despistar o guarda vai ser difícil, provavelmente, ele já vive aqui há muito tempo, e deve ele conhecer essa cidade melhor que eu. Pedir ajuda? Não, eu sou o errado aqui, além disso, não sei a língua dessas pessoas. Enfrentar é impossível, ele é um adulto armado com uma espada e sou uma criança, desarmada.

Olho para trás. Vejo o guarda com um sorriso sinistro segurando sua espada. Vendo isso, sinto um arrepio na espinha. O que ele vai fazer comigo se me pegar?

Por enquanto, não fiquei cansado, impressionantemente, parece que essa criança tem um ótimo condicionamento físico, mas mesmo assim, uma hora irei me cansar e o guarda vai me pegar. Preciso fazer algo. Enquanto corro pela cidade sem se importar aonde vou e pensando em como irei me livrar do guarda, entro em um beco, mas percebo que ele não tem uma saída.

O guarda está logo atrás de mim, não posso voltar.

Preciso pensar em algo, olho ao redor de todo beco rapidamente, tem caixas de madeira empilhadas em um lugar, excrementos no chão e outras coisas. Sem tempo para pensar como vou me livrar dessa situação, me escondo atrás das caixas.

Em poucos segundos o guarda chega.

Aviso do Autor:

Ender

Ender

Um amante de gatos e cachorros que decidiu escrever (. ❛ ᴗ ❛.)
Rolar para o topo