Capítulo 02: Córrego

Corvo Escarlate

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O guarda chegou.

Consigo ouvir seus passos vindo em minha direção, ele pisa forte no chão tentando me assustar. Me escondi atrás das caixas e ele sabe disso. Preciso achar um jeito de fugir dele.

Seus passos param na minha frente. Entre as caixas, tem um pequeno vão onde consigo ver o guarda. Ele está segurando sua espada com ela solta na mão, sem se preocupar que eu possa ataca-lo.

Ele, lentamente, move uma perna para trás, com um sorriso sinistro no rosto. Usando bastante força, ele chuta as caixas.

Agora. Pego um excremento que está ao meu lado e jogo com força em sua direção.

O guarda, por reflexo, se defende com sua mão que não está segurando a espada, mas ele não foi rápido o suficiente e o excremento atinge o seu rosto, ele tenta tirar rapidamente isso.

Já que tem algo cobrindo seus olhos, saio de baixo das caixas e vou para as suas costas, dou um chute na parte de trás do joelho dele, o forçando a se ajoelhar no chão. Subo em cima dele, movo meus braços ao redor do seu pescoço o dando um mata-leão.

O guarda me dá cotoveladas para soltar ele, mas não adianta. Ele se levanta com dificuldades, por causa do peso extra. Me seguro no pescoço dele para não cair, quando ele se levanta completamente, o guarda se joga de costas no chão.

BHOOF!

Quando a gente cai no chão, acabo cuspindo saliva, logo após, começo a tossir.

Não consigo respirar, minhas costas e costelas doem, mas ignoro essa dor e não o solto.

A cabeça do guarda começa a ficar vermelha.

Ele tenta tirar meus braços do pescoço dele desesperadamente.

Agora, sua cabeça fica roxa. As suas mãos no meu braço estão mais fracos.

O guarda faz alguns grunhidos estranhos e, finalmente, desmaia.

Me mantenho mais alguns segundos com ele assim, para ter certeza que desmaiou e não está fingindo. Depois de ter certeza que não é um fingimento, empurro seu corpo com dificuldades para o lado, então começo a fugir.

Corro tão rápido que não presto atenção em mais nada do cenário, só em fugir.

Já corri por vários minutos, meu coração está muito acelerado. Se eu errasse qualquer movimento, eu morreria, isso foi muito arriscado.

Começo a caminhar. Como fiquei ofegante na luta, consigo ouvir meu coração, minha respiração também ficou desregulada, a dor nas costelas diminuiu um pouco, por causa da adrenalina. Aproveito que desacelerei para descansar e observar a cidade. A rua é estreita, as casas são quase coladas umas nas outras. As paredes parecem maciças, feitas praticamente só de pedra e um pouco de madeira. Tem algumas tochas na rua para iluminar, além daqui ser muito sujo, excrementos no chão, mijo, o cheiro é horrível.

Preciso achar um lugar para dormir, aqui na cidade não é seguro. Aquele guarda pode me achar e, aliás, essa cidade é bastante grande, parece até ser inspirada na época medieval.

Iria me lembrar se tivesse uma cidade desse tamanho na Terra, a língua que o guarda falava também é estranha, não é parecida com nenhuma que conheço, então é bem difícil eu ter sido teletransportado para o passado. Onde eu estou? Outro mundo?

Enquanto caminho, vejo algumas árvores mais à frente, acelero meus passos e em alguns instantes,  chego na frente de uma floresta, as árvores são gigantes. Não consigo ver o topo das árvores de tão grandes, éuma noite sem lua, não tem mais nenhuma tocha nessa parte, isso deve contribuir para não conseguir enxergar.

Sento no chão, apoio meu corpo em uma árvore, respiro fundo e acalmo meu coração que estava acelerado esse tempo todo, com o coração desacelerado, os cortes que tenho no corpo começam a doer. Parece que me cortei quando o guarda chutou as caixas.

Olho para o meu pé, percebo ele sangrando, provavelmente, foi quando estava correndo, talvez tenha sido alguma pedra ou vidro que fez isso. A ferida é feia e arde muito, seria muito ruim se isso infeccionar. Tiro minha camisa e rasgo ela, o tecido é fino, então não tive dificuldade em rasga-lá. Sem muito esforço, divido ela no meio.

Pego um dos pedaços da camisa rasgada, uso a extremidade da camisa para limpar a ferida e tirar todas as sujeiras ao redor dela. Enrolo a camisa com muita força na ferida, fazendo uma atadura. Após terminar isso, deito no chão cheio de folhas olhando para o céu.

Tento manter minha mente vazia até adormecer, evitando certos pensamentos. As feridas coçam, insetos subindo pelo meu corpo, além dos mosquitos no meu ouvido. Demora, mas consigo dormir por um tempo.

Sinto o sol bater no meu rosto. Me sento no chão completamente cansado, olho para meu pé enrolado com a camisa, tento ver como está a minha ferida, porém o sangue gruda a minha camisa na pele. Fecho os olhos e retiro a camisa rapidamente. Ranjo meus dentes por causa da dor. Depois de retirar, vejo meu pé com um buraco no meio dele, também com alguns calos no dedos, felizmente já parou de sangrar e, provavelmente, vai demorar algumas semanas para melhorar totalmente. Enrolo o outro pedaço da camisa que rasguei na ferida, e jogo o pedaço sujo de sangue fora.

O que eu faço agora? Não irei voltar para a cidade com o risco do guarda me encontrar. Talvez, ele vai ter alguma infecção ocular depois de eu ter jogado bosta nele.

Algumas casas são perto daqui, só que não posso me manter tão próximo da cidade, por enquanto. Observo essas árvores dentro dos muros, parece ser uma floresta tropical, as folhas ainda estão verdes, então deve ser verão, acho que não preciso me preocupar em morrer de frio.

Se conseguir comida, talvez eu possa viver alguns meses até o guarda esquecer que existo. Decido me adentrar na floresta sem me preocupar em se perder. A ferida do meu pé arde um pouco, mas não me preocupo. Há algumas trilhas na floresta, mas as evito propositalmente, não quero me encontrar com as pessoas daqui. O ar é muito fresco, chão é coberto de folhas que caíram, as árvores, que são grandes, fazem um pouco de sombra e o vento batendo no meu rosto é bom. Essa floresta é agradável, não acho que teria problema viver aqui por um tempo.

Enquanto caminho, ouço um pequeno barulho de água e ando até ele, lá vejo um pequeno córrego com água corrente. Morrendo de sede, bebo a água sem pensar duas vezes. A água está fluindo, não tem problema, a não ser que tenha algo na fonte da água que a esteja contaminando.

Além disso, aproveito para limpar a ferida do meu pé. Depois de lavar ele, limpei a camisa também. Esperei algum tempo para ela secar sentado ao lado do córrego. Após seca, coloco a camisa novamente na ferida.

Me afastando da água, procuro alguma fruta que possa comer. Pego algumas em arbustos, a maioria é azul e vermelho e tem umas brancas e amarelas, mas não peguei elas. Separo as frutas no chão de acordo com a espécie. Esfreguei uma fruta de cada, nos meus pulsos e entre os dedos. Se essas partes começassem a coçar ou a pele ficar irritada depois de alguns minutos, elas são venenosas. Por causa disso, jogo algumas fora, das que sobram, retiro o caule delas e as sementes, depois as lavo no córrego. Depois de vários minutos, como as frutas, mastigo cada fruta lentamente, para aproveitar o gosto, caso alguma tivesse o gosto amargo ou azedo, cuspo ela imediatamente. Não me importo em morrer aqui, só que não quero morrer por uma estupidez dessa. O gosto das frutas é muito bom. Algumas são tão doces que derretem na boca, também decoro as que, aparentemente, são comestíveis.

Depois de comer todas elas, pego as que são comestíveis, lavo elas, e coloco nos bolsos desse corpo. Olho para cima e percebo que está anoitecendo. Acho que passei muito tempo caminhando e nem percebi. Podia dormir aqui perto do córrego, mas não seria uma boa ideia, animais selvagens podem vir aqui enquanto durmo.

Me afasto tentando decorar o caminho. Depois de caminhar bastante e ter anoitecido, vou até uma árvore e me apoio nela. Não tem nenhuma fonte de luz, uma escuridão total, mal posso ver os meus pés ou mãos, apenas consigo ouvir os animais ao longe e vento frio batendo na minha pele que me faz tremer. Pego umas folhas no chão tentando me enrolar com elas para amenizar o frio, porém não adianta muito. Além do vento trazer o frio, ele também fazia as árvores balançarem, galhos baterem uns nos outros e assobios estranhos das folhas, que causa um clima sombrio.

Deitado em um chão de terra, em posição fetal segurando meus joelhos, tento dormir mais um dia nesse aparentemente outro mundo.

 

 

Aviso do Autor:

Ender

Ender

Um amante de gatos e cachorros que decidiu escrever (. ❛ ᴗ ❛.)
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