Capítulo 07: Fogueira

Corvo Escarlate

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— Achei uma boa mercadoria para você — digo para o Dieke. 

Ele é uma pessoa que fez sua fortuna sobre a escravidão e outras mercadorias, na verdade, isso é o que pessoas de fora vêem, metade da sua fortuna é feita sobre o tráfico ilegal de crianças, ele também tem uma grande influência no mercado negro, controlando boa parte dele. Seu cabelo é liso, mas com poucos fios e com algumas entradas na frente, ele tem um rosto rechonchudo, a barriga saliente e usa um terno, que ressalta ainda mais sua barriga. — Cadê ela? — pergunta o Dieke

— Ainda não está comigo.

— Como assim? — ele fala com um rosto estranho.

A gente está dentro de uma casa abandonada, não tem porta, apenas um buraco na parede, sem janelas e nenhum móvel, a não ser, uma mesa de madeira nos separando e cadeiras velhas de madeira. Tem três pessoas na porta da casa, impedindo que alguém segue perto. O meu nariz até fica irritado pelo cheiro insuportável de mijo e mofo.

— Quando estava de vigia no portão sul, uma criança entrou escondida pelo portão.

— E? — Ele me interrompe e fica batendo o dedo na mesa.

— Essa criança tinha seus olhos vermelhos como sangue. Ela valeria uma boa grana para você.

— Olhos vermelhos? Um demônio?— Dieke pensa alto consigo mesmo.

— Não sei, mas tem uma coisa, ela chegou machucada, além de suas roupas não serem de nobres, provavelmente, ela estava em uma caravana e foi atacada por algum tipo de besta. 

— Interessante… Então, onde ela está?

— Infelizmente, quando eu estava a perseguindo, essa criança conseguiu me despistar. 

Não vou dizer que me derrotou.

— Você conseguiu ser despistado por uma criança? — O Dieke começa a gargalhar alto. — Gostei dela. Pera… é por causa dela que você está usando esse tapa olho?

— Não! — Sem querer eu aumento o tom da minha voz.

— Entendi, calma. — ele fala com um sorriso —  Mas, porque você veio até mim se não está com a criança nas mãos?

— Só vim lhe trazer essa informação e, se puder, quando você for caçar ela, me leve junto. Quero me vingar desse muleque.

— Quando eu for atrás dela, eu te chamo. — Dieke estende a sua mão. Eu também estendo a minha e aperto a mão dele.

Ele se levanta da cadeira, mas antes que saia, me fala algo que me deixou animado.

— Pensando melhor, acho que vou atrás dessa criança hoje a noite.

 

#34#

 

Hum…

— Você disse que o Contrabandista vai agir? — Eu pergunto para o informante.

— Sim, chegou uma informação que eles encontraram uma criança rara e vão atrás dela.

Entendi.

Olho para cada um dos outros 9 mercenários que vão participar dessa missão. A gente está em uma sala nos fundos da Guilda dos Mercenários, tem uma mesa grande no centro da sala, usada principalmente para reuniões, os mercenários estão espalhados em várias cadeiras dessa mesa, tem um lustre no teto bem no meio da mesa iluminando o local com suas inscrições mágicas. Me levanto da cadeira e começo a falar com eles, enquanto caminho ao redor da sala.

— A gente está atrás desse Contrabandista há meses! Ele sempre conseguiu escapar das nossas mãos, mas agora estamos preparados. Fizemos o preparativo dessa missão por muito tempo, nós perdemos noites de sono procurando ele, ficamos de tocaia no sol e na chuva, com fome ou doente, só para pegar esse desgraçado! Esse filha da puta que atormentou famílias! Fez mães perderem seus filhos! Tudo por ambição própria. Alguém como ele deve ser morto urgentemente. — Eu respiro um pouco e vejo as reações dos mercenários. Seus rostos são sérios, mas consigo ver pelo seus olhares que estão emocionados e ansiosos. — Vamos esperar os seus capangas capturarem a criança rara e iremos seguir eles até o seu esconderijo para libertar as outras crianças. Depois, vamos atrás do Contrabandista e matar ele!

O Vice Comandante da missão, Wallien, também se levanta e continua. — Já estávamos com tudo preparado para atacar, mas essa informação foi de grande ajuda, já que podemos descobrir mais esconderijos, então capturar o Contrabandista. O tempo da missão acaba de ficar muito próximo, se preparem agora, a qualquer momento eles podem ir atrás da criança rara, é aí que vamos começar a ir atrás do contrabandista e quando nós achamos ele, o atacaremos. Explicarei melhor depois. Vocês estão dispensados.

Wallien está usando uma camiseta informal preta, seu cabelo é baixo e seu rosto é bem cuidado, com sua barba raspada. Dá para ver que seu corpo é treinado pelo seu braço definido, também pela postura dele

Vejo todos os mercenários saírem, cada um têm sentimentos mistos no seus olhares. O Contrabandista é um câncer nessa cidade, por usso todo mundo aqui conhece alguma vítima dele, ou mesmo, seus próprios filhos são. Infelizmente, pelo menos dois desses mercenários são esse último caso. O ódio está encravado no coração de cada um presente. 

Depois de todos saírem, Wallien começa a falar comigo.— Você acha que essa informação da criança é verdadeira? — Ele me pergunta duvidoso.

— Quase certeza que sim, a família do informante foi uma vítima do Contrabandista. Sua irmã de oito anos foi sequestrada por ele. 

Provavelmente, o destino da irmã dele não foi muito bom. Se ela já não morreu, está sendo usada por um pervertido para saciar seus desejos doentios. O problema é que ela não é a única que foi sequestrada, outras, com idades até menores, também são usadas para esse tipo de coisa. Só de pensar nisso me dá uma ânsia de vômito.

— Entendo. — Terminado de falar, Wallien volta para a sua cadeira se sentando.

Ele coloca seus cotovelos na mesa e apoia sua cabeça com ambas as mãos na testa.

— Nós vamos conseguir fazer isso, não é comandante? — Quando ele diz isso, sua voz falha um pouco.

— Sim, nós vamos.

 

#34#

 

Enquanto espero minhas roupas secarem, um passarinho pousa na minha frente.

Oi, passarinho.

Ele é preto com algumas manchas amarelas e anda pelo chão dando pequenos pulos. Que fofo. Ele me olha e começa a cantar. Se eu não tivesse comido carne, você iria virar meu jantar, mas como me saciei, posso deixar você viver.

Estou feliz hoje.

Olho novamente para ele. Você acha uma boa idéia sair dessa floresta depois que terminar as carnes, passarinho?

Hum…

Mas tem o guarda, não seria um problema isso? A cidade é grande, por isso vai ser difícil ele me achar? Entendi. O passarinho volta a voar. Bem, já tive esse pensamento e não adiantou nada.

Parece que a roupa já secou. Me levanto do chão, bato com minha mão no corpo para me limpar e pego a roupa. Depois de vestir-lá, me preparo para sair de perto do rio, já está ficando de noite. Não tem tanto perigo agora, porque tenho fogo, mas não quero arriscar. Olho para o céu, vejo ele ficando laranja. A luz do sol está refletindo no rio, fazendo toda a minha visão ficar alaranjada, sinto uma brisa leve no meu corpo como um presságio da noite fria, as águas e árvores tremem por causa do vento, o som dos galhos balançando é alto, fazendo uma atmosfera um pouco sombria, mesmo com essa visão do pôr do sol.

Pego as minhas carnes na lança, então faço uma uma tocha com vários gravetos para levar o fogo comigo. Hora de voltar para essa maldita floresta. Caminho por bastante tempo até conseguir achar um local ideal para ficar. Pego algumas folhas limpas, depois coloco as minhas carnes em cima delas, além disso, as uso para fazer mais uma fogueira com os ramos e gravetos.

O tempo passa e o céu escurece completamente, dando início a noite. Consigo enxergar por causa do fogo, isso é tão bom. Fico na frente da fogueira com as minhas mãos estendidas para ela, além da lança ao meu lado, ainda sinto o vento na pele, mas não é mais frio o suficiente para me fazer tremer igual às noites anteriores. É incrível poder enxergar a noite, consigo ver a minha frente claramente, porém após alguns metros é apenas uma escuridão sem fim.

O fogo cintila ao vento com as suas chamas escarlates se movendo aleatoriamente, o som do crepitar dele me faz prestar atenção no barulho de estalos da lenha.

CLACK! 

Ouço um galho se quebrar.

O que é isso? Pego a lança que deixei do meu lado rapidamente.

Clack, clack, clack.

Parece que são passos humanos, quem são eles? O que estão fazendo aqui?  Aperto a minha lança fortemente, me levanto com um pulo, quando salto o meu pé dói, porém sem me importar com isso, me agacho um pouco e tento ver quem está vindo, infelizmente a escuridão não colabora. Quando os passos chegam perto, vejo sete pessoas saindo da escuridão e uma dessas pessoas é o guarda que eu ataquei quando cheguei aqui.

 

Aviso do Autor:

Ender

Ender

Um amante de gatos e cachorros que decidiu escrever (. ❛ ᴗ ❛.)
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