Capítulo 08: Cativeiro

Estou com os capangas do Dieke procurando aquela criança desgraçada no meio do subúrbio, odeio vir para esse lado da cidade, mas parece que aquele menino correu pra cá. Esse cheiro de bosta e mijo me faz querer vomitar e até essas casas mal feitas de madeira e pedras que não foram construídas por magos, acho que se eu empurrar um pouco as paredes elas caem. Essa má iluminação com poucas tochas à noite, só deve ter bandido nessas áreas, ainda bem que estou com os capangas se não seria roubado. Sorte que está com infestação de bestas perto do bosque, ai elas matam essas pessoas.

Tenho quatorze capangas comigo, o Dieke disponibilizou várias pessoas para caçar a criança de olhos vermelhos e ainda tem vários outros procurando pela cidade, ela não vai poder fugir para nenhum local, pelo menos, nesta cidade. Quase perdi um olho por causa desse filho da puta.

Toda criança de cabelo preto que a gente vê, nós verificamos se ela tem olhos vermelhos, infelizmente, nenhuma tem. Depois de horas procurando por ela, não conseguimos a achar. Onde está esse desgraçado? Quando penso nisso, olho para as árvores gigantescas do bosque. Não é possível né? Nesse bosque só existe animais perigosos que vêm da Floresta de Gluur. Tem grandes chances dele não saber disso e se escondeu lá.

— Hey, pessoal! Bora entrar no bosque! O resto procura de novo por aqui! — eu grito chamando metade dos capangas.

Eles balançam a cabeça concordando e me seguem. Chego em frente das árvores gigantescas, ouço o intenso barulho do vento balançando elas, um assobio estranho vindo de dentro, o alto barulho dos galhos, a escuridão infinita, em que não consigo ver mais de cinco metros… hesito um pouco antes de entrar, mas vejo os vários capangas me olhando e adentro na escuridão.

Nós caminhamos na escuridão sem poder ver onde estamos pisando e quem está ao nosso lado. A única luz que conseguimos ver são as das estrelas, já que nos últimos dias não tivemos lua. Poderia ter trazido tochas comigo, que merda! Esses sons de pássaros e de pessoas andando enquanto pisam em folhas é um saco, consigo nem perceber se tem algum animal à frente.

Por que meus pais me mandaram para ser um guarda de portão? E ainda no pior portão, o do sul, onde ninguém importante passa, sou a porra de um nobre! Deixa esse trabalho para mercenários ou gente sem importância, meu irmão mais novo até foi servir na capital, eles mandaram aquele pirralho para lá, não sei porquê. Vou fazer eles perceberem que sou melhor que ele, irei arranjar dinheiro com a venda desse menino de olhos vermelhos e fazer meu nome, para meus pais saberem que fizeram uma decisão errada ao mandar o meu irmão em vez de mim para a capital. Aqueles dois sempre favoreceram meu irmão.

— Oh, Senhor Matiyul! Tem uma luz ali! — Um dos capangas chama meu nome.

Olho ao redor e vejo uma pequena luz no meio da escuridão.

Finalmente te encontrei, seu desgraçado

 


 

O quê? Como eles me acharam?

Me viro para correr, mas sinto uma dor muito forte no meu pé e acabo tropeçando, levanto rapidamente para correr, só que não consigo e caio no chão novamente. Ouço os passos de alguém chegando perto de mim acompanhada por uma risada de escárnio. Fico em pé novamente e começo a correr mancando, porém antes que eu vá muito longe, sinto um chute nas minhas costas e acabo sendo jogado para frente.

Caído no chão, com apenas a luz da fogueira iluminando a floresta, o guarda para na minha frente com um sorriso que me faz tremer, ele está usando um tapa-olho, mas consigo sentir seu olhar de raiva pelo olho que não está coberto. Olhando para o rosto dele, me arrasto pelo chão tentando fugir, só que recebo outro chute nas minhas costelas e rolo para o lado.

Cough!

Por causa do chute, tusso saliva inconscientemente. Não consigo respirar, meu peito está doendo. Tento olhar para o guarda, mas apenas vejo uma bota vindo na direção do meu rosto.

Clackt!

Minha visão fica preta por alguns instantes e um formigamento sobe pelo meu corpo inteiro, acompanhado por uma dor intensa, sinto sangue espalhado pela minha boca e vários dentes meus foram quebrados.

Cough!

Ele chuta a minha barriga, a dor quase me faz vomitar e sinto uma sensação de náusea. Antes que eu possa sentir qualquer outra dor, o guarda me chuta de novo, dessa vez não consigo segurar e acabo vomitando, a pouca comida que consegui, além de também vomitar sangue. Tento não respirar, porque se movo qualquer parte do meu corpo ele dói, além de sentir uma ardência horrível nos meus pulmões e nos outros órgãos.

Ele parou?

Abro meus olhos lentamente e vejo, com o meu olhar turvo, algumas pessoas segurando o guarda. Depois disso minha mente se apaga e tudo fica preto.

 


 

Que dor…

Onde estou? Movo meus olhos por esse local e vejo tudo, parece um quarto ou algo subterrâneo, tem paredes de pedras com musgos, várias goteiras no teto, não tem nenhuma iluminação, como tocha ou o sol e o chão é de terra suja. Aqui é tudo cinza e escuro, tem um cheiro horrível que atordoa meu nariz e arde meu olho. Tem várias correntes nas paredes. Espera… Isso são crianças? Percebo que nas correntes tem várias crianças presas em estado esquelético e imundas, seus olhares são mortos e estão olhando para o nada. Elas desistiram da vida.

Vejo uma porta do outro lado desse quarto, tento me levantar para ir para ela, chego no meio da sala, porém algo me puxa. Tem correntes prendendo uns dos meus pés na parede.

Tem quatro crianças nesse lugar, me viro para uma delas e a chamo assobiando. A criança me olha, mas depois volta a olhar para o chão com os olhos mortos. Parece ser um garoto, não consigo enxergar a cor do seu cabelo direito, mas parece ser castanho ou preto, ele tem manchas de sujeira espalhadas pelo corpo e suas roupas estão rasgadas e velhas. O seu estado é tão esquelético que vejo todas as costelas.

Parece que ninguém aqui vai se importar comigo. Tenho que arranjar algum jeito de fugir daqui sozinho. O chão é de pura terra, não tem nenhuma pedra para quebrar essas correntes, a parede também parece resistente, então acho que não consigo arrancá-las da parede.

BLAM!

A porta de ferro se abre com força, entrando por ela, vejo o guarda e um gorducho com um terno, com algumas outras pessoas que parecem ser seguranças. Quem serão eles? Alguém que quer me comprar? Porque aqui parece que é um lugar de tráfico de crianças.

O guarda anda até a minha frente e cospe em mim, limpo o cuspe com meu braço e cuspo nele também. Ele fica surpreso, mas depois que percebe o que aconteceu, fica irritado. Dou um sorriso só para irritar ele mais ainda. Veias aparecem na sua testa e vejo um chute vindo no meu rosto. Um dente sai voando e rola pelo o chão, sinto um gosto de sangue e cuspo ele no guarda. Dou outro sorriso para ele. Ele provavelmente vai me matar depois, então se ele me matar vai aliviar um pouco do meu sofrimento. Infelizmente, o gorducho de terno fala alguma coisa com ele e o acalma.

Dessa vez, esse gorducho anda até mim, ele pega no meu rosto com força e olha para os meus olhos, enquanto ele faz isso, fico parado. Segundos depois, ele solta meu rosto e volta para a porta e conversa alguma coisa com o guarda. Esse cara estranho fica conversando por um tempo até sair, me deixando sozinho com o guarda.

Levanto minha mão lentamente, fingindo que não tenho forças e, bem devagar, mostro o dedo do meio para o guarda.

Ele anda rapidamente até mim, pisando forte no chão e irritado. Parece uma criançona mimada. O guarda pega no meu pescoço e me levanta pela parede, ele só não me levanta mais por causa da corrente na minha perna. Com a outra mão que não está segurando o meu pescoço, ele me dá vários socos, a cada soco dele sinto meu corpo estremecendo e minha visão, como também outros sentidos, falhando.

Satisfeito, ele me solta no chão, caio no chão com um baque, mas não sinto nada, porque meus sentidos estão entorpecidos, não consigo enxergar com o meu olho direito e apenas consigo ouvir um zumbido irritante.

Com o meu olho esquerdo, olho o guarda limpando o sangue nas suas mãos com um pano, ele percebe que estou lhe olhando e cospe em mim, infelizmente, agora não posso devolver a ele um cuspe, consigo nem sentir meu dedos. O mimado sai pela porta de ferro e me deixa sozinho com essas crianças moribundas.

Banner PC Vulcan Novel
Facebook
Twitter
WhatsApp
Email
Criado Por Metal_Oppa! <3
Letras
16
Tema
Fundo
Fonte
Texto