Capítulo 09: Luto

Como vim parar aqui? Eu morri, uma entidade apareceu e me ressuscitou no corpo de uma criança e agora parei em outro mundo. Acho que estou em coma e isso tudo é um sonho, só pode ser isso. Nada nessa porra faz sentido. Minha maninha me ensinou a ser racional, mas como vou ser racional? E agora? Ela e Marina morreram e vou ter que viver uma vida de merda.

Estou sem comer há três dias e acho que o guarda está almoçando na minha frente. Não tenho água o suficiente no meu corpo para poder cuspir no seu prato.

Iris me ensinou a sempre me adaptar a situação e fazer ela ao meu favor, para poder controlar tudo, mas agora não tenho nem a força para poder me matar.

Nesses três dias, o guarda me espancou periodicamente. O cheiro desse quarto que antes era azedo, agora provavelmente cheira a sangue, a terra marrom acho que agora é vermelha, os dentes que sobraram da minha boca dá para contar nos dedos, se bem que ele quebrou alguns dos meus dedos, então acho que não dá para contar.

Ela também me ensinou que em situações na qual não posso mudar, preciso encontrar um jeito para a situação ser menos pior, para que no futuro me favoreça. Mas aí me pergunto, que caralhos de escolha eu tenho, além de ser espancado e torturado mentalmente toda hora? Bem, considerando minha irmã, ela com certeza encontraria uma saída daqui, de um jeito ou de outro, mas agora ela está morta. E a Marina sempre teria uma visão positiva dessa situação, provavelmente ela falaria que pessoas iriam me salvar ou que, esse é um jeito de adquirir resistência à dor, mas ela também está morta.

Eu só sei que o guarda está comendo, por uma fresta no meu olho. Já não consigo escutar nada no meu ouvido, apenas o zumbido, meu olho direito não funciona e como esquerdo está com sangue, tudo que vejo está manchado de vermelho, meu nariz quebrou dois dias atrás e minha língua está quase cortada ao meio desde que tentei morder ela ontem.

Nesse tempo aqui, consigo pensar sobre o que aconteceu comigo antes de vir para esse mundo, eu estava evitando esse assunto com a desculpa de precisar sobreviver. Imaginar que nunca mais poderei ver minha irmã e a Marina faz meu coração doer, essa dor é pior do que ser torturado. Essa não posso ignorar. É algo gelado e solitário, uma coisa ruim que percorre meu corpo, um aperto no peito me impedindo de respirar, me afogando no vazio. Me sinto impotente a essa dor. Não posso controlá-la nem mantê-la sob controle. É ruim, é pesada. Me sinto sufocado, estou caindo desesperado sem fazer nada em um abismo negro com apenas escuridão infinita e cada segundo desço mais rápido, só que a velocidade não muda nada e continuo caindo.

Eu só quero ver seu rosto novamente, poder assistir um filme juntos, até uma conversa idiota, sentir sua respiração, seu calor e a batida do seu coração enquanto ficávamos juntos. Rir juntos, chorar juntos. Toda hora tenho que relembrar que não posso mais ter isso. Só quero te abraçar de novo. O tempo que ficamos juntos nunca vai voltar e sou obrigado a aceitar isso, mas ainda não consigo entender, por quê? Foi muito rápido… Eu tinha tudo, mas acabei perdendo esse tudo. Tanta coisa que queria conversar com elas, fazer brincadeiras idiotas, viajar juntos, nos divertir, ir nadar em um rio…

Minha irmã também me ensinou que devo usar as minhas emoções ao meu favor, o ódio para bater mais forte, a fome para apreciar a comida, o medo para se proteger, mas como uso esse sentimento? Esse sentimento serve para quê? O que faço? Você não me ensinou isso.

O engraçado é que não pude fazer nada. Um completamente inútil, só fui matar aquele cara depois das duas terem morrido, então por que matei ele? Não adiantou porra nenhuma, acabei morrendo do mesmo jeito e aqui estou sendo torturado.

Como queria um bolo agora, um feito de laranja ou chocolate. Feito pela Marina, já que a minha irmã é bem provável de acabar queimando o bolo. Não, um bolo não. Um brownie. O brownie que ela fazia era delicioso e de todo tipo, de banana, chocolate, creme de avelã. Tudo que ela fazia ficava deliciosa. Bem, não vou poder comer mais nada feito por ela.

Acho que o guarda parou de comer, consigo ver ele se levantando bem, ver seria uma hipérbole, só consigo enxergar um borrão vermelho em pé. Ele anda até a porta e sai.

O guarda deixou o prato de comida no meio da sala. As crianças que estão comigo parecem que perceberam isso, já que elas rastejam pelo chão, porque elas não devem ter forças para andar, e começam a brigar pela comida, ao que parece. Incrível como não tem força para andar e mesmo assim conseguem brigar. O ser humano é incrível, faz qualquer coisa por comida. Instinto de sobrevivência que fala, né? Ouch, uma criança deu um soco na outra que faz ela cair no chão. Parecem um monte de selvagens, chutes e mordidas, não sei como elas tiraram essa energia. Há um minuto nenhuma delas tinha algum foco no olho, bem, por causa da minha visão, é como se várias sombras vermelhas tivessem brigando, é bastante interessante.

Me pergunto como é a vida após a morte, claro eu morri, mas alguém me ressuscitou com minhas memórias. Onde Iris e Marina estão? No limbo? Sumiram? Suas existências foram algo fútil, sem nenhuma importância? Reencarnaram também? Sei que a minha vinda para esse mundo é o entretenimento para uma figura estranha, acho que ela está se divertindo bastante vendo o meu sofrimento.

As crianças param de brigar. Tem um vencedor. Não sei o que aconteceu com as outras, provavelmente foram mortas. Se elas foram pegas para vender, acho que a mente por trás disso não iria gostar de ver esses corpos aqui. Alguém chega pela porta, parece que ele vê as crianças mortas e fica com raiva. Acho que é o guarda.

Também estava pensando, se eu escapar daqui, o que irei fazer? Voltar para a floresta para ser atacado novamente? Sair dessa cidade e tentar a sorte em outra? Não tenho merda de nenhum lugar para ir. Faz nem sentido tentar escapar daqui, só vai atrasar minha morte. Se for vendido para alguém, talvez consiga voltar para a minha irmã e Marina, já que terei uma opção que não posso fazer agora.

Algumas pessoas entram pela porta e retiram o corpo das crianças desse cativeiro. Percebo que tem uma pessoa recebendo reclamações, provavelmente o guarda.

Estou cansado… Vou dormir um pouco.


— Senhor, Dieke, recebi informações que os mercenários estão vindo atacar o senhor novamente. — Um dos meus empregados entra pela porta do meu escritório e me informa sobre um ataque.

— Quando isso vai acontecer? — pergunto para ele batendo meu dedo na minha mesa do escritório.

O escritório tem uma mesa onde faço as minhas coisas, dois sofás nas laterais da sala, um lustres gigante bem no centro e cadeiras na frente da mesa para caso convidados aparecerem. As paredes e teto são feitos de uma madeira especial que dá um brilho majestoso, com uma janela bem atrás de mim que ilumina todo o escritório. Em cima da mesa tem vários papéis empilhados e uma vasilha cheia de doces, tem bancadas em duas quinas da sala e um cabide ao lado da porta, onde está o meu paletó.

— Fui informado que depois de atacarem todos os cativeiros, eles virão atrás de você ao mesmo tempo. — Depois de dizer isso, ele abaixa a cabeça e espera eu falar alguma coisa.

Continuo batendo o dedo na mesa. Eles já vieram atrás de mim milhares de vezes, o que eles acham que vai acontecer agora? Um milagre do destino vai aparecer e vão conseguir me pegar. Sem querer eu solto uma risada que assusta meu empregado. Bando de imbecis. Fazem a mesma coisa sempre e esperam outro resultado? Tsk, mas ainda perderei as mercadorias.

Me levanto da minha cadeira e mando o empregado sair. Hora de fugir de novo, eles não se cansam não? Eu pego meu paletó no cabide e saio do escritório, indo para o meu esconderijo.


— Já está tudo certo, Wallien? — Eu pergunto para o vice-comandante da missão.

— Sim, senhor. Já cercamos todos os cativeiros, agora só falta capturar o Contrabandista. — Wallien me responde calmamente

— Certo, mande pessoas avisarem que começaremos amanhã ao anoitecer.

Wallien concorda com a cabeça e sai da guilda dos mercenários.

Tomara que nada tenha acontecido com as crianças enquanto a gente se preparava, demoramos muito para conseguir organizar o pessoal, e não faz sentido capturar o Contrabandista se elas não estiverem a salvo.

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