Capítulo 10: Rua Principal

Corvo Escarlate

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O quê?! — O Wallien me fala uma informação que me faz gritar.

Que merda! Como isso pode ter acontecido? Para que eles fariam isso? São apenas crianças.

— Wallien, fale que vamos começar a operação nessa noite, não mais amanhã ao anoitecer.

Não posso arriscar, essas crianças não podem morrer.

— Certo. — Wallien fala poucas palavras, sai pela porta com os passos rápidos e uma cara de preocupação.

Também me levanto, visto minha armadura de couro e pego a minha espada a colocando em uma bainha na minha cintura. Saio da sala que fica no fundo da guilda dos mercenários. Passo pela porta e ando por um corredor grande com várias portas com a parede roxa, no fim do corredor tem uma escada levando para baixo, então a desço. No térreo da guilda, vejo várias pessoas com armaduras de couro e armas, como espadas, machados e arcos. Ao lado da escada, tem cinco balcões com grande filas, cada balcão tem uma pessoa atendendo. De um lado da guilda, tem um quadro de avisos, que fala, obviamente, de avisos e coisas importantes que vão acontecer. Quando chego no térreo, vários mercenários me cumprimentam com a cabeça, eu os retribuo e passo pela pela entrada, que não tem uma porta e é em forma de arco. Saindo da guilda, sinto o sol batendo no meu rosto e um calor intenso. Pessoas caminhando rápido, vendedores gritando para vender seus produtos, várias barraquinhas de comida e pequenas lojas espalhadas. A rua é muito larga para caber essa quantidade de pessoas, com algumas carruagens, a maioria dessas pessoas nas carruagens são nobres ou comerciantes ricos que trazem seus empregados para comprar mercadorias ou avaliar a situação daqui. Essa rua é chamada de Rua Principal. A Guilda dos Mercenários está na parte do meio daqui, cercada por algumas lojas, a Guilda dos Aventureiros está no final da rua, ela é o maior edifício.

Acelero meus passos para sair daqui. Depois de um tempo as ruas começam a ficar mais estreitas e vazias, então eu chego em uma rua, aparentemente normal, vejo uma casa velha caindo aos pedaços, a qualquer momento ela pode cair. Abro a porta dela que range alto levantando poeira, entrando nela, observo uma dúzia de mercenários conversando com um mapa da cidade em cima de uma mesa. Eles estão vestindo roupas informais e todos tem um físico forte e um olhar intenso.

— Chefe, o que está fazendo aqui? — Um dos mercenários me pergunta.

— Mudança de planos, vamos atacar hoje. — enquanto digo isso, ando até perto da mesa — Nós já temos o pessoal nos cativeiros e nos esconderijos preparados, já fui informado que o Contrabandista está fugindo, então o plano está dando certo. — aponto para um local do mapa — Viram pessoas arrastando corpos de crianças nesse cativeiro que é o mesmo da criança rara.

A casa fica em silêncio enquanto todos os mercenários pensam. A missão não vai falhar por causa dessas crianças mortas, mas elas são filhas de alguém e ninguém quer o fardo de contar para os pais que seus filhos morreram porque nós decidimos esperar, inclusive eu.

— Vim aqui, porque vamos mudar o plano um pouco. Parece que eles mataram as crianças para nos apressar, então vamos fazer o que eles querem, o nosso objetivo agora é a segurança das crianças. Vamos deslocar um pouco do pessoal para os cativeiros, já sei para que direção o Contrabandista vai e por isso vamos tirar parte do pessoal dos outros esconderijos. — eu digo, enquanto olho para todos os mercenários — Tem grandes chances do Contrabandista saber disso e ir para esses lugares desprotegidos, aí nós precisamos ficar atento aos seus movimentos para cercar ele.

— Sim, senhor. — Alguns mercenários me respondem, enquanto outros continuam pensando.

— Esse é o plano geral, vou sair e me preparar para o ataque, vocês comandem tudo aqui como planejado. Aproveitem o tempo e pensem com mais detalhes sobre o plano. — Eu me despeço deles e vou para um local de ataque, o do cativeiro da criança rara.

Ao que parece, a criança rara ainda está viva, então ainda dá para salvar ela daquele cativeiro. A paisagem ao meu redor muda mais uma vez, eu saí das ruas estreitas e sujas e cheguei em um lugar de extrema pobreza, o chão não é mais de pedra e sim de terra, as casas são puras de madeiras e barro, se antes era sujo, agora piorou.

Normalmente, são nesses lugares mais afastados do centro e perto das muralhas que o Contrabandista deixa o cativeiro. Enquanto caminho por esse local, vejo as pessoas que moram aqui sentadas no chão, algumas conversam entre si e outras apenas olham para o nada. Eles não têm um pingo de gordura no corpo, manchas de sujeira em vários lugares e todos estão em estados esqueléticos. De cá, consigo ver as muralhas e o bosque, além das árvores gigantescas da Floresta de Gluur que são maiores que os muros.

Eu caminho mais um pouco e entro em uma casa vazia, ela é do mesmo estado das outras, de madeira e barro que pode desabar com apenas uma ventania, não tem janelas, então se eu fechar a porta tudo fica escuro, é pequena e, praticamente, uma sala só cheia de poeira. Fecho a porta, então tudo fica escuro, me sento no chão e retiro minha espada da bainha a colocando do meu lado

As vezes fico pensando o que eu iria fazer se o Contrabandista tivesse pegado a minha filha. Com certeza não iria conseguir me controlar e iria atrás dele até o ver morto bem na minha frente com a cabeça decepada. Iria soltar meus demônios e fazer do rosto dele uma mistura de sangue e miolos, não iria parar a minha mão até ver seu crânio ser esmagado e afundado. Mas não consigo nem imaginar o que pais que tiveram, realmente, seus filhos sequestrados por ele, a raiva, a tristeza, a angústia, a solidão, a dor que eles devem passar todo santo dia e toda hora. Essa sensação, de perder um filho, é algo que nunca senti e é algo que nunca espero sentir, por isso, nunca desistirei de caçar ele, não só por minha filha e por mim e sim para as outras pessoas também. Mesmo se conseguirmos libertar as crianças, o trauma que elas sofreram será imortalizado nas suas mentes, uma criança que deveria se divertir, nunca mais poderá sair, porque o trauma não deixaria pisar na rua.

Já estou ficando com raiva de novo. Ainda bem que poderei descontar todas as minhas frustrações nesse ataque. Imaginar esse Contrabandista recebendo seu julgamento é tão bom, a paz que virá depois é maravilhosa. Depois disso, é só cuidar para que outro igual a ele não apareça e arruine a paz, mas isso poderei cuidar. Eliminar alguém sem influência e alguém com influência é outra coisa, por isso tive que reunir quase metade da Guilda dos Mercenários para ele não ter nenhuma chance de fuga dessa vez. Com gente com baixa influência, a coisa mais fácil é capturar, não tem pessoas para o defender, nem muitos lugares para fugir, sem nenhum apoio político, para ser alguém importante no mercado negro, você precisa primeiro ser importante fora dele. A quantidade de pessoas que eu capturei que tentaram ser alguma coisa nessa parte do mundo é imaginável, passei a minha vida só pegando esses pequenos ratos, o problema é que quanto mais eu os capturo, mais ratos brotam do chão, como eu gostaria de um veneno supremo para aniquilar todos eles e ficar tranquilo com a minha família. Esses idiotas e burros só aparecem para problematizar a minha vida, porque se os deixar soltos, o problema que eles irão causar me dará só mais dor de cabeça e tem a chance de outro Contrabandista nascer.

Em contraste da escuridão da casa, pela abertura na parte de baixo da porta, uma luz laranja aparece. O sol já está se pondo. Falta minutos para concluir a missão. O plano de meses que todos os mercenários participando da missão tiveram que memorizar cada o que irão fazer, está quase sendo posto em prática. O suor e sangue que demos vai ser finalmente recompensado, tive ansiedade sonhando com esse dia por meses. É um sentimento misto de felicidade e antecipação, porém, isso são só sentimentos, minha mente continua racional.

Agora é só esperar anoitecer.

 

Aviso do Autor:

Ender

Ender

Um amante de gatos e cachorros que decidiu escrever (. ❛ ᴗ ❛.)
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