Capítulo 13: Cela

Não consigo dormir.

Estou deitado no chão com cobertores como cama, é bem mais confortável em comparação com a terra da floresta. O quarto é completamente escuro, com apenas uma luz fraca vindo da janela, a fase sem lua acabou. A menina dorme tranquilamente na cama ao meu lado. O resto do quarto é um breu, mas nada preocupante, já que tem uma porta e um telhado para me proteger, além de existirem pessoas lá embaixo. Talvez esse seja o primeiro momento de paz desde quando cheguei nesse mundo, mas mesmo assim não consigo dormir. Eu dormia tranquilamente na floresta, bem as vezes eu acordava com os barulhos de animais, porém ainda dormia, provavelmente estava cansado e dormia sem nenhum problema. Eu realmente dormia sem problema?

Engraçado é pensar que tudo que fiz até agora não adiantou nada. Para que eu peguei as carnes? Só consegui comer um pouco delas e depois fui pego pelo guarda. Desperdício de tempo. Nada do que fiz até agora adiantou alguma coisa, no fim apenas sobrevivi por causa da sorte. Minha irmã me repreenderia agora.

Se bem que agora não precisarei me preocupar com comida. O Kynigos e a sua mulher parecem ser gentis, ajudaram um completo estranho e o deram abrigo, mas isso irá durar quanto? Vou precisar achar outra forma para sobreviver caso eles não puderem mais cuidar de mim. Eu preciso sobreviver? Não há nada para eu fazer aqui nesse mundo. Essa é uma questão que sempre esteve na minha cabeça. Não faz sentido me apegar a sobreviver tanto assim, isso é só instinto dos animais para não se extinguirem, então não tenho que me preocupar com isso. Cada dia só está pior que o outro e a tendência parece ser piorar. Preciso realmente passar por isso? É só uma tentativa inútil de prolongar o sofrimento.

Merda, o aperto no peito piorou. Movo minha mão para o meu coração, apertando a caixa torácica. Respiro irregularmente, o ar dos meus pulmões estão faltando, é como se eu puxasse o ar, mas eles não entram nele. Não estou coberto por um lençol, então sinto o frio bater na minha pele, um arrepio passa por todo meu corpo, dos pés à cabeça. Também ouço o meu coração bater rapidamente, um som ensurdecedor e ritmado, fazendo meus ouvidos quererem explodir. Fecho meus olhos por causa da dor, mas assim que os fecho, uma visão aparece na minha mente. Enxergo uma arma apontando para mim em um mundo absolutamente preto, a arma é tão grande que consigo ver tudo com detalhes. De repente, aparece uma mão nessa arma e puxa o gatilho, porém em vez de me acertar, ela atinge uma pessoa de cabelos castanhos claros, usando um vestido azul com várias margaridas nele. Essa pessoa cai ao meu lado, só que não consigo ir até ela. Me vejo preso em correntes, em cada uma das minhas pernas e braços. Olho para o outro lado, para não ver o corpo dela, mas outra corrente aparece no meu pescoço me obrigando a ver, sem fazer nada. Tento abrir minhas pálpebras, mas elas estão tão pesadas que não consigo mexer-las. O rosto da Marina fica pálido com os lábios roxos, o buraco da sua cabeça não está saindo sangue, mas está completamente escuro como um abismo. Isso não é real. Respire fundo e se acalme. Eu inspiro o ar por três segundos e o solto, faço isso novamente, de novo e de novo. Quando meu coração se acalma, consigo respirar normalmente. Abro meus olhos e volto para o quarto escuro

Odeio isso. Preciso me tratar de alguma forma, ocupar minha mente ou algo do tipo. Acho que é esse o motivo de eu não conseguir dormir, não tem nada para minha mente pensar a não ser o que aconteceu. Devo fazer algo antes que piore, qualquer coisa, se não vou enlouquecer. Mas aí volta a questão, não há nada para fazer aqui. Bem, vou pensar em algo.

 

 


 

Me levanto da minha cama sem acordar minha mulher. Ela está dormindo profundamente e até roncando um pouco, seu corpo está esparramado pelo colchão inteiro, nem parece a bela e arrumada moça que é de dia. Como ela se mexe muito enquanto dorme, não está coberta, então pego o lençol da cama e a cubro, vai que ela pega um resfriado. Sua roupa é pijama curto e folgado, não dá para ver direito, porque está escuro.

Meu quarto é grande, porque metade do primeiro andar é apenas ele, a outra metade é o bar e a cozinha. Como aqui não tem nenhuma janela, é um breu completo, o cômodo é um pouco vazio, mas não dá para perceber isso no escuro. Ele fica embaixo dos quartos de solteiro do primeiro andar, se fosse abaixo dos de casal seria um grande problema para dormir à noite.

Ando até o armário do quarto e visto uma roupa e pego a minha espada que está encostada no armário. Caminho de fininho para não acordar minha mulher e saio por uma porta, que é logo abaixo das escadas para o primeiro andar. Fecho a porta lentamente, percebo que não tem ninguém no bar e saio da pousada.

Fora da pousada, começo a ir para a Rua Principal com minha espada na cintura. Não tem nenhuma pessoa andando na rua, porque ninguém é doido de sair essa hora. Chego na Guilda dos Mercenários, entro nela e vejo o familiar cenário, uma escada mais a frente, um corredor indo para mais fundo na guilda ao lado da escada alguns balcões em um lado e no outro um lugar para os mercenários conversarem, porém, incrivelmente, não é bar, as bebidas foram proibidas aqui, são muitas histórias. Ela está praticamente vazia, tirando alguns mercenários que estão me esperando.

— Boa noite, capitão — Wallien me cumprimenta.

— Boa noite — digo para eles e para os outros mercenários.

Sigo em frente sem falar nada e vou até o corredor ao lado da escada. Nele tem vários quadros, a parede é roxa vinho com detalhes amarelos nela, igual ao primeiro andar. Vou até a última porta e a abro, a parede aqui, em vez de roxa, não tem tinta, só que o importante é as celas, com grandes grades de madeira impedindo qualquer um de sair ou quebrar, claro, não funciona com controladores de mana, um guerreiro que despertou aura quebra essa cela com um cuspe. Em uma das três celas, há uma pessoa encostada nas grades, sentado no chão e vestindo um terno. Ele está tranquilo, enquanto olha para mim.

— Como é estar preso, ó grande contrabandista?! — brinco com ele, dando risadas.

— É bem confortável, mas acho que seria bom um colchão, minhas costas doem. Ah! Uns docinhos também seria bom. — ele fala debochando.

— Certo, iremos providenciar seus desejos — falo isso, enquanto paro na sua frente e me agacho. — Bora fazer um acordo? Eu te solto, mas você dá dinheiro para a Guilda dos Mercenários, que tal?

Ele pensa por um tempo, até que ele fala.

— Claro.

Olho para o Wallien e ele me entrega uma chave, então abro a cela do Contrabandista.

Ele se levanta do chão e sai da cela.

— Aliás, seu nome é Kergis, correto? — o pergunto, enquanto jogo minha espada na cintura para a porta onde estão todos os mercenários estão.

— Sim, esse é o meu nome. — Ele olha ao redor apreensivo.

Eles arrastam a minha espada para o corredor e também retiram suas armas. Depois de retirá-las e jogá-las no corredor, fecham a porta. Há, uns seis mercenários aqui, contando comigo.

— Você vai ser executado depois de amanhã, então todos nós podemos se divertir um pouco. — Estalo os meus dedos.

Ele olha para mim calmo, mas consigo perceber suas mãos tremendo. Sem nem esperar mais um segundo, soco o rosto dele, que o faz cambalear, mas não paro e giro meu corpo dando outro chute na sua cabeça. Ele é jogado para onde estão todos os mercenários juntos.

Um deles pega no seu terno, com uma mão só, e o levanta do chão. Como o Kergis é pequeno, seus pés saem do chão. Seu rosto rechonchudo agora está escorrendo sangue, com uma marca roxa nele. O mercenário com a outra mão que está livre, dá um soco na barriga dele, que o faz cuspir sangue e saliva.

Ele solta o contrabandista, que cai no chão duro no chão. Eu corro até ele e, com muita força e embalo, dou um chute nas costelas dele, fazendo o Kergis rolar no chão.

Como estou adorando isso. Toda a raiva que passei está sendo descontada agora e não só a minha, as dos meus companheiros também.

Wallien se agacha no chão e vira o Contrabandista, porque ele está de lado no chão. Quando ele o vira, Wallien sobe em cima dele e fica lhe batendo com vários socos. Ele está gritando de raiva. A irmã de oito anos dele foi sequestrada e depois achada morta. Todos esses cinco mercenários, tem algum parente próximo deles sequestrados pelo Contrabandista.

Hoje ele vai sofrer até o amanhecer.

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