Capítulo 19: Karma

Se eu voltar para a floresta, será que consigo dormir? Meus olhos estão fechados e minhas pernas cruzadas, enquanto mantenho minha respiração controlada, caso não faça isso, meus pensamentos saem do controle. Às vezes tenho visões e ouço os gritos da Marina bem no centro da minha mente, além de momentos em que sinto tudo o que aconteceu naquele dia. A dor, a sensação de impotência. Não é como se eu pudesse me livrar desses pensamentos, como estou fazendo agora. Tentar esquecer só piora.

Quando eu lutava por minha vida, tudo sumia, apenas sobrava o que estava à frente. Acho que fazer isso pode me ajudar, mas não é como se no momento em que saio do bar uma situação que comprometa minha vida aparecesse, por isso sei o que irei fazer no futuro. 

Ouço duas vozes femininas sussurrando em ambos os meus ouvidos.

— Vicit, não nos ignore.

Depois de tanto tempo aqui, acabei descobrindo várias coisas interessantes sobre esse mundo, como magia. Nesse mundo tem algo que acabei chamando de Mana, por ser semelhante ao que tem nos livros de fantasia. Há pessoas com o título de Controladores de Mana, o nome é autoexplicativo, eles manipulam mana. 

O Kynigos me contou que tem dois grandes ramos de Controladores de Mana, aqueles que focam em aprimorar seu corpo com ela, denominei isso de Aura, e também tem aqueles que transformam a mana fazendo magia. Ele não explicou como alguém consegue virar um Controlador de Mana porém, achei isso muito interessante, como essa coisa funciona? Fortalecer o corpo com algo que não é tangível, ou fazer um fogo aparecer do nada. Não faz sentido. O Kynigos não me respondeu isso, mas me disse para ir na Universidade Mágica que é em outro país para descobrir, ele também me disse que a magia não acontece do nada e tem um motivo.

Eu poderia me tornar um mercenário igual a ele, então consigo saber mais sobre magia e tentar ver se consigo descansar. O pedi para me ensinar usar uma espada, porém ele me disse que eu sou muito novo, bem, nesse corpo só tenho oito anos. É estranho pensar que sou uma criança, ainda nem me acostumei com a voz fina.

Como será usar magia? Ou controlar mana? É como as novels que só preciso imaginar ela e, simplesmente, sai do meu corpo? Já que esse mundo é estranho, não me surpreenderia com isso.

Abro meus olhos e não estou no quarto como de costume. Olho para cima e vejo o lindo céu estrelado, hoje é lua cheia, por isso, ela dominou a maior parte do céu. O quintal do bar é pequeno, na parte que é coberta por um telhado, onde fica o fogão, o chão é de pedra, mas desse lado é de grama. Faz meses que não fico assim encostado na terra, nesse tempo nunca saí do bar. As milhares de estrelas iluminam o céu, dando um contraste mais azulado à infinidade escura dele, cada luz tendo sua própria luz, como se competisse para ver qual consegue brilhar mais.

Queria que a Marina e a Iris conseguissem ter essa visão.

Ouço alguém abrindo a porta do quintal.

— Ah, Morrigan. Você está aqui? — Kynigos aparece com uma cara de sono, enquanto boceja. Ele anda até mim e senta ao meu lado.

— Você precisa dormir, se não, não irá crescer.

— Não estou com sono.

Ele também olha para com e fica observando o céu estrelado.

— As vezes fico olhando as paisagens igual a você. A natureza é linda, não é? Uma estrela dessas aí parece não ser importante, tanto se tirar-lá, ninguém irá perceber. Mas essas coisas não funcionam com humanos, caso um suma, há pessoas que irão perceber, mesmo tendo milhões de nós.

O olho tentando entender o que está dizendo.

— Como mercenário tive que matar muito, então de vez em quando olho para as estrelas ou para as paisagens da natureza, admirando elas. Porque aí entendo que todos nós somos meras formigas comparado ao planeta, então entro em conflito, somos importantes ou não? Ambas as perspectivas entram em conflito.

Fico completamente confuso pelo o que ele diz. Por que isso do nada?

— Todas as pessoas que matei devem ser importantes para alguém, terem suas próprias histórias e conflitos, mas precisei matá-las. Não é como se eu me importasse com isso, o problema é quando lembro daquelas que não precisei, as que eu não tinha nenhuma desavença. Parece até com a facilidade que morreram, não fossem ninguém.

Ele para de ficar observando as estrelas e olha nos meus olhos.

— Você vem me perguntando sobre como é ser um mercenário, então é isso que é. Cada pingo de sangue que caiu na sua mão, você se lembra, os gritos de dor enquanto imploram por perdão, a sensação da carne sendo cortada por sua espada, a vida se esvaindo dos corpos. Tudo isso você se lembra. Eu sei que você quer ser um, porém tem que se lembrar disso tudo, não irei te impedir, claro.

Kynigos volta sua cabeça para cima vendo as lindas luzes no céu, porém eu abaixo a minha pensando.

Eu já matei alguém e não senti nada disso que ele descreveu. Provavelmente, porque não tem motivo para me importar com aquele cara, tirando o ódio.

— Ah, outra coisa. Aproveitando que estou numa vibração boa, vou lhe perguntar outra coisa, sabe o que significa ▅▆▅▆▇▆▇? — ele fala enquanto continua olhando para cima. 

— Não.

— É tipo assim, quando faz uma ação boa, você é retribuído com algo bom e quando faz uma coisa ruim, é retribuído com uma coisa ruim.

Karma.

— Entendi o que é — o respondo.

— Certo. As pessoas esquecem o karma, elas pensam que assim que ajudam, vão receber logo depois uma notícia boa, karma não é algo místico. Quando você ajuda uma pessoa, é comum ela retribuir, mas não você achar uma moeda de ouro na rua. Demorei para entender isso mesmo sendo algo simples. E quero que você não precise passar pelo o que passei para entender isso.

Na última vez que ajudei alguém, minha família foi morta.

— Você tem que entender também, que karma não é absoluto. Há algo para se fazer em cada situação, e ajudar pode não ser uma delas no momento. Como eu disse, não é algo absoluto, mas é sempre preferível fazer o bem, porque isso vai lhe ajudar no futuro próximo, ou em um futuro distante. — Ele deita no chão ainda olhando para cima.

Também me deito. Não é que eu não acredite em karma, porém espero não precisar dele para algo bom acontecer comigo. Prefiro ter controle sobre a situação, do que apostar em que algo, provavelmente, vai acontecer. Mas a sugestão dele faz sentido, consigo ver o que está dizendo. 

— Deixa lhe contar algo envolvendo isso que eu disse. Um dia estava em uma missão, então decidi ajudar uns viajantes que andavam na estrada na mesma direção que eu ia, nós conversamos e viramos bons conhecidos nessa viagem. O deixei no seu destino, a sua casa, então segui meu caminho. Mais tarde, a missão falhou e quase morri, no fim acabei perdendo quase tudo e capturado pelos bandidos que fui enfrentar. Minha morte estava com os dias contados, eles apenas me mantinham vivo por diversão. Só que esse rapaz viajou correndo vários dias até avisar uma guilda, então eles me salvaram. Agora lhe pergunto, se antes eu não tivesse ajudado ele, esse rapaz faria algo assim? Correr por vários dias só para salvar um quase desconhecido? Essa é uma situação bem extrema, porque ele é muito idiota de fazer isso. 

Parece ser mentira.

— Aliás, não estou inventando nada.

É uma mentira.

Bem, consigo entender ele, mas ainda não confio em karma.

— Bora voltar para dentro antes que a gente pegue um resfriado e a Friggia reclame. — Ele se levanta limpando sua roupa, também faço isso.

Nós dois fomos embora do quintal, fechando a porta dele. Dentro do bar está um breu, a única fonte de luz é a luz das tochas vindo da rua, enquanto atravessa a janela. Arrodeamos a mesa da cozinha e passamos pela entrada do balcão, aí saímos do bar com cuidado para não esbarrar nas mesas. Na saída do bar, o Kynigos bagunçou meus cabelos e foi para seu quarto. Então, comecei a subir as escadas devagar tentando não fazer barulho, a cada passo meu, a madeira rangia. Subi até o último andar, depois abri a porta bem lentamente, entrei no quarto e a fechei. Andei até o armário nas pontas dos pés e peguei meus cobertores. Olho para a cama e vejo a menina deitada na cama com seu corpo completamente esparramado, caminho até ela com meus cobertores no ombro e a enrolo com seu lençol. Faço minha cama no chão, deito nela, enquanto fecho meus olhos, mesmo sabendo que não irei dormir.

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