Capítulo 20: Tecido

Já se passaram oito anos desde que cheguei a esse mundo. Estou lavando meu rosto no quintal, consigo ver meu reflexo no balde com água. Meus olhos vermelhos não mudaram em nada, as olheiras também continuam as mesmas e meu cabelo ainda é bagunçado. Movo minha mão para meu rosto, sentindo minha pele macia, ainda não adquiri nenhuma espinha. O rosto está mais maduro, porém não tenho barba.

Saio do quintal e chego na cozinha. A minha mãe está atendendo os clientes no bar que, mesmo de manhã, encheu de pessoas. Visto meu avental branco pendurado na parede, então começo a ajudar ela. Fico lado a lado da Friggia, já passei em tamanho dela, provavelmente minha altura é um metro e oitenta, ela tem algumas rugas na testa, mas mesmo assim seu rosto é jovem, seu corpo não mudou tanto e contínua atlética, os cabelos castanhos estão presos formando um rabo de cavalo, além de usar o seu estilo de roupa favorita, uma saia que vai até os pé. Ando pelo bar pegando os pratos das pessoas que terminaram suas comidas, depois os levo para a mesa da cozinha. Minha rotina nesse tempo não mudou, praticamente só foi isso todo dia. Não é como se odiasse essa rotina, é confortável.

— Morrigan! — Ouço a voz da Matys vindo da entrada.

Me viro para ela e a vejo na porta da pousada junto com o Kynigos. Seu cabelo castanho escuro cresceu muito, além de parecer bem cuidado, o rosto que antes era fofo, agora é bonito e carrega um ar de elegância, fazendo um lindo contraste com seu olhar energético. Ela vêm correndo na minha direção com os braços abertos, por isso também abro os meus esperando o abraço. Matys chega como um baque quase me derrubando, acaricio a parte de trás da sua cabeça até me soltar. O mesmo processo acontece com a Friggia.

Kynigos caminha tranquilamente até mim e bagunça meus cabelos. Ele já tem rugas no rosto, principalmente ao redor da sua boca, mostrando que sorri muito, sua barba mal feita cresceu, além de eu estar na sua altura. Meu pai pega a cesta de compras, a bota em cima da mesa, ao lado dos pratos sujos.

Fico parado observando tudo, as pessoa comendo, o barulho de talheres batendo, a menina e minha mãe conversando uma com a outra, o sol entrando pela janela aquecendo o local, mais pessoas descendo pelas as escadas prontas para comer, um cenário que vejo há tanto tempo, porém mesmo assim, sinto que não faço parte dele. Tanto se me tirasse dessa pintura, ela ainda continuaria sendo bonita.

— Vicit, você sabe que se continuar aqui irá perder tudo isso para sempre — uma voz feminina soa na minha mente.

Minha visão fica preta por um instante e sinto a dor que senti quando morri. Movo minha mão para o lado, vejo que peguei no balcão e tento sentar em uma cadeira. A exata visão do último momento da minha morte passa pelos meus olhos, a Iris caindo no chão, enquanto fazia pressão no ferimento da Marina, o calor do sangue passando pelos meus dedos, ela apertando na minha mão com todas as suas força para tentar minimizar a dor que sentia, o sentimento de ódio e fraqueza, meu coração queimando e minha respiração falhando.

Meus olhos voltam ao normal, então observo o cenário do bar novamente, ele continuou como se nada tivesse acontecido. Volto a atender as pessoas. Isso acontece com muita frequência ultimamente, a cada dia não me reconheço mais, antes de tudo acontecer eu era tão forte mentalmente, até consegui segurar isso por um tempo, mas parece que a represa rachou e tudo está sendo despejado rapidamente. Termino de atender a todos, vou para a entrada da cozinha até alguém me chamar.

— Morrigan — Kynigos toca no meu ombro, então me viro para olhar ele —, você quer realmente ir ao treinamento?

— Sim.

— Certo, já conversei com o pessoal da guilda. Daqui a sete dias eles vão te levar.

— Entendi.

— Não se esqueça, nós somos sua família, vamos te ajudar em tudo, não guarde seus pensamentos para si — Kynigos solta meu ombro e volta a fazer seus afazeres.

A guilda dos mercenários criou um centro de treinamento para adquirir mais pessoas, esse é o primeiro treinamento que irão fazer, porém muita gente está ansiosa para isso, porque eles fizeram uma grande publicidade sobre. Parece que vão vir de outras cidades só para isso.

Uma guerra política está quase acontecendo, por isso precisam de mais mercenários. Mesmo após todos esses anos, a situação da capital não melhorou, o filho mais velho do rei teve um reinado provisório, porém, inexplicavelmente, desistiu dele. Boatos dizem que não aguentou a pressão dos nobres concorrentes, bem, é só uma suposição.

— Morrigan! Bora ali comprar um negócio. — Antes que pudesse responder, Matys pega no meu braço e me arrasta para fora do bar.

Antes de sair tiro meu avental rapidamente e o jogo em cima de uma mesa. Por causa da imprevisibilidade dela, me acostumei a fazer as coisas rapidamente.

Saímos da pousada e fomos em direção a rua principal.

— Por que tivemos que sair? — a pergunto.

— Meu pai esqueceu os temperos. Acho que ele já está começando a ficar louco — ela me responde, enquanto olha para frente e puxa meu braço.

— Mas você também não estava com ele? Então você também deve estar maluca. — Dou uma pequena risada.

Ela me encara com os olhos cerrados, mas logo volta a me arrastar.

— Hey, Vicit, o jeito que você tenta irritar ela é o mesmo que você usava comigo.

A rua principal é bem movimentada a essa hora, se bem que, ela é movimentada o dia todo. As pessoas caminham de um lado para o outro, as lojas estão todas abertas, as barraquinhas enfileiradas uma ao lado da outra, não é como se essa visão fosse uma novidade, tenho que vir aqui sempre comprar comidas.

Nós pegamos temperos em uma barraquinha, mas não fomos embora. Ela me levou até uma loja de tecido. A loja tem várias mesas com diferentes tipos de tecidos em cima delas, alguns estão pendurados no teto esticados, é grande para o fundo, porém estreia, então não dá para passar várias pessoas uma ao lado da outra aqui, já que as mesas ocupam espaço.

— O que estamos fazendo aqui? — pergunto, observando a loja.

Ela me olha e diz.
— Como o tempo vai esfriar, porque estamos no outono, eu e minha mãe decidimos fazer uma roupa para você aguentar o frio no treinamento.

Fico um pouco surpreso por isso. Não recebo tantos presentes assim. Adentramos mais na loja, uma vendedora veio tentar nos ajudar, porém a dispensei.

— Que tal esse? — Ela levanta um pano amarelo florido.

— Não.

— E esse? — Dessa vez é um tecido verde com várias bolinhas brancas.

— Não.

— Esse? — No momento que ela pega outro, meu corpo fica frio e minha respiração aumenta por uns instantes. É um pano azul com estampas de girassóis.

Acalme-se.

— Não.

— Ahhhh! Vamos pegar um sem nada logo. — Matys aumenta seu tom e anda batendo os pés até um branco sem nenhuma estampa. Parece que ainda tem oito anos, não dezesseis.

— Esse aqui?

— Perfeito. — Levanto meu polegar para ela.

A garota já irritada, chama a atendente e fala que vai levar o pano branco, elas decidiram quantos metros iriam levar, então as espero em silêncio.

— Vicit, por que você ignora sua irmã? A Marina está com raiva de você, além de deixá-la morrer também finge que ela não existe. Estamos tristes com você.

Matys me entrega o tecido e o coloco no ombro, depois voltamos para a pousada. Chegando lá, subo as escadas e jogo o pano no quarto, após desço para o bar, coloco meu avental, porém ainda não vou atender às pessoas. Sento em uma das mesas e coloco a mão no coração discretamente. Tenho que fazer algo a respeito disso.

Alguém puxa uma cadeira na minha frente, olho para a Matys que sentou. Ela me entrega um prato de mingau junto com um pão, ela também tem seu prato de mingau. Pego a colher de madeira mergulhada na comida e a movo devagar até minha boca. Quando encosto minha língua no mingau, sinto o calor, além do maravilhoso gosto. Não é algo muito exagerado de sabor, é o perfeito equilíbrio, parto um pedaço do pão e o mergulho no prato, com o pão amolecido, também o como.

— Obrigado, Matys.

— De nada.

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