Capítulo 21: Casaco

O Kynigos, a Friggia, Matys e eu, estamos sentados em uma mesa do bar comendo em silêncio. Há várias pessoas conversando sentadas nas mesas ou no balcão. É um período da manhã bem tranquilo, por isso estamos comendo, mesmo com outras pessoas aqui

Amanhã já vou viajar ao centro de treinamento mercenário, não faço ideia como será lá. Meu pai pagou minha inscrição de uma moeda de prata, é bem caro. Parece que não é para qualquer pessoa conseguir entrar. Com sua reputação na guilda, ele conseguiria facilmente me fazer entrar sem pagar nada, mas isso não combina com ele.

— Sua roupa já está pronta — fala a Matys me olhando ansiosamente, enquanto morde uma colher de madeira. — Terminamos ontem a noite, esqueci de te dizer.

— Sério? Onde está? — a pergunto.

— Espera ai, vou pegar. — Ela se levanta rapidamente, ignorando completamente o prato de comida e indo até o quarto que fica abaixo das escadas.

A Friggia solta um suspiro, então a olho. Minha mãe retribui meu olhar, por isso solto um “obrigado” bem baixo para ela sem nem mesmo perceber, a vejo mostrando um sorriso depois de eu falar isso.

— Está ansioso pelo presente? — Friggia me pergunta.

— Um pouco.

— A Matys se esforçou tanto nisso, na minha opinião, já teríamos terminado há alguns dias atrás, mas ela continuou trabalhando em cada detalhe da roupa, até os mínimos. Foi até engraçado a ver reclamando de coisas que nem consegui perceber. — Ela solta uma pequena risada.

— Aqui! — Ouço os passos apressados da Matys vindo.

Viro meu corpo, então observo o que ela está carregando, Matys para e estende os braços me mostrando o que está segurando. É o que parece ser um casaco longo branco, quase no estilo de uma túnica, mas em baixo dele é aberta, então deve mostrar as pernas, há vários ornamentos dando um contraste com o tecido brando. Na parte superior, as mangas são longas e um pouco folgadas, a região do peito é fechada, além de ser completamente branca.

— Vai lá testar — fala Friggia sorrindo para mim.

Kynigos está observando tudo sorrindo, além de segurar uma colher que fica mordendo. Me levanto, ando até a menina, ela me entrega o casaco, o pego nas minhas mãos, parece um pouco pesada, mas é bem macio. O visto e, ao contrário do que pensei, é leve, a sensação é confortável e não é justo, nem folgado, por isso faz parecer que não me impede de fazer movimentos mais bruscos. Ele vai até abaixo dos meus joelhos e as mangas vão até o cotovelo, mas como elas são largas, não fica apertado. Levanto meus braços para cima, enquanto percebo como se encaixou perfeitamente em mim. Vai servir um pouco no inverno.

Olho para a Matys e digo:
— Obrigado.

— De nada, mas não só me agradeça — a menina fala, apontando para a Friggia.

— Obrigado, mãe — falo para ela.

A vejo mostrar um sorriso e balançar a cabeça acenando. Movo minha perna, porém vejo algo dentro do casaco. Tem alguma coisa escrita. Pego na parte de baixo dele, bem no final, e movo para perto do meu rosto para ver melhor. É a escrita desse mundo, que ainda não aprendi.

— Está escrito “Morrigan”. É o seu nome — Matys me diz sem eu não perguntar nada.

Os pais dela pagaram uma pequena escola para ela aprender a escrever e ler, que a menina ia no final de semana. Como era bem caro, eles não puderam me levar. Nesse tipo de local só há pessoas um pouco ricas, já que os nobres têm seus próprios professores. Às vezes ela me ensinava um pouco, porém como tínhamos pouco material não fomos muito longe.

Retiro o casaco, depois o enrolo rapidamente e entrego para a menina que está indo guardá-lo no nosso quarto com os passos rápidos.

— Gostou? — minha mãe me pergunta.

— Gostei bastante, confortável, bonito, principalmente os ornamentos nas extremidades. Foi ela que fez isso? — a digo, enquanto sento de novo na mesa.

— Sim, a maior parte deixei ela fazer, só fiz o básico. Pode pensar que minha filha fez tudo sozinha tranquilamente.

Entendo.

— Hey, hey — Kynigos coloca sua colher no prato e cutuca a Friggia —, você nunca fez uma coisa assim para mim.

— E vai continuar assim — ela responde secamente.

Kynigos abaixa sua cabeça e volta a comer sua comida. Coitado.

— Calma, ela só está brincando com você. — Tento animar ele um pouco

— Estou não

Vejo a cabeça dele se abaixar mais ainda. Olho para a Friggia, então vejo ela encolhendo os ombros e voltando a comer como se nada tivesse acontecido.

Matys desce as escadas e senta com um pulo, que tira os dois dos pés da cadeira do chão.

— Gostou?

— Sim, gostei bastante — os olhos dela se iluminam — Deve ser o ótimo pijama. — Seu brilho nos olhos diminui e a sua testa fica franzida.

Do nada vejo um punho à frente do meu rosto, sem pensar muito movo meu rosto. Ouço um pequeno assobio no meu ouvido e um vento que faz meu cabelo balançar.

— Me irrita mais uma vez que um dia te acerto.

Esses socos estão cada vez piores.

— Era brincadeira. Não me mate, por favor. Gostei bastante, vou usar o tempo todo.

— Certo — seus músculos da sobrancelha relaxam —, mas se me irritar de novo, faço você tirar esse sorriso debochado do rosto à força.

De onde ela tirou toda essa agressividade?

— Friggia, você que ensinou isso a ela? — pergunto me virando em sua direção.

— Sei de nada. — Ela continua a comer, me ignorando completamente.

Olho para o Kynigos e apenas vejo ele com o olhar perdido, enquanto move sua colher em círculos no prato. Esse aí já desistiu de enfrentar essas garotas faz tempo. Será o meu destino também?

Nós terminamos de comer e fomos atender o pessoal, cuidar do bar, etc, até chegar a noite, consequentemente, o amanhã também.

— Você fica assim a noite toda? — Ouço a voz da Matys no meu ouvido.

Abro meus olhos, então me viro de costas e vejo ela deitada me olhando.

— Não é tão difícil ficar assim — a respondo.

— Se eu bater muito forte na sua cabeça, será que você dorme? — Ela move sua mão e fica bagunçando meu cabelo.

Por que essa família gosta tanto assim do meu cabelo?

— Tem grandes chances de eu dormir sim.

Olho para o lado e a vejo se esparramado e caindo na cama, como se estivesse derretendo até chegar completamente no chão, onde se deita em cima dos lençóis em que durmo. Ela se estica toda, por isso coloca seus pés em cima das minhas pernas que estão cruzadas. É estranho ela acordar cedo.

— Acordou agora por quê? — a pergunto.

— Você não vai para o centro de treinamento hoje? Então vou me despedir, é claro.

— Ah, certo. Faz sentido.

Me levanto, as minhas pernas estão um pouco dormentes, por causa de manter elas cruzadas a noite inteira, mas passa em segundos, porque meu corpo se acostumou com isso. Ando até o armário e o abro, não têm muitas roupas nele, vejo o casaco que se parece com um windbreaker medieval e o tiro. Acho que vou vestido nele. Tem algumas gavetas na parte de baixo do armário, de lá tiro mais algumas roupas, não muitas, porque não tenho tanto assim e uma mochila que o Kynigos me deu, ela é feita de couro e é segurada por um cordão. Há apenas uma abertura no topo, então desamarro o nó que mantém a mochila fechada, guardo as roupas dentro dela, depois a fecho, deixo apenas o grande casaco que a Matys me fez.

Visto ele por cima da minha roupa, percebo novamente como ele é confortável e se encaixa perfeitamente em mim, mesmo sendo folgado em certas áreas propositalmente. Boto a mochila nas minhas costas. Vejo que no casaco tem uns bolsos nas laterais, por isso coloco ambas as minhas mãos neles.

— Você combinou com essa roupa. — Ouço a Matys dizendo atrás de mim.

Após tudo, começo a descer as escadas indo ao bar com ela. Descemos lentamente, ouvindo o rangido da madeira a cada passo que demos, além de sentir o vento frio vindo das frestas das paredes e também do andares abaixo. Lá vejo Kynigos e Friggia me esperando.

— Bom dia, Morrigan — fala a minha mãe com um sorriso.

— Bom dia, Friggia — a respondo acenando a cabeça.

O Kynigos já está pronto para ir. Ele se afasta e vai até a porta em silêncio. Ando até a Friggia e a dou um abraço, ela fica um pouco surpresa, mas logo retribui. Sinto alguém me puxando pelo colarinho do casaco, então vejo a Matys me abraçando fortemente.

— Se cuida.

Nossa, parece que vou viajar por décadas, é só alguns meses.

— Certo, certo. Vou me cuidar.

Empurro a cabeça dela tentando fazer ela me soltar, porém não muda nada. Tento mais uma vez com força, só que a Matys se segura com mais força ainda. Uso as minhas duas mãos no ombro dela, empurrando com ainda mais força, mas ela não me larga. A Friggia vem atrás dela e a puxa, então finalmente sou solto. Ela tenta se soltar como uma besta da mão da mãe, por isso ando rapidamente para o Kynigos que está lá fora.

Quase morri sufocado.

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