Capítulo 24: Corrida

Os treinadores caminham com confiança até a multidão, eles param nos observando, até que o homem que nos guiou até aqui fala novamente.

— Os treinos vão começar logo, mas antes irei me apresentar, sou Kayatos, vou ser seu treinador. Eles são outros treinadores — Kayatos se vira e aponta para os outros que estão com ele. — Vão treinar vocês em disciplinas específicas. Passaremos três meses juntos, só que sem descanso, puxarei seus limites para fazer vocês evoluírem. Moleza será concertada com dor. Não irei pedir para se apresentarem, lembrarei os nomes de quem eu achar necessário.

O Kayatos começa a andar em volta da gente.

— Se organizem! — grita ele.

Todos se assustam com o ato repentino. Eu me desencosto da árvore e sigo até a multidão. O pessoal começa a fazer filas, escolho uma aleatoriamente e fico no fundo dela. O Kayatos anda pelas filas observando cada aluno, a cada pessoa que ele olha, faz uma expressão diferente, a maioria das suas expressões é de nojo e desprezo. Ele anda tranquilamente até que chega em mim, o homem me olha de cima a baixo, só que seu rosto não sofre nenhuma mudança, então continua para a próxima fila.

Estou aprovado?

— Joguem suas malas no chão! — Kayatos grita.

Faço o que ele disse e deixo minha mochila no chão, os outros alunos também fazem isso.

— Me sigam!

O Kayatos se vira e começa a correr, eu o sigo junto com todos. Ele passa pelo campo de terra correndo em uma velocidade baixa. Vejo os obstáculos mais de perto, são vários objetos em sequência, como se fosse uma pista. Nós atravessamos o campo correndo, no momento que ele passa pela primeira árvore, sua velocidade aumenta, por isso os alunos também aumentam para tentar acompanhar ele. Como estou no final, o homem sai da minha visão por causa das árvores. Acho melhor eu acelerar.

Corro mais rápido e ultrapasso os outros alunos facilmente, tenho que pular as raízes das árvores no chão, também tomar cuidado para não escorregar nas folhas. Tem várias pessoas ao meu redor correndo, mais precisamente, atrás e na minha frente, não tem muito espaço nos lados por culpa das árvores. Ultrapasso várias pessoas, porém ainda não consigo ver o treinador.

Além de ser um teste de velocidade, parece ser de equilíbrio também. É difícil correr nesse chão, os galhos das árvores atrapalham e tenho que tomar cuidado para não bater em nenhum tronco, porém o principal mesmo é as raízes, elas são grandes, fazem o local ser difícil de pisar e deixam o chão irregular.

Acelero ainda mais minha velocidade. Só estou seguindo essas pessoas, porque, talvez, elas estejam no caminho correto, mas não quero só um “talvez” quando posso ter certeza, preciso chegar pelo menos em uma distância em que posso vê–lo.

Quando ultrapasso eles, consigo ver momentaneamente seus rostos surpresos, parece que estou bastante rápido. As árvores viram quase um vulto na minha visão, ainda bem que meus olhos são bons, se não já teria tropeçado faz tempo.

É ele ali na frente? Como já cheguei perto o suficiente dele, mantenho minha velocidade estável. Com essa corrida que dei para chegar aqui já estou um pouco ofegante, e parece que ele não vai parar tão cedo, preciso guardar energia para o resto do dia.

Há apenas alguns alunos entre ele e eu. O menino que arranjou briga comigo também está aqui, quem é ele? Quase fui espancado por causa que esse cara trombou em mim, provavelmente é filho de alguém importante, já que tem seus próprios capangas. Vou evitar ele por enquanto.

Os outros eu não conheço, espera.. É o menino que ficou me encarando no começo, que usa um casaco preto. Ele tem um ótimo físico, pelo que parece, consegue até acompanhar o treinador junto com a gente.

Cada um de nós está atrás do outro, como se fosse uma fila, correndo e pulando os obstáculos do caminho. Ficamos fazendo isso não sei quanto tempo, e sem perceber acabamos voltando para o campo de terra. Demos a volta, ou ele fez outro caminho? Continuamos a correr até chegarmos nas nossas mochilas, lá, nós desaceleramos. Apoio meus braços nos joelhos, sem nenhum fôlego, enquanto olho para o chão. Vejo de canto de olho alguém se sentando no chão e os outros também ofegantes. Acho que não corremos por muito tempo, mas a velocidade que corremos foi muito alta, não é atoa que estamos quase morrendo aqui.

— Então até que vocês conseguiram me seguir — fala o Kayatos normalmente, como se não tivesse nem corrido.

Ele é um monstro? Levanto minha cabeça e olho para ele. Sua roupa está nem suada… Eu estou pingando, o chão abaixo de mim está mais escuro por causa do suor caindo. Sua boca sorri olhando para a gente. Esse sádico. Acalmo minha respiração e tiro as minhas mãos do joelho, ajeitando minha postura.

Olho ao redor vendo o pessoal ainda se recuperando, também vejo outras pessoas chegando pelo caminho que fizemos. Só chegaram agora?

— Vocês aí — ele aponta para mim e para os outros se recuperando —, vão guardar suas malas na cabana.

Investigo onde deixei a minha bolsa, então quando a acho, visto ela e ando até a cabana. Sou o primeiro a ir, já que me recuperei rapidamente. Quando ando até a cabana, percebo que o menino que arranjou briga comigo está me encarando ofegante no chão. Apenas ignoro ele e sigo meu caminho.

Na porta da cabana, que está aberta, eu entro. Vejo uma pequena sala com algumas plantas e vazia, me adentro mais e vejo um corredor gigante para ambos os lados.

— Se é para guardar sua mala, escolha um quarto aleatório — ouço uma voz feminina do meu lado.

No momento que me viro, vejo uma mulher da minha altura. Ela não estava aí antes, tenho certeza. É um fantasma? Alucinação? Será que meu problema evoluiu? Essa mulher me encara de volta. Seu cabelo é longo e preto, seus olhos são castanhos claros, sua expressão é indiferente, como se não ligasse para nada, seu corpo é um pouco musculoso, consigo perceber a roupa colada no seu braço.

— Qualquer porta que tiver aberta é um quarto — ela fala ainda me encarando.

Esses treinadores são estranhos. Escolho o corredor direito e vou até uma das últimas portas. Quando abro a que escolhi, vejo duas beliches no quarto, um pequeno balcão entre as beliches e uma janela acima do balcão, o resto do quarto é vazio. Jogo minha mochila na cama de cima de uma das beliche e me sento nela com um grande pulo, então caiu com um baque. Isso aqui é pedra, é mesmo um colchão? Me deito nele e fico olhando para o teto de madeira. Acho que é mais confortável deitar no meio da grama. Saio da beliche, boto minhas mãos no bolso, no corredor do outro lado, vejo o menino que quase briguei entrando dentro de um quarto. Bem, ele parece que vai ficar tranquilo por um tempo. Saio da cabana, ainda há gente voltando da corrida, e mais pessoas estão descansando no lugar onde deixamos as mochilas.

Caminho por aí com a mão no meu casaco branco, só consigo ouvir as respirações ofegantes do pessoal, ninguém está conversando, bem, deve ser difícil ter fôlego para conversar depois de tudo. Demora um pouco para todos chegarem aqui, a quantidade de alunos é realmente impressionante. Passa das casas das dezenas facilmente.

Enxergo o treinador começando a se mover de novo, ele vai até a multidão e começa a falar.

— Como todos chegaram, vamos ir para o próximo exercício!

Parece mesmo que não terei um bom descanso hoje. Ele então manda todos se organizarem, aqueles que não chegaram cedo e guardaram suas bolsas continuam com elas no chão. Fico no final da fila novamente esperando as próximas ordens. Dessa vez ele não passa entre as filas, só fica encarando cada um em silêncio na frente de todos. Seu olhar é penetrante, como se tentasse ver nossas almas.

Sinto que agora vai ser pior que a corrida…

Banner PC Vulcan Novel
Facebook
Twitter
WhatsApp
Email
Criado Por Metal_Oppa! <3
Letras
16
Tema
Fundo
Fonte
Texto