Capítulo 31: Crepitar das Chamas

O confiante vem andando em minha direção com um sorriso. Ele me seguiu? Esse cara vem chegando cada vez mais perto, coloco todos os gravetos no chão e seguro o casaco com forma, então me preparo para qualquer ataque.

O confiante me vê fazendo isso. — Calma, não vim brigar. Não sou igual a aquele mimado do Maksi, não tenho nenhum problemas com demônios. — Ele também coloca sua lenha no chão e continua andando até mim.

— Eu não sou um demônio.

— Oh, certo. Você já falou isso, me desculpe. — A minha frente o confiante estende a sua mão. — Sou o Diliam.

— Morrigan — o respondo apertando sua mão.

O que ele quer?

— Eu vi você correndo, foi incrível. Quando você ficou de um jeito estranho no chão, mas no momento em que o treinador mandou correr, você saiu como uma flecha, deixando todos, inclusive eu, para trás.

Ele está tentando ganhar intimidade?

— Obrigado.

— Parece que você não é alguém que gosta de conversar.

Se ele me seguiu, ele deve estar tentando ter algo, o que posso o oferecer? Tenho nada que possa lhe interessar, não tenho influência, nem dinheiro. Força? Ele quer me recrutar? Talvez nem seja eu, o Kynigos? Mas não faz sentido vir até mim. — O que você quer de mim? — pergunto a ele, olhando fixamente nos seus olhos. Seu sorriso não sofre nenhuma alteração à minha pergunta, esse cara já esperava por isso.

— Só quero fazer algumas amizades.

Hum, ele deve querer aliados para algo, o que? Seu sorriso que antes eu só via como arrogância, parece esconder algo. Também não sinto que não vou conseguir arrancar mais informações dele.

— Certo, então me ajuda aqui. — Pego as lenhas no chão e o dou, também vou até os gravetos que ele deixou no chão e o entrego. Ambos seus braços estão ocupados segurando o que o dei..

Ignoro ele seguindo meu caminho pela floresta, enquanto procuro mais galhos secos, vejo também que o Diliam me segue quieto. Seu sorriso diminui, porém ainda está lá. Ele não tenta iniciar uma conversa, nem eu, por isso vou pegando o que quero lentamente. Quando o sol começa a se pôr, meus braços já estão cheios, então começo a voltar.

— Você sabe o caminho de volta? — o Diliam me pergunta.

— Claro que sim.

A cada lugar que eu ia, via algum ponto de referência para se localizar. Não é difícil, só precisa ter boa memória, e isso tenho de sobra. Voltamos em silêncio, com ele segurando a lenha em seus braços e eu com um casaco em um e mais galhos em outro.

Saindo da floresta, damos de cara com várias outras pessoas em volta de um monte de lenha, literalmente uma pilha disso. Ignoro o olhar de várias pessoas olhando eu e o Diliam juntos, e ando até o monte, jogando tudo o que peguei nele. O confiante faz a mesma coisa.

O clima começa a esfriar, por causa disso, coloco o meu casaco. A sensação de conforto após vesti-lo é uma coisa maravilhosa, até o calor que ele traz é acolhedor. Impressionante que a Matys tenha conseguido fazer isso.

— Tchau, nos vemos depois — o Diliam se despede, indo de encontro com o pessoal dele.

Os alunos começam a ajeitar os galhos lado a lado, em vez de deixar uma montanha deles, então os ajudo a organizar. Parece que vão fazer uma fogueira de vários metros. Ando até o monte e pego vários deles, tentando não encostar no casaco para não o sujar, ando até a ponta da futura fogueira e os coloco lá. Volto até o monte, repetindo esse processo até que ele acabe completamente. Após terminado, vejo o resultado final, a distância entre cada extremidade é grande, tantas pessoas buscando lenha fizeram ela ser desse tamanho.

O Kayatos vem até a gente e derrama algo nas madeiras, indo de um lado para o outro despejando o líquido. Após terminada, o vejo pegando algo do seu bolso, parece uma ser uma pederneira, ele chega bem perto e tenta fazer alguma faísca, depois de um tempo consegue acender. O fogo começa de um lado, então vai se alastrando rapidamente pela lenha, como se estivesse correndo por cima dela.

Alguns se sentam no chão conversando ao redor da fogueira, ela é como uma mesa gigantesca, tendo duas partes em cada lado para se sentar, além de claro, estar pegando fogo. Fico em pé observando todos descansarem ao redor do fogo. As chamas crepitam, iluminando brevemente o lugar, mas atrás da gente é uma escuridão imensurável, um completo oposto do ambiente alegre e claro. Olho para cima e vejo que não tem lua hoje, só as estrelas brilhando sozinhas no céu escuro.

A maioria se senta, sobrando apenas poucas pessoas em pé, uma delas sou eu. Observo o treinador vindo com vários outros adultos o seguindo. Ele para em um lugar no centro, onde todos possam o ver. — Hoje vamos encerrar as atividades, quem quiser pode ir entrar e dormir, mas se não quiser, podem ficar aqui até o fogo acabar. Amanhã já retornaremos tudo de novo, descansem bem, porque não vai haver mais momentos como esse. — Terminando seu discurso, o treinador entra para dentro da cabana junto com os outros que o acompanham.

Como sempre, não vou conseguir dormir, então não preciso entrar agora, melhor aproveitar o calor do fogo e o vento gélido bater na minha pele, essa sensação conflituosa é estranha. Coloco a minha mão nos bolsos do casaco por causa do frio, que imediatamente são aquecidas. O barulho de conversas é preenchido por toda a extensão da fogueira, todos estão relaxados.

De fora consigo perceber os dois grandes grupos devidamente divididos, eles têm algum tipo de conflito? Ou é só questão de orgulho e mostrar quem é melhor? Oh, por isso o Diliam quis falar comigo, interessante. Ele já está prevendo futuros conflitos? A minha volta com ele confirmou uma proximidade com o seu grupo, então o lado do Maksi não vai mais tentar me recrutar. Esse pensamento não é inválido, porém tem chances de não ser isso. Só que o Diliam não tentou me atrair abertamente, talvez tente isso novamente em outra hora. Também tem a chance dele me coagir a se juntar a ele, porque o grupo do Maksi pode me atormentar por causa de eu aparecer junto com ele no final da tarde. Bem, não tem nada que possa fazer agora, vou ter que esperar acontecer para tomar um partido quanto a isso, odeio isso.

Procuro um lugar vazio na fogueira, longe desses grupos e ando até chegar a ele. Enquanto caminho, percebo alguns olhares em mim, parecem ser de curiosidade, nos últimos testes esses olhares aumentaram gradativamente, provavelmente, por causa de eu ter um olho vermelho e uma grande força. O Kynigos me falou que não sou um demônio, porque eles têm suas próprias características e a única que tenho são os olhos desse corpo.

Chegando no lugar na fogueira, ajeito meu casaco para não o sujar de terra e me sento no chão, com o fogo à minha frente, fico perto o suficiente dele para conseguir sentir um pouco do meu rosto parecer estar queimando. Com meus olhos na chama, a vejo balançar ao vento, fazendo barulhos de estalos, com a linda cor vermelha escarlate queimando tudo em que encosta. Toda a minha atenção se volta ao fogo, o som das conversas muda para o som do crepitar, a escuridão da floresta sai da minha visão e tudo que sobra nela é a luminosidade da fogueira.

Passo muito tempo observando as chamas, tentando não pensar em outra coisa, não percebi nem o tempo que passei olhando para isso. Algumas pessoas já entraram para dentro da cabana. Acho melhor eu ir também. Me levanto do chão e começo a andar lentamente até a porta de entrada. O calor sai lentamente do meu corpo, além da pouca sensação de queimação por ficar muito perto do fogo. Bem, vou tentar descansar um pouco.

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