Capítulo 33: Magia e Queda (2)

É um rosto belo e bem cuidado. O seu cabelo tem uma coloração preta, mas percebo que não é totalmente preto, há uma pequena pigmentação azul nele. O seu tamanho é pequeno, chegando até ser menor que o da Demcis, não indo nem até a altura dos ombros, porém isso não é isso em que presto atenção. Seus olhos têm duas cores na íris, as tonalidades parecem ser azul e rosa, formando uma cor linda no centro onde se encontram. Fico por um momento vendo essa beleza única dos seus olhos. É como se fosse uma pintura. Olhando para o rosto dela percebo outra coisa também, na sua testa, entre suas sobrancelhas, tem uma pequena jóia azul losangular.

A Demcis fica deitada no chão observando a maga. — Você é linda — ela diz. A Hecatis se envergonha com isso, porque seu rosto ruboriza um pouco. — Obrigada — responde a maga bem baixo.

Demônios são diferentes de como eu imaginava. Pensava ter chifres saindo de suas cabeças ou algo monstruoso, porém parecem ser quase humanos. Deve ser por isso que me confundem com um, agora até tenho dúvidas em ser um ou não.

— O que é isso na sua testa? — pergunto a Hecatis.

— Isso? — Ela aponta para a jóia azul. — É algo em comum com que todos os demônios nascem. Chamamos de Pedra da Vida.

Bem, eu não tenho isso na minha testa.

— Existem demônios sem essa Pedra? — continuo perguntando.

Sua expressão fica sombria. — Alguns demônios quando são capturados, ou até por conta própria, arrancam ela. — Sua voz diminui. — Depois de arrancá-las não fica nenhuma marca, mas na nossa religião tirar isso de você é como se estivesse traindo a própria raça.

Então eu posso ser um e não saber. Isso explica meus olhos vermelhos, também, o porquê de não ter essa Pedra da Vida em mim. Fico pensativo por um momento, fazendo a atmosfera do quarto ficar sombria.

A Demcis levanta de repente e volta para a sua cama. Ela se deita de barriga com a cabeça para fora. — Como você aprendeu a usar magia? — pergunta a Demcis olhando para a Hecatis.

Os olhos da maga voltam a brilhar. — Meu pai me ensinou. Eu fiquei enchendo o saco dele para ensinar magia para mim até finalmente ceder. Ele me ensinou como a mana funciona antes de meu núcleo ter despertado, por isso quando cravei minha primeira magia em mim, foi fácil de fazer.

Demcis continua perguntando com olhos brilhando de curiosidade. — Como é escrever uma magia no núcleo de mana?

— É estranho, principalmente sua primeira magia, já que não têm como testar ela antes. Não pode errar nada quando for fazer, se não perde para sempre o espaço de uma magia. Você primeiramente precisa do livro da magia que quer, então o ler para entender melhor e aí, com cuidado, escrever com mana no espaço livre do seu núcleo. — A voz da maga se anima ainda mais. — Quando você desperta, você sente a mana, mas ainda não dá para usá-la externamente, só que dá para usar no espaço livre do núcleo. Tem que escrever usando a mente, por isso precisa de uma grande concentração para não errar nada.

— Que complicado — eu falo olhando para ela.

— Porque é complicado, se fosse fácil, já teríamos milhões de pessoas usando mana em cada país. Precisa de muito estudo ao tentar criar uma magia, por causa disso, não é qualquer um que consegue virar um mago, principalmente um de prestígio.

A Demcis olha para a maga, ainda pendurada na cama. Parece que não aprendeu com a queda — Você consegue lançar uma bola de fogo? — ela pergunta.

A Hecatis hesita um pouco antes de falar. — Não, mas não se engane, magia é muito mais que uma bola de fogo, é romper os limites da realidade. Bola de fogo é o básico, alguns magos até nem querem aprender isso para não ocupar espaço no núcleo de mana. Há várias magias novas sendo criadas todo ano, e lhe digo, a bola de fogo é a menos interessante.

A cada palavra dela, minha curiosidade sobre magia só aumenta. Como é “romper os limites da realidade”? Ou escrever uma magia em si? Segundo ela, tem como forçar alguém a despertar o núcleo, onde consigo fazer isso? É algo misterioso, parece não fazer sentido físico. Como isso deve interferir em átomos e moléculas? Preciso saber mais sobre. — Você sabe o que é a Universidade Mágica? — pergunto para a Hecatis.

A maga levanta sua cabeça olhando para mim. — É só simplesmente o maior local onde se reúnem os maiores e mais poderosos magos de todo o continente, estudando, criando e aperfeiçoando magias. Eles tentam entender a sua origem, até o porquê da mana existir. É o lugar que todos os magos querem ir ou já foram. Meu plano é ir para lá depois de conseguir um bom dinheiro.

Parece ser quase um santuário para ela. — Onde fica a Universidade Mágica? — eu pergunto.

— Ela é em outro país, o Draitire. Uma das maiores potências do continente, se não a maior. É longe daqui, vários meses, é uma jornada bem longa. Por isso preciso do dinheiro.

Penso por um pequeno tempo e falo brevemente. — Ah, entendo.

De repente ouço a voz séria do Temmos abaixo de mim. — Acho melhor vocês irem dormir. Hoje foi cansativo, amanhã também deve ser, por isso descansem.

Olho para as meninas, ninguém fala nada, vejo a Demcis falando algo para a maga, logo após comigo. — Boa noite. — Aceno com a cabeça e ela se deita, percebo a maga também fazendo a mesma coisa. Me levanto na cama, apago a lamparina no teto, desço da beliche e faço o mesmo com a lamparina do balcão, então volto para a cama, me sentando nela com as pernas cruzadas.

Hoje recebi muita informação sobre magia, principalmente como funciona, mas isso não é o suficiente. Eu quero usá-la. Preciso despertar meu núcleo de algum jeito, essa maga deve saber algo, a pergunto depois. Além das informações sobre a Universidade Mágica, me economizou tempo de ir pesquisar sobre, mesmo assim, são poucas informações, necessito de um jeito para aprender mais.

O quarto fica completamente escuro depois de eu desligar as lamparinas, a única fonte de iluminação é a janela, que faz uma sombra no chão, ela é retangular com pequenas partes de madeira a dividindo em partes, consequentemente, essas divisões também aparecem no chão. Agora consigo ver o lado de fora da janela, não há nada de mais lá, apenas terra e poucas gramas. Fecho meus olhos e continuo com as pernas cruzadas.

Horas se passaram, enquanto mantinha minha mente vazia, sem nenhum pensamento. O sol está prestes a nascer. Aproveito que os meus colegas de quarto dormem e desço da cama lentamente. Na ponta do pé, ando até a porta, a madeira range, mas sigo meu caminho. Abro a porta lentamente, então saio do quarto, dou de cara com o corredor gigante e vazio, após isso, vou por ele sem me importar tanto com meus passos. Chego na primeira parte da cabana e saio dela, porém quando dou uma olhada para fora, vejo uma cena intrigante. Vários professores montando bonecos de palha no campo. São muitos rostos que não vi antes, nem na caminhada, provavelmente já estavam nesse local antes de chegarmos.

O campo antes vazio, agora está cheio de bonecos de palha em fila e organizados. Esses bonecos vestem panos em todo seu corpo, são fincados no chão por um pedaço de pau, além de estarem bem separados um do outro. O céu ainda é escuro, mas começa a iluminar, eles acordaram a essa hora só para colocarem isso, na verdade, é bem improvável que botaram todos esses bonecos agora, já devem estar há um tempo aqui.

Caminho pelo chão de terra, ainda é um pouco frio, por isso boto minhas mãos no bolso e me encolho no casaco. Vou andando calmamente ao lado das paredes da cabana, consigo ver claramente as pessoas lá dentro, porém não foco nelas. Quando caminho, percebo o Kayatos me olhando, continuo me movendo até chegar ao refeitório do lado da cabana. Me sento em uma das mesas do canto e fico observando os professores fazerem seus trabalhos.

Aparentemente, cada aluno vai usar um boneco, talvez para algum exercício prático, bem, mais tarde saberei mais sobre. Impressionante é a quantidade de funcionários aqui, mais pessoas do que imaginei, consigo ver os esforços deles ao fazer esse Centro de Treinamento. Como pagam todos eles? A Guilda tem orçamento para isso? Uma ajuda externa? Quem ajudaria? Nobres? Para quê?

Ouço um barulho de passos. Viro minha cabeça, vendo o Kayatos ao meu lado me olhando. — Morrigan, não é? — ele fala.

Como o treinador sabe meu nome? — Sim, sou eu. — o respondo. O treinador anda lentamente até o outro lado da mesa, também se sentando. O que esse cara quer?

— O filho do famoso Kynigos. — diz com um olhar estranho no rosto. — Foi uma surpresa quando descobri a notícia que ele adotou um garoto.

Qual a ligação dele com meu pai?

— Você tem uma força bem impressionante, alguém digno de ser filho dele. — O treinador bota um dos braços na mesa e me encara. — Talvez seja por isso que ele te adotou. Pensando bem… Não é do feitio dele fazer algo assim.

Finjo um sorriso no rosto, então falo com ele. — Oh, você conhece meu pai? É algum amigo dele?

— Pode-se dizer que sim, fomos grandes amigos no passado, mas aconteceram algumas coisas e nos separamos. Aliás, a Friggia está bem?

— Minha mãe? Está sim, ambos cuidam do bar, principalmente ela. Também a conhecia? — Viro meu corpo, ficando frente a frente dele para ver suas reações.

— Qual mercenário nessa região não conhece ela? Uma grande estrategista, inteligente, sua beleza não é abaixo do seu intelecto. — Seu rosto continua sem expressão. Infelizmente, não consigo perceber nenhuma reação dele. Qual a intenção dele?

— Sério? Não sabia desse lado dela. — falo com um tom de surpresa.

Qual o nível de familiaridade dele com o Kayatos e a Friggia? O que esse cara quer comigo? Só me conhecer? Deve ter algum motivo, ainda não sei o que. Vou tentar buscar mais informações.

— Como vocês se conh——-

O treinador me interrompe. — Se quiser pode me perguntar sobre sem fingir nada, não me importo com isso. — Agora no seu rosto finalmente aparece um sorriso.

 

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