Capítulo 34: Perguntas ao Mercenário

Fingir interesse não deu certo. — O que você quer comigo?

O treinador solta um ar pelo nariz. — Nada demais, só quero conhecer o filho do Kynigos, apenas curiosidade. — O Kayatos vira completamente seu corpo em minha direção. Nós dois nos encaramos. — Quem fez aquele grande mercenário adotar uma criança, e ainda levá-la para um lugar igual a esse, porque ele deve saber que precisa de um mínimo de habilidade para entrar aqui, o Kynigos confia bastante na força dessa pessoa.

Paro um momento para pensar. — Só isso? — pergunto confuso. Pensei em várias coisas e essa foi a mais simples. Bem, vou esperar ele falar mais.

— Também quero te ajudar. — continua o treinador.

— Como assim?

— Eu devo muito ao Kynigos, então posso fazer qualquer coisa ao seu filho.

Isso faz mais sentido.

— Não precisa.

Meu pai me disse para fazer meu melhor aqui e me destacar, isso iria me ajudar a fazer isso, mas não seria algo orgulhoso para ele. Não quero ajuda de terceiros, principalmente usando a reputação do meu pai. Não é como se me importasse com isso, porém o Kynigos se importa.

— Entendo. — Ele para por um momento. — Parece que criou seu filho bem. Certo. Como você não quer minha ajuda, pode perguntar qualquer outra coisa.

Hum…

— Qual a história de você e meu pai? — Olho diretamente para seus olhos, o treinador também retribui meu olhar.

— É uma história bem antiga e simples. Eu e ele, éramos mercenários comuns, fazendo as missões, se divertindo, nada de interessante. Essa época ainda não nos conhecíamos, se me lembro bem, formamos um grande grupo para capturar alguns bandidos e foi aí que fomos apresentados. Como participamos do mesmo dever nessa missão, acabamos nos aproximando e pegamos uma amizade, a partir daí andamos juntos. Ficamos trabalhando em dupla por um tempo, até formarmos um pequeno grupo, eu, ele, a Friggia e mais dois. Essa foi a época de ouro. A Friggia com sua inteligência selecionava o que íamos fazer, além de criar as estratégias, por causa dela conseguimos bastante fama, a nossa taxa de sucesso era quase de cem por cento. Às vezes ele me falava que já estava cansado dessa vida, não aguentava mais fazer isso. Continuamos a trabalhar até que o Kynigos e a Friggia tiveram uma filha, aí decidiram se aposentar. O grupo foi desfeito. Eu continuei trabalhando na guilda, como dá para perceber.

Paro alguns minutos para entender essas informações. Parece que não é algo envolvendo um triângulo amoroso, ainda bem. O motivo dele parar é a Metys, mas parece já ter essa ideia antes dela. Esse grupo deles deve ter muita reputação, faz sentido agora o Kynigos ser bem recebido toda vez na guilda. Sua fama não é pouca, porém por que ele fez aquela missão contra o Contrabandista?

Melhor saber mais sobre esse treinador. — Por qual razão você decidiu continuar, em vez de se aposentar?

Sem hesitar, ele responde. — Primeiro, não havia razão para me aposentar, a minha vida ainda tinha muita coisa para acontecer. Segundo, a cada dia ficava mais forte, não queria desperdiçar isso. Terceira razão, eu já tinha um caminho traçado na minha mente de como seria meu futuro, e a aposentadoria naquela época não fazia parte dele, simples assim.

— Qual sua posição na guilda?

— Apenas um mercenário influente, com pouco, quase ínfimo, poder de decisão

“ínfimo”? Parece ser intelectual. — Qual a razão desse centro de treinamento?

Não demonstrando nenhuma emoção a minha pergunta, nem surpresa, ele fala. — Recrutar jovens prodígios, principalmente para os nobres. Deve haver vários empregados deles disfarçados de alunos para conseguir fisgar alguém talentoso. Como já deve saber, a situação política do país não é uma das melhores, vários nobres brigando, fazendo guerras secretas, ou nem tão secretas assim, envenenamento, traição, então eles nos deram fundos para criar vários soldados fortes para eles. Aliás, você deve tomar cuidado, com a sua força, vai haver várias pessoas tentando o recrutar, e caso não consigam fazer isso, vão tentar te matar para prevenir que o adversário político não o tenha.

Oh, é uma situação bastante complexa, não pensei que os assuntos de outro lugar interferiam aqui. — Há outros lugares como esse?

— De mesmo tamanho e publicidade, não.

— Entendo.

O país inteiro está um tumulto, pelo que parece. Isso não importa tanto assim, isso ainda não me afeta, desde que nenhum nobre tente me recrutar. Provavelmente vão tentar, mas não quero me meter em política.

— Então, o que você vai fazer com essa informação? Vai esconder seu poder?

— Não, o Kynigos me disse para tentar meu máximo e ser o melhor daqui, vai ser isso que irei fazer.

Um sorriso aparece no seu rosto. — Certo. Qualquer coisa é só me pedir. — O Kayatos se levanta e volta a ajudar o resto do pessoal a montar os bonecos.

Bem, ele quer me ajudar, talvez use isso em alguma outra hora. Bem, espero não precisar. Volto a observar os professores enquanto nenhum dos alunos acorda. O sol começa a nascer, o céu azul escuro fica amarelado, os pássaros começam a cantar, mas o frio ainda continua o mesmo, por isso fico encolhido no casaco. A cada dia esfria mais, está quase chegando o inverno, talvez esse ano vai nevar muito? Espero que não.

O tempo passa, alguns alunos ocasionalmente saem da cabana, então após verem os bonecos, eles vêm se sentar no refeitório. No começo eram poucos, porém depois do sol aparecer completamente vários começaram a sair. Enquanto observo eles, meus colegas de quarto acordam e caminham para se sentar ao meu lado.

A primeira a falar é Demcis com um rosto sonolento. — Bom dia. Acordou quando? — Depois de terminar, ela solta um bocejo.

— Não faz muito tempo. — Os três se sentam na mesma mesa que eu, um ao lado do outro. — Acordaram agora? — pergunto a eles.

— Sim. — Demcis responde.

A Hecatis mantém seu capuz cobrindo o seu rosto por inteiro. Demcis apenas deita na mesa, usando seus braços com travesseiro. Temmos mantém o mesmo rosto sério de ontem. Sinto os outros alunos nos observarem, essa é uma combinação interessante, eu, a maga e o cara de casaco preto, não sei se isso é sorte ou azar. Tento ver quem está nos observando, depois disso boa parte do pessoal vira a cabeça para o lado evitando meu olhar.

Dessa vez vejo o Maksi saindo da cabana com um rosto normal, bem, seu rosto normal, ao que parece, tem uma pitada de raiva, como se estivesse sempre bravo. Ele anda tranquilamente junto de algumas pessoas ao seu redor, provavelmente seus colegas de quarto e outros amigos. Quando o Maksi caminha pela minha frente, o seu olhar passa por cima de nós quatro, principalmente a maga. O encaro e ele também, consigo perceber o desprezo na sua expressão.

Aos poucos o refeitório vai enchendo de pessoas, como consequência, fica com um alto e desconfortante barulho de cochichos. Os olhares para o meu lado não param, na verdade, só aumentam, isso já está ficando desagradável. — Parece que somos bem famosos, né? — A Demcis fala com sua cabeça ainda deitada nos seus braços.

— Sim. — a respondo olhando para os bonecos de palha no campo, os professores já terminaram há bastante tempo o trabalho.

— Eles vão fazer o quê? — a Demcis me pergunta.

Olho por mais um tempo esses bonecos e falo. — Provavelmente algum treinamento de combate, tipo bater nesses bonecos até eles quebrarem, ou só ensinar técnicas de luta.

— É, faz sentido. — diz a menina novamente. — Vocês têm alguma experiência com armas?

— Não, só desarmado. — falo para ela.

— Hecatis? Oh, você é uma maga não precisa disso. Temmos? — Ela encara o garoto.

— Sim. — Ele responde brevemente.

— Legal, qual tipos de armas? — Demcis continua seu interrogatório.

— Espadas, lanças, adagas e arcos.

— Nossa… Mais do que eu pensei.

Esse cara é bem misterioso. É forte, resistente, rápido, o problema é ele não falar muito, pelo menos, a maga conversa bastante sobre magia. Só preciso achar algo que goste, para tentar arranjar algumas informações sobre quem é ele.

Enquanto penso, o treinador aparece na nossa frente com um outro homem ao seu lado. — Se levantem. — Todos o obedecem. — Hoje vamos fazer o básico. Esse cara aqui. — Ele aponta para o homem. — Vai conduzir a aula de vocês.

Esse outro treinador é careca, uma roupa normal com partes de couro, um rosto amedrontador, sua musculatura também é bem desenvolvida, chegando a até ser maior que o Kayatos.

— Vão até um dos bonecos de palha! — grita o Kayatos. Nós andamos até eles, os meus colegas de quarto ficam ao meu redor, cada um em um lado. O outro homem anda até o meio de todos os bonecos e começa a se apresentar. — Me chamo Kahvos, vou ser um dos seus treinadores de combate. — Sua voz é forte, mas parece não ter muito interesse nisso. Os alunos olham em silêncio para ele. O Kayatos fica de lado só observando tudo. — Nos seus lados direitos tem armas, peguem elas. — diz o Kahvos.

Olho para baixo e vejo uma espada e uma lança, ambos de madeira. — Peguem a espada! — manda o Kahvos. Me abaixo obedecendo a ele. Seguro no cabo da espada, é um pouco pesada para algo de madeira. Depois de levantar, fico encarando o boneco com a arma solta na minha mão, só esperando a próxima ordem do treinador.

Nunca toquei em uma espada de verdade, o Kayatos sempre guardava a sua, e eu nunca quis pegá-la. Se uma de madeira assim tem um pouco de peso, imagino uma de metal. Fico trocando ela de mão, para testar como é usar a parte esquerda desse corpo em uma espada. A diferença é muito pouca, e essa pequena diferença deve ser porque uso apenas a direita.

O Kahvos também tira uma espada da cintura, uma de verdade. — Façam essa base que irei mostrar a vocês! — O treinador pega sua espada e a coloca ao lado do corpo. — Primeiro botem seu pé dominante atrás e a sua espada na mesma linha do ombro. — Obedeço ele fazendo esses movimentos. — Primeiramente, vocês vão mover sua espada e braços para frente sem movê-los para baixo, isso vai impedir qualquer contra ataque no último momento. — O Kahvos demonstra o movimento, ele praticamente só movimentou os braços, a arma ficou na mesma posição e altura. — Agora, dêem um passo para frente, ao mesmo tempo que se movem para o lado em direção ao seu oponente, nesse caso, os bonecos. Depois do passo, apenas mova a espada em linha reta para baixo fazendo o ataque.

O Kahvos volta para sua posição inicial, ele então faz a mesma coisa que nos ensinou, só que em uma velocidade insana. Consigo até escutar daqui o barulho da lâmina cortando o ar. — Façam isso nos bonecos até eu mandar parar!

Recuo para trás, seguro a espada longa com ambas as mãos e encaro o boneco. Base, mover o braço para frente, dar um passo, aí levar a espada para o oponente. Certo. inspiro o ar e o solto, minha concentração se foca no meu corpo, também no boneco de palha. Aperto com firmeza o cabo, movo a espada para a minha lateral. Rapidamente dou um passo para frente e bato a espada no boneco. Não é assim, tenta de novo. Volto para a posição. Movo a espada para a minha lateral, só que dessa vez, lentamente, levo meus braços a frente me impulsionando para o lado direito, então apenas empurro a espada na direção do pescoço do boneco. Dá para melhorar, a movimentação está travada, preciso primeiro pegar a consciência do movimento, só então depois tento acelerar ele. Volto para a posição, movo a espada para a minha lateral e tento novamente. Fico repetindo o ataque várias vezes, como é um movimento básico, rapidamente pego como fazer ele.

Aos poucos vou acelerando, penso em cada detalhe, o meu corpo precisa entender como se mexer de maneira certa. Preciso regular a respiração… Esse passo foi muito longo… Bote mais força no ataque final… Fico examinando os erros que cometo, aí os corrijo na próxima tentativa. Continuo fazendo isso até o treinador mandar parar.

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