Capítulo 35: Treino de Armas

— Espero que já tenham pegado o jeito! Se não, continuem a treinar depois de eu ter explicado tudo — grita o Kahvos. — Vou ensinar outro tipo de golpe para vocês, formem duplas.

Olho ao redor procurando alguém. Meu olhar se encontra com o do Temmos. Ele anda até mim e fica ao meu lado em silêncio, também não digo nada, enquanto isso, espero o Kahvos falar o que devemos fazer. Os alunos formam as duplas, logo depois, o treinador começa a explicar. — Fiquem um na frente do outro! Vocês vão revezar os golpes que vou lhes mostrar. — O Kayatos, que está observando de fora, anda até o Kahvos segurando uma espada real. O treinador de esgrima continua. — Um de vocês vai ficar no ataque e outro na defesa, e irão revesar. É um movimento simples, por isso prestem atenção.

Ambos os treinadores ficam na frente um do outro. — Primeiro, um irá fazer o ataque que acabei de ensinar. — O Kayatos faz o movimento com a espada lentamente. — Depois, o que está sendo atacado irá dar um passo para trás. — O Kahvos se move para trás. A espada do Kayatos fica parada na frente dele, diagonalmente ao chão. — Após isso, o que está se defendendo, vai bater sua espada na parte de cima da espada do seu oponente. — Um barulho alto de ferro ecoa. — A grande diferença desse golpe para o outro, é que no primeiro, seu objetivo é o corpo do adversário, porém nesse, é a espada. Agora, após ter feito isso, você vai mover a ponta da sua espada ao seu oponente, de preferência ao pescoço ou peito. — Com a espada em cima da outra, o Kahvos faz um movimento com seu punho direcionando ela ao pescoço do Kayatos. — Como já viram como fazer, tentem isso com a sua dupla.

Olho para o Temmos, ele também está me olhando, aceno para ele ir primeiro. Com sua espada, ele me ataca, então pulo para trás. Após me equilibrar no chão, aperto o cabo da minha espada e bato na espada dele, imitando os treinadores. Sinto um rebote vindo dos meus pulsos, passando pelos meus braços e indo até os ombros, como um choque. A espada do Temmos também é empurrada para baixo. Como não esperei isso acontecer, perco o meu equilíbrio, só que logo me recupero. Apliquei muita força nesse ataque. Devia ter ido mais suavemente, porém o ataque do Kahvos não foi suave. Quanto de força tenho que aplicar? Se for muito fraco, há a chance do oponente revidar, e se for forte, vai acontecer o que acabei de fazer. Terei que testar o quanto de força faço no golpe.

Observo o Temmos balançando a mão de dor. Parece que ele também sentiu o choque que eu senti. Bem, agora é a vez dele, ele me olha e eu retribuo o olhar. Boto a espada ao lado do meu corpo, dou um passo para frente e ataco. O Temmos se afasta com um passo e ataca minha espada, ele vem devagar, ao contrário de mim. Com sua espada parada em cima da minha, sinto um pequeno peso na parte da lâmina, por isso faço mais força no antebraço. Com ambas espadas coladas umas nas outras, o Temmos vira seu pulso lentamente e arrasta a lâmina de madeira, caminhando pela minha espada até chegar no meu pescoço. Sua ponta para há poucos centímetros da minha pele, diante disso, olho nos seus olhos negros. Ele simplesmente volta para sua posição.

Sem dizer nada também, aceno para ele vir. Dessa vez, o Temmos ataca mais rápido. Pulo rapidamente para trás e ataco sua espada, só que não usando tanta força. O choque é menor, porém ainda sinto uma dormência no pulso. Arrasto minha espada contra a lâmina de madeira dele e coloco a ponta da minha espada no seu pescoço. Já peguei o movimento. Volto para a posição de ataque, com a espada ao lado do corpo. O Temmos também fica em posição. O ataco com ainda mais velocidade, ele também bate na minha espada mais rápido.

Fazemos esses movimentos várias vezes em silêncio, cada vez mais rápido. Não sei quanto tempo passou, já que só prestei atenção na minha dupla e nas espadas. Por causa da concentração, o desconforto no peito diminui, e meu único pensamento é se mover corretamente, como se o mundo e o passado sumissem.

Enquanto me preparo para atacar, ouço o chamado do treinador Kahvos, então nós dois paramos de nos mover. O Temmos fica parado ao meu lado. Minha respiração pesa um pouco, mas ainda dá para continuar tranquilamente. Suei bastante e vários calos se formaram na minha palma. Seguro a espada com uma mão, logo após olho para os meus dedos com a pele se soltando.

Volto minha atenção ao treinador. Ele olha para todos e começa a falar sobre alguns erros que os alunos cometeram. Inclusive sobre bater muito forte ou ir devagar. Já descobri sobre isso, não preciso ouvi-lo. Bem, é bom ouvir sobre alguém experiente, porém não tenho porquê. Aliás, é um estilo de esgrima diferente do que eu vi em séries ou filmes, normalmente as pessoas só botam a espada acima da cabeça e atacam para baixo, mas parando para pensar, desse jeito abriria várias aberturas, o peito e abdômen fica completamente exposto, só uma estocada e morreria. Treinar usando esse movimento dos filmes deve ser bom para treinar a musculatura, só que se usar isso em um combate real não daria certo.

— Como já expliquei e mostrei esses dois golpes, vamos para o próximo! — Presto atenção ao treinador Kahvos. — Saber usar só uma arma é burrice, em uma batalha, você vai perder ela quase toda vez, quando ela se quebrar ou ficar presa no corpo do inimigo, por isso vai ter que usar a primeira arma que estiver ao seu alcance, pode ser um machado, lança, espada, até uma flecha quebrada que ficou no chão. — O Kahvos começa a andar entre os bonecos de palha e as duplas. — Hoje não iremos nos especializar ou focar em uma arma só, mercenários precisam se adaptar a situação. Peguem a lança que está ao seu lado e guardem as espadas! Podem voltar para os seus lugares. O Temmos sai do meu lado e anda para seu boneco de palha. Olho para baixo e vejo a lança de madeira, me agacho, coloco a espada no chão e pego a lança. Olho para o cabo dela. Não há nada de especial, nenhum entalhe, a única coisa é sua ponta afiada. É como se fosse um bastão.

— Todos com a arma? — O Kahvos olha para o Kayatos que agora está segurando uma lança de verdade perto da cabana. O Kayatos se inclina para trás segurando a lança por cima do ombro e joga ela para cima. O som do ar sendo cortado é mais forte do que quando ele usou a espada. Ela sobe rapidamente para o céu, se camuflando na luz do sol. Consigo ver apenas uma sombra. Logo após, percebo que está começando a cair. Cair em uma velocidade absurda. Todos os alunos olham para cima, menos o Kahvos que apenas continua a olhar em frente. Percebo ela caindo na direção do Kahvos, mesmo assim, ele não se mexe. A lança desce em uma velocidade assustadora, até que chega ao lado treinador, mas assim que espero ela cair no chão com tudo, a lança simplesmente aparece na mão do Kahvos. Não vi ele se mexendo. É um Controlador de Mana? Impressionante ter dois deles aqui, na verdade, são três, se contar a maga. Eles estão tentando nos impressionar com isso? Bem, acho que funcionou

Com sua lança em mãos, o Kahvos começa a explicar o que iremos fazer. — Há duas maneiras principais de atacar com uma lança, a estocada e o corte, pensem na lança como uma faca. Dependendo do tipo de lança, a técnica de combate pode mudar, mas não vai ser uma mudança drástica. — Ele dá uma pausa no discurso e segura a sua lança em posição de combate. — Me imitem! Com uma mão, segure bem no fim do cabo, essa mão vai ficar na sua linha de cintura. — Todos os alunos fazem o que ele diz, inclusive eu. — A outra mão vai perto do meio do cabo, escolha um local nessa área onde fique confortável segurando. Mantenha sempre a lança à frente do seu corpo, a ponta dela deve sempre ficar na mesma linha do seu rosto, nunca deixe ela baixa. Não façam a burrice de a segurar na linha da cintura, isso só vai fazer o adversário atacar seu rosto e peito, mas com a ponta na linha do rosto, você consegue tranquilamente defender essa áreas. — O Kahvos faz os movimentos demonstrando o que acabou de falar. — Assim também fica fácil de defender suas pernas, porém isso não vai ser muito necessário, já que irá proteger suas pernas com o trabalho de pés. Com isso explicado, se posicionem de lado, com suas mãos no lugar onde falei. — Os alunos fazem o que ele manda em sincronia. — Esse ataque é bem básico, você só vai atacar para frente assim. — Ouço novamente o alto barulho do ar sendo cortado quando ele demonstra o ataque. — Sua mão não sai do lugar, você não vai deslizar ela pelo cabo, fixe ela com força! Lembrando também que sua mão que fica na base da lança não deve passar do centro do seu corpo. Façam isso vinte vezes agora!

Coloco meu corpo de lado e olho para o boneco de palha com a minha lança de madeira em mãos. Só atacar. Lentamente, testo para ver como devo fazer o movimento, analisando cada detalhe do que o treinador disse. Depois disso, acelero a velocidade em que golpeio o boneco de palha. Miro no pescoço do boneco, mas não acerto no lugar onde quero, a ponta da lança balança e é instável, tento focar em não balançar a lança, só que é difícil. Sem nem mesmo perceber, já chego na vigésima repetição, então descanso meus braços.

Meu corpo está completamente suado, vou precisar lavar o casado que a Metys fez para mim. Os alunos completam as vintes repetições, então o Kahvos volta a falar. — Esse é um golpe que vocês vão ter que repetir várias vezes, igual a todos que ensinei a vocês. Agora vamos para outro movimento, que é uma estocada longa, esse que acabei de ensinar é a estocada curta. É um ataque bem parecido com o outro, a principal mudança é o movimento do seu braço. — O treinador mostra como é o movimento. Seu braço que fica na frente, quando ataca, se move e fica paralelo com o cabo. É uma diferença pequena, mas parece mudar a força do movimento. — Sempre lembre que quando voltar com a lança para sua posição inicial, nunca abaixe ela! Façam vinte movimentos assim!

Obedecendo o treinador, ataco o boneco de palha usando a estocada longa. Uso a mesma estratégia de antes, começar lentamente vendo o movimento e ganhando consciência corporal, então ir acelerando.

Termino os movimentos e, logo após, descanso meus braços. Olho para eles e vejo meus músculos grandes por causa da circulação do sangue, além de várias veias aparecendo. Meu braço ainda é pequeno, incrível como esse corpo tem força, mesmo sendo pequena em questão de massa muscular. Respiro profundamente e olho para o treinador que começa a falar. — Agora irei ensinar outro golpe, vai ser o último, por isso logo vocês terão seu descanso. Esse é um pouco mais difícil e estranho de fazer com uma lança sem lâmina, mas iremos fazer mesmo assim. É um movimento de corte. — Ele leva a lança para cima, vertical ao chão e colada ao corpo, a sua mão que fica no meio do cabo está largada, como se não fizesse força ou se não importasse se estivesse alí. Depois ele abaixa a lança rapidamente. — Olhem aqui, vejam que minha mão de baixo, que fica na base da lança, foi até a minha cintura, mas a que fica na frente nem se mexeu, o movimento é causado pela mão da base. Percebam também que a lança não passou da linha do quadril e a ponta continua acima dessa linha, protegendo meu rosto e peito. A lança nunca deve ir ao chão, nunca! Pronto, façam o movimento.

Levo a minha lança para perto do meu corpo, com ela apontando para cima, então desco ela lentamente, tento não mexer a mão da frente e apenas uso a da base para descer. Quando ia passar da minha cintura, paro o ataque e faço o movimento de novo. Faço isso repetidas vezes até chegar na vigésima vez.

Tento recuperar minha respiração, já que acabei ficando ofegante. O Kahvos começa a falar. — Finalizamos o treino de armas, descansem se quiserem, ou voltem a treinar. Tchau. — Ele, simplesmente, sai do meio dos bonecos e anda até a cabana enquanto segura a lança e a espada. Os alunos ficam em silêncio até perceber que já acabou e descansam no chão. Foco em estabilizar a minha frequência cardíaca, após isso olho ao redor e vejo que o Temmos continua a treinar. Ainda temos o resto do dia, não vou me cansar logo de manhã. Percebo a Demcis e a maga vindo em minha direção, então elas param ao meu lado e também observam o Temmos. Demcis fala. — Não seria melhor ele descansar?

— Provavelmente — a respondo.

— Querem fazer isso com ele? — pergunta a Demcis.

— Não — falo para ela, ao mesmo tempo em que ambos observamos o garoto de preto treinando.

Olho para a minha mão cheio de calos e começo a ir para o refeitório me sentar, as duas me acompanham. Chegando lá, vejo algumas pessoas e ando até uma das mesas no fundo. Sento na mesa, as garotas se sentam juntas do outro lado da mesa. Olho para os bonecos de palhas e vejo poucas pessoas que ainda continuam a treinar.

A Demcis, que está sentada à minha frente, pergunta. — Você sabe quem é ele? — A maga sentada ao seu lado balança a cabeça. Também respondo com um não. — Ele já parece bem forte e sabe usar armas.

Não entendo o porquê dele ainda estar lá aprendendo uma técnica bem comum. Pelo o que ele disse, já deve saber alguma técnica mais complexa que essa… Por quê? Está tentando se tornar mais forte? Mas ele já sabe mais que isso. Aprender como adversário ataca? Pode fazer sentido. Fortalecer sua base? Talvez. Ou apenas aprender outra técnica? É o que mais faz sentido. Bem, não preciso pensar nisso.

Depois de um tempo o Temmos para de treinar e vem até a gente. Vejo ele chegando até a nossa mesa e sentando ao meu lado suado, ofegante também. Eu e as meninas observamos ele em silêncio, só que quando a Demcis ia dizer alguma coisa, um rapaz aparece repentinamente e se senta ao lado do Temmos. É o Diliam, aquele que chamei de confiante. — Olá a todos. — O grupo olha para ele. O que esse cara quer? Ninguém fala nada, então o Dilliam continua. — Vocês três formando um grupo chamou bastante atenção, a maga, o demônio que não é um demônio e o cara sombrio forte. É algo bastante inusitado. Vocês estão no mesmo quarto?

Ficamos um tempo em silêncio, até que a Demcis fala com ele. — Sim.

Ele olha para a garota, encarando ela. — Nossa… é uma grande coincidência. — Ele coloca seu cotovelo na mesa e olha para mim. — Oi, Morrigan.

— Oi.

— Tudo bom? — Ele abre um sorriso.

— Sim.

— Dormiu bem hoje?

O que esse cara quer?

— Sim.

Ele move sua cabeça pelo grupo. — Vocês realmente não gostam de conversar, né. Não se preocupem, não quero nada de vocês agora, apenas conversar amigavelmente.

O Temmos apenas olha em silêncio para frente, não consigo ver o rosto da maga por causa do capuz e a Demcis encara o Diliam com os olhos cerrados.

Me viro para o lado, olhando para o Diliam, e começo a falar. — O que você quer?

— Ué, acabei de falar. — Ele finge confusão. — Vocês são fortes, então quero ter uma conversa amigável com vocês. — Percebo ele olhando por alguns instantes a maga. — Não é como se todo mundo tivesse segundas intenções.

Após um breve silêncio, a Demcis toma a frente. — Oh, só isso? Pensei que queria arrumar confusão. — Ela abre um sorriso no rosto, não consigo discernir se é falso ou verdadeiro. — Pelo que vi, esses caras são um bando de anti sociais, vai ser difícil tentar conversar com eles.

Dilliam fala. — Percebi. — Ele olha para ela. — E você quem é?

A garota mostra um sorriso. — Meu nome é Demcis, caí coincidentemente no quarto desses três.

— Prazer — responde o Dilliam, ao mesmo tempo em que volta sua atenção a gente. — Aliás, qual seu nome? — Ele olha para a maga. Só que a Hecatis fica em silêncio, ignorando completamente ele.

Segundos se passam, e ela não fala nada. Apenas olho para o Dilliam, tentando ver sua reação.

Pfft!

Ouço uma risada de escárnio vindo da Demcis. — Já falei, eles são anti sociais, não vão te responder tão cedo.

Ele mantém seu sorriso falso e conversa com a garota. — Você conhece eles bem então?

— Não, só de ontem mesmo. — Ela continua com seu sorriso. — Mas pelo que vi, você não vai conseguir conversar com eles assim. — Ela olha para mim.

Bem, não vejo problema ela falando por nós, então não tem porquê parar ela. Vamos ver aonde vai dar isso.

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