Capítulo 38: Manter a Morte Para Si

O treinador fala para sairmos do rio e esperar na beira. Aqueço meu corpo fazendo flexões e polichinelos, logo depois, ele nos manda entrar na água gelada. Dentro do rio, ouço a Demcis falando algo irreconhecível, já que, por causa do frio, seu queixo treme e não consegue formular uma frase. O Temmos está no mesmo estado que ela.

Depois de vários minutos, o treinador manda sairmos do rio, então repito o mesmo processo de aquecer meu corpo. Dessa vez, o Kayatos não fala para entrarmos na água, e sim, voltar à cabana. Ouço os suspiros dos alunos, até a feição melancólica e deplorável deles melhora. Vários dos alunos espirram e tossem, além de reclamar do Kayatos. Assim que chegamos no grande campo de terra, eles se espalham e tentam aquecer seus corpos.

— Vou dar a vocês algumas horas de descanso, façam o que quiserem nesse tempo — fala o treinador. — De noite vamos voltar ao treino.

Me viro para o meu grupo, que agora a Maga está junto. — Vou aquecer um pouco correndo ao redor do campo, querem vir? — A Maga nega, a Demcis aceita e o Temmos balança a cabeça dizendo que sim. Então começo a correr junto deles em uma velocidade moderada. Em poucas voltas sinto o meu corpo se esquentando e, como não estamos correndo rápido, não fico ofegante. Algumas pessoas parecem notar a gente. Vejo que o Dilliam começa a correr junto de seu grupo, percebo também o Maksi correndo. Nós três estamos afastados um do outro por vários metros. Assim que percebe o Dilliam chegando perto, a Demcis acelera a sua passada e, para acompanhar ela, também aceleramos. O Maksi nos vê chegando cada vez mais perto dele e aumenta a sua velocidade, mas assim que o Dilliam percebe o Makis correndo mais rápido que ele, também acelera e, por consequência, a Demcis também. Por causa desse ciclo, começamos a correr em uma velocidade assustadora, que dificilmente se manteria por muito tempo, mas, impressionantemente, nós conseguimos.

— Está bom, não? — pergunto, com minha voz falhando, para a Demcis.

— Não! Não paro até eles desistirem.

Não era para só aquecer? O grupo continua a correr até que o Dilliam desiste. Com as mãos no joelho, tento retomar a minha respiração. Assim que paro de ofegar, ando lentamente até a Demcis e Temmos. Fomos até o refeitório e sentamos na mesa do fundo, onde a Maga nos espera. Sento com o Temmos ao meu lado e a Demcis com a Hecatis do outro lado da mesa.

— Foi apenas uma competição amigável — fala a Demcis sorrindo.

— Bem, deu para aquecer o corpo — digo para ela.

Já está começando a anoitecer. Me viro para ver o sol se pondo e o céu sendo cobrido por uma luz alaranjada.

Atchim!

O Temmos espirra. Ele coça seu nariz, que agora está vermelho, enquanto isso, vejo os professores trazendo lenha e a colocando no mesmo lugar onde estava a fogueira ontem.

O tempo passa e a escuridão toma conta do céu. Todos os alunos estão reunidos em torno da fogueira e eu estou ao lado dos três do meu grupo. Não conversamos sobre nada, só olhamos para o fogo, enquanto aquecemos os nossos corpos. O vento está mais frio e por isso me mantenho mais perto da fogueira com as mãos estendidas para ela. Tudo que não está sendo iluminado pelo fogo, é um completo breu. Apenas as sombras das árvores se mexendo com a força do vento é vista ao longe. O céu noturno não tem mais estrelas nele, já que as nuvens cobrem.

Percebo o Kayatos saindo da cabana. Ele anda tranquilamente até o meio da fogueira e para. Move sua cabeça lentamente por todos e começa a discursar. — Antes de eu liberar vocês para irem dormir, vou explicar algumas coisas, principalmente, sobre batalhas. Já que esse é o objetivo desse centro de treinamento, preparar vocês para lutar. Eu sei que estão cansados, porém eu não me importo, caso veja algum de vocês dormindo ou bocejando, será punido. — Ele caminha ao redor da fogueira. — Estou aqui para fazer vocês ficarem fortes, serem a elite, o problema é que vocês são um bando de fracos. Não conseguem nem aguentar segurar um tronco por alguns minutos! No momento em que as tripas do seu companheiro estiverem para fora e você precisar levar o corpo dele, quero ver reclamarem que seu ombrinho está doendo, ou terem medo de entrar na água só porque está fria. Um bando de fracotes e medrosos. — Ele para de andar. — Mas falar sobre isso não é meu propósito agora. Irei explicar algumas coisas que quero que vocês tenham em mente por todo o tempo em que treinarem aqui. São as regras básicas de sobrevivência numa luta. Primeira regra. Esqueça a merda da sua honra! Se um inimigo perder a sua arma uma batalha, decepe a cabeça dele! Se for uma criança lutando, mate ela! Ou é ela ou você, se você ignorar ela, a única coisa que você vai lembrar é de uma espada atravessando suas costas e saindo na sua barriga. Honra é uma fraqueza em uma guerra, honra não vence batalha. Se você tem honra por peso de consciência, saiba que não tem peso de consciência dentro de uma vala cheia de corpos. Segunda coisa, em uma batalha, não pense. Na verdade, pense sim. Em como matar o inimigo a sua frente. Não tente adivinhar o que vem depois, só mate. Deixe a tarefa de pensar para seu comandante, e você apenas faz o que ele mandar, nada mais, nada menos. Não tente surpreender ele para ganhar uma promoção, porque a única que vai ganhar é sua cabeça decapitada por desobediência. Agora vocês são soldados, a função do soldado é obedecer ordens. Me digam, qual é a função do soldado? — O treinador olha ao redor, mas ninguém responde. — Eu falei… Qual a porra da função do soldado?!

— Obedecer ordens! — os alunos gritam em uníssono.

— Parece que vocês entenderam. Vamos para a terceira regra. Não morra. Você não entra em uma batalha para matar os outros, você entra com o objetivo de não morrer. Quem não teme a morte é um idiota! Prefiro ter um covarde como companhia, do que um idiota. Um covarde que dura uma batalha inteira mata mais do que um idiota que morre início. Entendam que a morte é sua amiga, ela vai te proteger, mas ela também é alguém que você tem que manter o mais longe possível de si. A pessoa que mantém a morte por perto é pior que um idiota, porque além de trazer a destruição para si mesmo, traz para as pessoas próximas dele.

O frio bate na minha pele, nem o calor da fogueira consegue disfarçar ele. Os alunos estão em completo silêncio, mas o uivo cortante do vento passa pelos meus ouvidos, como se alguém estivesse sussurrando nele. O treinador fala de outras regras por minutos, só que enquanto ele fala, observo o fogo se mexendo e crepitando.

— As primeiras três regras são as mais importantes, vocês vão ter que lembrar por todo momento em que estiverem aqui. Há muito mais regras, muito mais. Porém são só essas que falarei hoje. Podem ir descansar nos seus quartos. — O Kayatos anda até a cabana.

A maioria dos alunos se levantam. A Demcis nos chama, então sigo ela junto com o resto do grupo até o nosso quarto. Ela abre a porta, eu entro nele e subo até a minha beliche, logo após, o Temmos se deita abaixo de mim. Descanso minhas costas na cama dura e perfurante ao mesmo tempo em que me viro para o teto escuro de madeira. Ninguém conversa nada, já que todos estão cansados e dormem rapidamente. Me sento na cama e cruzo as pernas. Com o corpo cansado e mesmo assim não conseguindo dormir, passo a noite inteira acordado até ver o sol pela janela. Com isso, saio da beliches, mas quando ponho meu pé no chão, vejo o Temmos com os olhos abertos na cama. Ele me vê e se senta na cama com um rosto de sono. Aceno com a cabeça para ele e saio do quarto, passo pelo corredor, então ando até o refeitório. Os bonecos de palha estão no mesmo lugar que ontem, porém não tem nenhum professor. O campo inteiro está vazio é um silêncio completo, nem os pássaros cantam. No momento em que me sento em uma das mesas, olho o Temmos sair da cabana e vir até mim. Ele se senta na minha frente, do outro lado da mesa.

— Bom dia — eu falo.

— Bom dia — ele responde.

Olho para o céu azul e laranja, observando o nascer do sol. Não esperava o Temmos falar, pensei que só iria me ignorar. Olho para seu rosto, seu cabelo preto está bagunçado, seus olhos negros e rosto parecem ser indiferentes, mas consigo perceber que ele não está triste ou com tédio.

— Sabe, eu só vim para cá, porque me pediram — começo a falar. — Não me importo de estar aqui ou não. Ficar forte ou criar contatos também são algo que não ligo. — O Temmos me olha confuso. — Depois de um dia, percebi que nada disso importa. Bem, para mim, não importa. Mas para minha família importa, então faço isso. Esse é o motivo de eu estar aqui. — Dou uma pausa. — E o seu?

Ele me olha confuso, só que ele parece estar pensando em algo. — Também vim porque me pediram.

— Mesmo? Não veio para ficar forte, ou algo do tipo?

— Também. Sempre procuro melhorar.

— Por quê? — Coloco meus cotovelos na mesa e me inclino para frente.

— Preciso de um motivo para ficar forte? — Ele inclina a cabeça confuso.

— Bem, provavelmente não.

— Eu acho necessário ficar forte — fala o Temmos. — Também preciso ajudar certas pessoas.

— A mesma pessoa que pediu a você para vir?

— Sim.

Ele foi mandado por alguém da família ou uma organização? — Aliás — eu falo. — Você já parece ser forte e sabe outras técnicas de combate. Por que se esforça em aprender algo tão básico, sua força geral não vai mudar quase nada ao fazer isso.

Ele para um momento e responde. — Não sei. Eu só faço. Eu ainda não tinha pegado o jeito do movimento, então continuei a fazer. Se eu comecei algo, tenho que terminar. Eu não entendo essas pessoas que saíram sem nem mesmo entender o movimento, para que vieram para cá? — Percebo seu rosto ficando com raiva.

— Não gosta de pessoas assim?

— Claro! Não faz sentido. Vieram para ficar fortes e nem se esforçam para isso. É como querer algo e esperar que, por um motivo milagroso, esse algo venha para ele. Querem melhorar fazendo o menor esforço possível.

— Entendo.

— Isso me deixa puto. São um bando de preguiçosos, não era nem para terem vindo para cá. Além de tudo isso, ficam reclamando do treinador treinar eles! — Ele se vira para mim. — Está percebendo como isso não encaixa?

— Sim — eu respondo.

— Tomara que aquele discurso do treinador Kayatos faça a mente desses preguiçosos mudarem.

— Só precisa eles quererem melhorar.

— Esse é o problema! Eles querem, só não fazem nada para isso.

Por que se irrita com algo assim? São só outras pessoas que não têm nada a ver com ele. Não entendo.

— Eu tento melhorar — continua ele. — Sou muito fraco ainda, sabe? Olha para o treinador, ele é forte, não consigo vencer ele em uma batalha, mesmo o treinador usando apenas um dedo de uma mão só. Por isso eu tento ficar forte. Imagina ser forte assim e não se preocupar em perder. — Um sorriso aparece em seu rosto. — Ficar no topo, ser o melhor. Isso é o que quero ser. Ter uma diferença esmagadora de força. Ninguém pode te derrotar, nem roubar seu trono, além de conseguir ajudar as pessoas importantes para si. Quem não gosta de algo assim, não é? Viver no topo.

— Sim.

— Só que para isso, mesmo tendo talento, a pessoa tem que se esforçar. — O sorriso sai do seu rosto. — Por isso não gosto desse pessoal preguiçoso, eles nunca vão alcançar isso. São completamente descartáveis. Quem liga para alguém fraco? Uma pessoa inútil assim que não serve para nada. Eles se contentam com a mesmice, não querendo mudar, melhorar, nada! Ainda ficam mentindo para si mesmo! Dá até vontade de matar alguém assim.

Volto meu corpo para trás e relaxo. Olho para o céu novamente e vejo nuvens vindo. O vento fica mais forte, então percebo o Temmos tremendo pelo frio e sua raiva abaixando. — Você vai se juntar ao Dilliam? — eu pergunto.

— Quem é esse?

Ah.

— Ninguém importante.

Vou considerar isso como um “não”.

Olho para alguns alunos saindo da cabana, eles andam até o refeitório e conversam entre si. Mais vão chegando a cada momento, até que metade das mesas são preenchidas. Não muito tempo depois, a Demcis com a Maga chegam.

— Acordaram que horas? — fala a Demcis. Ela se senta ao lado do Temmos, a Maga se senta ao meu lado.

— Não faz muito tempo.

O grupo fica em silêncio, enquanto esperamos os professores acordarem. Quando o Kayatos aparece saindo da cabana junto de outros treinadores, os alunos se viram para o olhar. — Me sigam — manda ele. Confusos, os alunos hesitam antes de se levantarem e seguirem o Kayatos. Passamos pela mesma trilha de ontem até chegarmos no rio. Saindo das árvores, vejo a água com vários barcos flutuando, na verdade, não são barcos, parecem ser só pedaços de madeira feitos rapidamente. Bem, vou chamar de barco mesmo assim.

— Vamos fazer uma pequena competição — fala o Kayatos ao sorrir.

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