Capítulo 39: Não Posso Manter Minha Mente Vazia

— As regras são simples — fala o Kayatos. — Cada grupo vai levar esses barcos nadando até lá. — Ele aponta para dois barcos segurados por cordas. — Os cincos primeiros grupos que chegarem lá, não vão receber nada, mas, os que perderam, vão ter que ficar duas horas na água. Escolham seus barcos.

— Não vamos perder! — fala a Demcis com os olhos brilhando.

Andamos até o rio gelado e escolhemos um barco. Dentro dos barcos há caixas e pedras.

— Eu e o Temmos vamos ficar atrás empurrando, vocês duas fiquem aí na frente para conduzir. — Coloco minhas mãos atrás do barco e espero o Kayatos começar a corrida.

— Você pode usar a magia? — pergunta a Demcis para a Hecatis.

— Não. O treinador falou para não usar, a não ser que ele fale — responde a Hecatis.

Com os alunos lado a lado na água, o treinador anda até a beira do rio com uma lança. — Assim que ela cair no chão, a corrida começará. — Ele se inclina e a joga para cima, a lança chega no ápice de altura e começa a cair. Empurro o barco usando apenas o braço. Assim que a lança cai na água, bato minhas pernas contra a água.

Os vários barcos avançam e respingos sobem pelo céu. Ouço o barulho da água sendo chutada por todas as direções. A cada segundo, a aceleração do barco aumenta, tento mover minhas pernas cada vez mais forte. Na frente, a maga e a Demcis, evitam o barco virar e direcionam ele para frente.

Inclino a cabeça e vejo vários barcos lado a lado, a maioria deles está na mesma distância que nós. Conseguimos ter uma diferença de velocidade, mas é algo mínimo. Do outro lado, vejo barcos na mesma velocidade que o nosso, alguns até mais rápidos. — Acelerem! — grita a Demcis. Coloco mais força nas pernas junto com o Temmos, as duas também aumentam a força. Como está difícil de enxergar a frente por causa das ondas feitas pelo barco, fecho meus olhos e só escuto o barulho da água, confiando nas duas para conduzir o barco. Não há muito o que eu possa fazer a não ser bater as pernas.

Abro meus olhos para ver os adversários, e percebo que abrimos distância deles, porém ainda há alguns na nossa cola. Tento olhar para frente, mesmo com as ondas no olho, e moto que estamos na metade da corrida. — Desacelera para não cansarmos! — grita a Demcis. — Diminuo a velocidade das pernas, mas mantenho a força delas. Percebo alguns dos adversários fazerem o mesmo, uns não fazem e abrem distância. Concentro em manter a minha respiração ritmada e em estar sincronizado com o Temmos. Paramos de acelerar e estabilizamos nossa velocidade, continuamos assim até ultrapassarmos os que estavam na frente. — Acelerem! Falta pouco! — grita a Demcis e, obedecendo ela, bato minhas pernas cada vez mais rápido, elas estão pesadas, mas as forço a ir. Fecho meus olhos e movo elas com mais força, sinto a sensação da água gelada passando pela minha pele, a resistência da água contra meu corpo, as ondas formadas ao redor do barcos, os respingos caindo nas minhas costas, o som do bater de perna na água e os gritos a ordenar algo. — Conseguimos! — Com a fala da Demcis, paro de bater a perna e abro os olhos. — Acho que fomos os primeiros — continua ela. Olho ao redor e vejo os alunos terminando em seguida.

— Primeiros? — Seguro na lateral do barco com os três ao meu lado.

— Parece que sim — fala a Demcis.

Passo a mão no meu rosto, colocando o meu cabelo para trás. Nadamos de volta para a beira do rio e paramos em uma parte de areia com as árvores logo atrás. Respiro e observo que a maioria terminou e nadam de volta.

O treinador chama os que terminaram, então fomos até ele, mas no caminho há um contratempo. Vários dos alunos se amontoam, vou até lá e vejo dois grupos discutindo.

— Seu desgraçado! — fala um deles, pegando no colarinho da roupa do outro. — Você nos atrapalhou!

O outro levanta seus braços e fala sorrindo. — Eu não fiz nada, maluco. E como que eu trapaceei em uma corrida assim? — O que está segurando o colarinho, empurra o outro para o chão.

O grupo de ambos discutem e jorram xingamentos. Mais pessoas se reúnem em volta da briga, procuro o treinador e ele está ao longe observando.

— Vocês ficaram na merda da nossa frente, impedindo a gente de passar! — grita um.

— Mas não falava nada nas regras que não podia fazer isso — responde outro.

Percebo o Dilliam aparecendo na multidão e o Maksi também chegando logo depois, ambos ficam de fora. Esses dois grupos discutem por um tempo, mas não partem para a briga, até que um aluno avança contra o outro, jogando ele no chão. Os participantes se olham antes de brigarem, eles gritam e correm. Alguns rolam, outros ficam em pé na posição de luta. Ferimentos aparecem em ambos os grupos, gotas de sangue se misturam na terra, dentes voam e atingem a plateia. A briga acontece por minutos e para quando o treinador chama os alunos. O Dilliam e o Maksi fazem um sinal para aqueles que estão na briga e caminham até o treinador. Chegando lá, os que brigaram ficam separados.

— Como eu falei — diz o treinador. — Aqueles que não foram os cinco primeiros, vão para a água. — A maioria hesita antes de entrar no rio, mas assim que o treinador encara eles, voltam para a água fria.

Cinco grupos sobraram, incluindo o nosso, o do Dilliam e do Maksi. Observo de relance os dois grupos restantes, mas não presto atenção neles.

Me afasto e me sento no chão com as costas apoiadas em uma árvore enquanto observo os alunos tremendo de frio na água. A maga, a Demcis e o Temmos se sentam ao meu lado.

— Façam o quiserem — fala o treinador. — Podem até voltar para a cabana. — Ele se afasta de nós.

— Querem voltar? — pergunto para eles.

— Aqui está confortável — fala a Demcis, mexendo no cabelo molhado, que descansa sobre seu ombro.

— Tanto faz — responde o Temmos.

A maga não diz nada.

Vamos ficar aqui então. Olhamos para os alunos por um tempo, até que ficamos com tédio e voltamos para a cabana. Dentro do quarto, nos enxugamos e paramos no meio do campo de terra para aquecermos usando o sol, mesmo o céu estando nublado e cinza. Sentamos no chão esperando o treinador voltar.

Depois de duas horas, com nós andando pelo campo e descansando, ou no refeitório, ou no chão, ou no quarto, o treinador chega com os alunos. Todos, sem exceção, tremem e estão encolhidos de frios, ouço espirros e tosses, além de resmungos. O treinador manda todos se reunirem no refeitório.

Com os alunos em pé, o treinador fala: — Esses três dias foram um período de testes. A partir de agora, o real treinamento vai começar. Vocês próprios vão escolher que treino vão seguir. — Professores saem da cabana e se agrupam de fora do refeitório. — Cada um deles ensina uma matéria específica; treinamento de espadas e lanças, treinar seu físico, estudo de estratégia, etc. Hoje vocês têm o dia todo para escolher, se quiserem, também podem não escolher e ficar vadiando esses próximos meses. Além disso, no final de cada semana vai haver uma competição envolvendo todos, os que ganharem vão ter recompensas e os que perderam vão sofrer punições. — Ele para por um momento. — No fim desse centro de treinamento, daqui a três meses, vai haver uma avaliação final, onde será contado a força individual de vocês, liderança e inteligência estratégica. A pessoa ou grupo que ficarem em primeiro, vão receber benefícios da própria sede da guilda mercenária. Quaisquer perguntas façam amanhã para seus professores. — Ele anda para a cabana.

Os alunos encaram os professores. Quais matérias vou escolher? Um professor toma a frente, fala seu nome e explica o que ele ensina, o professor ao seu lado repete as mesmas ações, cada um explica o que ensinam. São várias matérias específicas, além das que o treinador falou. Algumas me interessaram, como: estratégia e treino físico. Também tem algumas matérias que me ajudaria aprender a história desse mundo e a ler.

— Vão escolher quais? — eu pergunto.

— Ainda não sei — fala a Demcis.

Olho para o Temmos e ele responde: — Treinos de espadas, de musculação, de luta, de… — Ele lista quase todos os treinos envolvendo batalha e força física.

Não demoro para me decidir qual tipo de treino irei fazer. Os professores explicam como vai funcionar e qual será o horário de cada treino, alguns falam que vão chamar os alunos no momento, outros disseram que vai ter um horário determinado e fixo. Eles voltam para a cabana após falarem tudo.

Me sento na mesa junto do grupo. Converso com a Demcis e o Temmos como eles acham que vai funcionar e o que eles escolheram. A Demcis escolheu uma quantidade razoável de matérias, igual a mim, misturado entre treino de intelecto e treino físico. Conversamos por um tempo esperando o treinador voltar. Não vemos ele até que a comida chega, os alunos formam a fila e os professores distribuem a comida. Como a comida, ainda esperando a próxima ordem, quando ele aparece, o refeitório fica em silêncio. — Hoje vocês vão descansar. Façam o que quiserem. — Dizendo poucas palavras, ele volta para a cabana

Olho para o céu nublado e depois para as árvores balançando com o forte vento. Tenho o dia todo livre, o que posso fazer nesse tempo? Não vou treinar, já que o Kayatos falou para descansarmos, deve ter um motivo. Acho que vou caminhar pela floresta, não quero deixar minha mente vazia. Falo com a Demcis e o Temmos, então adentro na floresta. Ando pela trilha até chegar no rio. Na margem com pedras e areia, me alongo, aqueço e começo a correr com o rio ao meu lado e as grandes árvores ao outro. Percebo o vento movimentar a água e na minha pele, o frio atinge diretamente meu rosto. Corro em uma velocidade baixa, me esquivando de umas árvores ocasionais, continuo correndo até me cansar. Olho para a água barrenta do rio se movendo, ando até ela e me sento nas pedras da margem, retiro o meu casaco, colocando ele sobre a minha cintura. Mesmo suado e com o corpo quente, o vento frio me faz tremer. Pego o casaco, me inclino para frente e lavo ele ajoelhado com as pedras da margem me perfurando, tento tirar todo o suor, o esfregando na água turva. O vento frio aumenta de força, as árvores fazem ainda mais barulho e a água do rio fica vermelha. O cheiro de ferro penetra o meu nariz, as minhas mãos que esfregam o casaco se mancham com o vermelho sangue, o casaco pesado se enrola na minha mão, apertando ela com força, como se alguém a segurasse. Continuo a esfregar o casaco. O barulho do vento aumenta, a água de sangue se move com força, a imensidão do céu, agora negro, cobre minha vista, ouço explosões iguais a tiros ao meu lado. Continuo a esfregar o casaco. Cochichos ocorrem ao redor de toda a florestas, as árvores crescem e chegam ao céu negro, essas mesmas árvores se entortam, fazendo um barulho infernal de madeira estraçalhando, e cobrem o rio como uma cópula, o ambiente fica pesado, sinto falta de ar ao respirar nesse espaço abafado, úmido e escuro, uma pressão misteriosa me atinge de cima, me fazendo sufocar e sentir meu peito arder, meus ouvidos zumbem alto, por causa disso, minha cabeça doe, sinto ânsia de vômito e tudo ao meu redor roda em círculos. Paro de esfregar o casaco. A paisagem verde das árvores, a água turva voltam e o céu cinza nublado, voltam.

Me levanto das cortantes pedras da margem do rio, seguro o casaco e ando de volta para a cabana. Chegando lá, encontro o meu grupo no refeitório, sento na mesa e converso com eles, dizendo que a caminhada foi tranquila e normal.

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