Capítulo 43: Não

De pernas cruzadas e com as costas apoiadas na parede, vejo a Demcis se levantar. — Bom dia — eu falo. Ela acena com a cabeça enquanto boceja, depois cai de costas na cama. 

— Você dorme? — ela fala.

— Não.

— Agora faz sentido você ser sempre o primeiro a estar de pé. — Ela para uns segundos para bocejar. — Por que você não dorme?

— Isso é algo que também queria saber.  Apenas fecho os olhos sem poder dormir.

— Entendo.

Ela se senta na beira da cama e fala: — O professor de ontem mandou sairmos de manhã. — Ela pula da cama e vai até a porta.

— Já vou indo. — Retiro meu casaco, dobro ele e o coloco acima da cama. Agora a camisa preta que uso por baixo do casaco fica à mostra. Pulo da cama, acordo o Temmos, então saio com ele em silêncio, junto com os vários alunos que acordaram e estão no corredor.

Chegando lá, o professor nos manda correr. Mas, ele muda o estilo de treino, em vez de focar nas pernas, ele foca na parte superior do corpo: flexões, levantamento de peso, barra fixa, abdominais, até algo parecido com um supino usando os troncos. 

Depois de terminar o treino, sentamos perto das árvores. — Não consigo levantar meus braços… — resmunga a Demcis.

— A tendência é piorar — eu falo.

— Uma pena que a Hecatis não veio para sofrer com a gente — ela fala.

O Temmos fala: — Para quê? Ela é uma maga. Ela nem precisa estar aqui.

Isso é verdade. Ontem tentei perguntar isso, mas ela não me respondeu. Não sei o que ela esconde. Como outro controlador de mana, ela está no nível do Kayatos, não do nosso. Nenhum aluno, pelo pouco que sei, consegue enfrentar um mago ou qualquer outro Controlador de Mana.

— Ela deve ter vindo aqui a mando de algum nobre — fala o Temmos.

A Demcis diz para ele que a maga não parece ter vindo por causa disso, mas o Temmos continua a dizer que, provavelmente, ela veio por isso.

Vejo o Dilliam conversando no meio do campo com seus colegas e ando até ele, deixando os dois discutirem sozinhos. Ele me vê chegar e abre um sorriso. — Oi, meu querido amigo Morrigan. Como você está? — Animado como sempre, abre seus braços para me abraçar, eu paro antes dele conseguir fazer isso.

— Obrigado por ontem — eu falo.

— Oi? Ah, ontem. — Ele abaixa seus braços, que estavam abertos até agora esperando um abraço. — Não há de quê. Temos que ajudar os nossos amigos. 

— Quer alguma coisa em troca por me ajudar?

— Não, não, não. — Balança os braços negando. — É um gesto de amigo para amigo. Mas, se realmente quer me agradecer. Pode contar isso como um favor.

— Um favor? Certo. — Me viro para voltar para as árvores. 

— Só isso…? Então, que bom que se recuperou do ferimentos! — o Dilliam grita atrás de mim.

Volto para as árvores e ambos me olham. — Só fui agradecer  — Me sento ao lado deles.

Mais tarde, vendo o professor de esgrima chamar seus alunos, nós fomos e escutamos seu discurso de como usar uma espada corretamente. Ele revisa o que foi ensinado anteriormente e nos manda praticar os mesmos golpes. — A repetição dos movimentos é a chave para melhorar o manejo de espada — ele fala.

Com o treino de esgrima terminado, vou até o quarto e lá vejo a Hecatis lendo um livro, como sempre. Ela move a cabeça para me olhar e depois volta a sua atenção ao livro.

— Vamos para o rio tomar banho, quer vir? — eu pergunto.

— Em um frio desses? — Ela me olha confusa.

— Foi ideia do Temmos. A Demcis disse que só vai ficar na margem olhando ele tremer de frio.

Ela fecha o livro, se levanta, com sua mão e livro sendo escondido debaixo do mando, e fala: — Certo.

Visto meu casaco e nós quatro andamos pela trilha até chegar ao rio com a água turva. — Você realmente vai querer entrar aí dentro? — a Demcis pergunta.

— Claro — Temmos tira sua camisa, mostrando seu corpo atlético e definido, e mergulha na água gelada.

— Você vai? — a maga me pergunta.

— Com toda certeza não. — Ando até achar um local confortável para me sentar.

Deito olhando para o céu, com as mãos cruzadas atrás da cabeça, vejo de canto de olho as duas meninas conversando e o Temmos a tremer de frio na água. Isso está ultrapassando o limite de esforço e está indo para insanidade… bem, não acho que isso o fará mal, por enquanto.

— Hey, Morrigan. — A Demcis me chama. — Quem você acha que ganha. Você ou o Temmos?

— Em uma batalha?

— Sim.

A força física desse corpo é boa, muito boa, mas acho que a força do Temmos não é pior que a minha. Eu sei várias artes marciais de corpo a corpo, e o Temmos de armas, se for com mãos nuas, talvez eu tenha chance, porém se envolver armas, não tenho tanta certeza. Na verdade, não sei se ele conhece alguma arte marcial de corpo a corpo, então há a possibilidade dele me vencer mesmo com as mãos nuas. 

— O Temmos — eu respondo.

— Nossa, sério? Você venceu quatro pessoas de uma vez — ela fala.

— E ele deve vencer seis de uma vez — retruco ela.

Por enquanto, essa é a realidade. Além disso, tenho pouco conhecimento da força dele, e só estou usando de base o que ele mostrou enquanto treinava. Levanto meu torso e olho para o rio. Pelo esforço dele, sua força só deve aumentar.

— E eu? Você consegue me vencer? — ela me pergunta.

— Não faço ideia. Nunca vi você lutando.

— Mas também não viu o Temmos lutando…

 Hum… verdade. Pensando bem, nunca prestei atenção na Demcis, em seus treinos e etc. Ela é quem eu menos conheço daqui, não sei quem ela é, nem sua força, ou de onde veio. Até a maga eu conheço mais.

— Você consegue me vencer? — dessa vez, eu pergunto.

— Quem sabe? — Ela dá de ombros.

Passamos mais alguns minutos até o Temmos sair da água e voltarmos para a cabana. Chegando nela, entramos no quarto, descansamos um pouco e saímos. No refeitório, o mesmo professor nos chama e, em vez de esgrima, fala para treinar com lanças. Nos organizamos à frente dos bonecos de palha e começamos a treinar como o professor manda, usando os golpes baixos e altos que ele ensinou anteriormente. Ele dá dicas de quanto de força usar, movimentação dos pés e das mãos, como manter a ponta da lança estabilizada, algo que não acho difícil, mas vejo outros alunos tendo problemas com isso, além de melhorar a pontaria, uma coisa que tenho dificuldade. 

Quando termino o treino, vou para a cabana com a intenção de ir para o quarto, porém, quando passo pelo corredor, em uma das primeiras portas, que está aberta, vejo a maga dentro, sentada em uma cadeira com uma mesa longa a sua frente, ela apoia seus cotovelos na mesa enquanto lê o livro. Biblioteca. Vários livros, um ao lado do outro, estão na estante atrás dela. Não sabia que nesse mundo já tinha a capacidade de criar várias máquinas de impressão, pois, para ter tantos livros aqui, tem que ter muitas máquinas do tipo. Na verdade, já devia ter pensado nisso quando vi a maga lendo vários livros em seguida. Parece que, mesmo sendo parecido com a terra na época medieval, esse mundo tem várias diferenças, principalmente, de tecnologia. Me pergunto como eles inventaram uma máquina de impressão, ou quando.

A maga me vê, mas não se importa comigo e volta a ler. Entro na sala e fecho a porta, ando até a estante para ver quais livros estão lá. São livros com capas de couro, infelizmente, não consigo ler o que tem nas capas. Tiro um da estante e o abro, as folhas são amareladas e a tinta grossa, as palavras, que não consigo ler nenhuma, são estranhas, parecem ser como um tipo de arte, em vez de palavras, propriamente dito. Apenas fecho o livro, o coloco de volta na estante e saio em silêncio, para não incomodar a leitura da maga.

Preciso aprender a ler. Pelo que me lembro, a Metys já sabe ler, porque ela ia para uma escola que o Kynigos pagava para ela, quando eu sair daqui talvez eu peça para ela me ensinar, como também me ensinou a falar essa língua..

Vou para o quarto, guardo algumas coisas na mala e volto ao refeitório, onde o Temmos e a Demcis me esperam sentados na mesa. Junto com o Dilliam. 

— Oi, de novo — ele fala.

Ando até o lado da mesa contrário ao dele, onde o Temmos e a menina se sentam, passo uma das pernas sobre a cadeira, depois a outra, me sento, apoio meus cotovelos na mesa e levanto minha cabeça para o olhar. Não. Saio da mesa e volto para a cabana.

Passo pelo corredor novamente, então paro à frente da biblioteca, entro na sala silenciosa e me sento ao lado da maga.

— Finge que eu não estou aqui.

— Certo — ela fala sem tirar os olhos do livro.

Banner PC Vulcan Novel
Facebook
Twitter
WhatsApp
Email
Criado Por Metal_Oppa! <3
Letras
16
Tema
Fundo
Fonte
Texto