Capítulo 44: Sou?

Com o pescoço para cima olhando o teto da biblioteca em silêncio, movo minha cabeça para o lado e vejo uma grande janela de vidro, iluminando, mas mantendo o ar frio fora. Olho ao redor da sala. A mesa fica no centro dela, com duas cadeiras em cada lado, duas estantes cheias de livros em ambas as paredes contrárias, além da janela que acabei de falar.

Me levanto da cadeira, sem fazer barulho, e pego um livro, abro e folheio ele. A minha maninha iria adorar aqui, provavelmente, ela terminaria tudo isso em um mês, e me obrigaria a terminar com ela. Paro em uma folha e passo o dedo por cima das letras, sentindo o relevo da tinta sobre o papel. Folheio mais uma vez com as pontas dos dedos na quina da página e aprecio o cheiro do livro. Faz tempo que não leio nada

— Você sabe ler? — a maga me pergunta.

— Não essa língua.

— Então sabe ler em outro idioma? — Ela tira os olhos do livro e se vira em minha direção.

— Sim.

— Sério? Aprendeu com quem?

— Minha irmã.

— Ela parece ser inteligente — ela volta sua atenção ao livro.

— Sim, com certeza ela era. A pessoa mais inteligente que já vi. — Fecho o livro, ando para a janela, vendo o campo de terra pelo vidro sujo. Vejo um professor a levar alguns alunos para a floresta, acho que daqui a pouco tem um treino para mim. Sem vontade de ir agora.

Ando ao redor da sala vendo os vários livros, enquanto passo meus dedos sobre suas capas. — É o mesmo livro de antes? — eu pergunto.

— Não, é um que peguei agora.

— Sobre o quê?

— Hmm… Pelo que eu vi até agora, parece ser de uma garota que fugiu de casa e precisa sobreviver em um mundo estranho e cruel, só que ela é muito ingênua e é enganada por todos. É bem torturante ler isso, para falar a verdade, só estou esperando ela melhorar.

— Entendi, parece legal

— Por enquanto, está sendo — ela fala. — Tirando as partes que me dão raiva e tenho vontade de queimar esse livro.

— Bem, acho que queimar esse livro não é uma boa ideia…

— Enquanto não acontecer nada muito odiável, não vou fazer isso. Olhe isso aqui. — Ela me mostra a página. — Ela acabou de perder uma moeda de bronze para um mago que disse ler o futuro. Nem existe uma magia para isso…

Me viro de costas para ela e olho para a estante que vai até o teto. — E os pais da menina? — eu pergunto.

— Olha… ainda não mostrou eles, mas pelo que entendi, eles são uns desgraçados. Talvez, eles sejam o motivo da menina ter fugido de casa. Tem várias partes onde ela mostra vários hematomas pelo corpo, mesmo nunca tendo brigado o livro inteiro.

— Me pergunto às vezes o que passa na cabeça desses pais que abusam dos filhos. — Apoio minhas costas na estante e olho para a maga. — Não faz nem sentido.

— Também não entendo — ela fala.

— Se você estiver certa, acho que essa menina fez bem em fugir de casa, não é?

— Talvez… mas cada capítulo tenho minhas dúvidas. Viver em um mundo sozinha não parece ser menos pior que viver com tais país. É como se ela escolhesse sair de morar no lixo para poder nadar no esgoto.

— Pelo menos, ela está livre, não? — pergunto.

— É, pode se dizer que sim. Mas você não acha pior ser livre e não poder aproveitar a liberdade? É como se tudo que você quer está na sua frente, só um passo, só que você não pode dar esse passo, porque tem correntes prendendo seus pés.

— Prefere não ter escolha, do que ter pouca escolha?

— Isso, mas não é isso… como posso dizer? Não é uma situação melhor ou pior, então tanto faz o que eu escolher.

— Isso que você falou faz sentido. Mas, ter a sensação de liberdade não é melhor? Mesmo estando no esgoto, você ainda consegue nadar nele.

— Você é bem otimista, né? — ela me pergunta com um sorriso.

Sou?

— Não sei — eu falo.

Com as costas ainda apoiadas na estante, olho para a janela e vejo duas cabeças a nos observar. O que esses dois estão fazendo? Eles saem da minha visão e, segundos depois, a porta se abre.

— Então, é aqui que você estava! — grita a Demcis movendo sua cabeça ao redor da sala.

— Não sabia que tinha uma biblioteca aqui — fala o Temmos.

Eles andam tocando nos livros com os dedos. — Pena que não sei ler — fala a menina.

O Temmos pega um livro e o abre. Parece que ele sabe. A Demcis para por um momento, como se tivesse lembrado de algo, e me pergunta: — Hey! Por que nos deixou sozinho com aquele cara? Eu tive que lidar com ele.

— Vontade nenhuma de conversar com ele. Desculpa por isso. Sabe o que ele queria?

— Faço nem ideia. Depois que você fugiu do nada, ele apenas enrolou por um tempo e saiu — ela fala.

— Entendo.

O Temmos continua folheando o livro em silêncio e a maga também. Ele fecha o livro e fala: — Bora? O treino vai começar.

— Certo — eu e a menina respondemos em uníssono.

Saímos e deixamos a maga na biblioteca. Chegando no campo, vejo o Dilliam e ele sorri para mim, enquanto isso, ando para onde o professor de arco e flecha está ensinando, ele tem um grande cabelo preso, indo até a sua cintura, além do seu corpo musculoso, principalmente seu braço. Os alunos estão organizados um ao lado do outro com alvos à frente deles, então nós três fomos para o canto. A nossa frente tem um arco com uma aljava cheia de flechas.

O professor demonstra como segurar o arco e colocar a flecha, falando que para atirar temos que mirar de lado, não de frente. Ele pega uma flecha, coloca no arco e atira, acertando em cheio o centro do alvo. — Não mire por mais de dois segundos, apenas atire usando seus instintos — ele fala.

Pego o arco no chão e coloco a aljava no ombro. Nunca cheguei a segurar um arco. Faço como o professor ensinou, me viro de lado, olhando para os alunos, que também ficam em posição, pego uma flecha da aljava, mas quando tento colocar na linha do arco, ela treme instável, assim que estico a linha e solto a flecha, ela apenas cai sem força no chão.

— Pfft! — A Demcis ri ao meu lado. — É assim que faz. — Ela faz o mesmo processo com a flecha e atira, acertando no alvo ao longe.

Tirando a Demcis, o Temmos e mais alguns poucos, todos os outros alunos fazem o mesmo que eu.

— Parece que vou ter trabalho — o professor fala.

Ele explica detalhadamente como segurar o arco e a posição da mão e do corpo ao segurar, ensina algumas técnicas que o ajudaram a aprender antigamente e melhorar sua estabilidade ao segurar o arco.

— A mão da frente é a que estabiliza, a de trás faz a força, mas a de trás também estabiliza, só que a da frente não faz força — ele comenta, logo após atirando a flecha, que acaba caindo no mesmo lugar no alvo.

Tento fazer o mesmo procedimento ensinado com mais calma e atenção, mas a flecha cai como antes.

— Não mirem agora, só atirem. Aprendam primeiro o movimento e força, depois melhorem a sua técnica. Tentem só fazer a sua flecha ir o mais longe possível!

Assim como ele falou, eu apenas tento fazer a flecha chegar, pelo menos, perto do alvo. Faço várias tentativas, com a Demcis rindo de mim, até que consigo fazer ir longe o suficiente

— Hoje só vamos atirar aleatoriamente, depois ensino a melhorar suas miras. Então, agora que a maioria conseguiu atirar até o alvo, quero que vocês soltam a flecha no momento que eu disser

Assim que o professor para de falar, eu me coloco em posição, de lado e com o braço da frente completamente esticado, pego uma flecha da aljava, a coloco na linha, puxo a linha e espero a ordem.

— Vão!

Solto flecha. Várias voam pelo céu, fazendo uma parabólica no ar, e cortando o vento. Quase nenhuma acerta os alvos, mas chegam perto dele.

O professor nos manda fazer isso mais algumas vezes e nos dispensa. Nós três sentamos no chão nessa parte do campo. — Não sabia que você sabia usar um arco — o Temmos fala.

Não tinha previsto que a Demcis sabia disso também, é bem surpreendente. Pode parecer mal educado, mas achava que ela só sabia falar muito.

Ela coloca a mão na cabeça e ri com um “Hehe”. — Eu aprendi com meu pai.

— Seu pai é um mercenário? — eu pergunto.

— Pode-se dizer que sim… ele é um caçador, e me ensinou a atirar com um arco desde criança.

— Também sabe caçar? — o Temmos pergunta.

— Um pouco… só sei o básico, ele me ensinou bastante, mas é bem difícil botar em prática.

— Isso é interessante. Depois me ensina — o menino pede.

— Claro… — ela responde.

Me apoio com minhas mãos no chão e olho para o céu. Nos levantamos e fomos para o refeitório, então depois treinamos após um professor chamar os alunos, até que anoitece e alguns alunos se reúnem em uma parte separada da fogueira principal. Aula de liderança. Ao redor de uma pequena fogueira, os alunos, incluindo eu, olhamos para uma professora que tem um olhar feroz e cabelos curtos.

— Primeiro. Quem ousar me contrariar, vai ter o peito atravessado no mesmo momento. — Ela finca sua espada no chão. Os rostos ficam rígidos.

— Essa é uma das regras, se há pessoas que não te conhecem sobre seu comando, infrinjam o medo.

 

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