Capítulo 05: Luzes

Corvo Escarlate

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Eu sai correndo sem me importar para onde iria, a situação era urgente e a última coisa que me importava era decorar o caminho.

Sigh… Solto um suspiro.

Melhor começar a procurar agora, assim tenho mais tempo até o anoitecer. Escolho uma direção e começo a procurar algo familiar, mas como estava correndo só me preocupando com a besta, não lembro de nada do caminho, então é quase inútil procurar algo assim e é pior encontrar pegadas, a visão desse corpo pode até ser boa, mas não tenho experiência com isso, também não sei como começar.

Vou andando nessa direção por um tempo, mas volto, não posso me afastar muito das minhas carnes, quase morri por elas. Em seguida, ando na direção oposta, mas não há nada lá. Também caminho para as outras duas direções, porém o resultado é o mesmo. Tento novamente, só que caminhando mais longe. Não adiantou nada.

Estou, inteiramente, sujo de sangue, meu nariz está entorpecido pelo cheiro de ferro. Qualquer animal consegue me rastrear a vários metros. Se eu ficar assim, irei ser atacado. Ficar em uma floresta não me ajuda em nada e daqui a algumas horas, irá anoitecer. Não sei como fazer uma fogueira para afastar os animais, posso até tentar, porém não conseguirei terminá-la antes da noite.

Por que vim para essa floresta? Que idéia idiota. Até ficar na cidade com o guarda, seria mais seguro, bem não há nada que possa fazer agora.

Tenho que me preparar para quando anoitecer, se não morrerei caso for atacado por um animal. Me afasto bastante das carnes e do corpo, porém mantenho o caminho de volta na minha mente.

Peguei as duas costelas que quebrei do corpo da Besta, terei que usar elas como armas. Às seguro em cada uma das minhas mãos, surpreendentemente, me sinto confortável segurando elas assim, como se eu tivesse duas mãos direitas. Observo os arredores e imagino algumas armadilhas que consigo fazer para me defender. Tenho poucas horas para fazer algo.

Depois de algumas horas me preparando para caso algum tipo de animal me ataque, a noite veio.

Estou de pernas cruzadas apoiando minhas costas em uma árvore. O sol está se pondo. Seguro as duas costelas e fecho meus olhos.

Ficar nessa floresta é perigoso. Mas há algo que não entendo, essa floresta é do lado de uma cidade, por que existem tantos animais? Cervos até entendo, mas uma besta igual aquela? Eles já deveriam ter sido caçados, e se ele entrasse na cidade e atacasse os cidadãos? Seria ótimo se essa besta fosse um caso raro e, só tivesse ela nessa floresta, mas tenho que me preparar para caso eu esteja errado. Não quero morrer por uma idiotice que poderia ter evitado.

Tenho que sair, ficar aqui é perigoso, porém só irei depois de terminar minhas carnes. Não posso desperdiçar elas, as deixei em cima dos galhos para os animais não pegarem, também para fazer carne-seca. O ideal seria três dias no sol. Isso vai demorar, é melhor e mais eficiente criar fogo. Só que aí é outro problema, não sei fazer fogo. Passar mais 3 dias com fome seria difícil.

Abro meus olhos e percebo que já anoiteceu. Um céu sem lua. As incontáveis estrelas dão uma sensação boa, cada uma tem um próprio lugar no céu, se iluminando sozinha ao lado de milhares de outras estrelas no meio do céu escuro. Não é possível ter uma visão dessa na Terra, pelo menos, não nas cidades.

Fecho meus olhos novamente e me concentro na minha audição. Sem uma lua para iluminar, não faz sentido manter meus olhos abertos, só seria uma distração. Como meus outros sentidos, a audição também melhorou nesse corpo. Tento ao máximo prestar atenção aos meus arredores. Qualquer sinal de movimento.

Como minha irmã me obrigava a estudar todo dia, minha concentração é muito boa e consigo focar por muito tempo. O tempo passou rápido, enquanto me concentrava.

Clack!

Um galho é quebrado.

Meu coração bate rápido de ansiedade, mas minha mente se mantém calma. Aprendi isso com a luta com o guarda, se eu ficar nervoso, irei fazer merda. Minha irmã também me ensinou isso. Tenho que me manter calmo em todas as situações, não importa o quão trágica seja e assustadora, se não, você perde o controle da situação e deixa o destino decidir por você.

Clack!

Outro galho é quebrado, só que é em outra direção.

Dois?

Clack!

Outro é quebrado.

Abro os olhos e me levanto.

Não consigo ver nada, apenas escuridão e também não consigo ouvir mais nada. O vento balança as árvores fazendo barulho, camuflando qualquer mínimo som.

Olho ao redor. Vejo alguns brilhos na escuridão, deve ser as luzes das estrelas refletindo em algo. Esses brilhos se movem ao meu redor em círculos. São seis pequenas luzes. De repente, essas luzes começaram a sumir.

Uma nuvem cobriu o céu, fazendo as estrelas sumirem, tudo que sobrou foi escuridão pura. Consigo nem enxergar as palmas das minhas mãos.

Ouço grunhidos na escuridão. Meu coração bate rápido. Escuto passos quebrando galhos e folhas, mas não consigo determinar onde. Onde eles estão? Tem grunhidos de bestas em múltiplas direções. Se concentre na audição, esqueça a visão.

Um barulho vem do meu lado, me viro rapidamente. Ouço barulho de outro lugar, me viro de novo. Eles estão chegando cada vez mais perto, consigo sentir. Aperto uma lança que fiz fortemente. Não sobrevivi até agora para morrer assim..

Ouço vários barulhos de passos, fazendo o chão tremer, vindo rapidamente para mim. Me preparo para cada um deles.

Quando eles vêm em minha direção…

ROAR!

…os animais soltam gritos de dor.

Corro para um dos gritos e estoco para frente, sinto atingir algo. Um rosnado chega aos meus ouvidos. Ignoro isso e retiro a lança e volto para onde eu estava. O animal solta outro grito de dor quando retiro a minha arma dele.

A nuvem se vai e vejo novamente os olhos deles brilhando. Os três estão me rodeando. Ainda me concentro na audição, porém prestar atenção na reflexão do brilho das estrelas nos olhos desses animais pode me ajudar.

Montei pequenas estacas no chão usando as costelas e gravetos, em formato circular, em volta da árvore que eu estava encostado para impedir eles de virem correndo. Consigo perceber que todos estão mancando. Um deles está pior que os outros. Eles dão uma volta inteira ao meu redor. Um deles para, olha para mim e rosna, ele volta um pouco para trás e pula, caindo no meio das estacas.

O animal solta um choro de dor, mas mesmo assim, continua vindo até mim. Como caiu no meio das estacas ele vem andando cuidadosamente para não pisar nas outras.

Corro na sua direção, percebo que o animal sai das estacas. Essa besta rosna para mim. Fico na frente dele, porém não paro de correr.

Não consigo enxergar nada, além dos seus olhos refletindo a luz das estrelas. Jogo a minha lança no chão, logo após pego as duas costelas afiadas que coloquei na minha cintura, propositalmente, escorrego no chão e passo por baixo dele, levanto para cima as duas costelas e sinto elas perfurarem seu corpo.

Rapidamente, retiro as costelas e rolo para o lado. Não parando, me levanto e golpeio as costelas para frente, então movo elas para baixo, rasgando sua carne.

Recuo e volto para minha posição inicial, enquanto isso, ouço algo grande cair no chão.

Duas luzes se apagam. Só falta mais quatro.

As quatro luzes que faltam rugem alto, lamentando a morte de seu companheiro.

As quatro luzes vão em direção opostas, uma do meu lado direito e outra do esquerdo. Eles querem me atacar ao mesmo tempo. Os dois agem em sincronia, pegam bastante impulso, para não acabar no meio das estacas como seu antigo colega, e pulam. Corro para um deles.

Como não são capazes de ir rapidamente pelas estacas, eles têm que pular, e como são várias estacas, eles precisam pular muito alto, ficando mais tempo no ar sem poder se esquivar. O que me dá tempo o suficiente para chegar perto de um.

No momento em que uma das luzes para no chão, eu já estou na frente dela. Sem desperdiçar qualquer chance, ataco com uma das costelas no olho dele. Sinto algo macio sendo perfurado. Uso a minha outra mão para fazer mais força e empurrar para frente. O animal caí no chão logo depois.

Quatro luzes já se apagaram. Falta duas.

Olho para trás e vejo a última dupla de luzes, dá para sentir a raiva apenas olhando o seu olho. Bem, só estou tentando sobreviver.

Não consigo retirar a costela, então deixo no corpo e vou em direção a dupla restante de luzes. Sem perceber, esbarro na árvore que fica no meio do círculo. Como está muito escuro, só consigo me localizar usando o brilho do olho desse animal. Fico de costas para a árvore, observando ele. A dupla de luzes vem correndo e quando ele chega perto o suficiente, me jogo para o lado.

Escuto um barulho alto de algo se despedaçando. Com certeza, o animal não bateu a cabeça na árvore, isso deve ter sido a patada dele ou algo parecido. Se uma patada é suficiente para partir uma árvore. O que isso faria comigo? Claro, não ia perder essa chance, o animal provavelmente está um pouco distraído porque não me atingiu.

Pulo rapidamente para frente e enfio a costela no animal. Antes que eu pudesse tirar a costela de dentro dele, ele vira seu corpo, então após sinto um perigo vindo. Instintivamente, me abaixo. Um barulho de vento sendo cortado passa por cima da minha cabeça.

Volto para trás. Se não fosse meus reflexos, já teria morrido.

As duas luzes já estão na minha frente. Sinto outro ataque vindo, então rolo para o lado. A terra no chão onde estava voa para todo lado. Também começo a ouvir novamente o som de algo se despedaçando. A árvore que foi atingida vai cair. O animal não para de me atacar. Me levanto e espero ele me dar um golpe, quando o sinto vindo, pulo para trás.

Agora é minha vez.

BOOOOO–––OOOM!

A árvore atinge o chão. Meu ouvido começa a zumbir pelo barulho alto e fico atordoado. Essa dor vai passar logo, preciso matar ele para sobreviver.

Com a costela na minha mão esquerda, pulo para frente, puxo meu braço para trás, pegando força o suficiente para perfurar ele. Por causa da poeira que a árvore levantou, não consigo ver as luzes que seus olhos refletiam, mas sei onde ele está.

Contraio todos os meus músculos do meu braço e, com toda a minha força, pérfuro a costela para frente. Sinto atingir algo, ouço um rugido de dor por uns instantes, porém logo ele para.

Seis já foram… Falta nenhum.

Aviso do Autor:

Ender

Ender

Um amante de gatos e cachorros que decidiu escrever (. ❛ ᴗ ❛.)
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