Capítulo 66: Ler

— Você quer ir para a Universidade Mágica, né? Eu posso te ajudar nisso.

A atenção da garota sai do livro e me encara. — Como?

— Tenho contatos na guilda mercenária e eles podem te ajudar na viagem. Dinheiro, transporte, comida, tudo que você precisaria para ir a Universidade.

Ela fica em silêncio por um tempo e volta a ler seu livro. Ela é uma maga, já deve ter pensado em algum jeito de conseguir tudo isso que falei, se não já conseguiu. Mas, tirando isso que falei, não há nada mais que posso oferecer a ela.

— Então tá. Vou ensinar.

Quê? Isso não era esperado.

A Hecatis vai até as prateleiras, procura um pouco e pega um livro fino e outro grosso. Ela se senta ao meu lado e abre o livro entre nós.

— É um livro infantil. São palavras fáceis e simples. Não faço ideia como ensinar alguém a ler, mas vou tentar. — Coloca a mão em cima do livro grosso. — Isso aqui é um dicionário, seria ideal que você decorasse todas as palavras dele.

Decorar todas as palavras de um dicionário…?

— Claro, seria o ideal. Nem eu sei todas as palavras que tem nele. Como você não sabe ler, vou falar as palavras e seus significados e tente decorar elas.

— Certo.

A Hecatis começa explicando como funciona o básico e depois fala das palavras. Como alguns símbolos são formados, a aglutinação de palavras. Ela não explica em detalhes, mas sim diz que eles existem e só. Por enquanto, me mostra o básico do básico, sem se aprofundar em nada, ou tentar me fazer decorar as palavras.

Nessa língua, os símbolos são como os Kanjis japoneses ou o Mandarim. É uma arte por si só. Claro, não são parecidos em visual, mas sim no sentido que são como desenhos estranhos, e que em uma única palavra parece ter uma miríade de significados. Além de que, os caracteres são redondos, em vez de linhas retas como os Kanjis. São como ondas, em vez de espadas.

Depois dela terminar de explicar todo o básico e eu entender tudo, me faz decorar algumas palavras simples, que, segundo ela, são a base para toda a escrita. São palavras de apenas um traço, no máximo dois.

Depois de falar sobre tais palavras, quando pego o livro infantil, encontro elas em vários lugares. Ainda não entendo nada do que está escrito, mas, pelo menos, consigo perceber alguns padrões, que ainda não sei o que são.

Com o dedo no livro, a maga diz: — Essa palavra aqui significa amizade, irmãos, amor e luz. Só que dependendo do contexto, também pode significar morte ou vida.

— Entendi.

Como sou poliglota e aprendi várias línguas desde a infância, já tenho experiência nesse processo. Meu cérebro sabe o caminho para aprender outras línguas, então, se eu me esforçar, no final do CT já posso conseguir ler.

Não sei quantos minutos ou horas se passaram enquanto sou ensinado, mas sei que ao olhar para a janela o sol está se pondo. Nem percebi o tempo…

Olho para o lado e vejo que a maga está sem o capuz. Seus olhos de duas cores refletem a luz do sol que entra pela janela. Ela mantém seu corpo inclinado para o livro e seu olhar nas palavras. Vejo o movimento das suas íris absorverem cada letra.

Solto um suspiro e observo o teto imundo e sujo de poeira. A luz do sol para de ser o suficiente para ler, então saímos da biblioteca. Antes de passar pela porta, vi a maga se certificar que estava com o capuz.

Faço a rotina de costume e o grupo se reúne no quarto para dormir. Claro, após uma pequena conversa, onde todos se apagam um por vez até eu ser o último a ficar acordado.

Mais um dia se passa e mais outro e outro, e continua assim até chegar à competição.

Como sempre, os alunos se reúnem em fila com o Kynigos na frente de todos. Um silêncio estranho, só com os barulhos das árvores no fundo.

Acho que já se passou um mês desde que chegamos. Isso é interessante. Foi bem rápido até. Mas se olhar para trás, parece algo bem distante. Como o meu grupo se encontrando pela primeira vez no quarto, com aquele silêncio constrangedor. E na época em que fizemos uma semana para testar minhas habilidades, essa parte foi bem longa. Ou quando o treinador nos mandou entrar no rio e a Demcis não conseguia falar de tanto seu queixo bater.

A voz alta do treinador me tira dos meus pensamentos sobre o passado nem tão distante assim para eu sentir nostalgia.

Ele explica as regras desta competição e é até interessante. Felizmente, nada ocorre fora do planejado e meu grupo consegue ficar em terceiro. Logo atrás do grupo do Dilliam e o do Maksi.

Só algo que não estava nos planos.

— O dobro de moedas? — pergunta a Demcis ao segurar suas quatros moedas. Ao todo, recebemos catorze.

Hmm…

— Isso significa que se juntarmos todas as que conseguimos, podemos comprar o privilégio de comida, né?

— Talvez.

Os alunos que ganharam parecem ter a mesma ideia, então, junto com eles, fomos ao refeitório perguntar para um professor que está lá. — Custa 12 moedas agora — fala ele.

Descrença aparece nos olhos daqueles que não conseguiram o suficiente para poder comprar isso

Nos últimos dias, a fome se instalou no CT. A maioria não conseguia nem treinar. Bem, vários começaram a caçar, mas a comida que conseguiram não era o suficiente. Houve algumas brigas por comida. Felizmente, nenhum tentou roubar a minha barraquinha, já que o exemplo funcionou bem.

Também emprestei vários pedaços de carne. Praticamente, um quinto do pessoal daqui me deve. A maioria neutro. E isso é bom.

Alguns estavam esperando ansiosamente por essa competição para poderem comprar o privilégio. Mas, a realidade tende a ser decepcionante.

— Droga! — xinga a Demcis. — Por que eles aumentaram?!

Penso por um momento e respondo: — Provavelmente, é a inflação.

— Infla—- o quê?

— … ção.

A famosa inflação.

— Pense que você está em uma sala fechada. Nessa sala todo mundo tem 100 moedas e tem um pessoal que vende uma coisa por 50 moedas. Imagine então, que cada um receba 100 moedas, dobrando o valor inicial. Se você fosse o vendedor, e soubesse que todo mundo tem o dobro de dinheiro, então você dobraria o seu produto também para acompanhar o crescimento repentino e gerar mais lucro. Essa é a inflação.

— Hum, hum. — A Demcis me encara com a mão no queixo enquanto me observa como se eu fosse algum tipo de professor. — Então, ganhamos o dobro, mas não ganhamos nada?

— Praticamente.

Juntando essas moedas, com as que o Dilliam me deu na competição passada. Tenho o total de cinco. Acho que ninguém do meu grupo gastou nada, assim sendo, apenas com duas pessoas podemos comprar o privilégio. Falo isso com eles.

A Demcis e a maga decidem juntar suas moedas para comprar o privilégio. As duas vão dividir o prato entre si. Eu e o Temmos decidimos guardar o dinheiro.

Aprendi um pouco a caçar com a garota, o Temmos também. Estamos tranquilos em relação à comida, já que vamos caçar juntos.

— Finalmente comida. He-he-he.

A Demcis faz um sorriso estranho. Um pouco assustador até.

— O quê? Nem me olhe assim, Morrigan. Só estou com fome

— Se você diz.

Ao terminar de falar com ela, coloco as moedas no bolso secreto do casaco e ando para a clareia treinar junto com o Temmos.

A esgrima de duas espadas evoluiu um pouco nesse tempo. Consegui inventar uns golpes, só não evoluiu tanto como a de uma espada, já que foquei bastante em treinar esse estilo. Com o Temmos para apontar minhas falhas, peguei o jeito em usar a espada. Ainda não consigo vencê-lo, mas sei o que treinar para evoluir ainda mais. Tenho uma imagem mais clara do que fazer.

Chego na clareia, pego as espadas, porém não treino. Hoje é um dia de descanso, não posso forçar o corpo, tenho que deixar ele se recuperar do esforço que fiz.

Me sento de pernas cruzadas com ambas as espadas em meu colo. Temmos faz o mesmo. Conto até três em voz alta, e quando termino, todo o som some e fico sozinho na minha consciência.

O Temmos começou me acompanhar quando medito, então chamo ele nessas sessões de meditação. Ele já sabe o que deve fazer e, por isso, não preciso mais instruí-lo em muitas coisas.

No vazio da mente, apareço em um infinito espaço negro. Duas espadas na mão e com meu casaco branco, que dá um contraste nessa escuridão.

Outro eu aparece na minha frente. Ele me imita como um espelho enquanto faço a base de luta.

Como é na minha mente, os dois eus são embaçados como uma nuvem. Tenho uma imaginação boa, porém, ainda tenho que manter o foco para que consiga fazer tudo como quero aqui.

Em alguns minutos, testo os golpes que quero e pratico. Não é como treinar na vida real, mas é o que posso fazer para descansar o corpo e fortalecer ele ao mesmo tempo. Na verdade, isso ajuda muito em conhecer os golpes.

Quando termino tudo, volto para o campo e olho para o céu azulado. Sinto o vento na pele. Ouço as conversas ao fundo… Está calmo…

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Agradeçam o: Iamc0903 e o Jotynha, por patrocinarem esses capítulos 😀

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