Capítulo 71: Corrida Pela Bandeira (5)

Deitado no chão, encaro o céu cinza. Ele fez isso… pensei que o Maksi já tinha superado, mas esqueci como ele é imaturo. É uma ideia bem ruim pensar que ele seguiria em frente após me vencer em uma batalha.

Preciso mesmo voltar a correr?

Não dá mais para ganhar, mesmo que corra com todas as minhas forças. Eles já devem estar a uma distância considerável de mim. Não há mais chances de conseguir chegar em primeiro.

Todo esse trabalho que fiz foi para nada. Não tem mais razão eu continuar. Não tem por quê. Vou perder de qualquer jeito, só tenho que ficar aqui deitado.

Talvez eu fique aqui e me descanse depois dessa corrida longa. Todo esforço que fiz foi desperdiçado. Todos os treinos para vencer alguma competição foi jogado no lixo.

Se não consigo vencer uma que tenho vantagem, como vou cumprir a ordem do Kynigos? Esse tempo todo de treino para nada… 

Infelizmente, isso é inevitável.

Esse é o pensamento que tenho, antes do tecido vermelho da bandeira balançar no canto dos meus olhos.

De repente, vejo as pessoas que prometi ganhar. Eles não são importantes, mas falei que ia fazer algo. Caso não cumpra isso, minha reputação ruirá.

Também passa pela minha mente o esforço e o salto que a Demcis fez para conseguir a bandeira. Como o Temmos também. Seria uma vergonha para ele se eu não vencer isso. Ele não me treinou para perder em uma prova que tenho vantagem.

Em menos de alguns segundos após cair, com um pulo, me levanto do chão. Ao longe, vejo os corpos dos líderes sumirem na névoa. 

Dou uma longa inspirada e depois solto todo o ar.

O pensamento que tive de que eu não chegaria neles mesmo que me esforçasse ao máximo é verdade. Não tem mais esperanças… Mas tenho uma promessa a cumprir. 

Coloco minhas mãos no chão e faço a posição de atletismo. Firmo meus pés na terra, fazendo a mesma afundar devido a força que aplico.

Como disse que ganharia, vou ganhar.

TU!

Empurro o chão. Imagino que tem um tronco pesado à minha frente e tenho que levá-lo para longe com minhas pernas.

Meu corpo fica quase que paralelo. Ignoro todas as raízes das árvores ou musgos, só corro em linha reta.

Levanto minhas pernas tão alto na arrancada, que elas encostam no meu peito. Mantenho meus olhos fechados e me concentro em apenas seguir em frente o mais rápido o possível. Não me importo em bater em alguma árvore.

Aos poucos, inclino meu torso de volta, porém, mesmo assim, a velocidade das minhas pernas aumenta.

Os tamanhos dos passos que dou, me fazem sentir como se estivesse voando. O vento na minha pele faz ela se coçar. Até consigo sentir o gosto dele enquanto mantenho minha boca aberta para respirar.

Seguir reto, apenas seguir reto. Ignoro todo o som e faço esse corpo seguir em frente. Seu único propósito é seguir em frente. Os braços têm que seguir em frente. As pernas tem que seguir em frente. O torso tem que seguir em frente.

Abro meus olhos. O vento me faz ter dificuldade em abri-los, mas abro eles. Todos os arredores estão desfocados, apenas vejo um caminho reto até o objetivo. Por aqui que tenho de seguir.

Nessa velocidade, não vou conseguir alcançá-los. Tenho que aumentar.

Como se tivesse seguindo ordens, minhas pernas se movem mais rápido. Os arredores são apenas algo nebuloso e estranho.

Não é o suficiente.

Acelero mais.

Todo o peso do corpo inclinado para frente, que me faz ainda mais rápido. Mas, não é suficiente.

Mais…

Se antes os meus batimentos cardíacos estavam nos ouvidos, agora, parece que meu coração quer sair pela boca. O som dele ressoa pelo corpo. Deve estar batendo em uma frequência fora do normal. Tomara que eu sobreviva após parar de correr.

Só preciso ver os dois. Só isso e posso ganhar. Só ver eles correrem ao longe é tudo que preciso.

Minhas pernas são levadas inconsciente para frente. Meus músculos se contraem para empurrar o chão e levantar a perna. Devido ao esforço que fiz, o ácido lático que acumulou neles faz minhas pernas arderem.

Começo a sentir uma câimbra na panturrilha. Ignoro isso. Não posso parar agora. Tenho que alcançá-los. 

Meus passos fazem a terra se levantar, e o som deles é como um tambor. 

Meus joelhos sobem e descem frenéticos Estou tão rápido, que meus pés passam mais tempo no ar do que no chão. 

Ainda não é o suficiente. Me movo mais rápido. A visão embranquece pela falta de oxigenação. Não consigo nem respirar direito, nem sentir meu coração. Meus dedos formigam e meu pé dormente. 

TU! TU! TU! TU! TU!

O barulho dos meus pés no chão parece algum tipo de máquina. Ao perceber a velocidade deles, sinto como se ambas minhas pernas fossem se soltar do meu quadril devido a força e velocidade.

Tenho que ver eles. Só preciso de algo para caçar. Algo de objetivo. Só preciso disso…

Tem algo alí.

Como se meus desejos fossem realizados, vejo algo amarelo e verde na névoa.

Minhas pernas, que parecem ter ganhado vida própria, ficam ainda mais velozes com isso. De um jeito que parece que elas ficaram empolgadas ao ver eles.

Me aproximo até que consigo enxergar seus corpos por inteiro, e chego ainda mais perto em uma velocidade absurda.

O Maksi se vira para trás e se assusta ao me ver a poucos metros dele. Ele tenta aumentar a distância, mas logo fico ao lado dos dois.

Dilliam não fala nada, mas dá um olhar que nem precisa de palavras. 

Finalmente volto a encostar meus ombros e brigar por lugar. O caminho é estreito, galhos batem no meu rosto e me arranham, ambos meus adversários me empurram. É uma briga para chegar primeiro.

O final está a poucos metros. Ninguém quer ceder e já estamos no nossos limites. Cansados, suados, pernas pesadas, câimbra, dor nas articulações. Mas ignoramos tudo isso para seguir em frente.

Todo meu corpo dói. Tive que correr vários quilômetros e depois voltar, com quase nenhum descanso. Batalhas no caminho. Isso tudo para que lutemos aqui no final 

Minhas articulações estão todas doloridas. Ombros, joelhos, pés. Os músculos fatigados e pesados. Mal tenho energia para me manter em pé.

Dilliam e Maksi pegam no meu rosto, me puxam, empurram. Faço o mesmo com eles. Brigo para ficar na frente. Se dou uma brecha, o Dilliam ou o Maksi ultrapassam. É uma briga.

Meus braços são arranhados por suas unhas. Meu rosto também. Suor pinga nos meus olhos. O cansaço toma por inteiro meu corpo.

Por que faço isso? Por que estou me esforçando tanto assim? É só uma competição onde não ganharei nada de valor para a vida. Orgulho? Eu não sei. Só sei que preciso vencer. E esse é o problema? Por que preciso vencer? Será que é pelos meus companheiros? Então, para que estou fazendo isso por eles?

Eu não entendo.

Mas tenho que chegar primeiro.

Uso meus braços para impedirem os dois de avançarem, meu corpo para ficar na frente deles, puxo suas roupas quando eles me ultrapassam, dou cotoveladas, empurro eles para caírem.

O Maksi tenta puxar meu casaco de novo. Continuo em pé. Dilliam coloca a mão no meu rosto. Fecho meus olhos e sigo em frente. 

AAAAHHHHHHH!! — O Maksi e o Dilliam gritam ao mesmo tempo.

Pela emoção, também grito: — AAAAAHHHHHHHH—–!!

Não irei deixar vocês ganharem.

Maksi me dá uma cabeçada e retribuo com uma cotovelada. Finjo que vou morder-lo e ele fica assustado e recua de mim por um momento..

Entre os dedos do Dilliam em meu rosto, vejo que há um grande brilho após certas árvores. Quando chego nesse brilho, como um portal, o campo e a cabana aparecem na minha frente.

Não paro ainda de correr. Meus olhos analisam cada canto até achar o treinador. Parado com os braços cruzados, ele nos olha com um sorriso.

Os dois me soltam e correm. 

Livre dessas amarras, meus pés se movem em uma velocidade que nem consigo descrever. Como um raio, passo os dois a poucos centímetros do treinador e me jogo no ar.

Sou o primeiro a entregar a bandeira na mão dele.

THUUMM!!

Caio no chão e rolo várias vezes. Começo a tossir pela terra que engoli. 

Mas me levanto com um entusiasmo que nunca senti há anos.

EEEEEHHHHHHHHHHHH—————-!!! — grito com o pouco de fôlego que sobrou em meus pulmões.

Pareço que vou vomitar o meu coração, mas continuo a gritar.

Levanto o braço como quando a Demcis pegou a bandeira.

Eu ganhei!

O cansaço é preenchido pela adrenalina. Coloco a mão no peito e sinto um calor há muito tempo não sentido.

— Fiquei em primeir… — Não termino a frase, porque minha pressão abaixa e caio no chão de costas.

Olho para o céu, que agora está um pouco mais claro, sem conseguir respirar. Ar entra pela minha boca, mas não nos pulmões. É o sentimento que tenho.

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Agradeçam a Thaay por patrocinar o capítulo. ❤️❤️

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