Capítulo 73: Lobo e Ovelha

Sinto que o sol já nasceu e abro meus olhos, dando de cara para o teto de madeira sujo. Desço da cama e o Temmos acorda no exato momento que coloco meus pés no chão. Me encara por alguns segundos com um olhar de sono e senta, para depois levantar e se alongar um pouco. Também faço o mesmo. 

Depois de poucos minutos assim, me estico e minha manga da camisa desce, mostrando meus músculos. Adquiri muito deles nesse pouco tempo de CT. Pego meu casaco e o visto.

Quando abro a porta, ouço um pequeno barulho atrás de mim. A Demcis pulou da cama. Ela nos olha com um sorriso e segue nós dois pelo corredor. Alguns alunos saem dos seus quartos enquanto caminhamos pela cabana.

Quando fico em frente da saída, um vento forte estremece todo meu corpo. Minha respiração e do meu grupo é visível, devido a fumaça causada pelo frio. Assim que saio, dou de cara com o campo coberto de neve, em vez da típica terra marrom. Saio e meus pés afundam na neve. Ouço um barulho ao pisar-lá.  

Penúltima semana do CT. Logo tudo isso vai acabar. Ando até o refeitório e sigo até minha mesa. Tiro um pouco de neve dos assentos, e espero em silêncio junto com os dois. Hoje é a competição, e na próxima semana já é a competição final. 

— Me pergunto em que posição você vai ficar no final do CT. — A Demcis me olha com a cabeça apoiada nas mãos. — Tipo, você provavelmente vai ficar entre os cinco melhores. Ou pode até ser o melhor, né?

— Eu acho que sim. 

A disputa, claramente, é entre eu, Maksi e Dilliam. Como sempre. Pelo que perguntei ao treinador e, pelo que ele falou, os requisitos que o professores vão levar em conta, são: Liderança, força individual, competição ganhas, potencial, popularidade e quantidade de moedas. 

Liderança talvez eu ganhe, mas ainda tem chances dos outros dois ganharem esse requisito. Força individual é um pouco incerto, pois não tive mais lutas contra o Maksi e nem lutei contra o Dilliam esse tempo todo. Competição ganhas, tecnicamente, estou muito abaixo dos dois. Potencial é o que menos sei sobre, o que eles avaliam nisso? Moedas, tem uma pequena chance de vencer, mas tenho certeza que estou abaixo deles também. Ambos têm dezenas de alunos sobre seus comandos, e eles ganharam a maior parte das competições.

Tirando a de competições ganhas, o restante ainda tem alguma probabilidade de estar acima deles. Bem, só vou saber no final. Agora preciso achar um jeito de chegar em primeiro no CT.

Mais alunos chegam e se reúnem. Então, o treinador aparece. Em um instante, as filas são formadas em frente dele e um silêncio toma conta enquanto esperam ele falar.

— Como sabem, essa é a penúltima competição de vocês. Então decidi fazer algo especial hoje. Essa não vai ser uma competição física igual as outras. Claro, se vocês não usarem a força para vencer, mas aí não é fora do meu escopo. 

Um sorriso estranho se forma no seu rosto. Dá até para enxergar as segundas intenções nesse sorriso.

— As regras são simples. Vamos distribuir esses totens. A maioria vai receber os mesmos totens, menos uma pessoa. Os que têm os totens semelhantes são Ovelhas. Aquele que tem o totem único, é o Lobo. Talvez já tenham entendido, mas a função das Ovelhas é caçar o Lobo. Vocês vão sugerir para os professores quem é o Lobo. Cada pessoa só pode sugerir uma vez, e as Ovelhas no geral, podem sugerir no máximo 10 tentativas. Se usar as 10 tentativas, o Lobo ganha. Outra maneira do Lobo ganhar é por tempo. Assim que o Sol sair do horizonte, ele ganha. É uma competição individual, mas se quiserem formar equipes, é permitido. Só lembrem-se, se o Lobo ganhar, ninguém ganha moedas, a não ser ele próprio. 

Os professores distribuem os totens com os alunos. Observo as reações de cada um e tento ver se alguém demonstra algo suspeito. Chega na minha vez e o professor entrega o totem. Nos encaramos e ele levanta parte dos lábios. Olho para a figura de um lobo entalhada nesse pedaço de madeira em minhas mãos.

Claro que seria eu. Seguro meu suspiro e guardo o totem no bolso. Isso com certeza foi armado. Bem… e por que não seria? 

Quando todos são entregues, o treinador nos deseja boa-sorte e sai. Certo… como vou fazer para não ser pego de primeira? Enquanto penso nisso, a Demcis e o Temmos ficam ao meu lado.

— Pegaram ovelha, certo? — A Demcis me mostra o desenho de seu totem.

— Sim — Temmos responde.

Falo para eles? Se eu quiser ganhar, é melhor manter segredo sobre, mas eles podem me ajudar. Não acho que ambos vão me trair. Temmos nem ligaria, e a Demcis acharia isso divertido. Olho ao redor e ouço os alunos conversarem. Não dá para falar isso aqui, depois conto para eles. Por enquanto, preciso disfarçar.

— Sim — respondo ela.

Seguro outro suspiro e analiso a situação. Penso rápido em um plano e tento ver qual é a melhor maneira de vencer isso sendo o Lobo.

Percebo uma agitação ocorrer e observo de longe. Vejo um grupo grande pedir para que os alunos mostrem seus totens; com certa agressividade, por assim dizer. Consigo ver as expressões de ressentimento dos alunos que foram interrogados por esse grupo. Aos poucos, eles chegam cada vez mais perto de mim.

Uma pequena separação ocorre entre os alunos. Ando até o meio de todos e grito: — Hey! — Suas cabeças se viram para mim. — Como o treinador falou, quase que todo mundo aqui é uma Ovelha e nosso objetivo é caçar o Lobo. Então não podemos agir separados, correto?!

Me viro para encarar os olhos de todos que conseguir.

— Vamos superar as diferenças por um momento. Só por hoje! Eu sei que ainda tem gente que não tem moedas para comprar comida e, por isso, essa é a chance dessas pessoas ganharem suas moedas. Percebam, se nos unirmos, todos saem ganhando. Todos vão ganhar moedas e a competição. Não precisamos virar amigos, mas apenas fazer uma trégua temporária até acharmos o Lobo. 

Vejo alguns balançarem a cabeça, concordando comigo. Só preciso distrair eles de mim. E a melhor opção nesse momento, é chamar a atenção deles para mim. Fazer a mente deles nem cogitarem de eu ser o Lobo.

— Então, antes de tudo, vamos se organizar um pouco, certo? Todos temos o mesmo objetivo, que é achar o Lobo, mas agir em conjunto é mais eficiente para todos. Para isso, é bom ter líderes. Não precisa necessariamente ser apenas um líder, pode ter dois ou três. Só precisamos nos organizar.

Sem nem mesmo eu dizer, eles entendem quem vão ser os líderes. Então, continuo os distraindo. Bem, isso só vai funcionar agora, enquanto ainda não entendem como a competição funcionará. Mas é preciso disso para que eu possa fazer meu plano. 

Quando termino de discursar e os alunos voltam a conversar entre si, agora sobre o que disse a eles, ando até um dos professores sem chamar atenção. Assim que chego nele, falo o que preciso; que é um totem extra. Digo para ele que é para a Hecatis, que não pôde vir devido a um problema que inventei na hora. Ele me olha com um sorriso estranho, e me entrega o totem de ovelha. Guardo esse e escondo o do Lobo no bolso secreto do casaco.

Quando volto, fico ao lado do meu grupo. Observo todos e a separação entre 3 times. Nem preciso dizer quais são os líderes, então ando até o time dos alunos neutros; o meu. 

A maioria ainda está calmo, pois não perceberam a dificuldade dessa competição. Além do totem do Lobo, que posso apenas destruir, não há mais nada que me diferencie do restante. Além de ser mais de cem alunos nesse CT, o que é quase impossível para chutar e acertar em apenas 10 tentativas. Contando com todos os alunos, é uma chance menor que 7%.

Bem, tem o fator que há pessoas que não gostam de mim, e elas podem apenas falarem que sou o Lobo por ódio. Assim sendo, tenho que arranjar um jeito de limitar as pessoas usarem as tentativas livremente. 

Ando de novo até o meio do pessoal e chamo a atenção deles. — Antes de tudo, precisamos definir uma regra de como e quando usar as tentativas, porque são apenas 10. Não podemos sair chutando, nem acusar alguém por uma evidência fraca. Temos que economizar nossas tentativas. Então uma regra que pensei é: para acusar alguém, precisamos fazer uma votação, se a maioria ganhar, então falamos com os professores.

Parando para pensar, isso parece um pouco com um jogo que fez sucesso por um tempo na Terra…

Eles concordam comigo e não há nenhuma objeção. Aos poucos, os alunos começam a levar essa competição um pouco a sério. Ninguém ainda não desconfiou que o seu companheiro, ou a pessoa ao lado, pode ser o Lobo. Isso pode ser bom para mim. Quanto mais eles demorarem, mais chances eu tenho de ganhar no final.

Depois de um tempo, os alunos começam a desconfiar e debater entre eles. Ninguém faz uma acusação formal, então apenas fico de lado para conversar com a Demcis e o Temmos. Infelizmente, ainda não achei nenhum momento para contar para eles.

Ando pelo local e passo ao lado do Dilliam, que me chama. — Você age rápido, né?

— Talvez. Por quê?

— Enquanto eu ainda tentava analisar a situação, você já deu várias ordens. Me impressiono com a sua capacidade de se adaptar.

Ele já deve estar desconfiando de mim. Agi muito rápido? Bem, não acho que ele vá contra mim. No máximo, vai me colocar na parede para ver o que farei. Isso talvez seja um problema futuro. Qualquer coisa, vou ter que reverter a situação na hora. Não há muito que eu possa fazer agora contra ele.

— Obrigado. Eu acho

Fico um tempo sem falar nada, para não parecer estranho, e os alunos decidem mostrar seus totens. No final, eles ficam confusos. Todos, sem exceção, são Ovelhas. Eles refazem o processo e, quando chega minha vez, de novo, mostro o totem que seria da Hecatis e os alunos seguem reto.

Finalmente, todos percebem o que está acontecendo e a urgência da situação. Não tem como saber quem é o Lobo. Pode ser qualquer um. A maioria contava com o totem para descobrir e não estavam preocupados, mas, quando perceberam que, tirando o início, o totem não é mais útil para nada, a ansiedade tomou suas mentes.

Alguns até desconfiaram que é uma pegadinha dos professores e não há nenhum Lobo, mas isso é apenas uma forma de enganar a realidade. No fundo, sabem que não podem mais tentar nada. Não existe nenhuma brecha. E se o Lobo não fizer nada estúpido até o final, eles não vão ganhar.

— Não estamos deixando nada de fora?! — Um aluno comum grita enquanto inspeciona os totens de todos novamente. 

Observo o que acontece de fora. Acho melhor eu me envolver e aumentar um pouco a confusão. Ando até onde o principal grupo está e falo: — Precisamos achar aquele que está fingindo. 

Me olham estranho, porque apenas falei o óbvio.

— Mas não vamos achar o Lobo com investigações. É impossível. Então, temos que fazer alguma coisa. — Abro o casaco e mostro minhas duas espadas de madeira. — Vamos ter que levar isso para fora da competição para ganharmos, infelizmente.

Vejo nos olhos deles que tiveram uma realização. Alguns estalam as línguas e pegam suas armas. Parte do problema de comida foi resolvido pelo comércio e a quantidade de moedas em circulação, mas eu como disse antes, ainda há pessoas que não conseguiram uma única moeda desde o início e ainda têm que comer do que caçam. Isso se e conseguirem achar a comida no dia. Essa competição é uma das poucas chances dessas pessoas conseguirem moedas. Mas, primeiro, precisam achar o Lobo. Ou melhor dizendo, precisam me achar.

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