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Capítulo 84: Ferreiro Dudu

Vários livros abertos amontoados em cima da mesa. Figuras estranhas. Muito estranhas. 

Levo minha mão a um dos livros. A pagina se deforma com meu dedo e, logo abaixo dele, há uma ilustração de algo parecido com uma arma. Mas não uma espada, lança ou arco. Algo bem mais tecnológico. Algo como uma arma de fogo que não existia nem na atualidade.

Tudo isso me dá dor de cabeça.

Sigh…

Coloco minhas mãos no bolso e ando ao redor com os passos rápidos. 

Tem algo de muito estranho nesse lugar. Além disso, faço uma pergunta desde que cheguei.

Por que há humanos?

É impossível existir uma raça igual a humanidade em outro planeta. Assim sendo, não tem uma explicação natural para isso.

Interferência externa?

Aquela figura humanóide lá pode ser algum tipo de Deus que criou os humanos? Ou ele só os transportou para outro mundo?

Isso me lembra do espaço branco infinito que acordei.

Uma teoria religiosa também funcionaria aqui. Mas para isso, teria que haver um Deus; a figura humanóide? Mas, meio que sinto como se ele não fosse um Deus de verdade, apenas alguém muito poderoso. O suficiente para poder transportar a humanidade para outro mundo. Mas não o suficiente para criar uma realidade inteira. O problema que isso é só um pressentimento. Se aquela figura for alguém tão poderoso, isso não é nada reconfortante. 

Multiversos? 

Não tem como eu saber.

Dor de cabeça.

Quanto mais ando em círculos ao redor da mesa, mais meus pensamentos andam da mesma maneira. Infinitas possibilidades, como existir apenas essa porção da realidade, estou em coma, estou sonhando, estou no inferno, isso tudo é uma simulação. Quanto mais adentro nesse pensamento, mais duvido da minha própria realidade. Se eu continuar nesse pensamento, vou acabar duvidando não apenas da minha realidade, mas também da minha própria existência.

De que maneira vim parar nesse mundo?

A existência de um Deus superior responderia boa parte das minhas perguntas, mas não há como eu saber se Ele realmente existe. 

Quanto mais penso, mais entro em ciclos infinitos. Falta informação. Olhos para os livros. Preciso aprender a ler. Isso é uma grande limitação.

De tanto rodar ao redor da mesa, minha visão começa a tontear. São tantas coisas para considerar.

Sigh…

Por que fui entrar nessa biblioteca…?

Releio os livros e guardo na memória as palavras, mesmo sem entender o que significam. 

Guardo tudo com certo peso em mim. Sinto que não queria ter ideia da existência dessas informações.

Olho para o teto de madeira.

Eu realmente não queria saber disso.

Saio dessa sala e volto para onde todos me esperam.

— Demorou, ein — fala a Hecatis.

— Foi mal. Estava vendo algo. — Olho para a garota de capuz com vários livros na mão. — Posso conversar com você depois?

Ela me olha estranha, mas não rejeita.

De repente, sinto um arrepio e ao me virar vejo a Demcis e a Metys com os olhos cerrados. — Estranho… — as duas dizem.

Ignoro isso e saímos da biblioteca. Voltamos à pousada para guardar os livros, mas não demoramos lá, pois ainda há algumas coisas para fazer ainda hoje.

— Para onde vamos agora? — pergunta a Demcis.

— Alguma loja de armas. — Ando na rua movimentada devagar. — Conhece alguma loja assim, Metys?

Hm… tem um homem… — Ela hesita em falar. — Suas ferramentas são bem boas. Nosso pai sempre compra lá.

— Qual é o problema?

— Ele não é muito simpático, por assim dizer… Mas levo vocês lá.

Após caminhar em algumas ruas e ver várias lojas, paramos em frente a uma. Parece bem velha, a maior parte da sua fachada é feita de madeira e há uma pequena placa em cima da porta. 

— Certeza que é aqui…? — Demcis olha com certa estranheza para a loja. — Não parece ser um lugar onde se venderia algo. 

— O ferreiro não gosta muito de pessoas. Dudu é assim.

— Dudu é o nome dele? — pergunto. 

Parece ser um nome de alguém inofensivo.

— Ele ama quando o chamo assim.

Deixo a Metys abrir a porta e, logo assim que entra, ouço ela grita Dudu.

O interior da loja é inteiro de madeira com armas de todos os tipos penduradas na parede, alguns pequenos armários no meio da loja com mais armas. Há um balcão no final com uma porta que parece levar mais fundo na loja. 

Passos altos vêm do fundo e logo um homem barbudo sai da porta. Rugas preenchem sua testa e é bem perceptível que o homem não está de bom humor.

— Você de novo… — Ele solta uma voz rouca.

— Oi, Dudu. Como está?

— Um dia vou te empalar numa alabarda. 

— Esse aqui é meu irmão Morrigan e os amigos deles. Vieram comprar armas.

— Não me diga. — O olhar de Dudu varre todos. — Sou Drunn-Dunham, e se um dia vocês me chamarem de Dudu, vou esfolar vocês. Escolham suas armas e vão embora. 

Simpático.

Ando pela loja em busca de alguma espada. O olhar do Drunn-Dunham, no caso Dudu, por algum motivo, foca em mim.

Enquanto isso, vejo a miríade de espadas na parede. Diferentes estilos de construção. Lâminas de um gume, de dois gumes, curvas, de estocada, etc. 

Os outros também observam quais armas irão escolher. Demcis está na parte dos arcos, Temmos na das lanças, Metys continua a irritar o ferreiro e a Hecatis… lendo.

Caminho pela loja com as mãos no bolso. O piso de madeira range com os passos e sinto o cheiro de poeira e metal quanto mais ando pelo local. Toco no fio de uma espada na parede com os dedos e, sem nem fazer muita pressão, uma linha de sangue aparece neles. Sinto uma pequena ardência na ferida.

Sangue escorre pelo meu dedo e desce até a minha palma. O cheiro de ferro do líquido se mistura com o cheiro metálico das armas. Formo um punho e olho para a lâmina da espada.

Me pergunto o porquê ele esconde sua loja desse jeito. Com essa qualidade de armas, ele conseguiria muito dinheiro.

Exploro mais o local até que meus olhos caem em espadas duplas em um dos armários. Ando sem hesitação até elas e as pego. O peso é perfeito e a guarda encaixa na mão como se fosse criada especialmente para esse corpo.

— Seus olhos estão brilhando, garoto. — Dudu toca no meus ombros. — Parece que a espada escolheu você.

Ignoro ele e faço a minha posição de luta com elas. Com um balançar, o vento é cortardo de uma maneira impressionante. Por um segundo, parecia que até eu conseguiria cortar na velocidade do som. 

— Bom balanço, mas não use tanto assim os seus braços. E, por gentileza, não ignore os outros. — Dudu tira as espadas da minha mão e as coloca no armário. — Se quiser usá-las, as compre. Faço uma promoção para você.

Encaro os seus olhos.

— Pode fazer cara feia, mas aqui é uma loja, não uma igreja para eu te dar os meus filhos de graça. — Ele sai e vai de encontro aos outros.

Não gostei dele.

Embaixo do armário, vejo o preço das espadas. Por que é tão caro? Sinto um aperto no coração, mas dessa vez não é a ansiedade.

Pego o papel da Guilda dos Mercenários que me permite pegar itens de lojas afiliadas e vou com ele na mão até o Dudu.

Toco no ombro do ferreiro e ele me olha com as sobrancelhas franzidas. — O que você quer?

Entrego o documento. Os olhos dele passam pelo papel bem devagar. Seus cenhos se franzem cada vez mais ao ler e sua boca se aperta. Ele me entrega de volta o documento. — Não sei ler. — Ele anda até seu balcão com os passos lentos.

Olho ao redor sem saber o que fazer agora. Meus olhos se encontram com a Demcis e ela dá uma risada da minha situação para depois voltar a ver os arcos.

Sigo atrás do Dudu e falo o que está escrito no papel. Seus olhos me observam de cima a baixo como se eu fosse lixo. Ele me xinga e fala que não adianta enganá-lo.

Sigh…

Olho para trás e meus olhos se encontram com o da Demcis, de novo. Ela me olha com pena e termina com uma risada. De repente, uma raiva desconhecida brota em mim ao ver essa risada.

Tiro uma bolsinha gorda de dinheiro e retiro o necessário para comprar as espadas. O quanto de comida eu poderia comprar com isso…? Nunca gastei o dinheiro da mesada que o Kynigos me dá. 

Provavelmente é a minha imaginação, mas sinto quase como se um filete de lágrimas escorreu pelo meu rosto agora há pouco.

Isso é pior do que treinar com o Temmos.

Vou até o armário e pego as espadas. No balcão, coloco o dinheiro ao lado das lâminas. E enquanto o Dudu não aparece, pego duas bainhas e as coloco também no balcão. Demcis traz várias flechas e o Temmos aparece segurando uma lança do tamanho dele.

— Só flechas? 

— Eu trouxe o meu arco, está lá na guilda.. Infelizmente, não pude levar ele para o CT, então tive que deixar guardado. — Ela para um segundo. — Esqueci de pegar ele quando a gente foi lá…

Dudu sai da porta atrás do balcão e pega o dinheiro. — Se não quiserem mais nada, podem ir.

— Para que tanto desgosto, Dudu? — Metys se inclina no balcão. — Você tem que sair mais dessa loja, vai acabar definhando aqui.

Tsk. Saiam logo.

— Certo, certo. Depois volto aqui para te dar um oi.

Saímos da loja com nossas armas a mão e voltamos à rua principal. Boa parte das pessoas nos olha, porém, logo desviam o olhar. 

A maga me disse que é proibido andar com armas nessa cidade, algo que nem eu sabia mesmo morando aqui, mas como fazemos parte da Guilda, temos permissão para usá-las na rua. 

— Bora pegar o meu arco rapidinho? Para eu não esquecer outra vez ele.

Sem muita escolha, voltamos a Guilda e esperamos sentados na parte esquerda do edifício, onde os mercenários conversam sobre suas missões, enquanto a Demcis foi na fila pedir seu arco de volta.

A maga e a Metys conversam entre si algum assunto que não consigo entrar e o Temmos continua impassível como sempre. Por causa disso, pego as minhas duas espadas e as coloco na mesa. 

Passo meu dedo em suas lâminas, sinto a textura áspera contra a minha pele, como se a qualquer momento o metal da lâmina fosse abrir alguma fenda na minha carne. A lâmina com dois gumes pronta para cortar algo e fio a refletir as luzes do teto da guilda. O metal mantém seu tamanho uniforme até a ponta, como uma régua. A guarda da espada simples, mas funcional, sem nenhum adorno, apenas o necessário para funcionar, além do cabo feito por fios bem costurados. Isso tudo sem perder a leveza essencial para as espadas duplas. 

— Óia, só! — Escuto uma voz familiar atrás de mim. 

Não.

— Morrigan, meu amigo.

Encaro as minhas espadas.

— Mal saímos do CT e já nos reencontramos. Será o destino?

Por que eu não tenho um descanso?

Sinto os braços dele em volta do meu pescoço. — Senti saudades, sabia? — O sussurro do Dilliam faz um calafrio subir na minha espinha.

Ele para ao meu lado com alguns dos seus amigos. Um eu reconheço sendo Gyarte, o braço direito do Dilliam.

— Vim pegar as minhas recompensas e atualizar meu cartão da Guilda. Você também, né? — Aquele sorriso típico continua no seu rosto sem nenhum sinal de esvair. 

aaah…

— Não.

Oh, você já pegou então. Vou lá receber as minhas coisas também. Se você estiver aqui quando eu voltar, quero te mostrar algo, já que finalmente estamos fora do CT. — Ele acena a mão e sobe as escadas.

Por favor, Demcis, anda um pouco mais rápido. Meus pés batem rápido contra o chão e minhas unhas contra a mesa. Meus olhos passam pela filas do balcão, mas não encotro a garota.

Respiro fundo e paro meu corpo totalmente.

Não há motivo para isso. 

Volto a analisar a minha arma e continuo assim até a que a garota volta com um arco e uma aljava nos braços. — Demorei um pouco para achar eles no armazém. Foi mal. Vamos?

Pego as minhas espadas e me levanto no mesmo instante. Eu sei que devo um favor ao Dilliam, mas, sinceramente, só quero o manter longe de mim o máximo possível. Não quero me meter nas confusões de outras pessoas.

Piso para fora da Guilda e sinto um peso sair das minhas costas. 

— Morrigan! Espera um pouco!

Não.

Deixo o pessoal para trás e acelero meus passos. Não quero. Não vou. Me deixa. 

Uma mão toca no meu ombro e meu corpo estremece. Um tipo de terror paira em meu peito. O terror da falta de paz. O sentimento de perder a tranquilidade de uma manhã escura, ou de uma madrugada silenciosa. Essa tranquilidade sendo iluminada por um sol radiante. Um sol que tem um sorriso no rosto.

Olho para trás e vejo ele. 

— Bora passear um pouco? Quero te mostrar meu clã. 

O sorriso em seu rosto me incomoda, não sei o porquê. 

— Não precisa fazer essa cara triste, vai ser legal.

Sendo arrastado contra a minha vontade, sigo o Dilliam e seus amigos junto com o pessoal. 

Paramos em frente a um edifício típico da cidade. Bem largo e de dois. O que chama mais a atenção é uma placa bem grande azul. Ela tem detalhes brancos nas laterais como nuvens e um grande sol no centro com uma lua engolindo-o.

Dilliam toma a frente e abre as duas grandes portas. Nesse instante, sinto a atmosfera que exala de dentro. Algo opressor, mas não hostil. Uma leve pressão cai em mim. 

— Bem-vindo à Guilda Céu. — Dilliam estende sua mão.

Dou um passo lento e o cenário interior é mostrado. Logo de cara, uma escada grande e larga de madeira reluzente leva para o segundo andar, enquanto na esquerda tem várias mesas organizadas e portas fechadas. Na direita, tem um quadro com papéis e um balcão, no mesmo estilo da guilda, mas com a sútil diferença de que aqui é bem mais organizado. Tudo parece estar em seu devido lugar, até mesmo as missões no quadro estão organizadas. 

Todos as pessoas me olham.

Não.

Não é para mim.

Eles abaixam a cabeça em reverência ao Dilliam e voltam aos seus afazeres. Andam de um lado para o outro calmos como se fizessem isso o tempo todo. Não é um lugar agitado como a guilda, mesmo com a grande quantidade de pessoas andando, na verdade, parece uma empresa.

Isso é um clã?

— Então, gostou? — O garoto sorridente me pergunta. — Tenho orgulho desse lugar. Eu cresci aqui.

— Parece legal. — Metys aparece entre a gente. — Nosso pai vinha aqui às vezes, pelo que me lembro. Sempre para cuidar de negócios. 

Oh… o pai do Morrigan já veio aqui? Vontade de conhecê-lo agora.

Meu olho recai no garoto.

— Mas acho melhor deixar isso para outra hora, né? — Com as mãos atrás da cabeça, ele ri sozinho. — Quer conhecer mais o clã?

— Não. 

— Certo. Não vou te forçar dessa vez. Mas peço que venha comigo daqui a pouco. Vai ser legal.

Que escolha tenho depois de vir aqui? Me encosto na parede ao lado da porta e espero. 

Demcis olha de um lado para o outro. Seus olhos brilham e refletem as cores amadeiradas do edifício. — Quem imaginaria que o clã desse Dilliam era assim?

Metys, que também age como a Demcis, fala: — O Clã do Céu é o maior dessa cidade. É de se imaginar algo assim. Na verdade, parece até ter poucas pessoas agora, mesmo tendo várias andando por aí. 

Olho ao redor e observo. A maioria das mesas está preenchida e mesmo assim o lugar ainda parece ter espaço vazio. Todos eles conversam entre si, sem se agitarem ou falarem alto. Mas não parecem trabalhar, e sim, relaxando. É um grande contraste em comparação com a guilda.

A Hecatis surge ao meu lado em seu capuz. — Parece ter alguns Controladores de Mana aqui. Esse clã tem um grande poderio militar.

Isso é interessante.

As duas garotas vão em direção às mesas e perambulam pelo local. Os mercenários do clã parecem não ligar e só dão algumas olhadas. Elas andam até uma das portas e tentam espiar dentro, mas, por azar delas, a porta se abre no mesmo instante e um homem grande e musculoso sai. 

— Ele é um — fala Hecatis.

O homem encara as duas garotas e os rostos delas se encolhem e os olhos arregalam. Consigo até ver os seus pelos se arrepiarem. O homem as ignora e sobe as escadas com passos pesados.

— Mor..riga.n… — Metys se apoia em mim. — Que susto, Morrigan. Acho que meu coração parou por um momento. Aquele cara era maior que você.

Isso que dá ser curiosa.

Logo após esse acontecimento, Dilliam desce as escadas com outras roupas. Dessa vez, roupas mais sofisticadas. 

— Então, Morrigan. Já foi até o Centro da Cidade?

Olá, eu sou o Ender!

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