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Conforme a viagem prosseguiu, o grupo passou a encontrar mais pessoas. Famílias, comerciantes e solitários. Quase todos vestidos de formas simples com calças, camisas e até mesmo chapéus. Também encontraram dois soldados que falaram rapidamente com Thayala e se mostraram surpresos por verem tantos escravos vindos da fortaleza de Astaroth. Um comerciante quis vender algumas roupas e colares, mas foi expulso por Thayala.

A estrada também passou de terra para pavimentada com pedras, facilitando a caminhada.

Finalmente, depois de um total de seis dias desde que encontrara o grupo, Anayê conseguiu visualizar uma muralha no horizonte. A simples visão daqueles muros encheu seu coração de uma alegria contagiante. Logo, quando a notícia se espalhou, todos compartilhavam da mesma alegria.

Ao fim da tarde, podiam enxergar as torres despontando de dentro da cidade. E, a maior delas, ostentava uma bandeira preta com uma águia pintada de branco, o símbolo de Skell, a cidade neutra.

Embora todos estivessem tão empolgados com a visão que desejassem continuar a viagem, Thayala insistiu em acampar até o amanhecer.

— Não quero ninguém desmaiando amanhã — ela falou.

Foi uma noite de sono agitada. Anayê não conseguia pregar os olhos e, sempre quando dormia, sonhava sendo esquecida pelos outros, capturada pelos maggs outra vez e acordava suando frio percebendo a ironia de estar tão próxima de uma nova realidade.

Ela se levantou antes do nascer do sol. Decidiu ir até a barraca de Boyak, mas foi surpreendida ao vê-lo sentado na entrada da tenda de pernas cruzadas.

Seu semblante ainda apresentava cansaço, porém, ele mostrou seu típico sorriso quando a viu.

— Yo! Que bela manhã, hein.

Ela parou ao lado dele sem saber exatamente quais palavras usar, então optou pelo básico:

— É bom te ver de pé novamente.

— E você está bem?

— Eu deveria te fazer essa pergunta.

— Mas eu fiz primeiro — ele ironizou.

Anayê sentou ao lado dele observando os pequenos raios de sol surgindo através das muralhas.

— Ficamos preocupados.

— Com ficamos, você quer incluir Thayala?

Anayê franziu o cenho.

— Como você sabe sobre…

— Imaginei que meu mestre a mandaria mais cedo ou mais tarde.

— Ela salvou a sua vida e trouxe toda essa gente até aqui — apontou para as barracas.

— Ela pode não ser tão eficiente quanto eu, mas é muito boa em sua função.

— Eu quase senti saudade desse sarcasmo.

— Quase? — ele ergueu a sobrancelha. — Magoou.

Os dois ficaram alguns instantes calados enquanto o sol crescia imponente no horizonte.

— O que aconteceu nas ruínas?

O rosto dele perdeu a típica calmaria e adquiriu um tom mais soturno por poucos segundos, porém, quando ele respondeu essa amargura se escondeu.

— A sua runa atraiu os lamentadores, mas esse não foi o grande problema.

Anayê esperou pela continuação da frase.

— Grekz nos traiu.

— Hã?

Ele assentiu com a cabeça e prosseguiu:

— Ele fugiu com a carroça antes do ataque.

— Mas…

— As aberrações são assim. Foi erro meu confiar que os gors seriam diferentes. Por um instante, eu quis de coração que fosse verdade.

Anayê não soube como responder. Suas experiências com aberrações sempre foram ruins, porém, assim como o ceifador, ela acreditou na sinceridade Grekz.

— Você quase morreu por causa desse ímpeto de compaixão — ele falou com um timbre amargurado.

— Nós quase morremos — ela corrigiu.

Boyak sorriu, agradecido pelo reconhecimento.

— E como você conseguiu? Como foi capaz de me trazer e ainda escapar da cidade dos portões de ferro?

— Não foi muito heróico, nem bonito como as melodias sobre os ceifadores de outrora.

Embora disfarçado, ela conseguiu captar seu olhar melancólico por um instante e bastou aquilo para saber da situação pelo qual Boyak tivera de passar.

— Às vezes, esse trabalho de ceifador não nos deixa muitas escolhas. Então precisamos fazer o que é necessário. 

Tudo bem, ela se viu dizendo, mas não abriu a boca. Permitiu um breve silêncio para absorver as novas descobertas.

— E como se sente prestes a conhecer a cidade neutra? — o ceifador perguntou mudando de assunto.

— É um sentimento difícil de explicar — ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Preciso me lembrar constantemente de que não estou em um sonho, isso é a realidade, eu consegui escapar da fortaleza de verdade.

— Falando assim faz você parecer louca, mas eu entendo. Se sentir deslocado é parte da magia do sonho realizado. E ninguém sabe explicar esse sentimento, apenas o próprio sonhador. Faz parecer que qualquer coisa é possível.

A frase do ceifador reverberou dentro de Anayê, afinal, para todos na fortaleza, viver livre não passava de um sonho dos ingênuos, e realizar tal façanha trazia à tona uma esperança mais poderosa.

— Eu me tornei ceifador por causa disso — ele revelou. — Por causa desse sentimento. Quando vejo alguém em liberdade, consigo me lembrar desse impulso poderoso. Meu desejo é vê-lo em ainda mais gente. Quanto mais pessoas sentirem isso, melhor.

— Isso não vai acontecer se você não se cuidar, seu idiota — bradou a voz de Thayala de repente.

Boyak sorriu para ela, mas a ceifadora se aproximou e lhe deu um cascudo, assustando Anayê.

— Ai!

— Seu tolo! Que ideia é essa de atacar a torre de Astaroth?

— Eu também estava com saudades — Boyak ironizou com uma careta de dor.

— Sabe o quanto o mestre ficou preocupado?

— Aquele velhote fica preocupado com tudo.

Outro cascudo.

— Ei! — ele berrou.

— Não desrespeite o mestre.

— Fica calma, Thayala — Anayê pediu.

— Isso, escuta a moça — o ceifador falou.

— Você tem sorte de estar muito debilitado, senão eu ia te dar um soco daqueles… — ela rugiu entre os dentes.

— Daqueles fracotes — ele arriscou, rindo.

— Argh!

A ceifadora estava prestes a desferir um novo cascudo quando Erlik apareceu correndo e interrompendo toda a situação.

— Thayala, preciso falar com você.

— O que houve?

— Tem um grupo de guardas se aproximando!


Cerca de dez soldados se espalharam pelo acampamento. Homens altos e robustos em cavalos, trajando armaduras pratas com o símbolo da água no peitoral, e um deles segurava o estandarte da cidade neutra.

Os escravos se reuniram rapidamente, pois a notícia não demorou a se espalhar. Olhavam de canto, desconfiados e intimidados pelos homens nas armaduras, porque ainda tinham medo de fitá-los diretamente.

Thayala abriu caminho pelo acampamento ouvindo o relinchar dos cavalos e a batida de suas patas no solo.

Vislumbrou o homem à frente do grupo com braços grandes e pernas compridas.

Anayê veio logo em seguida tendo deixado Boyak na porta de sua tenda. O ceifador ainda não conseguia caminhar normalmente, precisava de apoio e levava muito tempo para dar pequenos passos.

— Me chamo Finéias e venho de Skell a pedido do rei — ele anunciou quando percebeu quase todo o grupo reunido. — Por acaso, vocês tem algum líder com quem posso falar?

Thayala levantou a mão.

O homem desmontou do cavalo, retirou a luva e estendeu a mão. A ceifadora retribuiu o gesto.

— Desculpe, chegar assim, mas não tínhamos ideia se vocês eram hostis, ladrões ou piratas.

— Sem problema.

— O rei pede a sua presença no palácio para explicar a situação dessas pessoas. Ele promete não fazer mal algum desde que explique tudo.

— Está bem. — Thayala se virou para Erlik. — Eu irei com eles. Você é o responsável por enquanto.

Um dos soldados trouxe um cavalo e a ceifadora montou com agilidade. Mirou Anayê no meio da multidão.

— Cuide do Boyak.

E partiu junto com o grupo de soldados.

Olá, eu sou o Naor!

Olá, eu sou o Naor!

Muito bom ter você aqui!
Espero que esteja curtindo a jornada de Anayê e Boyak.

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