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Mayck tomou seu café da manhã e ligou a TV, para checar as notícias do dia.

Como por coincidência, o primeiro canal transmitia um noticiário com algo que ele pretendia saber.

“Não foram descobertas as causas da enorme explosão de luz, que ocorreu na última noite, pelas 20:00. Pesquisadores afirmam não saber a causa, mas que farão o possível para descobrir.”

Então é assim que vai ser? Bom, tanto faz. Eu não vou pensar nisso por enquanto, primeiro tenho que me concentrar nisso.

Mayck desligou a TV e saiu de casa, indo para a estação, onde foi sequestrado no dia anterior. Sua intenção era tentar algum contato com alguém da Black Room, mesmo que parecesse impossível. Ele tinha um trato com Nikkie, então certamente iria encontrá-la, uma hora ou outra.

Como a primavera era uma preparação para o verão, o clima ficava cada dia mais quente. O garoto sofria com o calor e quase não conseguia se manter de pé.

“Andar nesse calor é horrível… eu quero voltar pra casa. Nem mesmo usar roupas leves resolve isso. Que irritante.”

Apesar de reclamar do clima, ele ainda não largava as calças. Nunca tinha gostado de usar bermudas. A única exceção era para dormir.

O garoto arfava enquanto o calor do sol queimava suas costas.

Quando chegou à estação, se abrigou na sombra projetada pelo teto da estrutura e encostou em uma pilastra.

Eu espero que alguém venha… meu celular deve estar cheio de notificações. Isso não é bom.

Mayck esqueceu sua mochila e celular na base da organização, então mesmo que tivesse acordado cedo, não iria para escola de qualquer forma. Ele acreditava que alguém lhe traria seus pertences.

“Você não se cansa de esperar?” Depois de 15 minutos esperando, uma mulher familiar se aproximou dele.

“Eu imaginava que você viria. Então tá ok.”

“De onde vem essa sua confiança? Bem, não importa. Aproveitando que você está aqui, quero que me acompanhe”, Nikkie falou e entregou a mochila para o garoto.

“Sério isso? Tudo bem, mas primeiro me deixe levar minhas coisas pra casa. Se não, não vai ter nenhum motivo pra você ter trazido elas agora”, afirmou pegando o objeto.

“Se for rápido.”

“Não se preocupe. São 10 minutos daqui pra lá.” Mayck se virou e saiu da estação rumo a sua casa. Nikkie o acompanhou de longe, o que incomodou um pouco, mas era melhor assim. Ele não queria rumores entre os vizinhos de que ele levou uma mulher pra casa.

Chegando lá, rapidamente guardou sua mochila em seu quarto e retornou para fora, onde Nikkie o esperava encostada em um poste. Ela não parecia entediada por estar esperando.

“Então, vamos indo?”

Nikkie balançou a cabeça em resposta e eles se encaminharam, mais uma vez, para a estação.

Os dois possuíam algo em comum: permaneciam quietos boa parte do tempo. Mas isso não poderia impedi-los de iniciarem uma conversa, uma vez que tinham um ótimo tópico para discussão.

“O que vocês fizeram sobre aquela explosão?” Mayck perguntou, olhando de relance.

“De alguma forma, a Strike Down parece estar cuidando disso.”

“Cuidando… vocês jogaram todo o trabalho pra eles? O quão relaxados vocês são?”

“Não é como se jogássemos tudo pra eles. Diferente de nós, a Strike Down é reconhecida pelo governo. Eles cuidam do mundo dos portadores e os governadores mantém nossa existência em segredo, além de fornecer capital para eles”, falou, mantendo seus olhos na estrada.

“Hum… E o que eles fizeram exatamente?”

“Parece que apenas estão enrolando a mídia, mas em algum momento todos vão querer uma explicação. A internet já ficou agitada como sempre. Se nos descuidarmos, pode acontecer algo mais problemático que isso.”

“Bom, é claro. Se acontecer mais coisas chamativas igual ontem a noite, não vai ser mais possível esconder nada. Pode-se dizer que a barreira entre esses dois mundos está perto de se romper.”

“Exato. Por isso temos que controlar todos os portadores, para que eles não usem suas IDs casualmente.”

Eles chegaram na estação e pegaram um trem. Quando entraram, Mayck relaxou com o ar condicionado do veículo.

“Mas existem mesmo pessoas por aí que usam suas IDs de forma desenfreada?” Mayck retomou o assunto.

“Claro. Cerca de vinte por cento dos usuários são jovens entre 15 e 25 anos. Por isso tendem a ser menos responsáveis quanto a isso. Embora pareça difícil, essa não é a pior situação”, Nikkie afirmou.

Eles conversavam em voz baixa, já que o trem não estava tão cheio.

“Existem exceções, não é?”

“Geralmente as pessoas manifestam suas IDs a partir dos 15 anos, entretanto tem casos que despertam antes disso, mas em casos extremamente raros, podem despertar no nascimento.”

“Isso não é péssimo? Um bebê simplesmente explodir sua ID assim que nasce… causaria um belo susto nos pais.”

Não era um pensamento fictício. Quem gostaria de ver seu filho voar e atirar um laser pelos olhos assim que nascesse?

“Eu entendi essa parte. Mas eu gostaria de saber qual o objetivo de vocês. Apenas controlar os portadores para que eles não façam besteiras? Ou então almejam algo maior?”

“Cada organização tem seu próprio objetivo. Não sabemos qual é o de cada uma, mas a Black Room quer apenas proteger o Japão de qualquer ameaça que surgir, mesmo que sacrifícios sejam necessários.”

Então é isso… Eles se importam em proteger o Japão. Provavelmente assuntos de fora não interessam para eles.

“Você pode me dizer tudo isso?”

“Não tem problema. Você é um aliado afinal de contas. Não seria um ato de confiança esconder cada palavra.”

“Bom, vocês me ajudaram, então eu planejo cumprir minha parte do trato”, Mayck cerrou os olhos por um segundo. “Já que você não vai esconder nada, para onde estamos indo?”

“Até um certo local. Zero-san me pediu para te levar a uma missão simples, como forma de te treinar. Se você for fraco não vai passar de estorvo.”

Ontem eu segurei três caras sozinho enquanto você fugia. Seja mais grata.

“Eu não me importo, mas eu tenho certeza que não sou tão fraco assim”, Mayck se defendeu e olhou pela janela do trem.

Para onde estamos indo afinal?

Seguiram o resto da viagem em silêncio. Não havia nada que Mayck quisesse saber naquele momento. Em meia hora, Nikkie anunciou a parada deles.

Eles desceram sem trocar nenhuma palavra.

Eram cerca de 11:00 da manhã, mas o fluxo de pessoas na estação estava relativamente grande.

Que calor. Era desagradável para ele.

Os dois saíram da estação e seguiram pela rua, também movimentada. Depois de caminhar por um tempo, entraram em um edifício e Nikkie falou com a recepcionista, que entregou-lhe um cartão.

O que é aquilo?

Nikkie andava e checava as informações contidas no objeto e se aproximaram de um veículo estacionado do outro lado da rua.

Dentro do carro, um homem de terno e óculos escuros esperava a chegada da dupla. Os dois entraram no veículo e partiram.

Mayck ainda não confiava totalmente em Nikkie. Embora estivessem juntos tranquilamente, ele ainda não se esqueceu de que foi ameaçado por ela no dia anterior; não podia largar a possibilidade de ser traído por ela.

Em mais meia hora, eles chegaram ao litoral.

O que vamos fazer aqui? O garoto ficou com várias dúvidas.

“Mizuki-kun, o que nós vamos fazer agora, vai ser como uma espécie de treinamento ou uma missão simples se você achar melhor.”

“O que será exatamente?”

“Ali” Nikkie disse apontando para uma ilha no meio do mar. “Um portador usou sua ID para fazer coisas ilegais e sua missão é dar um jeito nele.”

“Dar um jeito nele… Entendi. É só isso?”

“Sim. Eu vou esperar aqui. Pegue aquele barco. O homem que está nele vai te conduzir, então não se preocupe.”

“Okay.” Ainda estava meio confuso, mas seguiu as instruções.

Ele desceu do carro e foi até o pequeno barco que estava à sua espera. Entrando nele, o piloto não disse uma palavra, apenas se preparou e conduziu até a ilha.

Uma missão é? Pelo que ela disse, eu vou ter que fazer o que achar melhor. O que será que ele fez de ilegal? Espero que ele facilite a minha vida.

Não levou muito tempo até o destino.

“Chegamos”, o piloto afirmou.

“Sim, obrigado.” Mayck agradeceu e saiu, pondo os pés sobre a areia da pequena ilha. “Certo, veremos o que o futuro tem guardado pra mim.” O garoto encarou o conjunto de árvores a sua frente e respirou fundo.

O ar na ilha estava abafado e úmido, o que o levou a diminuir o ritmo de sua respiração. Ele andou por entre as árvores, olhando ao seu redor para encontrar alguma coisa.

O que alguém que faz algo ilegal poderia esconder aqui? Drogas… ou talvez algo pior que isso? Francamente, o que Nikkie está pensando, me jogando algo desse tipo…

Resumidamente, a garota pôs em suas mãos a tarefa de um juiz. Algo que um garoto da idade dele não gostaria de carregar.

Analisar, entender e julgar. Mais claramente, era essa a missão que lhe foi entregue. O destino de alguém desconhecido estava em suas mãos.

Por favor, fora da lei, me ajude a não tomar uma decisão difícil.

Mayck andou mais um tempo e parou. Se escondeu atrás de uma árvore e ficou à espreita.

Uma velha cabana de madeira estava a poucos metros dele. O lugar parecia bem acabado, como se não fosse cuidado a anos. Um local perfeito para um crime clichê.

O garoto observou atentamente, tentando ouvir qualquer som que pudesse sair da construção, mas não ouviu nada.

Melhor me aproximar um pouco, ele decidiu.

Com cuidado, andou em passos lentos. Chegando na parede, foi até a porta que estava semicerrada, onde viu um sapato que impedia-lhe de fechar.

Isso é…

Mayck se abaixou e olhou mais de perto. Dentro da cabana não havia nenhuma luz, então ele teve dificuldade para enxergar com clareza o que tinha lá.

Depois de se esforçar um pouco, seu cérebro pôde identificar uma mão humana próxima ao sapato.

Um calafrio percorreu seu corpo. Respirou fundo e, tomando coragem, empurrou a porta lentamente. À medida que a luz solar iluminava o interior, vários corpos de garotas estirados pelo chão, cerca de cinco, se revelaram.

Mesmo que tivesse sido bombardeado de surpresa desde a última semana, ele não pode evitar o choque.

O coração acelerou suas batidas e a dificuldade para respirar aumentava. O que o esperava logo à frente era algo terrível. Algo que, como ser humano, era impossível para ele aceitar.

Um cheiro ruim que foi abafado pelo calor lhe mandava ir embora, mas o que quer que estivesse adiante, ele não poderia recuar.

Mayck deu um passo e adentrou a cabana. Tentou controlar sua respiração e se preparava mentalmente para o que estava prestes a ver.

O medo fez ele desviar os olhos dos corpos nus das garotas caídos no chão.

Um barulho irritante veio aos seus ouvidos, o levando a ter mais cautela por onde pisava.

No cômodo ao fundo da cabana, uma figura se remexia em uma cama, onde uma garota derramava lágrimas dos olhos sem brilho e esperança.

“Oh, um visitante?” O homem parou o ato e olhou para o lado. Ele não parecia ter mais de 20 anos.

Mayck olhou para o seu pé e reconheceu um certo uniforme. Era o uniforme da escola de ensino fundamental que ele frequentava.

“Shion-san…” Ele pronunciou ao identificar o rosto de sua antiga colega de classe.

O homem se levantou e ficou de pé próximo a Mayck, estendendo a mão direita.

“Oh, você conhece ela? Que bom. Então, quer se juntar…” Um corte parou suas palavras e sua mão caiu perto de seus pés.

“Huh?… Huh? O-o que você fez?!” Ele gritou e se afastou com a dor, segurando o pulso que derramava sangue.

Julgar do meu próprio jeito… está claro o que precisa ser feito.

A espada que lhe foi dada pela Black Room, apareceu em suas mãos e lhe serviu para fazer o que ele achava necessário.

“Como isso veio parar aqui? Bom, não importa”, ele falou calmamente.

O homem caiu no chão gemendo de dor e Mayck se aproximou dele.

“Dá até pena de sujar minha lâmina com esse sangue imundo.”

“E-espera. Eu só queria me divertir um pouco… você é homem, deve saber como me sinto, não é? Não é?!”

Tudo o que Mayck sentiu foi repugnância ao ouvir essas palavras e com um rápido manejo de espada, fez um corte no pescoço do homem que cessou o barulho que estava fazendo.

Com o trabalho terminado, ele largou a espada e andou até a cama, checando a pulsação da garota com os dois dedos em seu pescoço.

“Ela ainda está viva… ainda bem.”

Ele se retirou da cabana e foi até o barco à sua espera, voltando para onde Nikkie estava.

“Isso foi rápido”, Nikkie falou ao ver o garoto se aproximar.

“Não foi nada que demandasse muito esforço. Mas, você é horrível, Nikkie. Se vocês sabiam sobre a existência dele, por que não fizeram nada?”

“…”

“Bom que seja. Eu tenho que voltar pra casa.” Mayck passou pelo veículo com a intenção de voltar a pé. Seu rosto não mostrava a raiva que estava sentindo.

“Não se preocupe com as garotas. Nós vamos cuidar delas. Essa missão foi para medir sua capacidade de julgamento. E eu tenho que perguntar: existiam outras formas de lidar com isso?”

“Com certeza existiam. Mas eu não optaria por nenhuma delas”, ele deu de ombros e continuou caminhando e Nikkie foi atrás dele.

A espada que tinha sido largada, desapareceu como uma poeira sendo soprada.

Mayck andava em silêncio e Nikkie o acompanhava de perto, com um pequeno sentimento de culpa, mas não podia deixar afetar seu trabalho.

“Se você ficar assim com isso, não vai sobreviver por muito tempo.”

“O que você espera? Você destruiu o meu dia e quer que eu relaxe? Afinal de contas, porque a Black Room foi cuidar de um caso de polícia?”

“A Black Room só cuida de casos envolvendo IDs.”

“E?”

“Aquele homem, ele era um antigo membro da GSN. Mas acabou se do expulso por falta de lealdade.”

“Entendo.”

“Então, Mayck Mizuki”, Nikkie falou e parou de andar. “Você ainda quer fazer parte desse mundo?” Ela queria ouvir a resposta do garoto. Seria ali o momento da decisão final. Continuar ou parar. Qualquer uma das opções ditariam o resto de sua vida.

“Eu odeio esse mundo. Ele é sujo e repugnante. Se você diz que eu não vou sobreviver, é porque deve haver coisas piores nele.” Ele se virou para trás e encarou Nikkie, que balançou a cabeça em confirmação. “Então, se esses idiotas usam essa merda de poder para fazerem o que bem entendem, eu vou meter um soco na cara de cada um e ensinar pra eles como a banda toca.”

Uma brisa forte bateu e balançou os cabelos de Nikkie, para dramatizar a fala do garoto.

“Se essa é sua resposta, não tenho mais nada a dizer.”

Com isso, Mayck foi para sua casa, almejando não sair de seu quarto pelo resto do dia.

|×××|

Na escola tudo seguia normalmente, exceto pelo fato de a sala da classe B estar com quatro alunos ausentes.

“Eles faltaram no mesmo dia? Bom, eles são amigos então talvez tenham combinado de matar aula juntos.”

“Hum… e o que dois meninos e duas meninas fariam se matassem aula? Suspeito.”

Rumores desse tipo corriam pela sala de aula e os demais alunos comentavam pela escola.

Isso não passou despercebido duas garotas, que eram, relativamente, próximas a eles.

“O que será que aconteceu? Mayck-kun, Chika-san e Tsubaki-san também…” Rika mostrava uma certa preocupação.

“Sei lá. Quem se importa? Eles devem estar aprontando alguma coisa.”

“Nã-não diga isso, Runa-chan. Não pode ser algo assim. Além do mais, Shion-senpai também não veio.”

Haruna mordeu um pedaço de seu sanduíche enquanto ouvia a defesa de sua amiga.

Vendo por esse lado, realmente não fazia sentido. Era estranho colocar Shion nesse grupo, quando a garota não era particularmente próxima a eles a não ser de Hana.

“Talvez seja apenas coincidência. É isso mesmo. Só coincidência.” Rika cerrou a mão se convencendo disso.

“Se você quiser acreditar nisso, então tudo bem”, Haruna desistiu de contradizer sua amiga.

Quando terminaram de almoçar, voltaram para suas salas e aguardaram até as aulas acabarem.

Finalizando mais um dia, todos os estudantes retornavam para suas casas, em grupos ou sozinhos, aproveitando a solidão que os guiava.

“Até amanhã, Runa-chan”, Rika disse acenando.

“Sim. Até.” Haruna fez o mesmo.

O sol estava se pondo, mas o dia ainda estava quente. No caminho para sua casa, ela passou por um mercado, para comprar ingredientes para o jantar.

Se eu me lembro bem… minha mãe disse que volta um pouco tarde hoje. Então eu não preciso fazer muita coisa, ela pôs o dedo indicador na bochecha.

Passou os produtos no caixa e continuou seu caminho, sem mais desvios.

“Eu comprei o suficiente, eu acho. Espero que não seja pouco demais…” Ela andava preocupada com a quantidade de coisas que comprou.

Talvez aquilo não saciaria sua fome, mas se fosse o caso, ela poderia sobreviver com algum lanche que tivesse em casa, ou ir até uma loja de conveniência próxima.

Os segundos passavam, a luz do sol ia deixando aquele lado do planeta e o número de pessoas na rua ia diminuindo. As luzes dos postes começaram a trabalhar e Haruna apertou o passo para chegar em casa.

Ela sempre tinha feito esse mesmo caminho sem problemas, mas dessa vez algo estava diferente.

Logo após seus passos, outros passos distantes seguiam no contratempo, o que deixou a garota em alerta.

Falta pouco até minha casa. Eu preciso ir um pouco mais rápido.

Ela acelerou mais um pouco e seu perseguidor fez o mesmo.

O quê? Ele está mesmo me seguindo? O que eu faço? Por favor, que não seja verdade, ela martelava.

Chegou em frente a sua casa e entrou pelo portão rapidamente e a pessoa que estava atrás dela passou direto, sem desviar seus olhos para a garota assustada.

Haruna exalou um suspiro aliviado e virou de costas.

“É melhor você se cuidar”, uma voz sussurrou em seu ouvido.

Ela sentiu seu coração errar uma batida e recuou, olhando com os olhos trêmulos para a rua. Não havia ninguém lá.

A garota correu para dentro de casa e trancou a porta.

“O que foi isso? De quem era essa voz?” Se perguntava com a mão no peito para tentar se acalmar.

Foi uma experiência ruim, por isso ela jogou sua mochila no chão e deitou-se em sua cama, desejando que fosse só um pesadelo.

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“Aah, nossa, que cansaço”, Haruki exalou um suspiro enquanto caia de barriga em um sofá. Tinha uma toalha em volta de seu pescoço, pois havia acabado de sair do banho.

Depois daquilo de ontem, nós passamos três horas recebendo bronca dos superiores e não é nem exagero, o garoto soltava suas frustrações em forma de longos suspiros.

“Eu nem fui pra escola hoje por que estava cansado… será que eles sentiram minha falta? É claro que sim. Não tem como eles não sentiram saudades de mim.”

Em sua cabeça, Haruki passava a imagem de alguém essencial na vida de seus amigos. Seus sentimentos fizeram um sorriso bobo surgir em seu rosto, mas logo se desfez.

“Quer dizer, ao menos o Mayck deve ter sentido… né?” Ele olhou para o celular em cima da pequena mesa a frente do sofá. “Heh.” Esboçou um sorriso e pegou o aparelho, fazendo uma ligação em seguida.

Tocou algumas vezes até a pessoa do outro lado da linha atender.

“O que foi?”

“Sentiu minha falta? Sentiu não é?”

“Senti sua falta no quê?”

“Eh? Como assim?”

“Eu que o diga. Do que você tá falando?”

“Peraí, Mayck-kun, você está dizendo que não percebeu que eu faltei hoje?” O garoto perguntou como se algo estivesse errado.

“Ah, isso. Na verdade eu faltei hoje também.”

“Sério? Porquê?” Haruki se sentou.

“Nada de especial. Apenas fiquei com preguiça.”

“Aah”, o garoto não ficou surpreso com a resposta.

“Bom, se é só isso, eu vou desligar. Não posso faltar amanhã também. E é bom você aparecer, viu?”

“Pode deixar.”

A ligação foi encerrada e Haruki guardou seu telefone.

“Beleza. Acho que eu vou dormir. Não acho que vou receber alguma missão ainda hoje.” Ele parou por um momento e encarou o chão.

“Eu sinto que estou um passo mais próximo do meu objetivo. Espere por mim, assassino de merda. Esse tem sido o meu principal objetivo desde aquele dia. Eu juro que vou te fazer pagar”, ele declarou, enquanto uma imagem vinha a sua mente.

Seu pai caído no chão, várias faíscas corriam pelo corpo de uma pessoa que os observava de pé e logo depois, se retirando.

A aura do garoto se tornou sombria e seus olhos alegres a pouco tempo atrás refletiam apenas ódio. Ódio que sentia em relação a pessoa que destruiu sua vida.

“Agora”, seu rosto mudou outra vez. “Vamos dormir, porque o cara não é de ferro.”

Ele foi para o seu quarto, pronto para apreciar uma boa noite de sono depois de um dia inteiro deitado na cama.

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Depois de algumas horas na ala médica, Ruby pôde retornar para seu dormitório, pois estava exausta com o dia cheio que teve.

Perdemos um membro e ganhamos outro. Além do mais, um conhecido. Será que as coisas podem piorar? Talvez eu realmente não seja uma boa líder, Clair-senpai.

Uma melancolia consumia o coração da garota e ela se lamentava pela morte de um membro da sua equipe, a equipe que foi confiada a ela por mérito próprio.

O time Delta era um time que foi formado por várias pessoas importantes da organização. Sempre que uma pessoa saía, ela indicava o seu companheiro mais confiável para próximo líder, por isso, perder um dos membros era uma punhalada fatal.

Será que alguma coisa vai mudar? Não. Não vai. Será como sempre. Eles vão cremar o corpo dele e colocar outro portador em seu lugar. Isso sempre aconteceu. Não tem porque ser diferente agora.

Os pensamentos da garota a impediam de ouvir uma batida na porta, o que a tirou de seu transe em um pequeno susto.

“Quem é?”

“Sou eu, Isha. Você tem um momento? Ruby.”

“Tudo bem.” A garota se levantou e abriu a porta.

Do outro lado, encontrou uma Isha cabisbaixa, com um olhar de culpa em seu rosto. Seu pijama mostrava que ela já tinha ido ao seu quarto, mas não conseguiu dormir. Seus cabelos caídos pelo seu rosto, mostravam sua timidez.

“Aconteceu algo?” Ruby deu andamento ao assunto óbvio.

“É que… eu queria conversar com você um pouco. Está tudo bem Ru-, não, Chika-san”, ela disse com um pouco de receio, olhando para o lado.

“Tudo bem, Isha. Entre.”

A garota acenou com a cabeça e movimentou seu corpo lentamente pela porta. Chika deu-lhe permissão para se sentar na sua cama.

“Você está preocupada, né?”

“Bom… sim. Eu estive pensando e percebi que foi por minha culpa que aquilo aconteceu.”

“Com Flame?”

“Sim. Foi minha habilidade que fez ele derrubar o controle… eu matei ele. É tudo minha culpa.”

Não aguentando manter esse sentimento, lágrimas escorreram pelo rosto de Isha. A memória de ter atacado seu companheiro ainda estava fresca em sua memória.

Chika descansou a cabeça da garota em seu peito e correu a mão por seus cabelos.

“Não é culpa sua. Eu não tive informações do inimigo, então eu negligenciei meu trabalho como líder.”

“Não… eu fui descuidada e isso me fez um alvo fácil para o inimigo usar. Minha fraqueza fez eu matar meu companheiro. Eu sou uma pessoa inútil que não tem força para evitar algo assim”, ela se convencia.

“Você acha… que o Flame vai me odiar por isso? Eu sempre reclamava com ele por tudo… Será que ele me odiou até o final?”

O pranto dela era visível, seus olhos tremiam e ela apertava as mãos em cima de seus joelhos.

“Ele não te odiou, Isha. Flame podia ser arrogante e egoísta, mas eu tenho certeza que ele nunca te odiou.” Ela segurou a mão trêmula de sua amiga.

“Sabe, eu tenho um amigo na escola que não liga pra nada, mas ele tá sempre se preocupando com seus amigos do jeito dele.” Ela sorriu levemente.

“Mesmo que ele fique irritado com as brincadeiras idiotas, ele está sempre por perto. Nesse mundo em que nós estamos, é inevitável se despedir de alguém importante. É doloroso, eu sei, mas se olharmos para trás e aceitar que não temos mais força, só vamos nos machucar ainda mais.”

Chika sentia essa dor tanto quanto Isha. Ela segurou os ombros da garota e olhou em seus olhos.

“Então é melhor se levantar e continuar de pé, lutando para proteger quem você quer ao seu lado.”

“Você pode estar certa, mas…” ela elevou um pouco seu tom de voz. “Como eu posso seguir em frente assim? Eu não sou forte como você, Chika-san, eu sempre banco a durona, mas o que eu realmente sou… eu sou apenas uma criança que tem medo de encarar o próprio destino.”

As lágrimas dela eram iluminadas pela luz do pequeno abajur, que estava em cima de uma escrivaninha.

“Eu não posso dizer como você tem que seguir em frente. Você tem que achar sua resposta sozinha. Isso não quer dizer que você tem que se isolar de todos, mas você deve encontrar a sua força naquilo que te faz bem.”

Chika passou seu polegar na bochecha dela, impedindo a passagem das lágrimas.

“Eu estou aqui com você. Stella e Keize também. O time Delta permanecerá unido, não importa a situação. Tudo o que temos que fazer é levantar a cabeça e ficar de braços abertos para o novo membro que teremos no time e nos esforçarmos para que o que aconteceu com Flame não se repita.”

Frente aos olhos verdes e vivos de Chika, Isha esboçou um leve sorriso. As palavras confortaram o coração da garota e deram um pouco de coragem para que ela conseguisse avançar.

“Tem razão. Você está certa. Tenho que me esforçar, não é?”

Chika retribuiu o sorriso.

“Desculpe por tomar tanto do seu tempo e obrigada”, Isha disse e se levantou. “Boa noite, Chika-san.” Cumprimentou a garota e saiu, voltando para seu quarto.

Estando sozinha, Chika exalou um suspiro e se deitou, colocando o braço direito em cima de sua cabeça.

“Essa garota… que sensível. Parece que eu tenho que me esforçar mais também… Pelo bem deles.” Com um sorriso solitário, ela apagou o abajur e encerrou o dia.

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Hana caminhava pela calçada com uma pequena bolsa em sua cintura. Ela andava tranquilamente, passando por várias pessoas quando um cartaz lhe chamou a atenção.

Uma sorveteria estava vendendo, por tempo limitado, um novo sabor de sorvete e a garota logo se interessou.

Entrou no estabelecimento, se sentou em uma mesa vaga e esperou ser atendida. Em alguns poucos minutos, uma garçonete gentilmente se aproximou dela com um bloquinho de anotações em mãos.

“Boa tarde. O que gostaria de pedir?”

“Boa tarde. Eu quero esse novo sabor por tempo limitado.”

“Certo. Aguarde um pouco”, a garçonete falou e se afastou levando o pedido.

O sol estava forte, então era o clima perfeito para um bom sorvete.

Hana observava as pessoas e os veículos passarem de um lado para o outro e em sua mente se passavam todas as coisas que aconteceram desde o início das aulas.

Yang retornou, Mayck estava prestes a utilizar sua ID novamente, a explosão da noite passada e vários outros contratempos que surgiram de repente.

Eu sabia que não seria fácil… mas isso está cada vez mais difícil. Será que eu vou aguentar tudo isso?

Há cinco anos, Hana jurou a si mesma que protegeria seu amigo. Jurou evitar a todo o custo que ele se envolvesse nesse mundo absurdo.

Eu acabei falhando nisso, a garota pensava olhando para duas crianças correndo na calçada e sentia uma amargura. Se eu tivesse sido mais atenta a ele, talvez eu pudesse ter evitado. Mas… o que será que fez ele voltar assim, do nada?

Como Mayck retomou seus poderes ainda era um mistério para a amiga de infância. 

O cenário terrível que ela queria evitar estava ficando cada vez mais próximo e não havia nada que ela pudesse fazer para impedir. 

Não. Eu ainda tenho tempo. A partir de amanhã, eu vou grudar nele como nunca e vou prestar atenção a qualquer sinal que sua ID possa mostrar. A garota involuntariamente deu um sorriso e cerrou o punho.  

“Com licença. Aqui está seu pedido.” A garçonete retornou com uma taça de três bolas de sorvete. 

“A-ah! Sim. Obrigada.” Com o aparecimento repentino da mulher, Hana não pode evitar de se assustar. 

Deixando seus pensamentos de lado, era hora de saborear o delicioso sorvete misto de menta, baunilha e morango. 

Ela era uma grande fã de doces, o completo oposto de Mayck. Então qualquer oportunidade de ingerir açúcar que aparecesse, Hana aceitaria sem hesitar. 

Com um pouco de suspense, ela levou a pequena colher com um pouco do conteúdo até sua boca. 

Um brilho passou nos olhos da garota. 

Que delícia! O doce do morango, o sabor neutro da baunilha e a menta refrescante! Que combinação perfeita. Essa é uma verdadeira obra prima.

Encantada com aquela sensação, Hana sorriu alegremente e terminou de saborear o conteúdo. 

A garota ficou insatisfeita com o fato de ter terminado rapidamente, mas impediu a si mesma de comprar outro daquele. 

Quem sabe algum dia tenha novos sabores. Talvez eu devesse convidar as meninas algum dia. 

Ela pagou sua conta e saiu do estabelecimento depois de uma experiência que, para ela, foi uma das melhores do ano. 

Mas depois de sair de seu mundo de doces e bolos, Hana encarou a realidade e colocou seus pensamentos no lugar. 

Não tinha como um evento tão grande quanto o do dia anterior não ter consequências. 

A Strike Down poderia requisitar sua presença a qualquer momento, então deveria estar preparada a toda hora. 

Como o sol já estava perto de se pôr, ela decidiu parar em um parque e se sentou em um balanço. 

Uma leve brisa de primavera bagunçou seus cabelos escuros e deu espaço para a luz do dia atacar seus olhos vermelhos. 

“Eu preciso fazer algo logo, se não… ele vai se machucar de novo. Mesmo depois da chance que eles me deram, eu…” 

Ela exalou um suspiro.

“Faz um bom tempo que eu não faço isso”, falou e levantou sua mão direita. 

Sobre ela, um pequeno cristal vermelho se formou e começou a girar lentamente. 

“Moldar.” Depois de dizer essas palavras, o cristal brilhou e se transformou em um pequeno pingente em forma de pássaro.

“Essa foi a primeira coisa que eles me ensinaram a fazer… agora eu posso fazer coisas muito maiores.” A garota nostálgica olhou para cima. 

Às nuvens andavam devagar, enquanto a brisa soprava gentilmente. 

“Me espere, Mayck. Eu vou salvar você.” 

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