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Eu não sabia o motivo de todas essas coisas estarem acontecendo, mas eu sabia que foram, de certa forma, algo necessário para o meu crescimento como pessoa. 

Logo depois de sairmos do aeroporto, nós fomos para a casa de uma amiga de infância do meu pai e de Masato. 

Eu fiquei calado o caminho inteiro, já que não sabia como me comunicar com ninguém além do meu pai e, sinceramente, eu não me importava se alguém falasse comigo ou não. 

Pegamos um táxi, que levou 30 minutos até a estação. 

Depois de sairmos do carro, caminhamos por cerca de 15 minutos até a casa. 

Quando chegamos, eu confesso que fiquei admirado com a casa. Ela tinha um design diferente de todas as casas que eu tinha visto no Brasil e não era só ela, todas as casas que eu vi no trajeto eram bem bonitas. 

Masato foi em frente e tocou a campainha. Em alguns segundos uma voz feminina respondeu e abriu a porta. 

Eles se cumprimentaram e eu fui obrigado a fazer a mesma coisa. Mesmo que eu não dissesse nada, meu pai me instruiu a fazer uma certa reverência. 

Eu só consegui fazer porque segui o exemplo de Hana. 

A família que nos recebeu era bem acolhedora e gentil. 

Eu não tive problemas para ficar por lá. O problema real era a escola. 

Meu pai me passou todas as informações que eu deveria saber. 

Eu pensei que era tudo problemático demais. Como eu iria aprender outro idioma se eu nem sabia a língua da minha terra natal direito?

Querendo ou não, eu fui. 

O primeiro dia de aula foi complicado, Asami Nakamura, que estava cuidando de mim, me levou até a porta da escola. 

“Vai ficar tudo bem”, ela falou pra mim. 

Eu não entendi, mas pelo sorriso dela, pensei que estava me encorajando. 

Entrei e me dirigi até a sala, onde ficaria pelos próximos seis meses. 

Como eu esperava, não consegui seguir o ritmo da aula, mas aprendi alguns números em japonês. 

No fim da aula, algumas crianças me rodearam e me encheram de questões, mas eu não pude responder nenhuma delas. Eu acho que elas ficaram frustradas por isso, porque, no segundo dia, ninguém se aproximou de mim, pelo contrário, eu virei alvo de bullying. 

Foi o pior cenário, mas não é como se eu não tivesse imaginado algo assim. Minha natureza era um tanto pessimista, então eu acabei não ligando muito, mas o assédio diário era irritante demais. 

O grupo era liderado por duas pessoas, um garoto e uma garota. 

Seus nomes eram Saki Ito e Ren Yamazaki. 

Eu marquei esses dois para ter certeza que os faria pagar por todos os insetos mortos que eles colocavam no meu almoço, além de sujarem meus cadernos com suco. 

Eu passei meus seis meses naquela tortura.

Ao final desse tempo, meu pai havia terminado todos os preparativos e nós nos mudamos. Com isso, eu fui transferido de escola. 

Durante o tempo que passei naquela escola, eu aprendi a cumprimentar e não só fazer uma reverência. 

Mas eu não quis fazer amigos. Apenas queria passar o meu tempo sozinho. Eu já tinha meu pai, então pensei que não precisava de mais nada. 

Hana vinha brincar comigo todos os dias e me tirava de casa contra a minha vontade, mas eu não odiei ela por isso. Eu sabia que, no fundo, ela se importava comigo. 

Sempre quis negar, mas eu me sentia um pouco solitário, porém, nunca falei sobre nada com ninguém. Depois da morte da Alana, eu aprendi a reprimir meus sentimentos. 

Inconscientemente, eu me culpava por todos os problemas que eu tinha e isso me tirou qualquer vontade de tomar decisões sozinho ou me importar com os outros.

Eu deveria parabenizar Hana por ter conseguido lidar comigo, que não demonstrava nenhum sentimento por nada e nem ninguém.  

Eu me afundei e uma coisa levou a outra. 

No escuro, acenando para mim, eu vi Alana. 

“Há quanto tempo, hein.”

“O que você está fazendo aqui?” Eu acho que fiquei feliz, mas não tinha certeza no momento. 

“É tão ruim assim eu vir te visitar?” Ela perguntou com um sorriso enorme. 

Mais que ruim, era super estranho. 

“Você se sente sozinho, né? Então eu vou brincar com você.”

“Mas eu não quero brincar…”

“Deixa disso. Sua irmã mais velha vai te fazer companhia quando você precisar.”

A partir desse dia, Alana aparecia em meus sonhos e nós passávamos horas e horas brincando e conversando. 

Isso durou por muito tempo e uma nova figura apareceu. 

“Quem é você?” Eu perguntei.

“Um amigo… ou uma amiga?”

“Qual dos dois?”

Alana riu e abriu a boca. 

“Deixe-me apresentar. Essa aqui é a Chave.”

“Chave? Esse é o seu nome?”

“Isso mesmo. Eu sou Chave.”

Era confuso, mas eu aceitei. 

Sempre que estava sozinho, elas me faziam companhia. Apesar de eu não saber se Chave era um menino ou uma menina, já que eu não conseguia ver sua forma e nem seu rosto, mas eu não me importava com isso. 

Os dias se passavam e quando me dei conta, estava sempre esperando que elas viessem para me fazer companhia. 

Em um certo dia, eu estava indo para a escola como sempre. 

Quando eu me aproximei dos portões, notei uma garota sentada próxima ao muro do colégio de cabeça baixa. Eu não me importei e segui meu caminho. 

Durante duas semanas, eu vi essa garota no mesmo local e da mesma forma. 

“Mayck, porque você não pergunta o que aconteceu?” Alana perguntou. 

“Não é da minha conta. Porque eu deveria me meter na vida dela?”

“Você não sente pena dela? Ela está sempre lá, como se estivesse esperando alguém.”

“Não há nada que eu possa fazer.” Eu me mantive firme na minha decisão. 

Contudo, Alana não aceitou o meu comportamento e se juntou com a Chave para me convencer a falar com aquela garota. 

Eu consegui resistir no começo, mas elas ameaçaram ir embora. Durante o tempo que passei com elas, não era errado dizer que eu adquiri um apego emocional a elas. 

Eu falava para mim mesmo que elas eram as únicas que estariam comigo em qualquer momento e me tornei dependente delas. 

Com o medo de ser abandonado, eu cedi, e no dia seguinte fui falar com a garota. 

Ela estava lá, no mesmo local, com a mesma posição. 

Eu me perguntava o que havia acontecido. 

“Com licença, o que aconteceu?”

No começo eu tive medo de não conseguir me comunicar muito bem. Ainda havia algumas palavras em japonês que eu não conseguia pronunciar ou não me lembrava direito. 

A garota não me respondeu. 

Se ela não queria falar então eu iria embora, mas fui pressionado a continuar tentando. 

“Você se perdeu? Ou está esperando alguém?”

Dessa vez, ela balançou a cabeça em negação. 

Não estava esperando ninguém e nem estava perdida… O que era afinal?

Eu vi que tudo aquilo seria um trabalhão, cogitei abandonar a missão e entrar na escola. 

Você não pode. E se ela estiver mentindo e com medo? As vozes da Alana e da Chave ressoavam em minha cabeça. 

As crianças que passaram por perto observaram aquela cena, mas, simplesmente, deram as costas e seguiram seus próprios caminhos. 

Não sabia se tinha feito certo ou não em falar com ela, contudo, ela não parecia aberta a conversas. 

Se eu fosse embora, aquelas duas continuariam no meu pé, mas, por ora, eu vou fazer uma retirada estratégica. 

No fim do dia, a garota continuava lá, parada. Por um momento eu pensei que ela era um fantasma, já que ninguém a olhava. 

Hesitei em me aproximar dela. Respirei fundo e tomei o caminho de casa. 

No dia seguinte e no próximo foi a mesma coisa. 

“Ei, o que há com você?”

Se não fosse pelo tormento causado pelas duas vozes na minha cabeça, eu teria apenas jogado tudo para o alto. 

Mas, diferente das outras tentativas, dessa vez ela levantou a cabeça e me olhou. 

Naquele momento eu senti que foi um grande avanço. 

“Qual é o seu nome?” Eu aproveitei a oportunidade e experimentei perguntar sem fazer pressão. 

“…” Ela moveu os lábios, mas sua voz foi tão baixa que nem com a orelha próximo a ela eu não ouviria. 

Eu esperei ela repetir. Levou uns 20 segundos até que eu pudesse ouvir. 

“Kin…”

“Kin-san, né? Então, o que você está fazendo?” Continuei. 

“Fugindo”, ela falou. Sua resposta foi tão fria, que eu pensei que era sarcasmo. 

“Fugindo de quê, exatamente?”

Fiquei confuso. Era a primeira vez que eu via alguém fugindo parado. 

“Eu não posso me mover, se não eles vão me encontrar.”

Não ajudou. Eu inconscientemente inclinei minha cabeça e expressei minha confusão em meu rosto. 

O que eu faço? Ela deve ser louca. 

“Bom, de qualquer forma, você não pode se mover, não é?”

Ela assentiu. 

“Então espere um minuto-“

Eu pensei em fugir, mas fui interrompido pelo seu estômago roncando. Ela virou a cabeça, mas pude perceber seu rosto ficando vermelho. 

Eu me levantei e fui até uma vendinha na esquina. Comprei um pão de melão e levei até ela. 

Decidi não perguntar há quanto tempo ela não comia, mas seus olhos brilharam e ela comeu o pão em menos de três minutos. Sua barriga continuou roncando, no entanto. 

“Quer vir até minha casa?” Eu perguntei tão sinceramente, mas o olhar de desprezo que foi direcionado a mim foi como uma faca perfurando meu coração. 

“Eu… sei cozinhar”, completei. 

Sua feição mudou e seus olhos brilharam. 

Suspirei e pensei se tinha tomado a decisão correta. 

“Mas eu não posso ir”, ela insistiu. 

“O motivo?”

“Se eu sair do lugar, eles vão me encontrar e, aí, você vai ter problemas.”

“Eu não me importo.” 

Não acho que alguém possa me perturbar mais do que essas duas. 

“Você tem certeza?”

“Hm.” Eu acenei com a cabeça. 

“Eles podem te machucar…”

“Se não quiser ir, eu não posso fazer mais nada.”

Eu comecei a andar e a deixei para trás, mas notei ela me seguindo de longe. 

Quando chegamos em casa, eu instruí que ela lavasse as mãos, mas assim que eu me distraí, ela decidiu tomar um banho, contradizendo a própria atitude dela quando a convidei antes. 

Preparei o que dava com os ingredientes disponíveis e apressei-a para terminar. 

Aparentemente ela estava confortável durante o banho. 

15 minutos depois, ela saiu e eu emprestei algumas roupas a ela. Logo em seguida, a comida sobre a mesa desapareceu. 

Você tem bastante apetite, hein.”

“Já fazem alguns dias que eu não como”, ela disse timidamente. 

Como você tem sobrevivido então?!

Deixando essa questão de lado, eu tinha que pensar no que fazer com ela. Enquanto eu pensava, deixei ela jogar no videogame que eu tinha, para não ter confusões em casa. 

No começo, ela tinha sido fisgada pelos jogos, mas não durou muito tempo; em apenas alguns minutos ela já estava entediada.

“Eeei, vem brincar comigo.”

“Eu não posso. Preciso pensar no que fazer com você.”

“Mas é tão chato ficar sem fazer nada.”

“Assista televisão ou algo assim. Não podemos bagunçar a casa.”

“Aaaah, mas eu não quero.”

Ela começou a se revirar no chão, reclamando sem parar como uma criança em um supermercado. 

“Mas que saco. Fique quieta.”

“Eu não quero, vamos brincar!”

Ela era tão irritante que eu acenei cedendo. 

As brincadeiras foram variadas. Foram de um simples esconde-esconde para uma perseguição policial. Chegou um momento em que eu não aguentava mais. 

Eu caí no chão e aproveitei para descansar. 

“A gente nem brincou e você já está assim?” Ela olhou por cima da minha cabeça. 

“Como não brincamos… Você não sabe o que é parar quieto?” Eu tentei repreendê-la, mas estava muito ofegante.  

“Você é fraco, né? Eu sou mais forte do que você.”

“Do que tá falando?”

“Olha só.” Ela se afastou e parou de se mover. 

Eu me levantei do chão um pouco confuso e a observei. 

“Eu só vou fazer uma vez, tá bom?”

Sem entender, eu assenti. 

Ela fechou os olhos e levantou a mão direita na direção da pilha de livros espalhados pela sala. 

Eu não sabia o que ela pretendia com isso, mas permaneci quieto. 

Em alguns segundos, os livros começaram a flutuar e a girar, conforme ela movia as mãos. 

Aquilo me surpreendeu. Eu fiquei tão chocado que não consegui abrir, ou melhor, fechar a boca. 

Os livros caíram e ela voltou sua atenção para mim. 

“Tá vendo? Eu só tenho oito anos e já consigo fazer isso.”

“Ma-mas o que é que você fez? É algum truque?”

“Uhum, não é truque.”

“Então, o quê-“

“Os adultos chamam de ID. Todas as crianças que moram comigo tem uma.”

“Como assim?”

“Você não tem? Que estranho. Eu pensava que todas as crianças tinham…” Ela colocou o indicador nos lábios e franziu a sobrancelha. 

“Quem está mais intrigado aqui sou eu. O que é ID?”

“Eu não sei bem… Mas eu sei que é meu poder.”

Eu queria fazer tantas perguntas, mas percebi que ela não seria capaz de respondê-las, então decidi que seria melhor guardar as minhas dúvidas para mim. 

Pelos menos o mistério da comida foi solucionado, mas eu não conseguia conter o quão abismado e curioso estava. 

De repente, eu ouvi a campainha tocar. 

“Espere aqui”, eu disse a ela e fui até a porta. 

Olhei pelo olho mágico e, do outro lado da porta, vi Hana de braços cruzados com um olhar irritado em seu rosto. 

Seria melhor esconder ela?

“Kin-“

Eu ia falar para ela se esconder em algum lugar, mas ela me passou como um flash e abriu a porta. 

“Quem é?!” Ela gritou com entusiasmo. 

Tudo o que eu pude fazer naquele momento era esconder meu rosto com a palma da minha mão, enquanto me lamentava pelo comportamento da garota.  

Hana estava visivelmente confusa e surpresa. 

|×××|

Não teria como eu enrolar, então simplesmente expliquei como as coisas eram. 

Hana ficou um pouco hesitante em aceitar aquilo, mas depois deu tudo certo. 

“Então, agora eu vou tomar um banho. Cuide um pouco dela, Hana.”

“O quê? Agora vai jogar o trabalho pra mim?”

“Eu já fiz demais hoje. Vai negar um pedido do seu melhor amigo?”

Eu olhei para ela com olhos de sinceridade e por algum motivo sempre funcionava quando eu dizia essa frase. 

“Eu vou ficar só por um tempo.”

“Ebaa! Vamos continuar brincando.” Kin gritou entusiasmada e pulou sobre Hana a abraçando. 

“Espera, assim eu vou cair-“

Como ela havia predito, as duas tombaram, mas eu não me importei e me encaminhei para o banheiro. 

Depois de um banho quente e confortável, eu me troquei e subi para o meu quarto. 

Quando abri a porta as duas estavam dormindo confortavelmente sobre a minha cama. 

“Dormiram aí?”

Eu me perguntei isso porque não sabia onde eu poderia me deitar. 

Deixei as duas em paz e desci para a sala. 

Naquela situação eu não sabia o que fazer. Deveria contar com a ajuda de um adulto? Ou então deveria manter Kin escondida em algum lugar?

A segunda alternativa não parecia boa, então decidi pedir a ajuda de alguém. 

Eu não queria apenas mandar Kin voltar para a rua e também estava intrigado com o que ela havia feito antes. 

Ela falou que tinha alguém atrás dela… Será que são seus pais?

Sem nenhum tipo de prova, eu não poderia fazer nada. 

Talvez meu pai compreenderia se eu dissesse a situação dela a ele, mas, com certeza, seria feita uma busca por seus pais e Kin não mencionou nada sobre eles. 

“Você não vai dormir…?” Uma voz sonolenta se aproximou de mim vagarosamente. 

“Hm? Eu te acordei?”

Olhei para o lado e vi Kin coçando os olhos. 

“Uh-uh”, ela negou. 

“Entendo. Escuta, seus pais não vão ficar preocupados? Já faz bastante tempo que você está fora de casa, não é?”

“Pais?” Ela inclinou a cabeça parecendo confusa. “Eu não tenho isso.”

“Hã?” A resposta me pegou de surpresa, mas se ela dizia isso com tanta calma, eu não conseguia suspeitar de que era mentira. 

“Então, onde você esteve esse tempo todo?”

Ela deu um soquinho na cabeça e começou a pensar em uma resposta. Logo ela abriu a boca. 

“Não sei. Mas eu pensei que tinha que fugir de lá quando tive a chance.”

“Porque fugiu?” 

Eu pensava que ela morava em um tipo de orfanato, ou algo assim. 

“Eles eram malvados.”

“Eles eram malvados ou você era desobediente?” Eu falei isso sem pensar duas vezes. 

No momento, pra mim não era nada demais, mas ela fechou a boca e mordeu os lábios. 

“Não é isso… eu…”

“Se você era uma má garota, então não culpe os que cuidaram de você.”

O clima rapidamente pesou. Eu pude sentir sua mudança de humor. 

Uma lágrima escorreu por seu rosto e ela me olhou com muita raiva, enquanto apertava a camiseta que eu emprestei a ela. 

“Cala boca, seu idiota. Você não sabe de nada. Eu sempre fui uma boa garota!”

Deixando para trás essas palavras, que mais pareciam um aviso, ela correu de volta para o quarto. 

Eu pude ver em primeira mão a sua personalidade, então fiquei surpreso com ela gritando dessa forma. 

Hana, que havia acordado depois dela, desceu as escadas. 

“O que aconteceu? Kin-chan acabou de passar por mim chorando.”

“Não é nada.”

“O que você fez com ela, hein?” 

“Já disse que não fiz nada.” 

Hana se aproximou de mim e deu um chute na minha perna. 

Foi forte o bastante para eu ter que abafar um grito. 

“O que você tá pensando?”

“Você tem que pedir desculpas a ela, idiota.”

“Hã? Por que se eu não fiz nada com ela?” Eu estava confiante de que estava certo. 

Hana rangeu os dentes e me empurrou. Acabei caindo no sofá, então não me machuquei. 

“Você é sempre assim. Pensa que está certo o tempo todo. Se você não pedir desculpas a ela, eu nunca mais falo com você.”

Eu e Hana sempre brigávamos, mas, de certa forma, dessa vez não parecia uma simples briga entre amigos, eu sentia isso. 

Desviei meus olhos e ignorei o que ela estava falando. 

Ela ficou irritada e subiu as escadas em passos pesados. Logo depois, ela desceu junto com Kin e saíram de casa. 

Aparentemente, Hana tinha decidido que Kin passaria a noite com ela em sua casa. 

Eu dei de ombros e voltei para o meu quarto. 

Estava prestes a dormir até que ouvi as vozes em minha cabeça. Fechei meus olhos e minha consciência foi parar naquele mundo branco. 

Lá estavam Alana e a Chave. 

Elas pareciam descontentes e eu pensei na possibilidade delas estarem com raiva pelo menos motivo que Hana, mas, mesmo assim, decidi perguntar. 

“O que há com vocês duas?”

“Mayck, não pode ser rude com as meninas”, Alana falou com as mãos na cintura. 

“Isso é ruim, Mayck”, a Chave completou. 

“Mas se ela fugiu, então ela está errada, não é? Seus pais ficariam preocupados.” Eu me defendi. 

“Isso se ela fosse uma criança normal assim como você.”

“Você ouviu ela dizendo que não tem pais, não ouviu?”

Parecia que essa discussão não iria acabar tão cedo. 

“…”

“Não fique em silêncio agora. Você tem que aprender a pensar nos sentimentos dos outros. Se continuar assim, você vai acabar sozinho.”

“Eu não me importo. Meu pai está comigo.”

“Então você planeja deixar seu pai triste?”

“Que? É claro que não. Eu nunca quero deixar meu pai decepcionado. Por isso eu sempre vou fazer certo.”

Alana suspirou e se aproximou de mim. 

“Escuta, Mayck. Ninguém pode estar sempre certo. Todos os seres humanos falham. Você não é diferente. Tente entender como Kin-chan se sente e peça desculpas por ter sido ruim com ela.”

Eu não queria aceitar isso, mas, no fundo, eu sabia que estava errado. 

“Eu não prometo nada”, falei, por fim. 

Alana e a Chave riram levemente. 

No dia seguinte eu me levantei cedo, pois era hora de ir para escola. 

Não era de se surpreender que Hana me ignorou o dia inteiro. 

Eu passei o tempo todo pensando em como poderia me desculpar com ela, embora eu não quisesse parecer arrependido. 

No final do dia, eu apenas queria me justificar. Eu tinha plena ciência que estava sendo egoísta, no entanto, eu não fiz nenhum esforço para inclinar meu coração a ela. 

Quando eu estava indo embora, passei por um parquinho. 

Havia cinco crianças lá. Quatro meninos e uma menina. 

À primeira vista, eles não pareciam estar juntos e à medida que eu me aproximava, conseguia entender suas palavras. 

“Fique quieta, sua feiosa. Você não tem que se meter.”

“Vo-vocês não podem machucar ele. Ele é muito pequeno”, ela falou com sua voz trêmula e lágrimas se formavam em seus olhos. 

Pelo rumo da situação, eu pude entender que os três garotos estavam arrumando briga com uma garotinho de, aparentemente, quatro anos. A diferença de idade era muito grande. 

A única garota do grupo parecia defender ele, embora eu não pudesse saber o motivo da briga. 

Eu só queria ignorar. 

“Se você faz algo errado é só pedir desculpas e ele já fez isso.”

O que ela disse me fez parar e pensar um pouco. 

Porque só pedir desculpas era o suficiente? Cada ação ruim merece uma punição, não é? Eu refleti sobre isso. 

“Não importa se ele já pediu desculpas. Ele tem que aprender a não fazer isso nunca mais. Sai da frente.” 

O garoto maior dos três empurrou a garota que caiu no chão. 

Se as más ações merecem ser punidas, então o mesmo não se aplicava a mim?

“Você vai ver só.” 

Ele levantou o punho e preparou um soco para o pequeno garoto que estava chorando, assustado com a situação. 

Eu peguei uma pedra e a arremessei na mão dele, sem muita força para não machucá-lo. Ainda que eu tivesse decidido interferir, eu ainda queria manter problemas longe de mim. 

O garoto reclamou da pedra e voltou sua atenção para mim. 

Eu me aproximei deles lentamente. 

“Seu idiota. O que você pensa que está fazendo?”

“Não é justo se forem vocês três a bater em um garoto menor.”

“Cala a boca. Isso não é da sua conta.”

“Não me interessa. Eu não vou deixar vocês machucarem ele.”

A filosofia de vida do meu pai me afetou seriamente. Eu acabei sendo influenciado pelo seu senso de justiça. 

Ele sempre me dizia que pessoas fortes deveriam proteger pessoas mais fracas, mas nunca se sentir superior a elas. 

Eu sempre pensei que tudo era um pé no saco, mas ele tinha razão. 

Os três garotos me rodearam e começaram a lançar ameaças contra mim. 

“Parem. Vocês não podem brigar.”

Mesmo assustada e com lágrimas em seus olhos, a garota se pôs entre mim e os garotos. 

Porque mesmo fraca ela se meteu? Nesse momento, eu aprendi que ninguém é, necessariamente, fraco. Elas apenas têm medo de se impor nas horas que precisam. 

“Eu já disse pra sair da frente!” O líder dos garotos gritou e balançou os punhos contra a garota na minha frente. 

Em um rápido movimento, eu peguei seu punho e girei seu braço para as costas, o derrubando no chão, deixando-o imobilizado. 

Tomei cuidado para não ter nenhum ferimento grave. 

Os outros dois, mesmo perplexos com a situação, avançaram contra mim. 

“Se vocês não pararem eu vou quebrar o braço dele”, eu ameacei e coloquei um pouco de força para que ele gritasse. 

Ao ouvir o grito, os dois se afastaram. 

“Me solta, idiota.”

“Se eu te soltar você vai embora?”

“Não te interessa-“

Como ele não parecia ter entendido meu aviso, eu coloquei mais força. 

“Tá bom, tá bom. Eu vou embora. Me solta, por favor!”

Ele não conseguia aguentar mais a dor. 

Cauteloso, eu larguei seu braço e me afastei. 

Os dois que assistiam a cena ajudaram seu amigo a se levantar e começaram a correr, soltando ameaças e com lágrimas nos olhos. 

“Rika-oneechan!” Com a saída do perigo, o garotinho correu ainda em prantos e abraçou Rika. 

Eu os observei por um momento, mas logo me adiantei e estava para sair. 

“Ei, com licença…”

Eu me virei e olhei para eles novamente. 

“É… bem… Muito obrigada.” Timidamente, a garota abaixou a cabeça e agradeceu. O garoto seguiu o exemplo. 

“Obigado.” 

“Tá tudo bem”, eu falei sem nenhum sentimento em especial. 

“Vamos embora, Hiro-kun.”

“Hm.” Os dois correram e saíram do parque. 

Eu me virei e continuei meu caminho. Quando cheguei na calçada, notei que alguém espreitava por trás de um poste. 

“O que você está fazendo?”

Talvez surpresa por eu ter notado, Kin se assustou e começou a mover as mãos nervosamente. 

“Eh?! Não, eu não estava te seguindo. Eu só estava passando…”

Eu tinha me decidido antes, então pensei que aquele era o momento perfeito. Se eu não fizesse agora, não faria nunca mais. 

Eu andei na direção dela, inclinei meu corpo para a frente e abri minha boca. 

“Me desculpa… por ter falado daquele jeito com você ontem.”

“Uweh?! Não, não precisa se desculpar… levanta a cabeça, tá bom?”

Ela não parecia acostumada a receber pedidos assim, já que se desesperou completamente. 

Eu levantei minha cabeça e olhei para ela. 

“O que você está fazendo aqui, afinal de contas?”

“Ah, bem, Hana-chan me disse que voltaria da escola logo, mas ela não tinha chegado ainda, então eu…”

Nós fomos interrompidos pelo som de seu estômago. 

“Quantas vezes você comeu hoje?”

“…” Ela desviou os olhos e seu rosto corou. 

“Nenhuma, né?”

Eu exalei um suspiro e comecei a caminhar na direção de casa. 

“Eu vou preparar a janta agora. Se estiver tudo bem pra você, não me importo de preparar uma porção a mais.”

Eu não pude ver seu rosto, mas tinha certeza que ela ficou feliz. 

Ela correu até mim e nós caminhamos juntos até em casa. 

Inconscientemente, eu esbocei um sorriso sincero, algo que eu não fazia desde que Alana faleceu.

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