Selecione o tipo de erro abaixo

Estava tudo certo até aquele ponto. O sinal tocou e os alunos aprontaram-se para seguirem o final de suas rotinas; alguns para clubes, outros para casa. 

Mayck fazia parte do segundo grupo. Não havia se juntado a um clube por não ter interesse. Embora tivesse amigos que o pressionavam, ele não cedeu. 

O sol estava se pondo e uma leve brisa de primavera passava por ele, enquanto caminhava em passos lentos e calmos, sem pressa nenhuma. Seus olhos indiferentes eram sua melhor expressão de normalidade. Isso não queria dizer que ele não fazia outras expressões, mas, para ele, não havia motivos para sorrir naquele momento nem para fechar a cara. 

Por isso, sua expressão neutra era perfeita. 

Estando a apenas duas quadras de casa, seu celular vibrou em seu bolso. O garoto o pegou e checou o que era. Uma mensagem de seu pai que dizia para ele ir até um certo restaurante perto da estação. 

Podia ter avisado antes…

Mayck suspirou e quase se deixou abater. Teria que andar vários minutos até chegar no local marcado. Parecia até que estava sendo vítima de uma pegadinha. 

Sem ter o que fazer, ele deu meia volta e seguiu. 

Mayck era brasileiro. Sua aparência não era tão incomum, mas não era nada mal. Era magro, não muito alto, possuía cabelo preto em um eterno corte Ivy league, o qual, segundo ele, era o único que combinava com sua aparência. Seus olhos eram comumente castanhos escuros. 

Possuía quatorze anos e estava morando no Japão há oito, devido a alguns problemas que ocorreram em seu país de origem. 

Quando tinha seis anos, numa época de natal, alegremente ele corria com uma caixa de bolo nas mãos, que havia comprado com sua irmã, Alana. 

No Brasil, o natal era bem no verão, então não estava um clima gelado; isso era um fator importante para o garoto, que tendia a sentir frio repentinamente. 

Naquela época, seu pai, um agente da polícia, havia conseguido uma folga para passar o dia com eles, então a animação dos dois irmãos era muito grande, já que, geralmente, só viam seu pai aos fins de semana e, às vezes, uma vez por semana. Então era um momento que devia ser aproveitado. 

No entanto, o entusiasmo de Mayck era grande demais, e ele mal ouvia sua irmã que o pedia para ir mais devagar. 

“Espera… Mayck… o papai vai esperar.” Ela estava ofegante enquanto tentava acompanhar o ritmo do garoto.

“Rápido, Vai logo.” Mas seus avisos só pareciam o incendiar mais.

Eles passavam dentre a multidão com facilidade por serem pequenos, mas, mesmo que isso fosse ajudá-los a chegarem mais rápido, ainda foram confrontados pelo semáforo que estava fechado para os pedestres. 

Assim que o sinal verde apareceu, Mayck disparou novamente, sem se importar com o ambiente ao seu redor. 

Em um piscar de olhos, uma luz branca muito forte e um empurrão em suas costas. Um som alto que durou alguns segundos. De repente o garoto estava no chão. A caixa havia caído de suas mãos e o bolo foi esmagado ao atingir a calçada. 

Com seu coração tentando saltar de seu peito e completamente confuso, Mayck olhou para trás e encontrou um rastro vermelho que seguia da faixa de pedestre até a calçada, onde um carro havia invadido e se chocado com um poste. 

Contudo, também havia algo estranho: Alana não estava perto dele. 

Nenhuma palavra saiu da boca do garoto. Ele estava paralisado e trêmulo, como se tivesse sido congelado no tempo. Aos poucos, pessoas se reuniram por toda aquela área. 

Algum tempo depois, chegou a polícia e a ambulância, em suas viaturas barulhentas, que transmitiam o mais puro desespero e desencadeavam aflição por onde passavam. 

Paramédicos pegaram o garoto e o avaliaram na ambulância. A polícia isolou toda a área, afastando os curiosos e obrigando os veículos a procurarem um desvio. 

Takashi estava lá também e não conseguia tirar seus olhos da cena do acidente. 

Polícias iam e faziam perguntas ao garoto, mas ele era incapaz de respondê-las. 

Algumas horas depois, Takashi levou Mayck até a casa de sua cunhada, que, por algum motivo, não gostava nada do garoto. Nem ela, nem o resto da família. 

Naquela noite, eram normais burburinhos como:

“Esse moleque foi feito para trazer desgraça.”

“Já foi a mãe, agora a irmã. Que moleque bizarro.”

Apesar de serem coisas horríveis de se dizer de uma criança, eles falavam sem nenhum filtro ou ao menos tentavam parecer discretos. O garoto em questão ouvia tudo, mas fingia não ouvir. 

Havia outras crianças na casa, porém, por influência dos adultos, eles mantinham distância de Mayck. Mas estava tudo bem, o garoto dizia a si mesmo, ele tinha sua irmã por perto. 

Mas só até aquele dia. 

Sua mãe faleceu no dia do seu nascimento. Tudo o que sabia sobre ela era por histórias contadas por seu pai, então ele não tinha um apreço tão grande por ela. Ao invés disso, ele era muito próximo da irmã.

Alguns dias depois, o funeral de Alana foi realizado. E só aí o garoto se tocou de que havia perdido-a para sempre — foi nesse momento que suas lágrimas e soluços foram mostrados ao público. 

Com a dificuldade de absorver toda a situação, Mayck acabou se isolando na escola e perdendo amigos, que foram deixando-o de lado com o tempo. 

Takashi tinha um amigo de infância chamado Tsubaki Masato, que estava passando as férias com a família no país. Ao acompanhar a situação, ele sugeriu que os dois se mudassem para o Japão, como forma de recomeçar. 

Foi uma sugestão viável, já que Takashi era japonês, cujos pais foram para o Brasil quando ele era uma criança, então repatriar não parecia uma má ideia. 

Entretanto, além da mudança, ele teria que se transferir do trabalho. Isso, por si só, seria um processo demorado e que acabou levando dois meses para ser resolvido. 

Ao fim desse tempo, Takashi contou sua decisão ao seu filho. O garoto, porém, sentia-se culpado pela morte da irmã e acreditava que estava fazendo seu pai sofrer, devido a todas as acusações que sofreu por parte da família de sua mãe. Por causa disso, ele nem sequer cogitou a ideia de dizer não. 

Obedientemente, ele aceitou. 

O tempo foi-se passando; a casa foi tendo seus móveis vendidos e os papéis jogados na mesa só aumentavam. As malas estavam todas prontas, e ao fim de duas semanas, eles estavam preparados para partir. 

A viagem seria de avião e havia um problema: Mayck tinha medo de altura. Contudo, por mais incrível que pudesse parecer, ele não ligou nem um pouco, ou apenas aguentou a viagem pelo bem do seu pai. 

Além disso, ele reprimiu também a ansiedade de estar deixando para trás tudo o que conheceu até aquele momento e que fez parte de sua vida. Isso bagunçava seus sentimentos, de modo que ele nem sabia mais em que pensar. 

Mesmo assim, durante a viagem, Hana Tsubaki, filha de Masato, tentou ao máximo animar o garoto com pequenas ações, como dividir lanches ou apresentar jogos. Era certo dizer que ela estava cuidando dele do seu jeito… embora eles não conseguissem se comunicar devido a barreira de linguagem. 

Assim que chegaram e saíram do avião, a cabeça de Mayck só ficou mais confusa. Letras que não conhecia e palavras incompreensíveis. Parecia até um outro mundo. 

Hana o observava. Ela sabia que ele estava confuso e se divertia com isso, mas quando era o oposto, ela se sentia indignada. 

“Parece que o primeiro passo é ir até a casa, então.” Takashi falou quando eles saíram de um táxi. 

“É uma pena que não tenhamos conseguido arrumar tudo. Se vocês quiserem, podem ficar conosco por algum tempo.”

“Está tudo bem, não precisa. Reine falou que Mayck poderia ficar com ela. Enquanto isso, eu vou alugar um apartamento pequeno.” Ele acenou com a mão, agradecemos a oferta. 

“Hmm… se você tivesse me dito antes, eu não me importaria que Mayck ficasse com a gente. Tenho certeza que ele e Hana se dariam muito bem”, Tsukiko, esposa de Masato, comentou, observando as duas crianças sentadas em um banco. 

“Muito obrigado. Vocês já fizeram muito por mim. Eu agradeço.”

“Que muito o que.” Masato agarrou o pescoço de Takashi como se fosse um irmão mais velho. “Sempre que precisar, é só avisar.”

“Vou me lembrar disso.” Sorriu. 

Pegando as malas, Mayck e Takashi se despediram da família Masato e seguiram para a casa de Reine, uma prima de Takashi, onde o garoto passaria os próximos seis meses. 

Após isso, oito anos se passaram. 

Mayck chegou até o restaurante e não hesitou em entrar. Olhou ao redor e encontrou seu pai, acenando para ele de uma mesa ao fundo, junto a duas figuras. 

Quem são?

Mesmo olhando-as de costas, dava para saber que eram ambas mulheres; uma mais alta e outra mais baixa. 

Ele se aproximou da mesa e se deparou com um rosto conhecido. Tratava-se de Haruna Yukino, uma garota mais nova que ele e que estudava no mesmo colégio. Era uma beleza incomum — cabelo prateado e olhos azuis — e suas proporções não eram nada ruins. 

“Você demorou, Mayck.” Seu pai reclamou. 

“Desculpa, é que eu já estava perto de casa…”

“Bom, tudo bem. Sente-se. Eu quero te apresentar as duas. Essas são Suzune Yukino e sua filha, Haruna Yukino.” Ele apresentou as duas primeiro e depois voltou-se a elas, apresentando seu filho em seguida. 

Assim como sua filha, Suzune tinha olhos azuis e cabelos prateados. Porém, ao contrário de Haruna, ela tinha um corpo visivelmente belo, o qual denunciava que ela não era uma moça tão nova, como dizia seu rosto. 

“Prazer em conhecê-las.” Mayck fez uma leve reverência, embora já conhecesse a figura ao lado de Suzune. 

“O prazer é todo meu. Takashi já me falou de você antes, mas vejo que é um rapaz bem bonito e educado.”

“Obrigado…” o garoto sorriu gentilmente. Mas ao olhar para a pessoa a sua frente, seu sorriso se foi. Haruna o encarava como se quisesse chutá-lo dali. 

Um garçom se aproximou e recolheu os pedidos deles e os pediu que esperassem alguns minutos. 

Enquanto isso, Takashi resolveu ir direto ao assunto, após confirmar com Suzune com apenas um olhar. 

“Bem, Mayck, Haruna-chan, o motivo para termos trazido vocês aqui é porque queremos anunciar oficialmente.” Ele limpou a garganta antes de continuar. “Suzune e eu vamos nos casar.” A última linha foi dita com um sorriso enorme e vitorioso no rosto. 

Mayck parou por uns instantes, assim como Haruna, mas, diferentemente dela, que parabenizou os dois com um sorriso alegre, seus olhos foram de Haruna para Takashi e depois para Suzune. Voltando para Takashi em seguida. 

“Casamento?” Ele franziu o cenho. Não conseguiu esconder que estava bem confuso e buscou uma confirmação. 

“Isso. Eu te falei ontem, não falei? Você até me parabenizou.”

De fato aconteceu. O problema era que Mayck simplesmente estava no modo avião por causa dos eventos do dia e acabou não dando muito crédito. 

“Ah, verdade.”

“Você, hein…” Takashi balançou a cabeça em reprovação. 

Mas não era totalmente culpa do garoto. Em uma única semana do ano letivo, ele se deparou com diversos obstáculos. 

Suzune riu levemente com a interação. Haruna ainda falava com um sorriso, o que fez Mayck se questionar como ela conseguia mudar tão drasticamente quando olhava para ele. 

Após mais algum tempo, horas, na verdade, Mayck olhou o horário em seu celular. Já havia passado das 21h30. Ainda era quinta-feira, então havia mais um dia de aula. Se ele não dormisse cedo, poderia acabar perdendo o horário no dia seguinte. Por isso, julgou que estava na hora de ir embora. 

“Ah, me desculpem, mas eu acho que vou indo para casa.” Ele anunciou educadamente. 

“Hm? Já vai? Não quer esperar mais um pouquinho?”

“Não. Eu vou indo. Podem ficar à vontade.”

“Tudo bem, então. Tome cuidado no caminho.”

“Claro.” O garoto se levantou e, ao mesmo tempo, Haruna também. 

“Eu acho que vou indo também. Tenho reunião no clube amanhã, então preciso dormir cedo. Obrigada pelo convite, Mizuki… Takashi-san.” Havia dois Mizuki, então ela corrigiu seu erro imediatamente. 

“Sim. Boa noite, filha. Cuide-se na volta.”

“Mayck, acompanhe ela, okay?”

“Okay…” Mayck concordou, mas não queria. Afinal, a aura de Haruna era assustadora, como se ela dissesse para ele manter até alguns quilômetros de distância. 

Os dois se despediram e saíram do restaurante. Imediatamente, Haruna começou a caminhar em passos rápidos na direção do ponto de ônibus e Mayck foi após ela, sem se aproximar muito, mas sem ficar muito para trás, agindo como uma escolta. 

No começo do trajeto estava tudo em paz, até que Mayck começou a ouvir reclamações vindo de sua protegida. 

“Você não precisa me seguir. Eu sei o caminho.”

“É, mas… eu não posso simplesmente ignorar o que meu pai me pediu.”

“Ele é gentil. O completo oposto de você.”

Mayck torceu o nariz. Ele queria retrucar, mas desistiu. Estava apenas a acompanhando porque foi-lhe pedido para fazer isso, caso contrário, ele apenas a deixaria seguir seu caminho. 

“Não se preocupe. Eu só estou torcendo pelo seu bem estar até o ponto de ônibus. Não vou te acompanhar até em casa.” Ele suspirou. 

“Isso é ótimo.”

“Além do mais, o ônibus já está vindo. Você não precisa lidar mais comigo hoje.”

Ela ficou em silêncio. Provavelmente estava o ignorando. 

Como Mayck havia dito, o ônibus já estava pertinho deles e eles já estavam perto do ponto de ônibus. Tiveram sorte por não terem de esperar. 

Assim que o meio de transporte parou e abriu a porta, Haruna subiu pelas escadas. 

“Até mais…” ele falou enquanto acenava levemente com a mão, tentando ser educado, mas foi ignorado até o ônibus partir. 

Essa garota… 

Ele preferiu não pensar. Normalmente, ela não agiria daquela forma. Ela não era uma garota má, mas, devido a algumas circunstâncias recentes, ela o tratou daquela forma. 

Embora o problema não fosse com ela, diretamente, ela ainda sentia que tinha uma responsabilidade a reclamar. 

Bem, o errado ainda sou eu, então não vou culpá-la. 

Ele deu as costas e começou a refazer seu caminho. 

<—Da·Si—>

Com seus fones de ouvido conectados no celular, ele abriu um aplicativo de músicas e ativou sua playlist aleatória. A emoção de não saber que música tocaria em seguida fazia seu coração disparar. 

Estava sozinho, música em um volume confortável. Essa era a atmosfera perfeita. Obviamente, sair com amigos de vez em quando era bom, mas ele não trocaria aquele tempo sozinho por nada. 

Caminhou por alguns minutos e parou abruptamente por conta de uma forte dor de cabeça que o atingiu de repente. Contudo, era normal que ele sentisse essas dores repentinamente, então ele não se importou muito e seguiu seu caminho. 

Após chegar em casa, jogou sua mochila no sofá e foi direto para o banheiro, para tomar um banho quente.  

Casamento… é? Ele refletiu sobre isso, enquanto relaxava na banheira de água morna. 

A verdade era que havia sido uma surpresa e tanto para ele, que mal tinha descoberto sobre o namoro de seu pai. Então seria mentira se ele dissesse que a notícia não o abalou um pouco. 

Por muito tempo, havia sido apenas ele e seu pai, então receber o anúncio de que a família aumentaria de repente era bem irreal de se ouvir. 

Mas não era como se ele estivesse contra isso. Seu pai merecia ser feliz, com isso ele concordava e apesar de parecer que era um pouco apressado da parte de Takashi, ele nem cogitaria a possibilidade de se rebelar. 

Em suma, foi apenas um choque bem grande. Mas nada que não pudesse ser superado com o tempo.

Eu espero mesmo que isso seja uma coisa boa… Ah… deixa quieto. 

Para expulsar os pensamentos negativos, ele chacoalhou sua cabeça de um lado para o outro. 

Acho que vou sair. 

Ele deixou o conforto do banho e vestiu-se, colocando uma roupa de dormir que pegou em seu guarda roupa. Em seguida, desceu para a sala e ligou a TV, sentou-se no canto do sofá para poder apoiar o braço. 

Com o controle, alternou entre os canais em busca de algum conteúdo interessante, mas não achou nada demais e acabou parando em um noticiário, onde uma mulher falava como se estivesse esperando por ele. 

“Durante dois meses consecutivos, o número de desaparecidos têm aumentado em 15%, em relação ao ano anterior. Sendo, cerca de 7% em áreas rurais.”

Não se fala mais em outra coisa… o mundo tá ficando cada vez mais caótico. Ele reclinou-se no sofá, com uma expressão de tédio.

Desde os últimos três anos, o mundo experimentou um grande aumento em casos de desaparecimento. No começo, foi tratado como os casos normais, mas, com o tempo, isso mostrou-se muito mais problemático do que parecia. 

Iniciando-se nos EUA, em dois anos, foram registrados um total de, aproximadamente, 3 milhões de vítimas. Vítimas estas que não foram localizadas e não deram nenhuma pista sobre onde poderiam estar. 

Os casos se alastraram e atingiram o mundo todo em menos de seis meses no ano anterior; apenas no Japão, foram registrados mais de 7 mil casos. 

Com isso, a internet foi bombardeada de teorias e mitos, que se estendiam de suicídios em massa até abdução alienígena. Mas eram apenas teorias absurdas dos internautas. 

Os governos do mundo inteiro estavam trabalhando no caso e colaborando com as investigações por todo o mundo. 

Eu me pergunto como isso vai acabar. Não é como se todo mundo tivesse acordado de repente com vontade de desaparecer. 

Ele descartou a possibilidade também porque se esse fosse o caso, todos já teriam sido encontrados. 

Mayck desligou a TV, cansado da matéria que se repetia dia após dia. Ele se levantou e seguiu até a cozinha ao sentir um pouco de sede e quando abriu a geladeira a vontade de comer algum lanche apareceu como um fantasma. 

“Acho que vou comprar algumas coisas.”

Depois de voltar até seu quarto e pegar uma blusa de frio, ele saiu de casa. 

Apesar de ser primavera, o garoto ainda sentia bastante frio, principalmente à noite, então ele sempre mantinha um agasalho por perto. 

Seguiu direto para uma loja de conveniência não muito longe, e ao chegar viu que estava bem movimentada. 

Era cerca de 22h então não era tão estranho assim. 

Caminhou pelos setores e olhou algumas coisas, desde alimentos até revistas e fazendo comparações de preços, visando economizar o máximo que conseguisse. No fim, ele apenas comprou uma garrafa média de refrigerante e um pacote de batata frita e foi para o caixa em seguida. 

Havia uma fila formada ali, mas ele seria o próximo. O problema era que um garoto que parecia ter sua idade confrontava o balconista, querendo comprar uma bebida alcoólica, o que, claramente, não seria permitido pelo estabelecimento. 

Mesmo sem querer, Mayck se atentou à conversa, assim como os outros clientes atrás dele

“Como eu já disse, senhor, não posso te vender isso. Você é menor de idade.”

“Ah, qual é, cara? Quebra esse galho, por favor. Faça vista grossa só dessa vez.”

“Eu perderia meu emprego se fizesse isso…”

Vendo que não obteria sucesso, o garoto estalou a língua. 

“Droga. Que se dane, então.”

Ele deu um soco no balcão e se afastou, bufando e em passos pesados, ele saiu da loja enquanto xingava o balconista, que havia suado frio. Com o término da discussão, ele voltou-se para Mayck e, educadamente, fez uma reverência. 

“Me desculpe por isso, senhor.”

“Não… tudo bem. Não se preocupe.” Mayck negou o pedido de desculpas e colocou os seus produtos sobre o balcão. Após o cálculo do custo, ele pagou com um valor mais alto e recebeu o troco. 

“Muito obrigado e volte sempre.”

Foi a última coisa que ouviu do balconista, antes de sair. 

“Pronto. Acho que posso assistir alguns vídeos antes de dormir.”

Feliz, ele fez seu caminho de volta para casa com a sacola em suas mãos. 

No meio do caminho, um poste de iluminação piscava sem parar. Mayck pensou que tinha sido um mau funcionamento repentino, já que não estava assim quando ele passou há alguns minutos. 

Mas algo lhe chamou mais a atenção do que isso. Quando piscava, a luz revelava uma certa quantia de um líquido avermelhado que escorria de um beco até a guia. 

O quê…?

Ele parou de andar. Aquilo não estava ali quando passou. Seu coração começou a bater mais rápido involuntariamente e sua mente trabalhou em uma resposta conveniente. 

Será que alguém derramou tinta… não tem como ser isso. Nem faz tanto tempo que eu passei por aqui. 

Apesar de existir tal possibilidade, ela era bem irreal. 

Mayck respirou fundo e rápido, tentando controlar seus batimentos, os quais ressoavam no silêncio da rua. 

Aquele garoto que saiu antes de mim… ele veio para esta direção…, não foi?

Ele hesitou em continuar andando.

A curiosidade falava mais alto que o medo de ser o que ele estava pensando. 

Lentamente, ele deu um passo… dois passos e saiu da calçada para não pisar no misterioso líquido vermelho. 

Ele andou cautelosamente e começou a respirar pela boca, pois o nariz não estava dando conta de conseguir o ar que ele precisava para andar tão lentamente e sem fazer barulho.

O líquido estava saindo de um beco a sua frente e quanto mais se aproximava, mais conseguia ouvir sons indecifráveis de algo sendo quebrado e mastigado sem parar, bem como uma respiração ofegante junto a grunhidos que não dava para saber ao que pertencia. 

Em poucos passos ele estava de frente ao beco escuro, onde algo se destacava na penumbra. 

Os olhos de Mayck se arregalaram e ele parou de respirar instantaneamente. Apesar de ser difícil de enxergar, por causa da luz do poste, que mal chegava até a metade do beco, dava para ver que era um ser grande com mais de dois metros de altura, quadrúpede e com uma cauda semelhante a um cachorro. 

Um cheiro podre impregnou suas narinas junto ao cheiro do sangue escorrendo na calçada. 

O que é essa coisa?! Ele deu um passo abrupto para trás, uma gota de suor escorreu pelo seu rosto.  

Ele parecia estar se alimentando. Se fosse um cachorro de rua, estaria revirando o lixo, mas não tinha como ser isso, a realidade era bem mais assustadora. 

Ele está comendo… 

Mayck olhou para mais fundo no chão do beco. Havia algo parecido com um par de pernas humanas, as quais repousavam no chão sem nenhuma resistência. 

Está devorando uma pessoa… 

Já não tinha como escapar. Uma pessoa foi morta e estava sendo devorada por um monstro. Na verdade, seria misericordioso se ela tivesse morrido antes de ser devorada. 

Mayck já não sabia o que fazer. Na verdade, sabia. Ele sabia que tinha que sair dali imediatamente ou então seria a próxima refeição daquela coisa. 

Mas seu corpo não se mexia um milímetro. 

Droga… se mexe, anda. 

Involuntariamente, seus olhos se encheram de lágrimas, mas não escorreram por seu rosto. 

O que ele mais temia era que o monstro olhasse para trás. 

Ele conseguiu dar um passo. No entanto, esse passo foi traiçoeiro e o fez tropeçar. Mayck caiu sentado e os produtos que acabara de comprar bateram no chão com força e rasgaram a frágil sacola, atraindo a atenção da criatura. 

Merda…!

O monstro se virou. Seus olhos vermelhos brilhavam na escuridão do beco, encarando o garoto como se pudessem olhar o medo estampado em sua alma. Apenas isso foi capaz de fazer um arrepio correr por todo o corpo de Mayck. 

Eu preciso sair daqui! 

Ele tentava, mas seu corpo parecia ter sido desligado. Era como uma forte pressão que o mantinha colado no chão sem poder se mover. 

E também era tarde demais. A respiração pesada, o cheiro podre saindo da boca e as gotas de sangue pingando sobre sua roupa. A criatura já estava o analisando há poucos centímetros de distância. 

Mayck paralisou por completo. De repente, o monstro semelhante a um cachorro, mas que parecia estar corroído por ácido, rugiu ferozmente, num grito arrepiante e bizarro, contra o rosto dele, fazendo seu bafo se impregnar na roupa do garoto imóvel. 

Em seguida, num movimento instantâneo e automático, ele lançou sua mandíbula cheia de presas afiadas no pescoço do garoto e a pressionou. 

A dor imensa e inexplicável percorreu até o cérebro de Mayck. Seu fôlego desapareceu com mágica e sua força se esvaiu por completo. 

Eu vou… morrer…?

O último pensamento. Seus olhos se escureceram lentamente e sua última visão foi do seu sangue escorrendo pela rua. Sua consciência se foi. 

Olá, eu sou o RxtDarkn!

Olá, eu sou o RxtDarkn!

Comentem e Avaliem o Capítulo! Se quiser me apoiar de alguma forma, entre em nosso Discord para conversarmos!

Clique aqui para entrar em nosso Discord ➥