Capítulo 22: Fenritas – parte 1.

Dungeon Tale

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Uma forte ventania assolou todo continente de Aldore, pássaros que repousavam sobre as árvores voavam e crocitavam conforme iam embora. O eco do rugido diminuiu até que restasse apenas o silêncio da noite. Aldeões saíam de suas casas assustados para verem o que havia acontecido, muitos deles armados com espadas e enxadas. Os cães do povoado latiam e uivavam em resposta ao grito.

 

O andar de baixo não estava diferente. Era possível entrever, por de cima da sacada, Ingvarr saindo da moradia com seu machado em mãos. Segurava também, a garrafa de hidromel quase vazia. Uma coisa que nunca tinha percebido, os músculos de suas costas sobressaiam por entre a camiseta branca. Olhava de um lado para outro e percebia-se pela sua movimentação que estava tenso. Quando os moradores do povoado perceberam o homem se aproximando, se amontoaram em volta dele.

 

— O que aconteceu?! — gritou para a multidão. Sua voz, solta, se emaranhava conforme as palavras saíam da boca. Cambaleava enquanto andava, hora ou outra, soluçava. Com o rosto corado, encarou o público aguardando uma resposta.

— Não sei, só ouvi um rugido e vim ver! — um homem de meia idade respondeu. Trajava uma vestimenta coberta por terra e pó. Carregava uma enxada sobre seus ombros — mas pela intensidade do grito, parece ser um dragão!

— Eu vi um clarão no céu! — outra pessoa replicou. 

E assim, uma discussão generalizada iniciou-se no térreo.

 Aquela janela de status que repousava sobre a minha cabeça me perturbava. Acho que era o mesmo para Markus, o qual demonstrava uma expressão de confusão. Mantinha sua mão sobre o peito, boquiaberto. 

 

‘Como um aventureiro, iniciante, como nós, conseguiu matar um dragão? Nível 40 ainda? Não cheguei nem à casa das dezenas…’ 

 

— Então não estamos nem sequer perto dos outros aventureiros… — balbuciou, elevando sua mão até a têmpora — agora você entende, Valis? Continuar aqui não só será desvantajoso, quanto nos deixará abaixo dos outros. 

— Eu sei… Mas por que você está insistindo tanto nisso? Como eu disse mais cedo, a gente sai da vila quando o treinamento acabar.

— Eu só — se apoiou na sacada e olhou para o horizonte com as sobrancelhas franzidas. Mordeu o lábio inferior antes de continuar — quero sair daqui o mais rápido o possível.  

— Você não vai comer? O ensopado vai esfriar — desviei o foco do assunto. 

— Vou sim, nem ferrando que vou deixar minhas batatas esfriarem — concluiu, pegando seu prato e, finalmente, provando a comida — esfriou. 

— Esquenta aí, cara. Seja multi-funções.

— Vai se ferrar. 

— Que seja, tomem cuidado! Pode ter um dragão circundando a vila! Entrem em casa e fiquem quietos, companheiros! — Ingvarr exclamou de forma imperativa. Parece que finalmente tinha decidido o que fazer enquanto a minha conversa  com Markus acontecia.

Ao ouvirem as ordens de Ingvarr, todos se dispersaram e entraram em suas respectivas casas. As ordens do filho do ancião pareciam ser absolutas, ninguém sequer replicava. Também foi algo que percebi durante a semana em que permaneci na vila, apesar de já ter presenciado aqueles homens contestando ele na taberna anteriormente.

— Parece que eles ainda não perceberam que o dragão já está morto — Markus comentou.

— Sim. É quase como se não tivessem visto o Alerta de mundo — a voz de Darius ecoou pelo corredor. 

— Terminou de jantar? — Questionei, saindo da sacada — que rápido, mal tinha começado a comer direito quando saí da cozinha. 

— Dei meus pulos. Não me senti muito confortável perto deles — Chegou no quarto e recostou na porta de braços cruzados. Desviou o olhar na última frase. 

— E as duas?  

 — No quarto ao lado — apontou para trás com o polegar — Ária está emprestando uma muda de roupa para elas usarem depois do banho. 

— Ingvarr não acabou de falar para todos se trancarem em casa? — Markus perguntou — tá tudo bem sair para tomar banho agora? Não quero desobedecer e me ferrar — concluiu.

—  Tá de boa. Ária disse que como o banheiro é uma construção fechada, não tem perigo nenhum, então não precisamos obedecer o Ingvarr. 

— Ótimo, não aguento mais esse cheiro. Meu corpo tá todo pegajoso… Não sei nem como você aguentou ficar esse tempo todo cheio de sangue, Darius. 

— Nem me diga…

— Culpa sua, cara burro. Quem mandou erguer a desgraça do porco cortado? — Markus replicou. 

— De novo isso? Décima quarta vez que comentam sobre…

— Só me vingando das suas piadas horríveis. 

— Qual é?! Elas são boas!

— Tão boas… — Markus prolongou a frase por alguns segundos. 

Fomos interrompidos pelo tilintar de um saco de moedas caindo no chão. O barulho vinha da entrada do quarto. Triskle repousava adjacente ao Darius com um sorriso estampado no rosto. O garoto deu um passo para trás quando percebeu a proximidade do homem, seus olhos estalaram e suor frio escorreu pela sua face. 

— Boa noite. Gostaram do jantar? — questionou de maneira educada.

— Sim. Estava muito bem feito e gostoso — respondi, esboçando um sorriso — O que é isso, Triskle? — estreitei meu olhar na bolsa.

— São moedas. Conversei com o meu filho enquanto estavam fora da vila. Decidimos que vocês estão indo bem até demais — esfregou a nuca e me fitou com seus olhos sulfúricos — então achamos que vocês devem começar a comprar seus equipamentos e provisões por mérito próprio até o final do treinamento. Há cinquenta Fenritas nesse saco como recompensa da missão de caça dos javalis. 

— Fenritas? — Markus andou até a cama mais próxima e se sentou — o que é isso?  

— Dinheiro, o que mais seria? — repliquei.  

— Exatamente — Triskle continuou — a partir de amanhã, nós Ironside, não proveremos mais moradia a vocês. Devem utilizar as Fenritas com muito cuidado para repartirem entre moradia na Taberna Dedos de Gigante, alimentação e equipamentos. 

— Beleza, isso eu entendi. Mas como vamos conseguir mais dinheiro?  — Markus perguntou, apoiando seu punho sob o queixo. 

Darius permanecia quieto conforme o diálogo encaminhava. Quase como se estivesse inerte. Com o peito estufado, matinha ambas as mãos jogadas para trás das costas. Seu dedo indicador coçava a cutícula do polegar intermitentemente. 

— Isso é simples. Apenas façam as missões que eu oferecer para vocês que conseguem uma boa quantia de dinheiro para se manterem aqui.

Lancei olhares contra Markus, queria saber qual era sua reação. Da cama, ele encarava Triskle com um semblante pensativo. Seus pés batiam na madeira oca. Porém, quando abriu a boca para dizer algo, foi interrompido.

— Entendo. E qual é a nossa próxima missão? — Darius finalmente voltou a si mesmo e tomou a iniciativa. 

— Conversamos sobre isso mais tarde, quando todo o grupo estiver junto, Darius. Não podemos decidir algo sem o aval das garotas — O paladino replicou. Novadoria[1]Para quem não lembra, Novadoria é o sobrenome do Darius, apresentado no primeiro capítulo. assentiu com a cabeça.

— Certo. Me chamem quando estiverem prontos, vocês sabem onde me encontrar — Triskle concluiu antes de sair do quarto. 

 

Deitei na cama e repousei meu braço sobre os olhos enquanto esperava as garotas terminarem o banho. As últimas conversas com Markus me perturbavam até certo ponto. Tudo que ele dizia estava certo. Estávamos atrasados em relação aos outros, uma prova sólida disso era o alerta de mundo da Equipe Fellrows. “Nós realmente precisamos ficar mais fortes” pensava. 

Darius aproveitou o meio tempo para fazer alguns abdominais. Já Markus, aproximou-se do saco de moedas despejado no chão e o pegou. Logo, andou até a parede mais próxima e recostou-se. Tirou moeda por moeda, como se estivesse contando. 

— São cinquenta moedas, assim como Triskle falou… Isso dá em média dez fenritas  para cada. 

— Dez… Pouco —  Darius respondeu com dificuldade ao flexionar-se para frente — quarenta e dois — cochichou baixinho.

— Não sei nem se dez fenritas são o suficiente para uma refeição. Que merda — eu disse.

— Descobriremos isso amanhã.

A verdade era que Triskle havia decidido isso muito abruptamente. Mal tínhamos voltado da nossa primeira missão e já decidira que estávamos indo bem, algo não batia direito. Era por ter derrotado o chefe javali? 

Darius, terminando seus abdominais, levantou-se e espreguiçou. 

— Já estou começando a ficar com sono. Acho que as garotas já estão terminando o banho delas. Devemos ir?

— Yep, vamos — levantei-me da cama e continuei andando até o corredor. Claro, todos garantimos uma muda de roupas antes de qualquer coisa; 

 

O balneário[2]1°referente a banho(s); balnear. 2° estância balnear de águas medicinais ou minerais; banhos. ficava um pouco longe da casa dos Ironside. Localizava-se ao lado da entrada da vila, logo abaixo das muralhas. Lá, havia uma grande e extensa escada que levava ao subsolo. Ao chegarmos no local, vimos as meninas subindo-as e alcançando o pátio, nos encontrando por um pequeno momento.. 

Os fios de cabelo molhados de Eva, colados na região do pescoço, entravam em harmonia com sua pele recém rosada. A luz da lua refletia sobre seus olhos azulados. Vestia uma camiseta regata aldeã bege semi-molhada no colarinho e um shorts que recobria até pouco acima do joelho. Quando nos percebeu, sorriu para mim e continuou reto. 

Já Kalissa, trajava a mesma roupa de sempre.  Sustentava o cabelo amarrado num coque, desviou o olhar quando passou por nós. Usava, também, uma calça de couro negro colada. Seus arredores pareciam cintilar em azul na presença da escuridão.

Darius ao ver que estavam indo embora virou e disse:
— Não durmam ainda, temos que decidir algo como um grupo em breve. 

— Okay. Algo importante? — Eva replicou. Suas pálpebras pareciam pesadas. Com certeza estava com sono.

 — Muito. — Respondeu de forma curta e grossa.

— Não podemos resolver isso amanhã? Tô cansada — desviou o olhar para mim. 

— O mesmo vale para mim — Kalissa se impôs fitando o chão, com a voz trêmula. 

— Nós provavelmente vamos demorar no banho, cara. Bora resolver isso amanhã, com calma.  — me intrometi.

Darius sequer se preocupou em debater. Olhou para mim, deu um longo suspiro e concluiu: 

— Certo…

Markus continuou o caminho em direção ao balneário sem ligar muito ao que estava acontecendo. Senti a necessidade de seguir com ele, então acenei minha mão para elas e virei de costas. Darius veio conosco.

As escadas continuavam por dezenas de metros abaixo numa espécie de corredor de pedras naturais. Tochas incrustadas nas paredes iluminavam relativamente bem os degraus então dava para andar sem nenhum problema. Depois de vários passos, vapor tomava conta do local e preenchia nossos pulmões com mornidão. 

No término do corredor, uma espécie de caverna natural se abria para todos os lados. Do teto, uma cachoeira quebrava na fileira de pedras que havia à frente. Cercas de tábua davam base a uma mini lagoa artificial que se formava abaixo da torrente de água.  Bancos de madeira estavam espalhados pelo local inteiro.  Quando entramos no Balneário pela primeira vez, o sistema disse que o lugar se chavama “Repouso de Fenrir”. Termas naturais possuidoras de propriedade curativa.

 Darius aproximou-se de um banco e começou a se despir.

 

Notas

Notas
1 Para quem não lembra, Novadoria é o sobrenome do Darius, apresentado no primeiro capítulo.
2 1°referente a banho(s); balnear. 2° estância balnear de águas medicinais ou minerais; banhos.

Aviso do Autor:

Arkus

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