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“Que dor. Ao menos, eu sobrevivi… Eu acho.”

Os meus olhos se abriam ligeiramente e ok, eu não havia sobrevivido. 

Eu estava em outro mundo, o tão aguardado novo mundo.

“Certo, chegou a hora de ficar overpower e sair espancando todos os vilões que eu encontrar no caminho.”

“Mas ok, quais são os meus poderes?” 

Apalpei as minhas vestes, cocei a minha cabeça, enquanto observava as pessoas caminhando de um lado para outro em suas vestes medievais. Alguns me olhavam com desdém e eu me perguntava o porquê daquela expressão de desprezo.

Ah, percebi. Eram as minhas vestes, elas estavam esfarrapadas e, coincidentemente, eu estava encostado numa parede com uma caneca de chávena contendo uma moeda de bronze. Eu subitamente percebi isso. Parece que nesse mundo em que acabei de ganhar uma nova vida; virei um mendigo, pobre e sem casa para morar.

“Que situação é essa???”

“Cadê a realeza? Os poderes mágicos? As riquezas?”

A pior situação era reencarnar num outro mundo sendo pobre; sem poderes, sem voz do mundo, sem nada.

“Mas de jeito nenhum eu vou aceitar isso!!!”

Me levantei do chão e eca, que cheiro mais horrível.

“Há quantos dias eu não tomava banho?”

Espera, eu havia banhado da última vez lá no meu mundo.

Bem, não importava mais. Precisava arranjar uma maneira de receber destaque nesse mundo que à medida que eu andava, me parecia muito, mais muito familiar.

“Está parecendo até que eu…”

“Espera um pouco…”

Os meus olhos arregalaram ao contemplar aquela ruiva caminhando rente a algumas casas nobres medievais feitas de pedra e madeira. Na verdade, não tinham nenhuma diferença com as da Europa medieval. Mas bem, voltando para aquela mulher, eu tinha a certeza que conhecia ela! Sua fisionomia, seu corpo, aquele rabo de cavalo formado por suas madeixas carmesim, aquelas vestes… Sem dúvidas era ela! 

Corri em direção à moça, sem pestanejar, enquanto balançava a mão, gritando: Ei, Ei!

Em resposta, ela fazia uma cara de ogra assustadora para mim. E como se não bastasse, algumas figurantes começaram a soltar gritos estridentes, tipo um:

“Aaaaah!  Um mendigo!”

É, eu havia me esquecido que nesse mundo eles tinham zero empatia por mendigos. A razão era porque muitos deles eram apenas alguns ladrões que cansaram de ganhar a vida roubando. E por sempre serem pegados toda hora pelos soldados e, consecutivamente, soltos, estavam com medo de voltar para o terror que eram aquelas cadeias. O que lá acontecia, eu não sabia, mas para esses ladrões deixarem essa vida deve ter sido terrível.

Algumas dessas figurantes entravam em debandada, como se eu fosse um monstro tentando devorá-las, e só a minha favorita e amada heroína havia ficado. Com aquela postura, aquele rosto um tanto quanto assustador — ela não era assim — me encarava severamente.

— Quais são as suas últimas palavras?

“O que? Eu nem fiz nada, mulher!”

— Eu, sabe…

Minhas bochechas coraram, estava indeciso com o que diria. 

“Será que peço um autógrafo?” 

— É dinheiro, não é? 

Balancei a cabeça positivamente.

— Vá trabalhar e ganhe a vida honestamente. 

— É que…

— Não roube mais do meu tempo. — Ela me deu as costas, começando a se afastar de mim.

“A minha última esperança de sair da miséria e de mudar o final dessa história.”

— Espera!!!!

Ela não parou, continuou a caminhar.

Eu não queria fazer isso, mas não tinha escolha. Não era o momento para eu interferir na história, mas era uma situação de emergência — eu estava morrendo de fome e dificilmente arranjaria um emprego nesse mundo.

— Você está comprometida, não é?!

Ela parou.

— Aposto 1000 moedas de ouro que o seu noivo vai traí-la daqui a 3 dias!

Aquela minha declaração causou uma leve comoção ao redor, mas como eu era um mendigo e desprovido de qualquer tipo de educação, fui taxado como louco. Mas o que eles não sabiam, é que eu sabia de tudo que iria acontecer com os personagens principais desse romance, absolutamente tudo.

As vestes medievais que ela estava usando hoje, eram as que o seu noivo atual lhe ofereceu de presente três dias antes dela enfrentar aquela dolorosa cena… Seu noivo, a quem sempre teve apreço, com outra. 

Ela começou a caminhar até mim, enquanto sacava uma espada da sua cintura. Seus olhos azuis refletiam uma profunda raiva. Não era para menos, eu havia envergonhado ela. Meredith havia virado motivo de risadas por parte daquela gente.

— Prepare-se para morrer!

— Espere! — Encurvei a cabeça ligeiramente, juntando as mãos em oração.

— Já esperei demais!

“Esperou o que, mulher? Milésimos? Mas isso não conta, conta? Ah, não importa. Eu preciso pensar em mais uma informação para eu me salvar.”

— Se você me matar e descobrir que tenho razão, como vai me pagar as minhas 1000 moedas de ouro?

— Eu colocarei no seu túmulo. — Ela ergueu a espada ao alto e eu ajoelhei-me, suplicando rente ao seu vestido azul.

— Misericórdia é o que peço!

— Agora é tarde.

Eu tinha me esquecido desse lado dela. 

“Ela não vai parar, não é?”

—  Eu sei do seu maior segredo! 

— Hã? — Ela parou a espada, suas bochechas coraram. — O-o que está dizendo? Não tem como um mendigo saber do meu maior segredo!

“Aí, como você é ingênua, Meredith.”

— Começa com B e termina com A. — Levantei-me, olhando-a com um sorriso um tanto quanto malicioso.

— C-com você…

— Me pague o adiantado e eu te conto.

— Chantagem? — Ela apontou a espada para mim.

— L-l-longe de mim! — gaguejei, colocando as minhas duas mãos rente ao meu rosto.

— Então me conte tudo. — Baixou a espada ligeiramente.

Engoli em seco.

— Também não posso.

Só pelo que contei a ela, agora era possível que de alguma forma o enredo principal fosse abalado. E isso era o que eu menos desejava.

— Então vou tirar a sua cabeça do lugar. — Voltou a apontar a espada para mim, mas dessa vez segui mantendo uma expressão séria.

— Faça isso e jamais saberá da verdade.

“Se tem uma coisa que ela é, é curiosa.”

— Certo. — Ela guardou a espada na bainha, me dando as costas. — Daqui a três dias, caso o que você disse não se realizar, é melhor se preparar para o pior.

— E o adiantamento?

— Já fui passada a perna milhares de vezes na minha vida. — Começou a andar, seus passos ressoando pelos meus ouvidos. — Dessa vez será diferente. 

“E eu tenho a culpa por isso?”

Ela desapareceu em meio a uma esquina.

— E agora… Como farei para sobreviver durante três dias? 

Bem, eu não queria fazer isso, mas não tinha escolhas. Me alistarei a uma guilda de aventureiros e eliminarei monstros para ganhar uma espécie de gema, que trocando, você pode receber muito dinheiro. 

“Se eu conseguir achar um bom grupo, posso pelo menos ficar com as migalhas.”

E assim, fui para a guilda de aventureiros, que ficava apenas algumas quadras dessa rua.

“Pelo menos algo de bom, não é?”

Ainda bem que havia reencarnado bem pertinho da guilda, se não, dias terríveis estariam por vir.

Após atravessar algumas quadras, enquanto enfrentava olhares de desdém e quase sendo agredido, finalmente havia chegado a guilda de aventureiros. Ela tinha o aspecto de uma taverna, na verdade, meio que era uma mistura entre guilda e um restaurante onde os muitos aventureiros faziam suas refeições.

Subi os quatro degraus de madeira daquela taverna, empurrando a porta semiaberta.

“Wow! Eu estou numa guilda mesmo?” 

Estava bem cheio de pessoas andando de um lado para o outro, e as tão lindas garçonetes em seu uniforme branco e preto, estavam circulando pelas mesas, servindo carne e vinho. 

“Que cheiro tão apetitoso!”

Suspirei, minha barriga começou a ronca. Quando eu queria dar mais um passo em frente, um grandão veio até mim. Um machado estava preso as suas costas. Ele batia o seu punho direito na palma esquerda.

— Aqui não é lugar para pessoas como você.

“Pobre, você quis dizer?”

— É-é que eu… — Gesticulei as mãos.

— Vá embora daqui!

“Droga!” 

Dei as costas a ele e comecei a andar, relutantemente, em direção à porta.

— Sorte que eu não conheço sua história, seu figurante… — murmurei.

— O que?!

— Estou saindo! Estou saindo!

Quando abri a porta me deparei com um homem de cabelos negros, coberto pelo seu terno preto; com bordas florais douradas espelhadas pelo tecido.

“Mas como o destino é interessante”, pensei, fitando aquele homem que cobria a boca, fazendo uma expressão de desdém.

“O noivo da Meredith, a heroína.”

— Saia da frente, seu imundo! — ele ordenou com sua voz grossa, enquanto franzia o cenho para mim.

— Faisal Wilbert Stein.

Ele amenizou sua expressão, ficando um pouco surpreso.

—  Você me conhece?! Bem, deve ser mais um admirador das minhas conquistas!

Sua arrogância continuava a mesma.

— Agora saia da minha frente!

— Graziela Teorena Frecchit!

“O nome da sua amante. ” 

— O-o que?! — Ele ficou boquiaberto. — C-com você sabe?!

—  Como sei o que?

— Não se faça de tolo! Sobre a minha mulh, digo, irmã!

“Ainda bem que depois de três dias, a minha Meredith irá descobrir quem de fato é esse tolo.”

“Como ele pôde trair aquela beldade por uma zé-ninguém que não tem onde cair morta? Por favor, os Frecchit estão indo para a falência!”

“Mas bem, ele nunca foi digno. Quem é digno e sempre será, é o herói e protagonista dessa história.”

— Me pague uma boa refeição e eu não conto nada para sua noiva.

— Q-quer morrer?

— Não sou o único que sabe desse segredo, caso eu não volte com vida para os meus parceiros, eles têm ordem para contar sobre tudo!

— P-parceiros?! V-Você por acaso trabalha como detetive para uma família nobre?! São os Volts, né?!

Ainda bem que ele mencionou isso, estava sem ideias para inventar algo caso ele tentasse me ameaçar novamente. Os Volts e os Stein eram duas famílias nobres rivais desse reino. Ao longo de anos, eles disputavam por uma posição hierárquica mais elevada, então seria conveniente para cada um que a reputação do outro fosse manchada.

— Elementar, meu caro. Como descobriu?

— Q-quanto você quer pelo silêncio?

— Uma casa, servos, e uma renda mensal de 100 moedas de ouro.

Com isso daria para sobreviver nesse mundo; sem trabalhar e nem me envolver com monstros.

— Renda mensal? Isso é um absurdo!

— É pegar ou largar.

— C-certo, vou ver se arranjo isso tudo! 

— Agora eu quero que você pague uma refeição para mim, pode ser?

— Maldito!

Ele resmungou, mas fazer o que, né? O grandão tentou me barrar, mas graças ao Faisal, fui aceito sem quaisquer problemas.

Agora sim… Finalmente conseguiria comer e nem precisaria participar numa aventura. Para falar a verdade, esse era um mundo de fantasia sombria que qualquer que fosse figurante estaria destinado a perecer.

“Se não me engano, daqui a três meses e algumas semanas, depois que a Meredith descobrir a traição e deixar essa cidade, ela será atacada por monstros que destroem e devoram tudo.”

Eram monstros que mesmo os aventureiros nível S tinham dificuldade em enfrentar e olha que eram poucos que conseguiam alcançar esse nível. Por isso, muito deles, por respeito a sua vida, fugiam e abandonavam a população, a fim de salvar sua pele e treinar ainda mais.

E é aí onde a história começou a ficar interessante, porque a família principal da heroína acabou por perecer na sua ausência e quando ela veio a saber disso, decidiu formar a guilda de aventureiros mais poderosa deste mundo, para enfrentar o vilão mais forte que esse mundo já viu….  O rei do reino das trevas.

Ah, pensando bem. Na guerra contra o reino das trevas, a população foi reduzida em  30%, o que quer dizer que…

” Eu, como um figurante e sem poderes, corro risco de perecer nessa guerra?!” 

“Em hipótese alguma posso deixar isso acontecer!”

“Mas por enquanto, eu não vou me preocupar com isso… Ainda tenho três meses e algumas semanas para pensar nisso, enquanto aproveito a mordomia desse mundo.”

Olá, eu sou o Andy Lucas!

Olá, eu sou o Andy Lucas!

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