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Naquela manhã, Ana despertou com um sentimento de mau humor pairando sobre ela. O despertador pareceu mais estridente do que nunca, ecoando a inevitabilidade da rotina que estava prestes a começar novamente. Ela se revirou na cama, relutante em enfrentar mais um dia igual aos outros.

“Merda, merda! Precisa ser sempre assim? Cada dia vai ser uma cópia do anterior?”, a luz suave do sol tentava penetrar pelas cortinas, mas não conseguia dissipar a névoa de desânimo que pairava sobre ela.

Ao se arrastar até a cozinha, Ana se deparou com a familiaridade entediante de sua rotina matinal. Ela preparou o café da manhã mecanicamente, enquanto seus pensamentos giravam em torno da monotonia iminente que a esperava do lado de fora de sua porta. A sensação de estagnação parecia cada vez mais sufocante. Enquanto tomava seu café, percebeu algo incomum.

— Mãe? Pai? — sua voz tremia, infundida com uma ansiedade crescente, enquanto atravessava o espaço vazio onde normalmente encontraria o calor reconfortante de sua família..

“É muito cedo para terem saído”, uma sensação de inquietação se insinuou em sua mente, fazendo com que ela se dirigisse até a janela para procurá-los.

Ao olhar para fora, ela ficou atordoada. Não havia movimento nas ruas. Nenhum carro passando, nenhum pedestre apressado. A cidade, que antes vivia com sua agitação característica das manhãs, agora parecia desolada e vazia.

Tu. tu. tu. tu.

— Atendam, por favor! — seu coração começou a bater mais rápido quando sua ligação ficou apenas chamando indefinidamente. Um frio gelado percorreu sua espinha, enquanto ela percebia que algo estava terrivelmente errado.

Com um sentimento de pânico crescente, Ana se vestiu apressadamente e correu para a rua. Mas mesmo fora de seu prédio, ela não encontrou ninguém. O silêncio era ensurdecedor, e a solidão a abraçava como uma mortalha.

“Onde está todo mundo?”, cada passo que ela dava ecoava nas ruas desertas, um lembrete sombrio de que estava sozinha. Ela gritou por socorro, mas sua voz se perdia na vastidão vazia ao seu redor.

Desesperada, Ana começou a percorrer as ruas vazias, seus pensamentos mergulhados em um turbilhão de medo e confusão. Ela procurou freneticamente por qualquer sinal de vida, qualquer indício de que não estava sozinha. O mundo, outrora vibrante e barulhento, agora se desdobrava como um teatro abandonado, as cortinas finais baixadas sobre uma humanidade evaporada, deixando-a como a única espectadora de um silêncio ensurdecedor.

— Será que enlouqueci? Isso não pode ser real… — sussurrou para si mesma, os olhos varrendo cada canto da cidade deserta em busca de uma resposta. Mas não havia nada além de si própria e um ocasional som de pássaro voando.

À medida que o dia se arrastava para a noite, seu desespero se intensificava. Ela retornou ao seu apartamento, tentando desesperadamente encontrar alguma pista, alguma explicação para o desaparecimento repentino de todos. Mas seus esforços foram em vão, deixando-a ainda mais perdida e sozinha.

Com o coração pesado, ela se sentou em sua sala vazia, cercada pelo silêncio opressivo. Ana se perguntava se estava sonhando, se tudo aquilo era apenas uma alucinação terrível. Mas a sensação do chão frio sob seus pés e a dor aguda de sua solidão lhe diziam que era real.

Com um suspiro, ela se levantou do sofá e se dirigiu para o quarto. Ela sabia que não conseguiria dormir, mas o cansaço de sua busca sem fim pesava sobre ela. Ana deitou-se na cama, olhando para o teto escuro, perdida em seus pensamentos e temores.


E assim, a primeira noite de sua solidão chegou ao fim, com uma oração para o além de que tudo não passasse de um pesadelo.

Nos primeiros dias que se seguiram ao evento misterioso, o qual Ana nomeou de “Grande Vazio”, ela iniciou uma busca frenética por qualquer sinal de vida.

À medida que os dias se desdobravam em semanas, e as semanas em meses, a realidade tornou-se uma marcha solitária através de cidades silenciosas, cada uma ecoando o vazio da última. 

— Alguém? Por favor! — ela gritava em praças vazias, sua voz quebrando o silêncio, uma súplica desesperada por um eco de vida que nunca vinha.  Mas a única resposta era o eco distante de sua própria voz, perdido na imensidão do silêncio que agora dominava. 

A solidão tornou-se sua única companhia, corroendo sua sanidade e minando sua esperança. As noites eram as piores, quando o silêncio era ensurdecedor e o vazio ameaçador. “Será que sou a única?”, ela questionava o céu noturno, procurando por estrelas que pareciam observá-la com uma distância fria e indiferente.

— Hoje, eu encontrei uma lata de sopa no supermercado. É uma vitória, não é?  — dizia a si mesma, tentando manter a pouca sanidade que restava com um sorriso consolador ao não receber respostas.

Lentamente, anos se passaram, e Ana se adaptou à sua nova realidade com uma determinação forjada no desespero. 

Com o tempo, um fato estranho: seu corpo não envelhecia. Seu reflexo no espelho mostrava a mesma mulher que havia testemunhado a luz misteriosa no céu, sem uma marca sequer do tempo. Os animais ao redor também permaneciam imutáveis, como se toda a existência tivesse sido suspensa em um momento eterno, apesar de estranhamente as plantas continuarem a crescer. A imortalidade, uma fantasia desejada por muitos, tornou-se sua maldição. 

“Por que eu não envelheço? Por que o mundo parou para mim?”, encarando a si mesma no espelho, suas perguntas permaneciam sem resposta, o mistério de sua condição uma fonte constante de angústia.

Numa noite particularmente sombria, onde o peso de sua existência imortal tornou-se insuportável, ela encontrou-se à beira do abismo, contemplando a escuridão abaixo. 

— Talvez seja o fim — sussurrou, as palavras evaporando no ar frio. Foi nesse momento de desespero total que uma nova presença interrompeu a marcha solitária de seus pensamentos.
— Ana, você não está mais sozinha — a voz de Gabriel soou, uma melodia que parecia tecer luz na escuridão. 

Ana virou-se, seus olhos encontrando uma jovem garota com grandes asas de um branco puro e cabelos loiros bagunçados pelo vento, uma presença que irradiava um calor e uma luz que ela não sentia há anos.


Nos primeiros dias após sua aparição, Gabriel tornou-se uma presença constante ao seu lado, mas de uma maneira que mais se assemelhava a uma sombra do que a um companheiro de conversas. Ele estava lá, sempre a uma curta distância, um observador silencioso que acompanhava seus passos solitários pelo mundo imutável em que se encontrava.

Ana se perguntava quem era ele, esse ser que aparecera do nada. Era como se ele pertencesse a outro mundo, ou como se fosse a resposta de um universo que ela parou de questionar. De qualquer forma, o desespero a fez aceitar Gabriel rapidamente, apesar de ficar confusa com a relutância do anjo em se comunicar. 

— Por que estou aqui? — sua curiosidade, misturada com uma ponta de frustração pela falta de comunicação verbal, era aparente em sua voz. No entanto, o anjo apenas sorria, um gesto gentil que de alguma forma trazia conforto, mas também um estranho sentimento de desconexão e medo, pois diferente de sua boca, seus olhos não sorriam.

A presença de Gabriel, embora misteriosa, começou a influenciar Ana de maneiras não esperadas. Ela percebeu que sua companhia silenciosa a encorajava a observar o mundo ao seu redor com mais atenção, a encontrar beleza e significado nas coisas que antes passavam despercebidas, começando a redescobrir pequenos fragmentos de maravilha no mundo abandonado.

Ao apontar animadamente para um mural de rua esquecido ou para a dança silenciosa das folhas ao vento, Gabriel respondia não com palavras, mas com gestos – um aceno, um sorriso, um olhar – que Ana aprendeu a interpretar como sinalizações de um entendimento tácito.

— Eu sempre sonhei em viajar pelo Brasil, nunca imaginei que seria sob estas circunstâncias… Mas aqui estamos, né? Riscado da lista de sonhos, de um jeito ou de outro — ela pausou, um sorriso melancólico tocando seus lábios enquanto olhava para o companheiro silencioso. —  Obrigado por me fazer querer viver novamente.

O anjo, em resposta, ofereceu um aceno, um reconhecimento silencioso de sua compreensão. Mas por um breve momento, tão breve que mesmo um bom observador talvez não notasse, uma expressão distorcida apareceu em seu rosto ao ouvir as palavras finais de Ana.


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