Capítulo 04 – Desejo

A História do Demônio

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Desejo


“Aqui está.” A irmã mais nova de Cain, Eva, foi até os dois meninos. Ela os pegou pelos pulsos e amarrou uma corda de cor diferente em ambos. Sol usava preto enquanto Cain usava branco.

“Uhm … para que serve isso?” Sol perguntou, olhando para a pulseira improvisada em sua mão.

“É uma pulseira da sorte! O sorteio vai acontecer amanhã e isso é para evitar qualquer chance de vocês serem escolhidos para a [Seleção]!” A vibrante criança disse em resposta.

“Heeehhh? Desde quando você entrou na feitiçaria Eva?” Sol perguntou provocadora mente.

“Não é feitiçaria! É divino uhmm … algo divino intergaláctico!”

“Eu acredito que a palavra certa é ‘intervenção’, querida.” A mãe de Cain, Olivia, disse em resposta.

“Ah, esqueça! Se Sol não quiser, vou guardar para mim!” Quando Eva alcançou a pulseira, Sol se levantou e ergueu o braço. Evitando que a menina de dez anos pegasse.

“Ei, você já deu certo? Retirar é falta de educação.” Os meninos riram e até a mãe de Cain riu um pouco. Mas eles não perderam mais tempo do que isso.

“De qualquer forma, temos uma pequena surpresa para vocês dois, então por que não vamos para dentro?” Cain acenou para sua mãe e irmã entrarem. Dando um aceno para Sol, que foi para seu próprio abrigo.

O papelão colocado ao lado da casa de Cain é, na verdade, propriedade de Sol. Como um órfão, ninguém queria acolhê-lo. Ele era um rato de rua comum, assim como muitas outras crianças que nasceram das prostitutas do Vazio.

Na verdade, mesmo sua estada lá não foi gratuita. Ele precisava pagar seus ganhos ao pai de Caim que, felizmente para ele, não estava lá no momento.

“Vamos ver. Onde eu coloquei essas coisas de novo?” Sol tirou um livro de sua pilha no canto. Era o seu favorito entre todos eles porque, foi um que ele próprio fez.

“Então, este ano eles vão usar a cidade metropolitana abandonada. Cara, vai ser um lugar difícil de se estar.” Assim como todos os outros anos que se passaram, Sol preparou o seu melhor para o caso de ser escolhido para o Abate.

Se alguém fosse descrever brevemente o evento, seria assim. O Abate é um evento de luta anual entre os dez domínios. Além do Domínio do Vazio, os outros nove domínios têm seus cidadãos exercendo o poder.

#sistema-sangrento#

Gelo.

Fogo.

Água.

Vento.

Terra.

Raio.

Aço.

Aprimoramento Corporal.

Invocador.

#sistema-fim#

Essas eram as especialidades dos outros nove domínios. Quanto ao próprio sistema de Abate, cinco seriam escolhidos de cada domínio e seriam então enviados para uma das Áreas do Caos. Um local inabitável para os humanos – que foi destruído há mil anos.

Aqui, os Titãs lutariam até que restasse apenas um domínio. E, com base em sua posição final na luta, eles receberiam uma porção de terreno dentro do Jardim do Éden apropriada para sua posição. É por isso que as plantações nunca foram constantes. Elas mudavam a cada ano, exceto para o Domínio do Vazio, que sempre vinha por último.

É por isso que o rei do Domínio do Vazio nunca se importou realmente com quem seriam seus Titãs. Na verdade, é por causa dessa mesma desesperança que os participantes do domínio foram escolhidos ao acaso. Claro, Sol compartilhava o sentimento, mas, ao contrário dos outros cidadãos do Vazio, ele se preparou.

“Quero dizer, quem estaria ansioso para lutar contra quarenta e cinco super-humanos, certo? Definitivamente não eu.” Sol abriu o livro e, no topo do texto em cada página, estavam os locais usados na Seleção.

“Se eu for escolhido, pelo menos morrerei tentando vencer. Isso me faria lamentar um pouco menos desta vida.” Sol pensou enquanto folheava as páginas. Procurando a localização exata do Próximo Abate.

Ao longo dos anos, as lutas seriam transmitidas ao vivo na tela e até nos alto-falantes das Bolas Ímpares. Isso permitiu a Sol ouvir o que estava acontecendo e imprimir os detalhes em sua mente.

“Ragu caiu em um pântano! Nossa, parece que a floresta é um pouco complicada, pessoal!”

“Alexis foi emboscado por um bando de cães de caça mutantes!”

“Meu Deus, não há como Clifford se esquivar dessas flechas!”

Assim que voltasse ao seu refúgio de papelão, ele começaria a desenhar os mapas com base nos detalhes fornecidos pelo locutor. Apenas com o boca a boca, Sol foi capaz de fazer cópias perfeitas das locações.

Todas as zonas de perigo e zonas seguras. As plantas, cristais e monstros que seriam encontrados nas áreas. Os esconderijos perfeitos. As áreas para as quais nenhum outro Titã foi antes. Bem como áreas secretas sugeridas através das transmissões. Sol tomou nota de todas essas coisas, tudo para aumentar suas chances de sobreviver.

Então, conforme ele continuou folheando as páginas, ele notou a pulseira pendurada em seu pulso. Era um fio gasto, mas Sol sabia que Eva fazia o possível para fazê-lo enquanto trançava as pontas que prendiam a pulseira. E por algum motivo, isso o fez se preocupar menos com a seleção que aconteceria no dia seguinte.

“Intervenção Divina, hmmm. Desculpe, mas eu não acredito nessa merda.”

Bem quando ele estava prestes a ver a localização em seu livro, ele ouviu o som da porta se abrindo. Logo Olivia estava lá, trazendo a comida para a noite.

“Obrigada Senhora.” Sol disse, estendendo a mão para a tigela. Mas então Olivia o afastou e lançou um olhar de repreensão ao menino.

“Solomon, o que diabos você estava pensando?”

“Eu estava pensando em alimentar meus generosos benfeitores, senhora.” Sol disse em um tom cortês, fazendo Olivia suspirar.

“Eu continuo dizendo a você, não há necessidade de me pagar por nada. Meu marido já está extorquindo você do jeito que está. Não quero aumentar o fardo de um menino de 12 anos.” Havia uma expressão genuína de preocupação em seu rosto. Uma que mostrava o tipo de preocupação que uma verdadeira mãe teria em relação ao Sol.

“Prometa que não vai fazer de novo, ok?” Se havia uma pessoa que Sol não podia recusar, era Olivia. Com tudo o que a mulher fez por ele por pura generosidade e amor, Sol formou um profundo senso de lealdade para com ela e sua família. É por isso que as palavras dela o magoaram tanto, porque ele sabia que tinha que obedecer.

“Eu prometo.” Sol respondeu com pesar e com isso, sua comida foi entregue a ele.

“Não termine tudo de uma vez, ok?” Foi tudo o que Olivia disse com um sorriso no rosto. Foi um momento de calma, paz e sossego. Um que veio raramente. Mas, quando tudo estava prestes a ficar bem, a tempestade veio de repente.

“Doce lar eu cheguei…!” Apenas por sua voz, Sol e Olivia estavam nervosos.

“Sol esconda sua comida rapidamente.” Ela disse enquanto se virava para encarar a pessoa cujo rosto foi finalmente mostrado pelas luzes apagadas das ruas.

“Cara, foi um dia duro de trabalho de novo.” Ele deu sua arma e sua armadura para Olivia carregar para ele.

“Tenho certeza de que foi Arthur, por que você não entra. Eu fiz uma sopa especial para você.” Ela disse, cobrindo Sol o máximo que podia.

“Do que você acabou de me chamar de mulher?” Olivia percebeu seu erro naquele momento, mas antes que ela pudesse responder, Arthur deu um soco no rosto dela. A armadura e o armamento estavam espalhados ao redor, e o som de metal batendo em metal fez Cain e Eva espiarem pela janela.

“Que porra é essa saudação nojenta? Arthur? O que eu sou seu filho de merda?” Ele chutou Olivia no estômago, fazendo-a tossir sangue.

“Eu continuo dizendo para você consertar isso! Sua imunda quem-“

“Mas ESTA SOPA É A MELHOR!” Antes que Arthur pudesse acertá-la novamente, Sol gritou essas palavras. Direcionando a atenção do homem bêbado para si mesmo.

“Vá para dentro, mulher.” Arthur ordenou, com Cain e Eva saindo para ajudar sua mãe enquanto o homem violento caminhava em direção a Sol.

“Ranger os dentes.” Arthur não perdeu tempo e deu um soco no rosto de Sol. O menino caiu no chão imediatamente, com a comida derramada perto dele. Como se isso não bastasse, Arthur até pisou na cabeça do pobre garoto.

“Lamba tudo, seu cachorro, não desperdice nada que alimentamos você.” Sol fez o que ele disse, limpando o chão da sopa.

A refeição que supostamente era decente foi mais uma vez transformada em lixo. Sol comia terra; toda a sujeira molhada da sopa que derramou. Seu corpo tentou vomitar a substância perigosa, mas Sol forçou tudo para baixo, sabendo que a tortura não terminaria a menos que o comando fosse executado corretamente.

“Assim é. Qual foi o gosto da sua sopa de novo?”

“O gosto era ótimo, senhor Arthur.” Sol disse, mostrando um sorriso no rosto enquanto o virava de lado.

“Bah, você não é divertido.” Arthur finalmente tirou o pé do rosto de Sol, pensando que estava apenas desperdiçando energia com o garoto.

“Eu serei generoso e deixarei você sair com apenas isso.” Ele avançou, entrando na casa enquanto exigia ser alimentado.

Enquanto isso, Sol começou a vomitar tudo o que ele ingeria. Ele não podia se dar ao luxo de ficar doente ou de qualquer forma de doença. Ninguém cuidaria dele e ninguém se importaria mesmo se ele ficasse meio morto. Tudo o que ele tinha era ele mesmo e, enquanto Caim e sua família comiam; ele estava lá vomitando.

“Cara, não importa quantas vezes eu tenha feito isso, a sujeira ainda tem gosto de sujeira.” Sol disse, deitando em sua cama de papelão e olhando para o céu noturno sem estrelas.

Ele pensou sobre a ideia de Eva sobre a intervenção divina novamente. Ainda era um conceito estúpido para ele, mas, ao mesmo tempo, Sol o experimentou de uma vez. Orando para a entidade que lhe deu um destino tão cruel.

“Ei, olhe aqui amigo. Eu não sei se você é real ou não, mas, só vou perguntar uma vez, ok?” Não havia sinal de que alguém o estivesse ouvindo, mas Sol continuou mesmo assim.

“Amanhã, coloque meu nome na seleção de Titãs.”

 

Nota do Tradutor:

Ruby

A Escrava do Caos

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