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Naquele dia, o clima era costumeiro para o verão, com uma brisa suave provinda do sul. O cabelo preto do capitão Herman Krieger balançava com o vento. No topo de uma colina, ele observava o campo de batalha silencioso no horizonte, onde o cheiro de pólvora e enxofre se misturava com o sangue seco e a carne podre dos cadáveres.

— Hoje vai ser um dia bom garoto — falou para sua montaria ao ver os dois exércitos parados, divididos pelo rio Harford

Do lado esquerdo do rio, as forças da Diarquia de Tolecia, e do outro, os soldados da mais diversas nações que compunham a coalizão de Buchenau. A batalha era sangrenta, e muitos corpos estavam espalhados, esperando um final digno. Este foi o motivo do pequeno cessar-fogo que ocorreu naquela tarde, visando enterrar os mortos e reorganizar as forças, todos sabiam que em breve as hostilidades iriam voltar, e estas seriam piores do que antes.

Nosso personagem, Herman, era um oficial do Condado de Etterbachen, uma das muitas nações independentes que, lideradas pelo Reino de Hunterburg, formaram uma coalização para unificar os povos étnicos da região em um único estado.

Existia nele um ódio pela Diarquia de Tolecia e a todos os que faziam parte dela. Um ódio doentio, com a única ambição de acabar com aqueles que destruíram sua vida. Isso podia ser explicado pelo que acontecera com ele no passado, seus pais morreram em uma epidemia de varíola enquanto ele servia ao exército, sua família então se resumiu a sua irmã mais nova.

Quando a notícia da morte dela chegou aos ouvidos de Herman, sua mente foi preenchida por uma única palavra: vingança. Seu único objetivo de vida se tornou aquilo, não havia prazer, não havia dor, apenas uma sede de sangue.

Do topo daquela colina, Herman observava a 13.º brigada de cavalaria no sopé do monte. Todos os cavaleiros estavam alinhados, de frente para o comandante, o tenente-major Erwin, que vistoriava as tropas.

O tenente era um veterano de guerras passadas, um oficial renomado no alto comando militar e treinado para coordenar uma carga de cavalaria como nenhum outro era capaz. Entretanto, os tempos mudaram, e a estratégia se tornou obsoleta, haviam mais riscos do que resultados.

Todo a brigada era formado por um pouco mais de seiscentos homens, todos montados a cavalo e equipados com lanças e sabres. Sua função principal era o reconhecimento do campo de batalha e a perseguição dos inimigos em retirada.

O capitão Herman, apesar de desejar muito voltar a integrar uma unidade de batalha, fora impedido por seus superiores. Ele era um homem muito valioso para ter sua vida perdida em combate. Seu lugar era atrás das linhas, numa tenda, com o olhar focado em mesas de planos estratégicos.

— Soldados! O alto comando nos deu uma missão, sigam-me homens! — Erwin ordenou as suas tropas.

O 13.º Brigada de cavalaria partiu rumo ao sul. A poeira avermelhada levantou-se pelo trote dos cavalos e tomou conta do horizonte e da visão de Herman, ainda no topo da colina.

Conforme a poeira baixava, desceu a colina com o seu cavalo e trotou até um oficial que bebia uísque de um cantil. Era um oficial subalterno, com uma insígnia de primeiro-tenente, o olhar dele estava fatigado e abatido, focado na bebida que segurava. O homem estava sentado em frente a uma mesa improvisada com caixas vazias de suprimentos.

— Qual é a estratégia ofensiva deles? — Herman se aproximou com trotes lentos com o seu cavalo.

O homem o encarou com suas olheiras profundas que refletiam o cansaço das duras batalhas. Com um suspirou, procurou algo no mapa em cima da mesa.

— Tenente, peço que me responda! — insistiu Herman.

— A 13ª brigada ligeira recebeu a missão de apoiar a infantaria ao oeste. As forças inimigas tentaram um ataque, mas foram forçadas a recuar — esclareceu o oficial. 

— Eles estão na direção errada… — comentou ao apontar para o mapa. — Isso é ruim, eles estão indo para o sul, direto para as linhas de artilharia.

O tenente arregalou os olhos assustado e voltou a estudar o mapa para confirmar a fala do capitão. Mas Herman sabia o que aconteceria em seguida. Ele sem hesitar montou em seu cavalo e partiu na direção da brigada, com a única intenção de deter a investida que parecia fadada ao fracasso. O tenente ao ver a cena gritou: 

— Capitão? O que o senhor fará? 

Herman não o escutou, ele já tinha disparado com a sua montaria e a ideia de parar aquela carga suicida arraigou-se em sua mente. 

A 13ª brigada estava pronta para iniciar sua carga de cavalaria contra uma posição fortificada de artilharia; alerta e pronta para o combate. Daquela localização era possível avistar no horizonte um enorme campo aberto de mais de um quilômetro, sem obstáculos, enquanto outras duas baterias de artilharia permaneciam posicionadas nas extremidades do vale.

Os seiscentos homens daquela brigada estavam condenados.

— Avante soldados! — ordenava Erwin que ia na frente da carga.

No instante em que os artilheiros avistaram a investida da cavalaria, ajustaram seus canhões e iniciaram uma sequência de disparos. Só então, Erwin percebeu que havia tomado a direção errada, ele tentou ainda cancelar o ataque, mas era tarde demais. O primeiro projétil encontrou seu alvo na frente do tenente-major Erwin, provocando uma cratera imensa que arremessou homem e montaria ao chão.

À medida que o cavalo colidia com o solo, o comandante soltou um grito agudo, liberando as rédeas da criatura. O equino ergueu-se, agora sem seu cavaleiro e iniciou um trote desgovernado pelo campo de batalha. Erwin, ainda desnorteado, voltou o olhar para seus companheiros desesperados que tentavam alertá-lo sobre a aproximação do segundo projétil. 

O impacto da explosão no solo foi avassalador, e a terra levantada obscureceu a visão, não era mais possível discernir o que ocorria. De forma cambaleante e moribunda, o tenente-major saiu da poeira e da fumaça, somente para desabar morto no chão. 

Apesar da morte do seu comandante, a 13ª brigada não parou de avançar. Um a um, seus membros tombavam diante dos canhões inimigos. Quanto os cavaleiros chegaram a um pouco mais de cento e cinquenta metros das trincheiras inimigas, os mosqueteiros abriram fogo. Em um minuto a carga havia terminado e todos os sobreviventes lutavam nas trincheiras inimigas. Logo atrás deles, o capitão Herman Krieger fazia de tudo para alcançar a brigada e avisar que aquilo era um suicídio coletivo.

À medida que se aproximava, seus olhos se fixaram em um dos artilheiros segurando um pavio. Ao ser aceso o fusível, o seu instinto o fez fechar os seus olhos como uma criança amedrontada. O disparo passou do lado de seu ouvido, apesar do projétil não ter acertado-o, deixou-lhe surdo por um curto momento no lado direito. Mesmo assim, ele avançou sem medo. 

Seu cavalo, ferido por uma dúzia de balas de mosquete, tombou a três metros das trincheiras. Herman pulou, evitando ficar aprisionado sob o peso do garanhão de uma tonelada. No entanto, essa ação o deixou vulnerável ao fogo inimigo. Um artilheiro toleciano apontou sua carabina quase à queima-roupa e disparou, acertando o ombro do capitão. Contudo, isso não era suficiente para derrubar aquele homem decidido. 

— Desgraçado! — Herman saltou sobre o agressor e o atingiu com sua faca no pescoço superficial, o bastante para desorientar o jovem, que deixou a arma cair e cambaleou para trás na apertada trincheira. Insatisfeito, o capitão ainda desferiu mais duas punhaladas, eliminando qualquer dúvida sobre a sobrevivência do seu inimigo. 

Após aquela curta fúria, organizou os seus pensamentos e encarou o campo de batalha. Para observar um jovem cavaleiro da 13ª brigada, deitado no meio da trincheira; e com um mosquete capturado, disparou contra a munição dos canhões. A explosão resultante envolveu os combatentes em uma espessa nuvem negra de pólvora. As chamas engoliram o atirador e arremessaram Herman para longe. 

O caos era completo, aos poucos os sobreviventes daquela carga suicida fugiam. Herman caiu no meio da trincheira, as costas feridas com o impacto da explosão. A fuligem cobriu seu corpo e o ferimento em seu ombro esquerdo aumentou e piorou ainda mais.

Ergueu-se, ainda um tanto confuso, só recobrou a lucidez após avistar um oficial inimigo dando ordens aos soldados dele para perseguirem os adversários. Se permitisse tal ação, toda a 13ª brigada seria dizimada. 

O cheiro da pólvora misturada com a adrenalina em seu sangue mexia com ele, cada som da guerra, grito e barulho da artilharia, o deixava mais motivado a não desistir. Levantou-se da trincheira, com a baioneta em mãos e começou a correr contra o oficial inimigo.

— Pode tirar minha vida, mas eu também vou fazer o mesmo contigo! — bradou em sua fúria.

O oficial ficou surpreso pelo ataque em suas costas e nem conseguiu se defender de maneira adequada. Herman pulou sobre o oficial, derrubando-o, e com um único golpe, perfurou-o. Sua atenção mirou nos demais soldados inimigos. Atingido por um tiro, depois outro, e mais um, seu corpo caiu finalmente exausto no solo.

O sangue escorria ao redor de seu corpo enquanto seus olhos se voltavam para o céu, contemplando as nuvens. Depois ele virou o rosto e encarou a pilha de corpos, tanto de inimigos como dos seus companheiros de armas. “Heróis esquecidos que deram a vida pela nação”, este foi o seu último pensamento coeso antes de perecer para os ferimentos. Seu corpo ficou dormente, e o seu único desejo antes de morrer era um copo de água. Esquecido e sozinho, questionava se alguém lembraria de seu nome.

Já não havia mais ninguém no mundo mortal por quem se importasse; seu único objetivo era matar o máximo de tolecianos que pudesse, e matar principalmente os dois governantes da Diarquia de Tolecia. Sem uma única lágrima e apenas um único arrependimento, Herman despediu-se do mundo mortal. 


O estrondo dos canhões e dos mosquetes cessou, sendo substituído por um silêncio profundo. O único som perceptível para Herman era o sussurro do vento. 

— Que diabos! — Herman falou ao se levantar e piscar os olhos para se acostumar com o novo ambiente.

Se viu preso em uma vasta câmara iluminada apenas por tochas de fogo azul. A sala não estava vazia, existiam diversas armaduras de distintas épocas e estilos penduradas sobre os suportes, exibidas pomposamente. 

Uma imensa tapeçaria ocupava toda a parede oeste da sala, onde era retratada uma imensa batalha entre diferentes forças. Cavaleiros medievais se misturavam entre soldados modernos, incluindo algumas tecnologias desconhecidas para os habitantes deste mundo.

No centro da peça, o destaque estava na imagem de uma silhueta humana empunhando uma foice que espalhava uma névoa cinza por toda a tapeçaria, sobre ela, a seguinte inscrição: “Pelo poder dado pelo nosso Imperador, nosso salvador deve destruir os infiéis que se negam a aceitar a autoridade do Império da Glória Eterna. Esperamos pela sua vinda, Messias da Escuridão.” 

Herman olhou para todos os lados, até observar uma porção da sala ainda permanecia imersa na escuridão, onde um imponente trono adornado com marfim se erguia. Ao lado do trono, descansava uma coroa de ouro com doze espaços vazios, aguardando a inserção de joias para enfeitá-la. 

— Bem-vindo — falou uma voz agradável do que parecia ser a de um jovem. 

O local encontrava-se deserto, deixando Herman perplexo. Seu foco rapidamente deslocou-se para seu próprio corpo, onde constatou que seus ferimentos desapareceram por completo e a fuligem que o envolvia havia se dissipado. Sua vestimenta transformara-se, agora composta por um uniforme negro adornado por uma capa da mesma tonalidade.

— Onde estou? — Herman beliscava-se e tocava seu corpo, buscando validar a realidade do que testemunhava. A simples sensação do tecido era mágica, uma experiência doce e suave, jamais experimentada antes.

— Morto… — respondeu à voz ao se aproximar dele. — Lhe dou boas-vindas ao meu salão entre o mundo dos mortos e dos esquecidos.

Algo ou alguém se encontrava no trono à sua frente, porém, a escassez de luz dificultava discernir detalhes, deixando apenas uma sombra enigmática. Com um misto de medo e curiosidade, Herman aproximou-se cautelosamente, apenas para descobrir um esqueleto com uma armadura, sentado imóvel no trono. 

— Meu corpo mortal já definhou há muitos anos… — O cadáver se manteve no mesmo lugar, porém sua sombra ergue-se, suas palavras eram um eco jovial e caloroso que dançava pelo ar. — Lhe convidei para fazer uma proposta.

— Quem é você? — indagou Herman desconfiado.

— Peço desculpas pela minha falta de educação, deveria lembrar que nem todos conhecem meu nome — suspirou a voz, com o objetivo deixar tudo aquilo ainda mais dramático. — Sou Erobern, legítimo imperador de Testfeld e rei dos reis. 

Apenas aquele nome foi o suficiente para deixar Herman sorrir de forma incontrolável, todos os seus sonhos poderiam ser transformados em realidade por meio dessa entidade, no entanto, um preço deveria ser pago. Curioso, o capitão perguntou:

— E então?

A sombra aproximou-se e sussurrou em seu ouvido:

— O que queres em troca da lealdade eterna a mim?

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Olá, eu sou o Miltil!

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