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Vítor permaneceu imóvel, envolto pela névoa negra que cercava seu corpo, mas ela não ultrapassava isso. Enquanto pensava, “Como sair dessa situação?”, girou as mãos, transformando as marionetes em uma fumaça negra com odor de enxofre.

— Muito bem, se deseja uma luta, você terá uma das boas. Posso garantir — respondeu arrogante.

Herman lambeu os lábios, apreciando a adrenalina da batalha em suas veias.

— Guardou seus lacaios? — provocou.

— Prefiro uma luta justa, um contra um. Minhas marionetes são reservadas para desvantagens numéricas — Vítor esticou o corpo e estralou os dedos.

— Fala demais e mostra de menos.

Tirou uma moeda do bolso e a lançou para o alto, distraindo Vítor e Axel. Quando a moeda atingiu o solo, Herman já havia desaparecido. Ao perceber a artimanha, Vítor riu da própria falha.

— Devo admitir, foi um belo truque.

Vítor esperava que os cortes fossem ineficazes em seu corpo de névoa, mas ao sentir a lâmina em seu rosto, era tarde demais.

Saltou para longe e tocou sua bochecha, sentindo o sangue escorrer. Nunca, em Testfeld, experimentara ferimentos. Em todos os combates e lutas anteriores, nunca sofrera um arranhão sequer. Seu corpo de névoa deveria ser imune a tudo, exceto armas mágicas. 

— Vejo que o subestimei… — disse, analisando o ferimento. — Você não está no ranking global como um jogador. É apenas um NPC.

Herman guardou as adagas e começou a caminhar até Vítor de forma calma e lenta. Seu oponente esperava uma resposta, mas tudo o que recebeu foi um soco no estômago forte o suficiente para lançá-lo voando pela floresta. O corpo foi simplesmente obliterado; a região do golpe transformou-se em pó.

Vítor atravessou o tronco de um carvalho centenário, sendo a única coisa que diminuiu a força do impacto. Ele ficou estendido no meio de uma cratera, seu corpo estava gravemente ferido, com o braço e pulmão esquerdo arrancados, e as costelas quebradas. Sem sentir nada, sua mente estava perdida e distante, focalizada apenas em contemplar o céu azul.

— Um baita estrago… — Vítor olhou para os ferimentos e riu. — Mas mesmo nesse estado, eu ainda consigo lutar.

Mesmo sangrando e sem metade do tronco, ele se levantou. A névoa começou a envolver todo o corpo, reconstruindo-o em uma velocidade alucinante. O sorriso de orgulho voltou; estava pronto para lutar novamente.

— Ainda vivo, impressionante — comentou Herman com um sorriso.

— Tenho um elogio semelhante à sua força. O senhor não deveria conseguir acertar meu corpo de névoa. Porém, ainda assim, consegue. Qual é a magia utilizada nas suas armas?

Num movimento rápido, Herman colocou a mão na cintura e puxou seu revólver do coldre. Disparou as seis balas em um movimento fluido e ritmado. Os reflexos de Vítor estavam apurados naquele dia; a névoa protegeu seu corpo do impacto dos projéteis. 

— Balas com benção de penetração mágica — disse ao analisá-las melhor. — Para um NPC, parece muito preparado para lutar contra mim.

— Você não é especial, pare de se achar o protagonista. Minhas armas são feitas para enfrentar todos os tipos de herói, sua névoa não é párea para elas, qual foi o truque?

Vítor dissipou a névoa, revelando pedaços do carvalho que ele havia atravessado momentos antes. Suas habilidades modificaram o ambiente e camuflaram aquela barricada improvisada. As marcas dos tiros ficaram gravadas na madeira, formando um círculo perfeito.

— É uma pena que não poderei lutar mais contra o senhor, tenho compromissos a fazer. Mas foi uma honra lutar contra você, Königsmörder, ou devo chamá-lo de Kingslayer?

— Dá no mesmo, só muda o idioma no qual você pronuncia o meu título. No entanto, nossa batalha não acabou, marionetista.

— Fique calmo, nós estamos do mesmo lado, ambos servimos ao Império.

Krieger saiu da posição de guarda e fez um meio-sorriso.

— Continue, me deixou interessado.

— Pois bem, lhe mostrarei tudo.

Abriu um sorriso e estendeu a mão, os olhos de Herman brilharam ao ver a joia que Vítor segurava. Era um rubi vermelho-sangue, lapidado para destacar ainda mais a sua beleza, a gema possuía o tamanho de uma bola de ping-pong.

— Você é o infiltrado, podia ter poupado nosso tempo — reclamou Herman.

— Receba — falou Vítor ao jogar o rubi para seu colega.

Pego de surpresa, Herman quase deixou o objeto cair no chão, e olhou de forma furiosa para o jovem.

— Seja cuidadoso, você sabe o que é isso?

— Um rubi, deve ser bem valioso para vender, mas não entendi o motivo de eu ter que roubá-lo para mostrar meu valor para Erobern.

— Isso é não apenas uma joia, essa é uma das doze…

— Não perguntei — Vítor virou e deu de ombros.

Herman suspirou fundo, tentava controlar a sua raiva, “Quem esse moleque pensa que é? Simplesmente irritante”, pensava ele com um sorriso forçado no rosto.

— Você fez pior do que apenas atacar Alice, você vendeu sua alma… — berrou Axel.

— Esqueci que tinha deixado você vivo — respondeu Vítor ao olhar para ele.

Axel sentiu a ameaça diretamente em sua espinha, ele parou completamente os pensamentos e começou a correr para dentro da floresta fechada. Vítor e Herman se entreolharam, perguntando quem iria correr atrás do herói.

— Não se preocupe, Mávros vai pegá-lo para nós — tranquilizou Herman assobiando para o seu cavalo.

O cavalo de Herman ergueu a cabeça, com olhos inteligentes e expressivos, parecia compreender a magnitude da situação. No entanto, antes de responder, Mávros falou em um tom de voz calmo e sereno.

— Erobern não me contratou para lutar — falou Mávros com uma confiança tranquila.

— Que tipo de criatura mágica é essa? 

— Quimera metamorfa — afirmou Herman — Deveria saber disso.

— Estou recém-chegado da Terra, ainda não me familiarizei com a fauna local.

Enquanto os dois conversavam casualmente, Axel se afastava mais e mais, e ia entrando na parte mais densa da floresta.

— Mávros, capture-o e lhe darei um salmão? Feito?

Mávros pensou um pouco e relinchou. As feições do cavalo se transformaram, revelando uma expressão determinada. Seu pelo negro começou a se retorcer e se alongar, mudando de forma e textura. As patas dianteiras se estenderam, tornando-se asas majestosas e poderosas, enquanto suas patas traseiras encolhiam e se transformavam em garras afiadas. A cabeça alongou-se, o focinho modificou-se em bico e penas surgiram no lugar do seu pelo.

— Espero que seja fresco — Mávros havia se transformado em uma magnífica águia gigante. 

Suas asas negras se estenderam com orgulho, e seu olhar agora era afiado e perspicaz, pronto para a ação. Com uma batida de asas, ele levantou voo.

Do céu ele fez um rápido mergulho entre as árvores, Axel não teve tempo de reação e foi pego com as poderosas garras de Mávros, que fincaram na pele e o fizeram gemer de dor. Quando ele conseguiu controlar a respiração e a dor diminuiu um pouco, ele viu onde estava. Nas garras da ave negra, Axel viu o solo se afastar em uma vertiginosa e alucinante distância.

— Mas que diabos! — gritou ao se debater.

— Então você quer cair? — zombou a águia — Que seja.

Com essa frase, Axel foi solto no céu. À frente de Herman, o corpo desabou, transformado em um monte disforme de carne e sangue, tornando-se irreconhecível. 

— Queria interrogá-lo… — protestou Herman olhar a pequena cratera no grama da clareira.

— Tu podes questionar os meus métodos, mas não podes questionar os meus resultados.

Apesar de Mávros não poder se transformar em um jumento, era tão teimoso como um. Herman sabia disso e apenas balançou a cabeça com desaprovação. 

— E agora? Qual o nosso destino? — Vítor falou ao retirar um broche entalhado com uma coroa do bolso.

— Não vai comentar nada sobre o que acabou de acontecer?

— Eu deveria? Ele morreu e nada vai mudar isso, agora devemos focar no que você veio fazer aqui, encontrar Alice.

— Sim, esse é o nosso foco. Minha missão aqui era fazer o acordo com você e recuperar a primeira Eroberers Edelsteine.

— Sabe os detalhes do acordo? — questionou Vítor.

Herman balançou a mão, fazendo um sinal de mais ou menos.

— Pois bem, após minha traição à guilda dos Dragões do Sol, Erobern me fez uma proposta, e entre as minhas demandas estava a vida dela.

— Está apaixonado? — disse Herman com um biquinho.

— Não, o poder curativo de fogo dela é muito útil para mim, como um senhor da névoa eu sou imune a bênçãos aliadas e maldições inimigas, isso inclui bênçãos de cura. Para que eu me cure, necessito de uma maldição aliada que me regenere.

— Isso é uma desculpa para negar os seus sentimentos.

— Pense o que quiser, isso não me importa — Vítor entregou uma foto para Herman.

Ao contrário das fotos em preto e branco de Testfeld, aquela era uma foto colorida do rosto de uma estudante. A jovem devia ter entre dezessete e dezenove anos, com cabelos ruivos volumosos e olhos verdes brilhantes.

— É ela? 

— Sim, eu pedi para que ela se escondesse em algum lugar na cidade de Etterbachen.

— Ela é bonita — comentou Herman e deu uma cotovelada no ombro de Vítor.

— Tanto faz… 

Pegou o broche entalhado com uma coroa e o lançou ao alto, o objeto flutuou no ar com a delicadeza de uma pena até manifestar uma extensa tela holográfica. Os olhos de Mávros e Herman brilharam diante daquela peculiar tecnologia.

— Uau… Que tipo de feitiçaria é essa? — indagou Herman, estendendo a mão para tocar na projeção.

— Não é feitiçaria, é… — Vítor suspirou — Eu ia fazer uma piada, mas esquece, isso é uma Guia de interface de usuário.

— Você falou grego…

— Guia de interface é onde os heróis podem ver o progresso atual.

— E você está indo bem? — avaliava Herman.

— Acredito que sim, tanto faz…

— Então como explica todos esses zeros?

Na verdade, só existiam zeros na ficha de Vítor, inclusive em seu nível, todos os seus atributos estavam zerados.

Informações Primárias 
NomeVítor
GuildaDragões do SolClasseSenhor da Névoa
AlcunhaO MarionetistaNível0
Pontuação Total9990Experiência Total0
Posição GlobalModo de JogoManual
Informações Secundárias
Ataque0Reflexos0
Carisma0Resistência0
Força0Sabedoria0
Mecânica0Sorte-99
Mira0Vigor0
Mana0Velocidade0
Vantagens
Nenhuma

— É uma longa história e eu estou com uma preguiça de contar agora…

— Mostrou essa guia por que? 

Vítor começou a mover as mãos e a interface holográfica respondeu aos seus movimentos, mostrando um grande mapa da região, com um grande ponto brilhante na tela.

— Encontrei ela, parece que continua na cidade, não vai ser difícil de encontrá-la.

— Colocou uma maldição de rastreamento nela? Como cargas d’água tu fez isso?

— Digamos que eu tenho uma boa lábia.

— Não, você não tem — respondeu Herman sério.

— Tanto faz…

— Essa é a sua resposta padrão para tudo?

— Tanto faz — repetiu com uma pequena cotovelada no braço de Herman.

Herman olhou para ele visualmente irritado, para ele Vítor não passava de uma criança irritante sortuda o suficiente para ser apadrinhada por Erobern.

— Vamos resolver isso logo para que eu possa me livrar de você quanto antes… 

Herman assobiou para Mávros, que voltou a se transformar em um corcel negro. Ele subiu na sua montaria. Ao ver o movimento de seu colega, Vítor materializou um cavalo feito de névoa negra. Herman olhou para ele boquiaberto.

— Impressionante. A única pessoa que conheci com a habilidade de moldar a névoa tão bem foi o próprio Erobern, parece que você aprendeu algumas técnicas com ele.

— Tan…

Herman o interrompeu antes que Vítor pudesse falar qualquer coisa.

— Calado, se você dizer isso mais uma vez, eu corto a sua língua.

Vítor gargalhou, seu objetivo de irritar tinha sido cumprido.

— Pronto para cavalgar até o pôr do sol?

— São duas da tarde, ainda falta muito para o pôr do sol…

— Você é muito lógico, o pior tipo para entender minhas piadinhas.

— Tanto faz — provocou Herman.

Os dois partiram em suas montarias pela estrada em direção à cidade de Etterbachen, prontos para encontrar o próximo alvo, Alice. Nenhum dos dois percebeu que entre os corpos dos soldados da Guilda dos Dragões do Sol, uma sobrevivente solitária escapara da carnificina. Quando se sentiu segura, removeu o corpo que estava por cima dela e ficou de pé.

Seu uniforme branco transformara-se em vermelho, banhado pelo sangue dos companheiros caídos. Sua aljava e suas flechas foram perdidas no meio da confusão. O primeiro movimento que ela fez foi correr até o corpo destroçado de Axel. Ela ainda tinha esperança, mas quando chegou perto, viu a verdade.

Ela se ajoelhou e chorou baixinho perto do corpo dele. Mas logo seu olhar de tristeza profunda transformou-se em um ódio indescritível.

— Vítor… Seu maldito… Eu vou caçar você até as profundezas desse mundo…

Olá, eu sou o Miltil!

Olá, eu sou o Miltil!

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