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Era a segunda vez em poucos dias que acordava em um lugar estranho.

Não se lembrava exatamente o que havia em sua visão quando tudo se apagou. Sabia onde estava, lembrava-se do que vira naquela noite, mas não exatamente quando tudo se apagou e se tornou luminoso de novo. 

Devia ser meio-dia quando despertou. Talvez mais. Não conseguia enxergar o sol de onde estava. 

Mas onde estava?

Ao redor podia ver madeira rústica, as pedras empilhadas, os vasos de barro, a palha cobrindo o teto e o cobertor de pele espessa sobre o corpo. Sentiu o odor das ervas, o som da floresta no farfalhar das folhas nas copas das árvores e podia respirar no ar a umidade livre da poeira. 

Não demorou até que ouvisse passos gentis se aproximando da esteira em que dormia. Sentiu novamente o perfume herbal agora bem mais forte. Uma mulher de cabelos encaracolados ajoelhou ao lado dele. 

— Febre? — A mão dela tocou sua testa. A mão estava fria, mas ele não estava quente. — Não. É de se surpreender. 

— Olá, senhora. — Jiten disse com um sorriso e este logo se desfez quando ele tentou se mover e sentiu as dores. 

— Não deve se mexer demais. Vai com calma, está bem? 

— Certo — disse antes de um suspiro longo e cansado. Sua mente ainda não tinha lidado com as questões que deveriam lhe estar afligindo. A dor serviu como lembrete de que as coisas não estavam bem. — Como cheguei aqui?

— Wulan te achou na floresta. Estava desmaiado e muito ferido. Ela o carregou nas costas. Andou mais do que achei que ela poderia. — Bjarka disse com um sorriso e o olhar dela se distanciou por alguns momentos. 

— Vou agradecê-la depois. 

— Deve, mas antes dela chegar, precisa me dizer o que te atacou. — O olhar dela se tornou sério, o rosto enrijecido e os lábios comprimidos. 

— Ah! — Mais um suspiro. — Preciso dormir um pouco mais, eu acho. 

Desviou o olhar dela, tentou achar alguma coisa que lhe prendesse a atenção na cabana. Achou que seria indelicado só fechar os olhos. Queria poder fugir um pouco mais. 

— Jiten — chamou Bjarka com uma voz mais dura. — Renji me avisou que você vinha. Arriscou muito ao fazer isso. Isso só me faz acreditar que ele queria que eu garantisse que você chegaria vivo. Então, logo depois você me aparece quebrado na floresta. 

— Renji se preocupa demais. Só por isso estou aqui. 

— Eu sei o porquê está aqui. É você que não sabe. 

— E vai me dizer a verdade?

— Quando você me disser a sua. 

Jiten crispou os lábios. Doía-lhe em sua mente ter que lidar com aquilo, mas estava ali. Sua determinação estava enfraquecida pela surra que levara e as visões confusas envolvendo o Cedro Celeste não foram tão motivadoras assim. 

Tudo que fizera foi para chegar até a cabana de Bjarka. Dali não podia correr e nem mesmo tinha para onde ir. Fugir agora o jogaria para uma solidão que ele não tinha como lidar. Não sabia o que fazer sem a próxima orientação. Renji não estava mais ali, restava-lhe Bjarka e as coisas que os dois em complô escondiam dele. 

— Chen me disse que foram soldados de um clã rival. — disse, tentando afastar a mente ao passar os dedos pelo manto de pele. 

Bjarka balançou a cabeça negativamente. 

— Chen estava com você? — A mulher indagou erguendo uma sobrancelha.

— Não. Não estava. 

— Então, não quero saber o que ele disse. Quero saber o que você viu. 

— O que mais poderia ter sido?

— Jiten, a floresta está estranha. Agitada. Existe alguma coisa no ar faz meses e não sabemos o que é. A carta que Renji me mandou deveria me explicar o porquê de você vir para cá. Ela não me explica o porquê de você chegar quebrado aqui. 

— Não estou tão mal.

— Você não tem ideia. — Ela balançou a cabeça negativamente e ergueu a mão para tocar em seu ombro. — Eu tenho anos nessa floresta. Muitos anos convivendo com os conflitos de vocês mugenjin. Guerras, massacres, duelos e surras de inocentes à beira de estradas. Seu povo é um povo de violência. Vive para machucar. Eu sei reconhecer quando vejo nos olhos de alguém a violência que sofreu de seus pares. 

— Não. 

— Olhe para mim. — Ela se inclinou mais na direção dele. Foi ficando mais difícil evitar o olhar maternal dela. Aquilo doía em Jiten. Ela se preocupava, talvez, mais explicitamente do que qualquer outro. Nem mesmo seu mestre, Renji, podia lhe dar aquele olhar. — Você tem os olhos mais bonitos que já vi, Jiten. Olhar para eles deveria ser como olhar para a lua, mas não é. 

— Eu sei que não. 

— Sabe como é, porque sabe o que enxerga. Nos seus olhos não está aquele olhar que se percebe quando alguém sofre violência de um semelhante. Há algo diferente, que consigo sentir dentro de mim. Pode chamar de intuição de mãe. — Ela sorriu gentilmente — Seu olhar é de quem viu um fantasma. Não só uma vez, mas muitas. 

— Chega. — Jiten tentou se afastar, mas a dor o acertou no lado esquerdo do corpo. 

— Apenas me deixe entender. 

Jiten colocou os olhos nela. Fitou-a profundamente. Sua mente abandonou a batalha para esconder a verdade, porque as palavras de Bjarka simplesmente lhe atingiam em pontos sensíveis demais.

— Homens mortos. — sussurrou e sentiu os olhos marejarem. 

A mulher fez uma careta, como se tivesse sentido dor. Abaixou a cabeça, absorta em pensamentos. Ficou em silêncio por alguns momentos, até que suspirou e retomou sua compostura. 

— Acredita em mim? — Jiten indagou, estando ele mesmo incrédulo. Falava de uma lenda, de uma coisa sobrenatural e era fato que expressar a verdade havia sido menos danoso do que imaginava. 

Bjarka não respondeu de imediato. Ela parecia pensar em alguma coisa que só ela sabia. Os olhos dela ficaram presos a porta por algum tempo. 

— Ela está na floresta, né? — Perguntou o rapaz e enfrentando a dor que sentia, começou a tentar se levantar. 

Sentia as dores no torso, o braço esquerdo ferido demais para sustentar o peso e a pele parecia cortada, pois doía muito ao ser repuxada enquanto ele se projetava para cima e tentava manter-se equilibrado o suficiente para uma posição sentada.

— Wulan está com o pai. — A mulher respondeu diretamente. — Você sabe o que é um desses?

— Só pelas histórias. Os rapazes contavam lendas sobre eles quando fomos atacados. 

— Falar deles os atrai.

— Acredita em mim? — Insistiu, seu olhar procurando o de Bjarka, que agora o evitava.

— Não quero acreditar. — Ela disse e então voltou finalmente a olhar para Jiten. Nos olhos dela havia alguma coisa como o medo e o espanto. — Viu mortos? E lida com isso bem assim?

Jiten abaixou o olhar. Tentou mover as pernas por debaixo dos cobertores. Podia sentir que a perna esquerda deveria ter pelo menos um hematoma muito grande. Deu de ombros. 

— Não tive tempo para pensar nisso. Não quero acreditar também. 

— Não é o tipo de superstição que faz muito bem a mente de uma pessoa. — Bjarka disse, ela agora não tirava mais os olhos do rapaz. 

— Não é superstição. — Jiten franziu o cenho. — Você me pediu a verdade. 

— Pedi e você ainda não me deu toda a verdade.

— Já falei sim.

— Você chegou há dois dias. — Bjarka disse logo em seguida, de forma tão direta que foi quase rude. Jiten se espantou e parou um tanto para pensar. Talvez fosse o tempo deitado que fizera seu corpo parecer tão pesado. — Eu limpei suas feridas. Estavam contaminadas. Tive que raspar parte da pele ao redor. 

— Achei que não eram apenas cortes. 

— Você não entendeu. Você estava amaldiçoado. Eu expurguei o que havia nas feridas, não sei o quanto tem no seu organismo ainda. Aquilo não foi coisa de mortos, nem de guerreiros comuns. 

Jiten pensou naquela criatura macabra na floresta. Feita de sombras, madeira e espadas de guerreiros caídos. Aquilo não era morte, era realmente algo vivo. Mas era vivo de um jeito que nada naquele mundo deveria ser. Era maligno na própria essência e o mero pensar em sua silhueta já lhe fazia o coração acelerar. 

— Não acha que mortos-vivos já não é coisa demais para não querer acreditar? 

— Está com medo? — Bjarka indagou, ela se inclinou na direção dele. 

Jiten jogou o corpo no lado oposto. A dor o fez se ressentir daquilo. 

— Me diga o que era. 

— Não. Eu já te dei o que você pediu.

— Jiten! Para cuidar de você eu preciso saber tudo. Seu sangue pode estar envenenado. 

— Por que eu diria? Se você não pode se deixar acreditar. Me faz falar e depois não quer acreditar.

— Eu…

— Preciso voltar a dormir. 

— Eu não quero acreditar, mas isso não quer dizer que não acredite. Eu sei que fala a verdade sobre os mortos. Tenho certeza.

— Como pode ter certeza?

— Eu já os vi também. 

Então Jiten, viu nos olhos dela aquilo que ela lhe dissera. O olhar de quem havia visto um fantasma. 

Olá, eu sou o ODA!

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