Capítulo 02 – A criança sem nome – Parte 2

Kalui

Não carregou? Ative seu JavaScript
Atualizar

Roldi chibi kkk

.

“Dramático como sempre…” , pensa Roldi.

— Não vai comer? Quando o garoto acordar, ele vai comer o resto sozinho se deixar.

— Falando nele, quem é esse garoto? Ele está pele e osso! Além disso, por que você trouxe alguém aqui? Se fosse salvar toda criança com fome que visse, não teria conseguido sair de Ruhm.

          Enion e Roldi pegam um peixe da fogueira.

— Ele estava desmaiado no rio, boiando. Uma hora iria chegar na cachoeira, tive que resgatá-lo. Antes que me pergunte, não o levei a cidade, mas pretendo levar assim que ele se lembrar de alguma coisa. O menino aparentemente não tem memória alguma sobre nada, já perguntei o nome dele, onde mora, mas não sabe nada. A gente escolheu um nome para ele, para ter do que chamá-lo.

— Já o levou a alguma das vilas próximas? — pergunta Enion.

— Ainda não, ele estava muito fraco. Ainda está, na verdade. Enfim Enion, vamos comer.

— Roldi, voltando ao assunto. O exército está vindo para esta cidade agora, melhor você sair o quanto antes. Jehan quis vir desta vez, mas teve que ficar no exército.

          Mastigando, ele responde:

— Obrigado por vir me avisar. Pretendo sair assim que achar a família do garoto.

— Entendo…

— Você já voltou para casa desde a última vez? Deve estar com saudade! — Ele coloca sua mão no ombro de Enion, sorrindo, porém com olhos tristes.

          Enion o abraça com seus olhos cheios d’água enquanto diz:

— Ainda não, mas eu sei que quem mais sente saudade é você! 

— Eu estou bem. Fique tranquilo. Mas como está a Mila?

— Ela está bem! Seu irmão não está sendo um rei tão ruim quanto nós pensamos. Parando para pensar, não mudou muita coisa. Agora que a tropa chegou na ponta do continente, está na hora de irmos em direção ao nosso lar. Logo verei todos.

          Roldi se levanta, secando suas poucas lágrimas.

— Desculpa tocar nesse assunto. Às vezes tenho vontade de voltar, encarar tudo de frente e o que acontecer aconteceu, mas isso seria o mesmo que jogar todo o nosso esforço até agora no lixo. Desculpa, não sei nem por que estou falando disso. — ele ri — Não faz bem para mim nem para você. Coma mais um, sobraram apenas três.

“Jehan me contou que na sua vez de visitar o Roldi, ele estava magro e visivelmente depressivo. Graças aos Deuses ele já está claramente melhor…” , pensa Enion.

          Enquanto os dois amigos comiam em silêncio, o menino acorda esfregando seus olhos, com o genuíno rosto amassado de quem estava dormindo. Ele instantaneamente levanta e pega outro peixe, sem nem ao menos perceber que agora tem mais uma pessoa perto dele. Ele se senta novamente e começa a comer  de olhos fechados. Roldi e Enion se seguram para não cair em risos, assistindo a falta de preocupação do menino.

— Então garoto, qual seu nome? — pergunta Enion.

          O frágil menino dá um pequeno pulinho de susto.

“Quando ele chegou aqui mesmo? Ele também tem os olhos verdes, igual o Roldi…”, pensa Kalui.

          Ele olha para Roldi e responde:

— Kalui.

          Enion se agacha, chegando bem perto do menino. 

— Oh! Então, Kalui, quer brincar comigo?

          Os olhos do menino brilham como nunca.

— Vamos! Qual a brincadeira?

“Me sinto mais leve. Acho que não tenho comido direito” , pensa Roldi.

“Sensação estranha…” , pensa Enion.

— Vamos brincar de “O que você vê!?”. Este jogo funciona assim: Eu falo o nome de alguma coisa ou lugar e você me responde a primeira coisa que vem em sua cabeça, tanto falando quanto demonstrando. Entendeu?

“Talvez eu consiga faze-lo lembrar de algo.”

— Entendi! 

— A primeira coisa é: Comida. Sem ser peixe!

          Sem pensar e com grande empolgação, ele o responde.

— Mel!

“Mel… Mel é algo muito caro em qualquer império, sendo assim, ele pode ter pertencido a uma família rica ou ele comeu uma vez e não esqueceu mais. Acho mais provável a segunda opção. Além disso, sei agora que de alguma coisa ele lembra. Este jogo já foi mais produtivo do que eu imaginei. Espero que continue assim.” , pensa Enion.

“Enion como sempre, extremamente inteligente e lida bem com crianças. É estranho, já que ele é muito mais sério que eu… Que inveja!”

— Eu lembro! Eu lembro do mel! Lembro de como eu sempre peço para minha mãe! Lembro de…

           Antes que pudesse continuar, Kalui põe suas mãos na cabeça com os olhos arregalados. Naquele momento, tudo que ele sentia era um desespero. Ele solta um grito enquanto aperta sua própria cabeça e começa a chorar.

          Roldi põe sua mão na cabeça do garoto, fazendo-lhe um cafuné, ele diz:

— Está tudo bem garoto! Calma, vai ficar tudo bem! Se acalma, fala com a gente.

          Depois de alguns segundos chorando, ele desmaia.

          Roldi e Enion no mesmo instante, se levantam correndo para ajudar a criança. Roldi o pega no colo e o coloca na cama dentro da cabana.

— O que foi isso Enion!? O que aconteceu com ele?

— Também não sei, mas seja lá o que ele tentou lembrar, é melhor não perguntarmos novamente. Já sabemos que ele tem uma mãe, que dava mel para ele, logo, a família dessa criança tem dinheiro. Você tem de onde começar.

— Só nos resta esperar. — Diz Roldi.

          Os dois esperam sentados ao lado de Kalui. Enion cuidadosamente examina a cabeça do garoto, procurando qualquer lesão, mas não encontra nada.

“Não sei se estou feliz ou triste por não encontrar nenhuma ferida em sua cabeça… O que aconteceu para apenas memórias causarem um desmaio? Ele é apenas uma criança!  Foi muita coisa para se lembrar de uma vez só? Ou apenas uma memória muito ruim?” , pensa Enion.

— O que iremos fazer quando ele acordar? Fingir que nada aconteceu e esperar alguém aparecer procurando por ele ou tentar descobrir mais alguma coisa? —Pergunta Roldi, assustado.

— Acho que o melhor a se fazer é esperar que ele lembre naturalmente. Eu irei partir esta noite. Vamos animá-lo um pouco antes de eu ir embora? Da última vez que eu vim atualizá-lo sobre o exército, a gente não disputou.

          Enquanto os dois conversavam, Kalui desperta rapidamente, porém dessa vez não estava sonolento, apenas confuso.

— Eu dormi de novo? Minha cabeça dói. Roldi, o que aconteceu?

          Roldi se agacha ao lado do menino e, o oferecendo um pouco d’água, diz.

— Kalui, venha assistir a nossa disputa! Vai ser divertido!

          Os três saem da cabana. Kalui se senta ao lado da fogueira. Roldi e Enion se posicionam de pé um de frente para o outro. Mesmo sem entender, o menino sente que o clima está mais intenso e fica empolgado com isso.

          Enion tira quase toda sua roupa, ficando apenas com as roupas de baixo. Sua grande cicatriz no abdômen fica amostra, como se uma lança tivesse o atravessado.

          Roldi e Enion ajeitam sua postura, colocando a perna direita para trás, erguendo seus braços para frente e entrelaçando suas mãos, preparando para se empurrarem.

— Posso começar, Roldi?

— Claro! Primeiro os mais velhos.

          O sorriso ansioso de Enion some lentamente. Seu corpo começa a crescer, seus músculos se modificam, sua cabeça fica maior; garras crescem no lugar de suas unhas, seus dentes se transformam em presas, pelos nascem por todo o seu corpo lentamente. Sua postura não é mais a de um ser humano, seu corpo está deformado e continua a mudar e crescer. Quando seu tamanho chega aos três metros, ele para de mudar.

          Kalui fica assustado, com os olhos arregalados, sem entender o que está acontecendo. Roldi olha para o menino e diz:

— Garoto, isto é um urso, mas um pouco maior que o normal.

— Ele está de fralda! — Grita Kalui, rolando de um lado para o outro no chão, rindo muito.

          Roldi e Enion começam a rir também.

          O urso diz com uma voz grossa e difícil de entender, como se tivesse língua presa:

— Sua vez, Roldi!

          O garoto para de rir e observa atentamente o que vai acontecer.

          Roldi agora precisa olhar para cima, se quiser olhar no olho de Enion.

— Você realmente acha que eu estou enferrujado? — Diz Roldi, com um sorriso no rosto. — Minha vez.

          Ele passa de uma risada, para um rosto concentrado. Enquanto segura as grandes patas de Enion, sua pele se endurece, seus pelos se endurecem, seu cabelo ondulado grisalho, agora está duro como rocha.

“O que está acontecendo? Achei que ele também viraria um animal… Como os dois fazem isso?”, pensa Kalui.

— Enion, vamos começar no três? Eu conto.

“O que vai começar?” , refletiu a criança.

— Um. Dois. Três!

           O urso de três metros de altura põe toda sua força para baixo, seu peso sobre Roldi é tão grande, que a perna do senhor grisalho entra na terra até o joelho!

“Parece que ele fortificou apenas sua resistência. Como sempre, ele começa devagar.” , pensa Enion.

— Não gosto de ficar enterrado, Enion.

          Veias começam a aparecer por todo seu corpo rígido, sua pele fica levemente avermelhada.

“Agora, é a minha vez de pôr força.” , pensa Roldi.

           Com quase metade da sua perna afundada na terra, Roldi não aparenta estar preocupado. Ele facilmente começa a empurrar Enion para trás, formando uma vala no chão com suas pernas afundadas. O urso põe ainda mais força, soltando um alto rugido com seu esforço. Este esforço extra não surte efeito e ele é  empurrado para trás cada vez mais rápido. Depois de ser empurrado seis passos para trás, eles soltam as mãos e Roldi levanta seus braços em comemoração.

“É… Acho que ele realmente não está enferrujado! Como sempre, Roldi é a pessoa mais forte que eu conheço.”

— Você está bem mais forte que da última vez, Enion. Quem sabe em uns 300 anos você me derrota! — ele gargalha.

“Pena que a gente não passa de 150…” , pensa Enion.

          Os pelos do urso começam a cair em cadeia, todo o seu corpo volta ao normal em questão de segundos. Enion veste sua armadura de malha e diz enquanto o abraça com um sorriso:

— Parabéns Roldi, estava com saudades. Isso sempre me lembra da nossa infância hahaha! Sabe que sempre te amaremos, certo irmão? — Ele diz com seus olhos cheios d’água.

          Roldi o abraça de volta em silêncio, com um olhar triste. Os dois se acalmam e se sentam em frente a cabana.

— Então Kalui, o que achou? — O senhor grisalho pergunta enquanto se senta.

          O menino fica agitado, quase não consegue se manter parado. Seu sorriso e seu olhar só demonstram curiosidade e ansiedade.

— Vocês são incríveis! Como você ganhou de um bicho tão grande?

“É, ele realmente não sabe de absolutamente nada…Pelo menos ele aparenta estar bem.” , pensa Roldi.

          Enion interrompe a conversa com algo que o intrigava a algum tempo:

— Kalui, qual o seu elemento?

 

Aviso do Autor:

Marcelo Pedrette - IITsuki

Marcelo Pedrette - IITsuki

A historia agora tem um discord! Fica fácil de achar outras pessoas que leem Kalui, já que não são muitas kkkk https://discord.gg/6rRjY4kBSa
Rolar para o topo