Capítulo 03 – O Primeiro Imprevisto – Parte 1

Kalui

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Ilustração feita por: @by_tsuki

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O Primeiro imprevisto

Autor: Marcelo Pedrette – IITsuki

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                         Ano 938, dia 020, território de Elfen, Castelo da família Fogo, 23h.

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— É tão bonito quando a lua fica nesse tom amarelado! — exclama Heila.

— Realmente, esta noite está bonita. Hoje muitas coisas aconteceram. O segundo príncipe pediu sua mulher em casamento, a esposa do primeiro príncipe está em trabalho de parto, vossa majestade preparou uma festa para celebrar o noivado de seu filho, que noite movimentada… Infelizmente para nós, vamos ficar apenas aqui patrulhando desta vez. — diz Ryan.

          Heila o responde, olhando para o lindo céu estrelado:

— Vamos pedir aos deuses que este noivado dê certo e que o filho de vossa alteza seja um elemental do fogo.

          Caminhando pelos longos e largos corredores, seus olhos azuis se destacam na noite, ambos usando armadura escura de aço, além de um colete de malha vermelho com bordas amarelas e no centro, o símbolo do fogo. Apenas os quadros nas paredes melhoram a paisagem durante a patrulha. Heila e Ryan continuam pensando a todo momento, como está a grande festa no salão.

          Este gigante castelo, ao contrário de todas as outras construções da cidade, é construído com tijolos de pedra e não com uma parede lisa e reta de pura pedra. Esta é uma das coisas que faz o Castelo da família Fogo ser tão chamativo.

          Os dois guardas ouvem gritos desesperados de uma mulher logo no fim de seus turnos.

— Ryan, este grito veio da sala de parto? — ela pergunta em um tom desesperado.

          Enquanto Heila pergunta, Ryan já está em direção a sala de parto, para ter a honra de ser um dos primeiros a ver o nascimento da criança.

          Ao abrir a porta vermelha, Ryan não acredita em seus olhos. O menino loiro que acabara de nascer, cercado por fogo; ao mesmo tempo em que emerge fogo dele, a sala se rodeia de um forte vento. O berço em que ele foi colocado já praticamente não existe mais. O bebê ainda ao choro, emite um calor gigantesco sem nenhuma queimadura. Após poucos segundos tudo na sala se aquieta. O bebê se acalma ao ser pego pelas mãos de sua mãe e tanto o fogo quanto o vento, somem.

          Ryan acaba de presenciar o nascimento de Agnee.

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              Ano 950, dia 130, território de Elfen, Floresta das aves, 18h.

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— Kalui, qual o seu elemento? — pergunta Enion.

“Ah… Esqueci de perguntar isso!” , pensa Roldi.

          O menino o responde confuso:

— Meu elemento?

— Não saber seu elemento, é como não saber seu próprio nome! Ah, você também não lembra disso… Desculpa, amanhã eu irei te explicar. — diz Roldi.

— Bom, eu realmente tenho que ir.

— Kalui, acompanhe-nos. Enion irá alugar um cavalo na cidade.

          A noite começa a tomar conta da floresta. O sol já se pôs, mas a lua e as estrelas não os deixam na escuridão.

          Os três vão em direção a cidade que fica a algumas horas dali subindo a margem do rio. Kalui parece inquieto durante a caminhada, ao mesmo tempo feliz por não estar sozinho. Roldi percebe que algo está o incomodando e pergunta:

— No que está pensando?

— No meu elemento… Eu realmente tenho um?

— Muito provavelmente sim. Digamos que é mais fácil cair a primeira gota de uma tempestade em você, do que você não ter um elemento com seus olhos azuis. — Diz Roldi enquanto bagunça o liso e negro cabelo de Kalui.

— Não entendi… — kalui o responde, parecendo ainda mais confuso.

— Ele só quis dizer que você muito provavelmente tem algum elemento. Roldi nunca foi bom com crianças hahaha.

          O menino esboça um leve sorriso e continuam a seguir viagem.

— Roldi, iremos passar por uma vila no caminho da cidade. Acho melhor alugar um cavalo nesta vila, não tem por que fazer o garoto andar mais.

— Ótima ideia. Ele provavelmente ainda está com sono. Como eu nunca fui até a cidade, não sei onde fica esta vila. Estamos chegando?

— Mais alguns minutos e chegaremos nela.

          Os três conversam subindo o rio pela margem. Enion escuta passos floresta adentro, no mesmo instante ele transforma seus ouvidos para amplificar sua audição enquanto se põe na frente de Kalui.

— Roldi! 

— Quantos são?

— Tenho certeza de seis, não… Talvez tenha mais!

— Kalui! Fique atrás do Enion! Enion! Atravesse o rio com o garoto e me espere lá.

         No momento em que os dois correm para a água tentando atravessar o rio, algo acontece com Roldi.

“Estou totalmente sem ar! Isso quer dizer que ele não me conhece… Alguém entre os seis inimigos que o Enion ouviu, é um controlador de ar. É habilidoso o bastante para tirar meu ar a mais de 50 metros, mas se ele ainda não explodiu meus pulmões é porque não é tão habilidoso assim…”

          Roldi endurece inteiramente seu corpo, sua pele fica levemente avermelhada e veias saltam por todo o corpo. O senhor começa a correr para sair da área sem ar. Ao olhar para trás e ver Enion carregando Kalui no colo, ele salta para fora da área sem ar e grita: 

— Enion! Eu irei com tudo!

          Poucos instantes se passaram desde que Roldi perdeu o ar. Após o aviso, ele avança floresta adentro. Enquanto corria quase tão rápido quanto um guepardo, com um sorriso em seu rosto, uma grande muralha de rocha se levanta em sua frente, Roldi coloca seus braços para trás e usando as palmas das mãos, ele destrói a muralha de rocha sem nenhuma dificuldade! Instantaneamente após destruí-la, outras quatro muralhas o cercam por todos os lados, prendendo-o em um cubo; novamente ele quebra a parede em sua frente sem dificuldade, com um único soco. Roldi continua seguindo em linha reta para a floresta.

“Parece que ele percebeu que com minha velocidade, não tem como tirar o ar em minha volta. Agora ele provavelmente irá atacar com outra propriedade do vento… O corte!” , pensa Roldi.

          Assistindo a luta do outro lado do rio com Kalui em seus braços, Enion reflete:

“Por que ele simplesmente não contornou as paredes? Tenho certeza de que ele quer se mostrar para o Kalui…”

           A atmosfera começa a se distorcer a frente de Roldi, formando uma grande lâmina maior que ele.

“É… Eles realmente não me conhecem!”

          Roldi não se dá ao trabalho de esquivar, apenas passa pela lâmina de vento à sua frente. Para ele, aquilo era apenas uma brisa, mesmo tendo aberto um corte na sua roupa.

“Vento não funcionou, paredes também não, o que eles irão tentar comigo agora?”

          Três homens encapuzados saem da floresta escura — seus braços e pernas são peludos como os de um animal, suas mãos e pés descalços são garras — Roldi não hesita nem por um segundo, continuando a correr; sua velocidade é absurda. Menos de um segundo após saírem da mata, o forte grisalho já se encontra frente a frente com seus inimigos. Antes de conseguirem se preparar para o combate, ele passa suas unhas também endurecidas na garganta dos três, com movimentos alucinantemente rápidos e precisos. Sangue escorre pelos mantos negros de seus inimigos enquanto caem ao chão.

“Um dos seis ainda não se mostrou. Ou talvez dois dos seis ainda não se mostraram… Talvez o primeiro e o segundo elemental, sejam a mesma pessoa. Preciso tomar cuidado ao entrar nesta floresta. Eles me veem, mas eu não os vejo.”

          Roldi para em frente a floresta, esperando ver algum movimento.

          Desde que Roldi gritou, passaram-se cinco segundos.

— Roldi! Os três restantes estão fugindo! — grita Enion.

“O que acabou de acontecer! Foi tudo tão rápido! As coisas que aconteceram, foram os elementais?” , pensa Kalui.

          Enquanto Roldi se posiciona para começar sua investida novamente, ele grita:

— Pretendem fugir? Não antes de algumas perguntas!

          Entrando na mata escura, a perseguição começa. O som dos passos em alta velocidade de Roldi são amedrontadores, ecoando por todo o lugar. Correndo pela floresta, após poucos segundos, o primeiro inimigo é avistado fugindo desesperadamente.

          Antes que pudesse olhar para trás, Roldi arranca sua cabeça usando sua mão como uma arma.

“É muito mais difícil com as mãos nuas! Este era um elemental… Os outros dois estão floresta adentro.” , pensa Roldi.

          Novamente ele se posiciona — inclinando seu corpo para frente, seu pé direito para trás e flexionando suas pernas — para começar sua investida.

           Ainda parado na beira do outro lado do rio, Enion conversa com a criança.

— Kalui, está tudo bem? Estou aqui com você, fique tranquilo.

— Estou bem. Me preocupo mais com Roldi! Ele foi sozinho…

— Não perca seu tempo se preocupando com ele! Vai ficar tudo bem.

“Para uma criança, ele não se choca fácil.”

          Após pouco mais de um minuto procurando, ele acha os últimos atacantes. Estes não estão correndo desesperadamente. Em vez de atacá-los, ele para em frente de seus inimigos, a poucos metros de distância.

— Cansaram de correr? Se estiverem dispostos a me contar por que nos atacaram, deixarei vocês livres.

— Você deve se achar muito poderoso! Acha mesmo que conseguirá nos derrotar sozinho? — Diz um dos homens encapuzados.

          Roldi se prepara para mais uma investida. Ao mesmo tempo, os dois encapuzados de olhos azuis esticam seus braços para frente; a terra se agrupa rapidamente, erguendo um corredor de pedra e ao mesmo tempo, uma enorme rajada de vento. Novamente, a atmosfera se distorce começando a formar uma lâmina.

           A terra agrupada se desmantela. O último homem encapuzado, antes focado em moldar o ar em uma lâmina, agora olha para o lado em direção a seu companheiro, mas o que ele vê é Roldi, em pé ao seu lado o olhando atentamente sem ao menos piscar, enquanto seu companheiro está caído no chão, sangrando.

— O que você é? Não existe um fortalecedor tão poderoso!

— Apenas me diga por que nos atacaram e eu deixarei vocês dois viverem! Não posso ressuscitar seus outros quatro companheiros, mas posso poupar vocês. A decisão é sua.

— Você acabou de ferir minha mulher! Acha mesmo que eu irei te perdoar?

— Não preciso, nem quero o seu perdão. Direi apenas mais uma vez. Você escolhe morrer com seus companheiros ou ir embora com sua mulher?

          O último encapuzado se agacha ao lado de sua esposa, tira seu capuz negro, verificando sua respiração. Ele percebe que o sangue sai em pequena quantidade da barriga dela.

“Se eu falar, talvez ela sobreviva…”

— Vou lhe dizer!

— Sábia escolha.

          O misterioso elemental está nitidamente desesperado, trêmulo, com os olhos arregalados e respiração desregulada. Com sua voz inconstante e quase que aos gritos, ele diz:

— Não sei o que você quer ouvir, mas a verdade é simples! Eu fui pago. Não sei quem pagou, pois quem organizou este esquadrão foi nosso chefe. Minha única ordem era eliminar aquele menino de cabelo preto. Apenas isso! Não era para você estar aqui. Não temos nada contra você!

           O marido olha para cima, nos olhos do assassino de seus companheiros e vê apenas ódio. Roldi então diz em fúria:

— Por que estão atrás do garoto? O que uma criança pode ter feito de tão mal?

— Eu realmente não sei! Sou apenas pago para fazer serviços e nunca perguntar nada sobre.

— Você cumpriu sua parte no acordo, agora é a minha vez.

          Enquanto dizia estas palavras, rapidamente Roldi põe suas duas mãos no pescoço dele e, olhando em seus olhos, quebra. Os olhos de ambos estão cheios d’água, mas apenas dos olhos azuis, se esvai a vida. O que era para ser uma batalha, foi um massacre.

          Com um rosto cansado e cabisbaixo, o senhor volta a correr em direção a Kalui e Enion.

“Como Enion disse, talvez tenha mais. Preciso voltar logo!”

          Os dois ainda estão exatamente onde Roldi mandou e ao ver que tudo está bem, ele relaxa seu corpo, voltando ao normal.

— Atravesse logo o rio! Vamos por este lado agora! — Grita Enion.

          Andando pelo rio com água até seu peito, o sangue em suas mãos é lavado. Após chegar ao outro lado e os três estarem juntos novamente, a viagem continua.

— Nenhum outro apareceu? Eram apenas seis? — pergunta Roldi.

— Eu não ouvi nem vi mais ninguém. Conseguiu alguma resposta?

— Mais do que eu esperava, mas não tanto quanto eu queria.

          A pequena vila que pretendem chegar está próxima. Os três estão tensos, pois apenas Roldi sabe o motivo do ataque e ele não pretende contá-lo na frente de Kalui. O silêncio desagradável continua até a chegada da cidade.

— Olhe Kalui, chegamos! — diz Roldi.

          Ao contrário da cabana, a vila é toda de pedra lisa, as casas não parecem caixas, a arquitetura é arredondada, assim como as janelas, porém cada lar tem sua decoração e construção diferente; postes iluminam todas as ruas com a luz do fogo e uma grande mansão encontra-se no centro dela. Crianças brincam perto do chafariz em frente ao casarão e canções são ouvidas vindo da taverna.

          O menino enche seus olhos com tamanha animação que a vila passara. Toda a tensão daquilo que viu mais cedo, passa.

— Que lugar agitado! Vamos explorar?

— Vamos apenas levar Enion até o estábulo. Amanhã te trarei aqui, para você conhecer crianças da sua idade.

          Levemente abatido, ele obedece.

          Roldi põe suas mãos no ombro de Enion, sussurrando em seu ouvido:

— Amplifique sua audição e vá andando com o garoto.

          Enion então, caminha em direção ao estábulo com o menino, enquanto escuta o sussurro de Roldi.

— O alvo era o garoto. Não sei o que fazer! Levar ele até a cidade pode ser o mesmo que o jogar para os leões! No entanto, levá-lo comigo não é a forma mais eficiente de protegê-lo!

          Roldi se junta aos dois e continuam a andar pela vila. Poucos minutos depois, chegam ao estábulo. A despedida está próxima.

— Senhor, gostaria de alugar um cavalo se possível! — grita Enion, em direção a casa de pedra que há do lado do estábulo de 6 vagas.

          Uma senhora abre a porta de madeira, usando um vestido verde escuro, velho e rasgado.

— Boa noite lindos jovens, qual de vocês gostariam de alugar um cavalo?

— Eu, senhora. — responde Enion.

          A idosa o responde surpresa:

— Ora, um cavaleiro Stron alugando um cavalo no meu humilde estábulo? Que honra! Possuo apenas 5 cavalos para alugar ou vender neste momento, qual o senhor deseja?

— O preto, se possível.

— Claro! — responde a senhora, batendo uma palma.

          Após Enion alugar o cavalo negro, a humilde senhora volta para dentro de sua casa. Enion monta em seu cavalo e antes de partir, diz para Roldi:

— A decisão é sua. Você foi a pessoa que lhe deu um nome, não seria justo cuidar dele?

          A criança fica confusa, mas não aparenta ligar. Enion dispara com o cavalo para sua longa viagem enquanto se despedia sem olhar para trás, balançando sua mão no alto.

— Para onde o Enion está indo?

— Ele vai para a cidade do comércio. Quer ir lá um dia garoto?

— Quero ir para todos os lugares possíveis!

          Roldi olha nos olhos do garoto e naquele momento decide o que fazer.

— Kalui! Vamos embora, amanhã teremos muito o que fazer e muito o que conversar.

— Vamos voltar para a cabana? Aqui é muito mais legal!

— Sinto muito garoto, mas como eu disse, temos muitas coisas para fazer.

— Mas… Estou cansado! Não quero mais andar! Vamos ficar na vila!

          Enquanto pega o menino e o coloca em suas costas, Roldi diz em gargalhadas:

— Não seja por isso! Eu levo você!

“Não acho que seremos atacados novamente, mas por via das dúvidas, não dormirei hoje. Amanhã teremos um longo dia.”

Aviso do Autor:

Marcelo Pedrette - IITsuki

Marcelo Pedrette - IITsuki

A historia agora tem um discord! Fica fácil de achar outras pessoas que leem Kalui, já que não são muitas kkkk https://discord.gg/6rRjY4kBSa
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