Capítulo 04 – O Primeiro Imprevisto – Parte 2

Kalui

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Ilustração feita por: @by_tsuki

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                  Ano 950, dia 131, território de Elfen, Floresta das aves, 7h.

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          Cheiro de peixe, uma brisa leve, o barulho da fogueira estalando e o calor do cobertor. Isto é o que Kalui sente ao acordar com o sol em seu rosto. Ao abrir os olhos, Roldi está sentado na porta, olhando para o céu.

— Garoto! Eu nunca vi um ser humano dormir tanto! Levante, coma um pouco e se prepare. Hoje o dia vai ser longo!

— Por quê?

— Comida primeiro, perguntas depois.

           Os dois comem os peixes que tinham rapidamente.

“Não sei um jeito bom de começar essa conversa, então vou começar do começo…”

— Kalui. O que eu sou?

— Não entendi… Você é o Roldi!

— Não, este é quem eu sou. “O que eu sou?” é outra pergunta.

           Kalui continua confuso e não tenta responder novamente.

“Acho que um jogo de perguntas agora não é uma boa escolha… Seria uma boa hora para o Enion aparecer!”

— Eu sou um Fortificador. Enion é um Metamórfico. Você muito provavelmente é um Elemental. Além destas três raças, você também pode ser apenas uma pessoa sem nada especial.

— Por que tanta certeza de que eu sou um Elemental?

— Simples. Você tem o olho azul. Cada raça tem suas características específicas. Metamórficos tem seus olhos verdes, Fortalecedores tem seus olhos castanhos, Elementais tem seus olhos azuis e os sem nenhuma habilidade, tem seus olhos cinza. Claro, existem exceções.

— Espera um pouco!

“Vou explicar só mais um pouco…”

— Estou terminando. Cada raça tem suas habilidades, mas não vou encher sua cabeça com isso agora. Você só precisa saber que nos elementais existem muitas divisões! Você precisa descobrir qual o seu elemento, para começar a se fortalecer logo.

— Até agora eu só não entendi uma coisa… Você é um fortificador, certo? Então por que seu olho é verde?

“Não esperava que ele realmente estivesse prestando atenção. Ele é um menino inteligente!”

— Como eu tinha dito antes, existem exceções.

          Kalui suspira olhando para cima e diz:

— Entendi. Hoje iria ser um longo dia, certo? Já acabou?

— Você achou mesmo que só iria ter uma aula? O longo dia apenas começou.

“Era melhor eu não ter dito nada” , pensa Kalui.

— Me ajude dentro da cabana, vamos guardar tudo. Iremos partir hoje!

— Partir? Para onde?

— Você vai descobrir. Venha, ajude-me a guardar as coisas.

          Roldi pega seu cobertor, o enrola em um galho forte e guarda todas suas roupas nela. Enquanto isso, a criança parada na porta apenas observa o senhor.

“Não era para eu ajudar? Ele está fazendo tudo…”

          Após guardar todas as suas roupas e cobertores, ele caminha em direção ao quadro que há na parede. Roldi põe o quadro no chão e, atrás dele possui duas adagas curvas como a lua crescente, com a lâmina negra quase do tamanho de seu braço, guardadas em uma bainha de aço e couro.

— O que é isso Roldi?

          Ele o responde enquanto prende suas adagas na cintura:

— Mesmo eu fazendo de minhas unhas e meu corpo uma arma, nada se compara a uma arma de verdade!

— Eu também quero uma!

— Você não vai precisar! Vamos, eu levo a trouxa.

          Os dois saem da cabana levando apenas a trouxa nas mãos, tanto a cama quanto a cabana, ficam para trás.

“Assim que acharmos um local para ficar, eu começo a treiná-lo. Ainda não decidi quando irei contar minha história para ele… Talvez daqui a alguns anos, quando estiver mais velho; até porque, faz uma década desde a última vez que o exército me achou. Apenas tenho que continuar assim e nada vai acontecer.”

          Olhando para a cabana enquanto anda em direção à montanha, Kalui diz:

— Vamos para uma vila novamente?

— Provavelmente passaremos por uma cidade. Caso não se lembre, a cidade é algo muito mais incrível que uma vila. Por agora, apenas foque em não se cansar, pois vamos andar muito.

          Após algum tempo caminhando, a cabana fica distante, mal conseguem ver. A área é rochosa e árvores não compõem mais a paisagem. Eles estão chegando na montanha.

— Nós realmente vamos subir isso? Roldi, vamos dar a volta! Por favor! Eu já estou cansado.

— Relaxe, garoto! Não vamos escalá-la até o pico. Também não podemos dar a volta, iria nos tomar muito tempo. Vamos apenas subir pela parte mais baixa e acampar logo após descer.

          A subida é íngreme, mesmo Roldi tem dificuldade.

— Garoto, consegue continuar?

— Não por muito tempo, já estou exausto! Me empurra?

— Acho que tem um jeito mais divertido de te levar.

          Kalui se enche de entusiasmo.

          O vento está forte, Roldi tira seus cabelos dos olhos a todo momento. Com o menino em suas costas — segurando seus braços com uma mão e a trouxa com a outra — sua pele se endurece e veias saltam do seu corpo.

— Se segure! Sério, se segure forte!

          Ele se prepara para acelerar.

“Acho que se eu correr na metade da minha velocidade máxima, não vai machucar o garoto.”

          Kalui só consegue rir de empolgação e alegria, vendo toda a paisagem passando rapidamente à sua frente. Mesmo o vento frio, não o abala diante de tamanha alegria.

— Está muito rápido garoto?

— Não consigo te ouvir! — Gritou Kalui

          Após alguns minutos a subida está infelizmente chegando ao fim. Roldi começa a desacelerar lentamente para não machucar o menino. Nenhum dos dois aparenta estar cansado.

— Vai me levar na descida também?

— Não, a descida é com você! Sei que você aguenta.

           Pouco tempo depois a subida chega ao fim. Agora, eles estão no topo daquela parte mais baixa da montanha.

           O terreno ainda é rochoso, sem muito verde ou árvores. Ele desce das costas de Roldi e se admira com a incrível paisagem à sua frente. Tudo que ele vê do topo são árvores, montanhas e o mar à sua esquerda. A criança sobe em cima de uma pedra com grande dificuldade, para conseguir ver melhor ainda tamanha imensidão; ao olhar para trás em direção a cabana que agora está muito longe, Kalui se depara com uma vista ainda mais bonita, contendo um grande rio que corta toda a floresta e um planalto com quilômetros de extensão, absolutamente reto, como se fosse uma montanha partida pela metade. Por toda a extensão desse planalto, se encontra uma cidade gigantesca, cercada por grandes muralhas e vilas. O planalto é tão grande, que ocupa toda a visão do menino, tanto para direita, quanto para esquerda.

— Roldi! Aquilo é uma cidade, certo?

— Aquele é o principal território de Elfen.

“Provavelmente, de onde você veio.”

— Incrível! É gigantesco!

— Talvez passemos por lugares assim. Claro, se você não ficar cansado toda vez que começarmos a andar!

— É só você continuar me carregando!

“Treiná-lo não vai ser fácil… hahaha!”

— Vamos Kalui! A descida é mais fácil.

         Os dois seguem viagem montanha a baixo em direção a densa floresta, que mesmo de cima, parece não ter fim. A descida não é tão fácil quanto o esperado, grandes pedras deixam o caminho perigoso.

          Meio sem jeito, enquanto coça a cabeça, Roldi pergunta:

— Então… Kalui, quer comer algo além de peixe? Iremos fazer nossa segunda refeição praticamente na hora da quarta. Pode escolher algo diferente!

           Ainda ofegante, mas animado, ele o responde:

— Quero o mais gostoso!

           Algum tempo depois, eles chegam na metade da descida.

“Nesse ritmo, vamos demorar muito para descer. Acampar em uma floresta densa com uma criança não vai ser fácil.”

— Garoto, quer que eu te leve novamente? Dessa vez não vai ventar tanto, então posso ir um pouquinho mais rápido.

           Sem nenhuma hesitação, Kalui em saltos de alegria, grita bem alto:

— Vamos! Vamos! Dessa vez, me leva mais longe!

— Não se arrependa depois. Lembre-se de manter a boca fechada e não abrir muito os olhos!

“Era para eu ter avisado isso da primeira vez… Bom, deu tudo certo!”

          Roldi se agacha e diz:

— Garoto! Suba nas minhas costas.

          Kalui entrelaça seus braços no pescoço dele e suas pernas na barriga.

— Estou pronto!

          Novamente, Roldi se fortalece, preparando para acelerar; assim como da última vez, apenas sua pele fica dura e surgem grandes veias por todo seu corpo.

          Correndo lentamente, a descida da montanha não é tão divertida quanto a subida. Roldi precisa tomar cuidado, um passo em falso e ele pode tropeçar.

— Assim que sairmos da montanha, eu acelero. É muito arriscado descer em alta velocidade carregando você. Vamos chegar em cinco minutos, aproveita a paisagem!

— Assim também está bom.

“Como é bom não ter que andar…”

          Ao ver que a montanha está chegando ao fim, Kalui se prepara para a alta velocidade, firmando bem suas mãos e pernas em Roldi.

“A pele dele é dura! Não importa o quanto eu aperte, meus dedos não afundam! Que legal!”

          O verde começa a tomar conta da paisagem novamente. Faltando poucos metros para a descida acabar, Roldi segura os braços do garoto — que estão em seu pescoço — com uma mão e com a outra, segura a trouxa.

— Se segure bem forte com a perna, a parte legal começa agora! Lembre-se garoto, boca fechada!

“Preciso ficar completamente fortalecido nessa mata. Não quero ser desmaiado por uma árvore enquanto corro!”

          A aceleração dessa vez é lenta, mas logo após alguns segundos, a paisagem começa a passar rapidamente por seus olhos. Kalui fica em êxtase com a velocidade, olhando para o lado e para o outro, ele percebe que não consegue ver com clareza as coisas ao seu redor de tão rápido; sendo assim, ele decide olhar apenas para frente.

— Está tudo bem garoto? Se quiser que eu vá mais devagar, é só falar.

“Acho que ele está tão distraído que não me ouve… Vou acelerar mais um pouco!”

          Agora, ele está novamente correndo na metade da sua velocidade máxima.

— Roldi, isso é demais!

“Estranho… Estou me sentindo leve novamente. Odeio ficar sem dormir!” , pensa Roldi.

          Depois de quatro horas, muitas florestas, morros e rios, Roldi decide descansar. Ele pára a poucos metros de um pequeno lago — cercado por uma floresta bem espaçada e clara, com poucas árvores — e desce o menino de suas costas.

          Com sono, cansado e com fome, Roldi põe a trouxa de pano — completamente amassada — no chão.

— Sua perna deve estar cansada de se segurar e também, estamos com fome. Por hoje, a viagem acabou, vamos acampar aqui. Ainda temos bastante tempo até o sol começar a se pôr.

— O que vai ter de comida?

— Você pediu o mais gostoso e eu acho que a melhor coisa que vamos achar nessa floresta é coelho. Vou pegar algumas frutas antes de caçar. Me espere aqui.

          Alguns minutos depois, Roldi volta cheio de frutas em seus braços. Colocando as frutas no chão, ele diz:

— Posso demorar um pouco, então vá comendo as frutas.

— Ta! Posso beber água daqui? — Pergunta Kalui enquanto se senta no chão com os pés no lago.

— Não até eu ferver. Vá comendo as frutas, elas matarão um pouco da sede. Estou indo!

          Roldi começa a correr, mas para de repente, olhando para Kalui.

— Garoto… Sempre que alguém estiver saindo de onde você está, você tem que se despedir ou pelo menos acenar!

— Ah… O que eu falo?

— Você decide, mas, pode começar dizendo “Boa sorte!” ou “Vá pela sombra!”, coisas deste tipo, entendeu?

— Ta. Vou tentar!

          Roldi começa a correr, dizendo:

— Estou indo!

— Boa sorte!

— Agora sim! Obrigado.

          Enquanto corre, a pele dele, antes morena, se torna avermelhada. Em seguida ele acelera com toda sua força. O som de seus passos assusta o menino, que se levanta rápido, tentando ver onde Roldi está, porém ele já tinha sumido entre as árvores.

“Será que realmente tem algum coelho aqui?”

           Menos de quinze minutos se passam e ele já retorna segurando dois coelhos pelas orelhas. Roldi põe os dois na pedra, perto do rio e anda em direção a uma árvore.

— Kalui, afasta-se. Vá bem para trás.

— Para quê?

— Você vai ver.

           Kalui se levanta da beira do lago e se afasta, enquanto Roldi para em frente a uma árvore e se fortalece, saltando veias de seu corpo. Ele tira uma adaga da bainha e com sua lâmina de metal escuro, parte o tronco maciço com um único corte.

— Que legal! O que você vai fazer com ela?

— Uma tábua, dois pratos e algumas coisas para o seu treinamento.

— Meu treinamento? Mas ainda não sei meu elemento…

— Isso eu resolvo rapidamente. Agora, vou preparar os coelhos, acho melhor você ficar virado para o outro lado.

          Meio confuso, o menino responde:

— Não precisa…

— Falta pouco para começar a anoitecer, desculpa se você ficou com fome.

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                Ano 950, dia 149, território de Elfen, floresta das abelhas, 07h.

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          Os troncos agora são finos, o mato é mais claro, a cabana quadrada de madeira bruta já está feita próxima à beira do córrego. Os dois estão sentados comendo frutas enquanto olham as folhas caindo; Kalui ainda aparenta estar com sono.

— Ficou bem parecida com a cabana de antes, não acha? — Pergunta Roldi.

— Só é mais clara.

— Faz duas semanas desde que Enion foi embora. Deve estar chegando lá agora.

— Onde?

— Na… casa dele.

          Os dois passaram duas semanas viajando. Nada aconteceu nesse período; foram apenas viagens longas e divertidas. Finalmente o menino não está mais desnutrido.

— Kalui, lembra que eu disse que iria treiná-lo? Então, vamos começar hoje!

— Vai me dizer qual é meu elemento?

— Venha comigo, vamos para perto da água. — Diz Roldi enquanto se levanta e estende sua mão para o menino.

           Kalui está animado e curioso para saber o que ele vai fazer, o brilho no seu olhar é nítido. Roldi arma uma pequena fogueira e ateia fogo com o bater de duas pedras.

— Garoto, neste momento, de frente para a água, temos a presença de cinco dos seis elementos conhecidos. Terra, ar, fogo, água e luz.

— E agora, o que eu faço?

— Me imite enquanto canaliza toda sua força em seus braços, tá?

           Roldi junta suas mãos, em forma de uma concha aberta e solta um grande berro.

— Vamos garoto, me imite!

           Kalui junta suas mãos e grita com toda sua força.

— Funcionou? — Pergunta Kalui, com um rosto triste.

          Segurando o riso, Roldi responde:

— Aparentemente, nada aconteceu. Vamos para a segunda opção. Kalui, sente-se, feche seus olhos e sinta tudo; o vento, o calor do fogo, a água, a terra e a luz.

— Tá. E agora?

— Você não está sentindo nada a mais em alguma coisa?

— Não…

           Roldi põe a mão na cabeça do menino e diz ainda segurando o riso:

— Desculpe garoto. Realmente não sei como te ajudar com isso. É como se eu quisesse te ensinar a bater as asas sem eu ter uma.

— Não tem problema. — Diz Kalui voltando para a cabana.

— Espera! Achou que era só isso? Falei que ia te treinar, não te ensinar. Agora que tenho certeza de que não sei como te ajudar quanto ao seu elemento, vamos começar o treinamento. 

 

 

Aviso do Autor:

Marcelo Pedrette - IITsuki

Marcelo Pedrette - IITsuki

A historia agora tem um discord! Fica fácil de achar outras pessoas que leem Kalui, já que não são muitas kkkk https://discord.gg/6rRjY4kBSa
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