Capítulo 47 – Sem Saída – Parte 2

Kalui

Não carregou? Ative seu JavaScript
Atualizar

Ao mesmo tempo, a dezenas de quilômetros dali, Kalui e os quatro membros remanescentes do grupo estão sentados na terra reunidos em um círculo na parte mais baixa do terreno, fora do campo de visão da parte alta, com uma mata densa à frente e uma parede de terra atrás, há algumas raízes à mostra, vindas das árvores acima. 

Kalui está alguns metros afastado dos quatro, sentado com o joelho no peito, tremendo, com as mãos na cabeça, suando frio por dentro da armadura quente. Seus companheiros não conseguem ver suas expressões por causa do capacete, mas seus olhos estão arregalados, seus lábios tremem e sua respiração está rápida. 

Em sua mente, a lembrança de seus companheiros desmaiados, em chamas no chão, mesmo que em plena segurança, se misturam com o pavor, pânico e adrenalina da morte dos amados Bend e Laruel. A racionalidade abandona o garoto, sobrando apenas um furacão de memórias ruins daquele dia. A terra ao seu redor começa a afundar, cada vez mais longe e profundo, a terra se comprime.

A deformidade terrena se aproxima de seus companheiros. Todos estão tensos, pensando no que podem fazer agora.

O garoto mais alto do grupo, armado com uma maça redonda de aço prateado, diz:

— Agora acho que tenho tempo para me apresentar rapidamente. Me chamem de Nathan. Como disse antes, sou um metamórfico. 

A menina fortificadora, armada com uma espada longa, com quase o dobro da grossura de uma espada normal, levanta seu braço, se inclinando um pouco para trás enquanto senta e diz:

— Meu nome é Nirah.

A líder da equipe bate uma palma, produzindo um som metálico graças às luvas de malha.

— Então somos dois fortificadores, dois metamórficos e um elemental. — Ela mexe na própria armadura de malha, puxando-a. — Com essa coisa não dá para diferenciar direito as cores dos uniformes, apenas o laranja dos fortificadores são relativamente visíveis, mas graças a essa coisa pesada, sei que os nossos companheiros estão bem. Já devem ter sido levados por um professor.

Na área fora da terra comprimida, o vento começa a rodear Kalui ao mesmo tempo que o buraco em constante expansão já alcança um metro de profundidade. 

Davi olha para o lado, percebe a anomalia se aproximando e aponta para aquilo, exclamando:

— Ei! O que é isso!?

Tiid, a líder, olha para trás depressa e pula na direção de seus amigos na mesma hora, assim como Nathan.

— Se isso é um ataque, é um elemental bem fraco — diz Nirah. — Vamos Kalui, saia logo daí!

As lembranças de Kalui se tornam cada vez mais insuportáveis. O buraco se torna abruptamente mais fundo, em silêncio, causando apenas um tremor na área.

Dentro do capacete, lágrimas escorrem de seus olhos arregalados como uma cachoeira; com sua boca aberta, move as cordas vocais tentando gritar, mas nenhum som sai.

O grupo, tenso, se reúne longe de Kalui. De repente, a terra densa se torna absurdamente aerada, fazendo todos na área, incluindo o garoto perturbado, afundarem nela antes de perceberem, como se tivessem pulado na água. Ao serem sugados até o pescoço, a terra se reagrupa e densifica, prendendo-os no chão.

Com a pressão por todo o corpo, desperta Kalui, sacudindo a cabeça e tentando mover seus membros, sem sucesso.

— Quem fez isso!? — grita Tiid.

Gritando com toda a sua força, Davi consegue mover apenas um centímetro dos seus braços.

— Pelos Deuses, isso está tão fácil! — diz uma voz feminina, fina e estridente, vindo da floresta densa.

Uma garota surge da floresta. Ela está com um escudo torre parecido com o da Kahyu preso em suas costas, dez plaquetas brancas espalhadas pela sua armadura de malha negra e capacete. Ela não caminha ou corre, está com o corpo parado em cima de uma prancha de pedra mesclada na terra, que se move lentamente, como se surfasse.

— Prazer, futuros desistentes. Meu nome é Aurora. — Ela se reverencia, prostrando o braço direito para frente, enquanto se move lentamente entre o grupo preso. 

“Não achei que isso ainda me afetava tanto… Obrigado por me acordar, Aurora”, pensa Kalui.

Por debaixo do ferro negro de seu capacete, lágrimas ainda escorrem de seu rosto pálido, junto com o suor do seu cabelo ensopado.

“O quão habilidosa essa monstra é para conseguir mover a terra constantemente e ainda manter estável dessa forma?”, pensa Tiid.

Um furacão se forma ao redor da garota na prancha. Instantaneamente, todos do grupo sentem o chão apertando, até mesmo quebrando algumas plaquetas.

Kalui desfaz o furacão e a garota exclama:

— Sério que tentou isso!? — Ela puxa o ar do pulmão e grita. — Instrutor, poderia me tirar uma dúvida!?

Um homem pula de uma das árvores da parte superior do terreno. Ele é careca bem magro e pequeno, quase como um anão, trajado com uma calça marrom, blusa e colete verdes.

— Diga-me, criança.

Ela bate o pé no chão, espremendo ainda mais o grupo.

— Se eles desistirem, não poderão voltar atrás e terão que me dar as plaquetas, certo?

O professor cruza os braços e responde:

— Vejo que você já sabe um pouco do funcionamento do desafio. Sim, quando há desistência ou incapacidade, um professor de prontidão para a luta.

“Mas se são só cem, não daria para cuidar de todos…”, pensa Kalui.

A garota gira seu corpo como uma bailarina e, cantando, ela diz:

— Agora é só desistirem! É isso ou a culpa não é minha se quebrarem…

“Que merda! Eu poderia simplesmente fazê-la voar para longe ou esmagá-la! Não poder usar meu próprio poder é uma tortura! Um ataque surpresa talvez funcione?”

Na floresta, entre as árvores, o vento começa a se comprimir em um disco, silenciosamente, girando em alta velocidade.

Nirah também tenta se mexer com toda a sua força e falha, assim como seu companheiro.

O professor corre para a mata, se escondendo novamente.

— Então, darei cinco segundos para se renderem. Um! Dois! — O giro do ar comprimido aumenta a cada segundo. — Três! Quatro! — Abaixo do ar comprimido, uma porção de terra emerge do solo, desfazendo o ataque. — O amadorismo de vocês é entediante. Vamos lá, o último. Cinco! 

“Criar algo assim com o ar sem movimentar o corpo como orientação é realmente impressionante”, pensa Aurora.

Ela levanta os braços com as mãos espelhadas e cotovelos flexionados. 

— Desisto! — grita Nirah.

— Muito bem! — responde Aurora. — Agora falta os outros quatro… Onde eu parei mesmo? Cinco!

Aurora bate uma palma, mantendo suas mãos pressionadas e, ao mesmo tempo, o solo duro pressiona toda a equipe soterrada. As plaquetas de todos vão se quebrando aos poucos, uma após a outra. Nenhum dos presos consegue respirar.

O professor careca, que observa do topo de alguma árvore, cerra seus olhos, pensando se para ou não a luta.

— Desistam gente! — grita Nirah.

Kalui cria um pequeno furacão em volta de Aurora, porém muito veloz e forte. Na mesma hora, ela se fecha em uma cúpula de terra densa. Por sua vez, o garoto desfaz o furacão e retira completamente o ar de onde ela se esconde.

Ao mesmo tempo, a pressão do solo aumenta, apertando todos que não desistiram. A armadura e as correntes do garoto dos ventos marcam e ferem sua pele.

Em menos de um minuto, a visão de Kalui começa a ficar turva e seu rosto se avermelha. O cheiro de terra começa a sumir da sua percepção. Barulhos são ouvidos, semelhantes a folhas secas sendo pisadas. Ninguém sabe se é uma plaqueta quebrando ou o osso de alguém.

Trinta segundos depois, seus companheiros já estão desmaiados. O garoto dos ventos fecha seus olhos aos poucos, lutando para ficar acordado. Inevitavelmente desmaia, permitindo com que o ar volte a entrar na cúpula. 

“Já estava surpreso por este ano ter mais crianças participando, e agora aparece essa garota… A qual família ela pertence?”, pensa o professor.

O homem careca salta da árvore, olhando para floresta e dizendo:

— Acabou, já chega.

A garota, novamente, sai da floresta surfando em sua tábua mesclada à terra.

— Como sabia que eu tinha saído da cúpula? — ela pergunta.

— Foi óbvio. — Ele olha para os lados, procurando algo. — Garota, cadê a sua equipe?

Com desdém, ela responde:

— Como para mim o que importa é vencer, e eles não queriam me ouvir, pois eu não era a líder, tiveram o mesmo destino desses aqui — Ela pega a plaqueta que há grudada no capacete de Kalui e alarga o buraco em que todos estão. — E dos que atacaram esses. Só é chato não terem dado algo para guardar as plaquetas quebradas. Estou tendo que enterrar tudo em um local…

— Não se superestime, criança. 

“Assustadora… Ainda bem que eu desisti”, pensa Nirah.

Ao mesmo tempo, a poucos quilômetros dali, Whiger está de guarda na entrada de uma caverna escura, enquanto o líder do seu grupo conversa com os demais membros. Eles estão em pé, reunidos em uma roda. Tirando Whiger, todos estão equipados com escudos negros; alguns com escudos torre, outros com escudos redondos pequenos ou grandes.

— Whiger, consegue mesmo manter seu foco em ouvir inimigos e prestar atenção no que estou falando ao mesmo tempo? — pergunta o líder, equipado com um escudo redondo grande.

De forma rígida, ele responde:

— Sim.

O líder respira fundo e diz:

— Pessoal, talvez tenham percebido, mas não teve muitas regras nesta coisa. Eles falaram que as pessoas com mais plaquetas ganhariam, mas nossas plaquetas não podem ser retiradas sem quebrar. Eu tenho as plaquetas vermelhas e, segundo a general Ladir, sou o líder da equipe, mas como isso foi escolhido? Não foi dito regras quanto a atacar membros de equipe ou como serão contadas as plaquetas. Acho difícil eles aceitarem um monte de placas esmigalhadas e aceitarem que a quantidade que a gente está dizendo ter é verdadeira. Nem uma bolsa para guardá-las ela nos deu. 

O garoto mais baixo do grupo cruza os braços e pergunta:

— Então… Vai direto ao ponto.

— Desculpe, Ordep. Só consigo pensar que a ideia não é caçar os outros e sim evitar de ser caçado. Além de sobreviver esses dias sem ajuda para comer ou beber. Andamos quilômetros e não vimos nenhum tipo de rio ou córrego. A única fonte de água deve ser o lago no centro da floresta. Minha ideia é ir lá agora, enquanto os grupos ainda não estão desesperados por água, guardar o máximo que conseguirmos e nos esconder.

Whiger se vira para a equipe e, revoltado, ele exclama:

— Eu não vim aqui vencer. Vim aqui batalhar! Se forem se esconder, sairei sozinho.

— Você não está pensando direito — diz o Líder. — Ficar entre os primeiros nesta competição te dará pontos na carreira militar após se formar. Facilitará sua vida, amigo.

Ordep, que empunha dois escudos do tamanhos de pratos presos cada um em um antebraço e duas adagas na cintura, caminha em direção a Whiger e exclama:

— Também não me importo. 

— Pessoal, eu não estou mandando vocês fazerem isso, apenas dando uma ideia. 

Uma garota se senta no chão e retruca:

— Olha, venho pensando nisso desde o anúncio. Para mim, se esconder também é a melhor solução.

Outra garota, equipada com um escudo pequeno e uma lança, de corpo franzino, pequena e de ombros estreitos, anda para fora da caverna, dizendo:

— Eu vim ficar mais forte, não ganhar pontos.

— Tirando o Whiger, a Shinoe e o Ordep, todos desejam seguir o que eu disse? — pergunta o Líder.

Os remanescentes balançam a cabeça em afirmação.

— Então é isso — diz Whiger. — Obrigado pela curta companhia. 

Os três amantes de batalha saem da caverna na direção de onde uma grande nuvem de poeira subiu há poucos minutos.

—————————————————–

Eae, autor aqui!! Seguindo a ideia de um leitor, criei um discord “de Kalui”. Lá você pode falar sobre tudo, claro, mas ficará bem mais fácil de achar alguém que também lê (já que não são tantas pessoas assim kkk).
https://discord.gg/6rRjY4kBSa

Gostaria de agradecer imensamente a todas as doações e avisar que elas (as que não dão para pagar uma conta de luz) serão usadas para criação de ilustrações, até ter uma ilustração de cada personagem e de algum cenários <3

As ilustrações deste capítulo foram feitas pelo: @wolfjaws_

Revisão feita pelo: Ender, autor de Corvo Escarlate.

 

Aviso do Autor:

Marcelo Pedrette - IITsuki

Marcelo Pedrette - IITsuki

A historia agora tem um discord! Fica fácil de achar outras pessoas que leem Kalui, já que não são muitas kkkk https://discord.gg/6rRjY4kBSa
Rolar para o topo